Índice de Capítulo

    A fumaça cinza emergiu das bordas da camada externa com violência contida, percorrendo o espaço entre as estruturas mentais como algo que havia sido comprimido e finalmente encontrara espaço para expandir.

    — Como você fez isso?

    — O que? — a voz de Ian ecoou na memoria.

    — Como me impediu de ver a minha memoria?

    A fumaça tomou forma.

    Dessa vez espelhando a sua versão mais jovem.

    — Não sei do que voce esta falando…

    Os olhos varreram a arena, as arquibancadas cheias, os candidatos no piso de cristal negro, a megatorre pulsando ao fundo.

    Depois encontraram Ian.

    — Você é irritante.

    A voz saiu controlada.

    Mas só por pouco.

    Ian não respondeu imediatamente.

    Ficou onde estava, alguns metros à frente do círculo de candidatos, observando o piso com a mesma expressão de sempre.

    — Você demorou mais do que eu esperava.

    — Eu me libertei.

    — Estou vendo.

    Ian virou o rosto levemente na direção da fumaça.

    — Depois que a memória já começou — Ian olhou para os candidatos — Perdeu a chance de ver a sua mãe, Vaelion.

    O silêncio que se seguiu foi diferente dos anteriores.

    O Andarilho olhou para a arena.

    Para os candidatos.

    Para o Jovem Vaelion.

    Para a posição de Ian no espaço.

    Ian viu o momento exato em que ele calculou quanto tempo havia passado.

    Quanto ele havia perdido.

    — Você já tem uma ancora..

    Não era pergunta.

    — Usei o tempo que tinha.

    — Como?

    Ian não respondeu.

    O Andarilho deu um passo à frente.

    A fumaça ao redor dele adensou levemente.

    — Como você atrasou minha entrada na minha própria memória?

    — Pergunta errada.

    Ian finalmente se virou de frente para ele.

    — A certa é quanto tempo você acha que perdeu.

    A fumaça vibrou.

    Ian sentiu a pressão de mana se expandir a partir da silhueta, varrendo o espaço da memória como sondagem, testando os limites, mapeando o que Ian havia tocado, calculando o dano.

    Depois parou.

    O Andarilho olhou para o segundo nível das arquibancadas.

    Para um ponto específico que Ian ainda não havia identificado completamente.

    E Ian entendeu.

    Ele sabe onde o segundo ponto está.

    A mana cinza se moveu em direção às arquibancadas superiores com precisão que não precisava de pressa.

    Ian acompanhou com gelo.

    Não ataque direto, criando pressão suficiente para tornar o trajeto mais custoso sem desperdiçar o que tinha.

    O Andarilho desviou.

    Continuou avançando.

    Ian fechou outro ângulo.

    A fumaça recuou dois metros, reposicionou, tentou outro vetor.

    Ian bloqueou.

    Não era combate no sentido convencional.

    Era guerra territorial.

    Cada movimento do Andarilho custava mana para sustentar direção e forma. Cada bloqueio de Ian custava mana para manter pressão sem ceder terreno. O espaço da memória não era neutro, era território do Andarilho, o que significava que a mana dele se desgastava mais lentamente ali dentro.

    Ian sabia disso.

    Por isso não tentava vencer.

    Buscava apenas ganhar tempo.

    Absorver o máximo que conseguir enquanto a memória avança.

    A memoria da arena ao redor deles continuava indiferente à luta invisível que acontecia no ar acima das arquibancadas.

    Os cristais pulsavam.

    A multidão se acomodava entre gritos de entusiasmo e tensão.

    No piso de cristal negro, uma figura vestida em cinza escuro caminhou até o centro.

    O instrutor se preparava para dar inicio ao desafio.


    No núcleo da consciência de Maelis, tudo estava quieto.

    Quieto de uma forma que ela ainda não sabia nomear.

    Não era vazio.

    Era o oposto, as memórias de Ian circulavam ao redor dela como correntes de água fria, organizadas em camadas que ela podia sentir mas não via completamente.

    Ela ficou parada por um tempo.

    Os braços cruzados.

    O olhar varrendo as bordas.

    Ela entendia a estratégia.

    Uma corrente passou perto demais e ela vislumbrou o fragmento de uma imagem antes de conseguir desviar.

    Asas.

    Enormes.

    Escamas que refletiam luz.

    Maelis piscou.

    Dragão.

    Não uma ilustração de livro.

    Não uma representação simbólica.

    Uma memória real, com peso e calor e o som do vento sendo cortado por algo tão grande..

    Ela ficou olhando para a corrente por um momento.

    Ian estava ocupado.

    Completamente ocupado, ela conseguia sentir a concentração dele como uma tensão constante no centro de tudo, a mana dele distribuída em múltiplos pontos ao mesmo tempo, sem margem para mais nada.

    Ele não conseguiria se defender mesmo que quisesse.

    Maelis descruzou os braços.

    Uma não faz diferença.

    Ela tocou a corrente.

    A memória a absorveu antes que ela pudesse reconsiderar.

    O dragão era maior do que qualquer coisa que ela havia imaginado.

    Escamas negras com veios azuis que pulsavam em ritmo lento, cada uma do tamanho de um escudo.

    Ian estava na crista de uma ravina rochosa,

    O dragão desceu.

    A memória não tinha som limpo, só sensação. O impacto das asas no ar antes do pouso, a vibração do solo, o calor que chegava antes do corpo.

    Então a voz do dragão.

    Não em palavras que Maelis conseguisse decodificar completamente.

    Mas Ian respondia.

    Em silêncio, depois em voz baixa.

    A memória terminou antes que ela quisesse.

    Maelis saiu para a corrente novamente.

    Ficou olhando para as outras.

    Uma mais.

    A segunda a jogou para dentro de uma floresta densa.

    Noite.

    Solo úmido e escuro, árvores com troncos largos como paredes, copa tão fechada que o céu desaparecia completamente acima.

    Ian estava correndo.

    O que ele perseguia fez barulho antes de aparecer.

    O som era errado.

    Mecânico.

    Como engrenagens se movendo rápido demais dentro de um casco que não deveria existir.

    A criatura saiu de trás de um tronco largo.

    Lembrava um besouro.

    Mas o tamanho estava completamente errado.

    Três metros de comprimento no mínimo, coberto por placas de metal escuro que se movimentava se arrastando rapidamente.

    A antena apontou para Ian.

    Fogo saiu dela, na sequencia algo ao lado de Ian explodiu.

    Mas Ian já não estava onde estava.

    A mana ao redor dele mudou de natureza, gelo emergiu do solo em pilares que bloquearam a visão enquanto ele contornava pelo flanco, localizando uma junta entre duas placas do casco do besouro onde o metal não fechava completamente.

    A lança de gelo que ele formou era fina.

    Cirúrgica.

    Entrou no intervalo entre as placas com precisão que a memória inteira parecia ter sido construída para demonstrar.

    O besouro fez um som diferente.

    Metálico.

    Depois parou.

    Maelis ficou dentro da memória por mais alguns segundos depois que acabou.

    Olhando para o corpo da criatura no chão da floresta, para Ian em pé ao lado dela, para as mãos dele ainda cobertas de gelo.

    Nenhuma hesitação.

    Nenhum esforço visível além do necessário.

    Quem é você, de verdade?

    Ela saiu.


    A terceira corrente era diferente das outras.

    Não havia urgência nela.

    Nenhuma tensão, nenhum predador, nenhuma grandiosidade de escala impossível.

    Era quieta de uma forma que Maelis reconheceu antes de entrar completamente.

    Paz.

    Ela tocou a corrente com cuidado.

    A memória a recebeu devagar.

    Era uma manhã.

    Luz de cedo, ainda dourada, chegando oblíqua entre as árvores que cercavam uma clareira pequena.

    A cabana era simples.

    Madeira escura, telhado de duas águas, uma varanda estreita na frente com dois degraus de pedra descendo para o gramado.

    Ian estava no centro da clareira.

    Sem blusa.

    Os pés descalços na grama úmida de orvalho, o corpo em posição de abertura, peso levemente recuado, mãos à frente, cotovelos dobrados em ângulo que Maelis reconhecia como escola de combate sem armamento.

    Ele se movia devagar.

    Não com a velocidade das outras memórias.

    Com intenção diferente, cada transição entre posições executada até o fim, sem atalhos, sem apressar.

    Como se não fosse um treino.

    Fosse conversa com o próprio corpo.

    Na varanda, uma mulher estava sentada.

    A cadeira parecia feita para ela, encosto alto o suficiente para acomodar as sete caudas que se espalhavam naturalmente pelos lados e pelo chão da varanda em padrões que mudavam suavemente enquanto ela respirava.

    Cabelos castanho-escuros, algumas mechas cor de rosa distribuídas sem padrão específico, soltos na altura dos ombros.

    Ela segurava a xícara com as duas mãos.

    Olhando para Ian.

    Com a expressão de alguém que não precisa fazer nada para estar exatamente onde quer estar.

    Maelis ficou parada na borda da memória.

    Ian era o mesmo fisicamente.

    Mas ao mesmo tempo… não era.

    Ela levou um segundo para localizar a diferença e quando localizou não conseguiu desfazê-la.

    Era o peso que não estava ali.

    Os ombros tinham a mesma largura, a postura a mesma correção, o movimento a mesma precisão mas algo que ela havia aprendido a reconhecer nas sessões de café, no duelo no jardim, na forma como ele ficava em silêncio antes de responder qualquer coisa mais séria, esse peso não existia nessa memória.

    Era o Ian de antes.

    A mulher na varanda terminou o chá.

    Pousou a xícara no corrimão da varanda.

    Ficou olhando para a pilha de lenha cortada ao lado dos degraus por um momento.

    Então pegou um dos pedaços.

    Ian estava de costas para ela, no meio de uma transição de posição, o peso transferindo do pé esquerdo para o direito em movimento contínuo.

    Ela arremessou.

    O pedaço de lenha cortou o ar em linha reta.

    Ian desviou sem olhar.

    O movimento foi incorporado à sequência do kata sem interrupção, um passo lateral que tirou o corpo da trajetória com a naturalidade de algo que havia sido feito tantas vezes que não precisava de atenção consciente.

    A lenha bateu na grama.

    — Péssima pontaria — disse ele, sem parar o kata.

    — Desviei propositalmente.

    — Claro.

    — Queria ver se você ainda conseguia sentir a mana a essa distância.

    — Consigo.

    Uma pausa.

    — Isso não explica a pontaria.

    A mulher na varanda riu.

    Não alto, um som curto, genuíno, que ela não pareceu tentar controlar.

    — Você vai ficar fazendo isso o dia todo?

    — Depende.

    Ian completou outra transição.

    — Você finalmente decidiu começar a treinar?

    — Já estou treinando minha paciência observando você.

    — Paciência não é treino.

    — Pra quem vive com você é.

    Maelis teve que concordar…

    Ele parou o kata por um segundo.

    Só um segundo.

    Depois continuou.

    — Vai ficar na varanda então.

    — Já estava pensando nisso.

    Ela levou a mão à base de uma das caudas, ajustando a posição dela na cadeira com o gesto automático.

    — Além disso, preciso comer alguma coisa antes.

    — Tem fruta na cozinha.

    — Estava pensando em algo mais consistente.

    — Então vai e faz.

    — Estou cansada.

    — De quê? Você ficou sentada na varanda.

    Ela o olhou com uma expressão que Maelis não conseguiu classificar completamente, entre ironia e algo mais direto.

    — Estava cansada antes de vir pra varanda.

    Ian parou o kata.

    Ficou de costas para ela por um momento.

    Depois virou o rosto o suficiente para que ela visse o perfil.

    — Isso não é argumento válido.

    — O treino anterior foi mais longo do que eu planejei.

    — O treino anterior foi você que—

    — Ian.

    Ele ficou quieto.

    Ela estava sorrindo.

    Não escondendo.

    — Ativa logo a linhagem pra ter graça a briga.

    Ele ficou olhando para ela por um segundo.

    Depois soltou ar pelo nariz.

    Era quase uma risada.

    A mana mudou ao redor dele.

    Gradual.

    Como gelo formando em superfície d’água, primeiro uma camada fina que não altera o que está abaixo, depois espessura.

    Os traços mudaram de forma sutil.

    Os cabelos ficaram ligeiramente mais claros nas pontas.

    Os olhos… que Maelis só conhecia como azuis, saíram de castanho e ganharam um fio de azul que não era o brilho da mana em uso, era estrutural.

    A postura ficou diferente também.

    Não mais ereta, alongada. Como se a coluna tivesse se ajustado dois centímetros para cima sem que ele percebesse.

    A mulher na varanda assentiu.

    Satisfeita.

    Se levantou da cadeira.

    As sete caudas se recolheram levemente ao redor do corpo enquanto ela descia os dois degraus para a grama.

    — Melhor.

    — Feliz?

    — Animada.

    Ela ficou de frente para ele.

    E Maelis viu Ian sorrir.

    Não a ironia seca dos corredores do palácio.

    Não o quase-sorriso contido das manhãs de café.

    Um sorriso real, breve, que chegou e foi antes de qualquer controle consciente pudesse alcançá-lo.


    Na arena, a memória avançou.

    O instrutor de mana mental estava no centro do piso de cristal negro.

    Homem de meia-idade, postura firme, braceletes duplos nos pulsos com cristais encaixados que pulsavam em ritmo constante.

    A voz dele ecoou na estrutura sem precisar de volume.

    — O desafio individual começa.

    Os limitadores nos pulsos dos candidatos se abriram simultaneamente.

    Um clique metálico suave que percorreu o círculo inteiro.

    Ian sentiu a mana dos jovens se expandir ao redor como exalação contida por tempo demais, cada um com assinatura diferente, cada um com volume e textura específicos.

    A maioria não conseguiu esconder o alívio de ter o limitador removido.

    Vaelion não mudou nada.

    Nenhum alívio visível.

    Nenhuma expansão imediata de mana para o ambiente.

    Apenas ficou onde estava, observando o instrutor com expressão que Ian reconheceu.

    Calculando.

    Os outros candidatos foram chamados um a um.

    O processo era simples na estrutura, brutal na execução.

    Cada jovem se posicionava no centro do piso de cristal em frente a um instrutor da sua respectiva natureza.

    No caso de Vaelion, o instrutor era um mago mental.

    O candidato tinha que resistir e ao mesmo tempo tentar encontrar brecha na defesa do instrutor.

    Um duelo de leitura e contra-leitura.

    Ian assistiu os primeiros quatro.

    O primeiro candidato durou menos de um minuto antes de deixar escapar um padrão emocional óbvio, nervosismo, que o instrutor usou para criar pressão suficiente para fazê-lo perder a concentração completamente.

    O segundo foi mais longo.

    Tentou atacar em vez de defender, o que era tecnicamente correto mas dependia de velocidade de leitura que ele não tinha ainda.

    O terceiro surpreendeu, resistiu por quase três minutos usando defesa passiva, sem tentar avançar, sem deixar padrão óbvio.

    O instrutor eventualmente encontrou uma brecha pequena numa memória recente e expandiu a partir dela até o candidato recuar.

    A arquibancada murmurou aprovação moderada para os três.

    Vaelion foi chamado no quinto lugar.

    Ele cruzou o piso de cristal em linha reta.

    Parou a distância padrão do instrutor.

    O instrutor o avaliou por um segundo com o tipo de olhar que não precisava de instrumentos.

    Depois iniciou a pressão.

    Ian sentiu de onde estava.

    A mana do instrutor era refinada, décadas de prática tornando cada movimento econômico, sem desperdício, sem telegrafar intenção antes do momento certo.

    A sondagem era suave.

    Quase amigável.

    Encontre onde ele resiste.

    Depois pressione.

    Vaelion não resistiu.

    Ian percebeu isso antes de entender o que estava vendo.

    A mana do jovem não construiu muralha nenhuma.

    Não tentou bloquear.

    Não tentou desviar.

    Simplesmente abriu espaço.

    Como se a sondagem do instrutor fosse bem-vinda.

    O instrutor avançou.

    Encontrou o espaço.

    Entrou.

    E a mana de Vaelion fechou ao redor dele como água fechando sobre uma pedra.

    Não foi violento.

    Foi preciso.

    O instrutor ficou imóvel por um segundo que durou demais.

    Depois recuou.

    Completamente.

    Com a expressão de alguém que havia entrado em um quarto esperando encontrar uma sala e havia encontrado uma cidade inteira.

    A arena ficou em silêncio por um momento.

    Depois veio a ovação.

    Não o murmúrio moderado dos candidatos anteriores.

    Barulho real, que subiu das arquibancadas em onda e continuou por mais tempo do que Vaelion esperava, Ian viu o jovem piscar uma vez, rápido, antes de recompor a expressão.

    No nível da elite, alguns dos mais velhos inclinaram a cabeça para conversar entre si.

    Ian observou o instrutor.

    O homem havia recuperado a postura.

    Mas havia algo diferente no jeito como ele olhava para Vaelion agora.

    Não era derrota.

    Era reconhecimento.

    O tipo que não se dá a qualquer um.

    Na luta invisível acima das arquibancadas, o Andarilho havia conquistado o segundo ponto da memória.

    Ian sentiu quando aconteceu, uma ancoragem profunda que o Sae’Lun pressionou para dentro da estrutura da memória com o tipo de precisão que não precisava de pressa porque sabia exatamente onde estava indo.

    A vantagem havia mudado de lado.

    Ian recuou dois passos no espaço da memória, redistribuiu a mana, e começou a calcular quanto ainda havia para absorver antes que o rito coletivo começasse.

    Do outro lado, a fumaça cinza se estabilizou.

    E o Andarilho disse, com a primeira coisa próxima de satisfação que havia demonstrado desde que entrou:

    — Você viu o suficiente.

    Ian olhou para o piso de cristal negro abaixo.

    Para Vaelion, de volta ao círculo com os outros candidatos.

    Para o instrutor ajustando os braceletes e se preparando para chamar o próximo nome.

    — Ainda não.

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota