Índice de Capítulo

    Narrado por Ian

    A nevasca engolia tudo ao meu redor.

    Não era só vento.

    Era movimento constante.

    A superfície da neve mudava a cada rajada, apagando rastros, cobrindo fendas, redesenhando pequenas elevações no gelo antigo. Cada passo exigia cálculo. Cada apoio precisava ser testado antes do peso real do corpo se transferir.

    Mesmo dentro de uma memória, aquele lugar continuava hostil.

    Talvez principalmente por isso.

    Eu podia sentir a mana do Andarilho buscando alguma forma sólida de leitura.

    Ela avançava em ondas cinzentas sob a neve, subia pelas placas de gelo rachado, descia pelas fissuras profundas que serpenteavam a planície branca. Sempre procurando padrão.

    Sempre procurando permanência.

    E sempre recuando sem resposta.

    Um ciclo previsível.

    Se a situação não fosse tão crítica, seria quase cômico assistir ao grande mago mental tateando no escuro, perdido dentro de uma memória, seguindo um Ian perdido.

    Mas eu não era mais aquele Ian.

    Não o Ian que um dia atravessou aquela vastidão sem rumo, só frio, raiva e silêncio como companhia.

    Depois de anos vivendo ali, aquela planície tinha deixado de ser vazio.

    Virara um mapa.

    Eu conhecia cada placa de gelo enterrada sob a neve. Cada rachadura funda o bastante para engolir um homem. Cada pedra negra exposta por avalanches antigas. Cada mudança no vento entre as montanhas ao norte.

    Sabia onde minhas âncoras estavam.

    E, mais importante, sabia como usá-las sem que ele percebesse.

    O Andarilho espalhou mana outra vez.

    A fumaça cinza avançou por baixo da neve como raízes, tateando o terreno.

    Enquanto ele buscava orientação, deixei a minha deslizar sob a superfície.

    Silenciosa.

    Discreta.

    Fria.

    Sensível o suficiente para alterar a estrutura da memória sem denunciar a mudança.

    O primeiro ponto era o abrigo.

    Uma pequena caverna improvisada entre placas de gelo e pedra, construída meses depois daquela lembrança, no dia em que finalmente aceitei que continuar vagando sem repouso era estupidez.

    Ainda não existia naquela versão da memória.

    Para qualquer invasor, seria apenas um trecho indistinto de neve e rocha branca.

    Para o azar dele, eu conhecia exatamente o lugar.

    A primeira âncora se firmou.

    O domínio da memória mudou de forma tão sutil que até eu precisei sentir, em vez de ver.

    A fumaça cinza voltou a se condensar à minha frente, oscilando entre a forma de Maelis e a minha.

    — Interessante…

    — E você que é o mago com afinidade mental. — respondi, seco.

    A neve ao redor dos pés dele cristalizou em círculos finos.

    Eu mantinha controle do último ponto firme, mas ainda precisava segurar a inversão.

    Se trocasse cedo demais, Maelis herdaria uma defesa incompleta.

    Eu teria que me desculpar com ela no final…

    Foco.

    Abri uma janela para a memória dela.

    A nova camada se consolidou ao meu lado como vidro sendo moldado por gelo.

    Uma cafeteria.

    Cheiro de café fresco.

    Conversa baixa.

    Talheres tocando porcelana.

    Risadas contidas.

    Eu estava sentado à frente dela.

    Era uma lembrança de um dos últimos dias.

    Uma das poucas memórias recentes estáveis o bastante para servir como ponte.

    — Maelis, é agora.

    A resposta veio imediata.

    — Certo.

    Sem hesitação.

    Bom.

    Mas ele percebeu a mudança.

    A fumaça girou devagar.

    — Você está atrasando a troca.

    Voltei a atenção para o deserto gelado.

    — Relaxa. É só mais um pouquinho.

    O silêncio da nevasca se apertou.

    Não havia muito o que ele pudesse fazer ali depois de encontrar as âncoras, então aproveitei a abertura.

    — Bom… achei que você queria bater um papo comigo.

    A fumaça oscilou.

    — Até que não é uma ideia ruim…

    — Pois é. — materializei minha consciência com mais nitidez, deixando a silhueta ganhar contorno no meio da neve. — Melhor do que ficar parado olhando essa nevasca.

    O vento uivou entre as montanhas negras ao longe.

    Por um momento, ele pareceu me estudar.

    Não como alguém observando um inimigo.

    Então veio a pergunta:

    — Quem é você exatamente, Guardião?

    — Eu? Ian. E você?

    A fumaça hesitou.

    — Falo sério. Você não me parece humano… o que exatamente você é? Você é como eu?

    Inclinei a cabeça de leve.

    — E eu deveria saber o que você é?

    A resposta veio com um peso diferente.

    — Sou o último filho dos Sae’Lun.

    O vento perdeu força por um instante.

    Reconheci na hora.

    O mesmo titulo.

    A mesma assinatura fria do mago que atacou Thamir.

    Seria coincidência demais existir outro com a mesma afinidade em tão pouco tempo.

    Era ele.

    A mana dentro de mim reagiu antes do pensamento terminar.

    A temperatura despencou.

    A neve ao redor subiu em espirais.

    — Então foi você.

    A fumaça girou, curiosa.

    — Hm?

    Controle.

    Eu não estava em campo aberto.

    Estava dentro da mente de Maelis.

    Se eu deixasse a emoção escapar, o dano seria dela.

    Respirei fundo.

    Segurei a mana.

    A memória estabilizou.

    — O Freddy.

    — Freddy?

    Sorri, sem qualquer calor.

    — Foi um nome que Thamir te deu.

    A fumaça oscilou num quase divertimento.

    Minha mana azul alcançou o último ponto.

    Quase lá.

    — Que bom. — minha voz saiu mais fria. — Ele vai ficar chateado por não ter conseguido te espancar pessoalmente… mas vai ser por uma boa causa.

    — Ah, vai lutar aqui? Na mente da sua amiga? Que ideia brilhante.

    Antes que eu respondesse, a voz dela atravessou a tempestade:

    — Feito.

    Senti no mesmo instante.

    Ela havia dominado a memória.

    A janela se fechou.

    O último ponto firmou-se sob o gelo.

    A memória inteira respondeu.

    A inversão começou.

    No início, lenta.

    Quase cuidadosa.

    Como uma engrenagem pesada finalmente entrando no trilho certo.

    A mana cinza do Andarilho começou a se desprender do centro da memória, como fumaça sendo puxada por uma corrente reversa. Aos poucos, foi sendo empurrada para fora, camada após camada, perdendo acesso às minhas memórias no processo.

    Ótimo.

    Exatamente como eu queria.

    Ao mesmo tempo, senti a presença de Maelis avançando pelo fluxo recém-aberto.

    A consciência dela se aproximava do centro.

    Firme.

    Segura.

    E então veio a parte desconfortável.

    Agora ela tinha acesso total às minhas memórias.

    Isso me fez travar por um breve segundo.

    Não por medo.

    Só pela sensação incômoda de saber que, entre todas as possibilidades, Maelis podia tropeçar justo nas partes da minha mente que passei anos evitando revisitar.

    Jyn.

    A culpa.

    A herança que eu ainda fingia controlar.

    Ótimo momento para terapia, Ian.

    Mas eu não tinha tempo para isso.

    Assim que percebesse a troca, o Andarilho tentaria recuar.

    E, quando notasse que a camada externa agora era dele, entenderia tarde demais que a armadilha havia se fechado.

    Não demorou.

    A consciência de Maelis retomou o centro absoluto das próprias memórias.

    Firme.

    Estável.

    No mesmo instante, a mana do Sae’Lun se consolidou na camada mais externa.

    Eu senti.

    As memórias dele ficaram expostas.

    Vulneráveis.

    A fumaça cinza se contraiu pela primeira vez.

    Percebendo.

    Mas era tarde demais.

    A nevasca inteira respondeu ao meu comando.

    Linhas de gelo subiram sob a neve.

    As bordas da camada se fecharam como muralhas cristalinas.

    Sem saída.

    Sem rotas de fuga.

    Sem acesso ao centro.

    O silêncio que veio depois não era vazio.

    Era domínio.

    E, pela primeira vez desde que entrei naquele inferno mental…

    Ele era a presa.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota