Após alguns dias no Reino das Fadas, finalmente pudemos sair e continuar rumo ao norte. Porém, o Condado de Galtivus é repleto por planícies e áreas desmatadas e, sendo um procurado, caminhar por áreas tão abertas pode dificultar minha viagem. Por isso preciso de um cavalo. À sudoeste do bosque, há a Cidade de Galvênia, e também capital deste condado. Essa é uma grande cidade construída de forma que desviaram o rio apenas para passar em torno da cidade, e fortificaram com grandes muros para defender a sede do Alto Clero, e o castelo do senhor feudal.

    E aqui eu estava, prestes a entrar nessa cidade, ou não, já que haviam fechado por completo a cidade. A culpa é óbvia de quem seja. E para mim, essa era uma resposta clara, mas Sagi não achou toda aquela preocupação natural.

    — O que você esperava? Um assassino está à solta, eles estão reagindo de forma adequada — Afirmei.

    — Não, isso não é comum, não dessa forma. Veja que a guarda está tão rígida, que se formou uma favela em volta da cidade. Como se esse cerco fosse para defender a cidade de uma ameaça estrangeira.

    De fato, havia uma favela formada por tendas e abrigos improvisados em torno da cidade. Perambulei um pouco por lá. Roubei um capuz e cobri o rosto com um pano, disse estar com lepra. Conversei pouco com alguns de lá. Muitos eram migrantes de outras cidades; outros viajantes com prazo para entregar especiarias, óleos e outros produtos. Alguns eram moradores da própria cidade, que após saírem dos muros não conseguiram adentrar novamente. 

    — Tanta gente aqui fora, e nenhuma disponível para vender um cavalo — Disse.

    — Verdade… e queria te dar um toque, enquanto estivermos entre pessoas comuns, não fale comigo em voz alta — Disse Sagi.

    — E como deveria então? — Sussurrei.

    — Apenas pense no que vai falar, eu sempre te entendo.

    Fiquei um dia inteiro vagando pelas favelas em busca de uma montaria ou um transporte. Sem sucesso, não me restou opções além de retornar para o Bosque e procurar abrigo. Uma fada me disse que era bem-vindo para retornar ao seu Reino, e assim fiz. Passei a noite naquele colchão de flores que ora havia acordado antes. E todas as noites seguintes foram tranquilas. Cheguei a considerar morar com as fadas, mas Sagi contava comigo, e eu contava com Stella e a Escola de Björn.

    Noutro dia, Sagi me aconselhou dar uma volta em torno de todo perímetro da cidade. Não que eu soubesse o que significava “perímetro”, mas entendi, e o fiz. Há um total de quatro portões na cidade, e são alinhados com sudoeste/sudeste e noroeste/nordeste; há também duas torres de vigilância em cada lado dos portões. Tem duas saídas de esgoto em cada lado leste/oeste — ver as saídas me deu nojo de ter bebido a água do rio. Essas saídas podem dar para cidade, o problema é onde vou sair. Segundo Sagi, esgotos de cidades grandes e ricas assim são lavados pela água da chuva, então a maior parte dos bueiros não vão ter tamanho para ser uma saída. E a fossa onde são despejados os dejetos, pode ter muito escorregadia para escalar (e muito nojenta também). Resta saber se os soldados possuem uma entrada, tipo um canal, para fazer manutenções; assim eu poderia entrar na cidade, mas também posso ser pego invadindo.

    — Acho que deveríamos esperar o bloqueio se dissipar — Disse, enquanto descansava sobre minha cama florida.

    — Não temos tempo para isso. Eu preciso chegar até Björn o quanto antes, e você não pode perder tempo aqui. Não esqueça que você ainda tem que impedir nossa fusão.

    Eu havia esquecido disso. Talvez os campos floridos, as fadas alegres e o belo céu noturno desse reino especial tivessem me anestesiado de toda preocupação. Eu ainda tinha uma batalha contra o tempo. E esperar é deixar esse inimigo vencer.

    Não dormi naquela noite, não poderia, a ansiedade foi tanta que tive que sair do bosque e entrar de uma vez naquele esgoto. Escolhi a saída leste e foi uma tarefa difícil. Por mais que a correnteza em volta da cidade não fosse forte como a do Bosque, ainda foi difícil atravessar e alcançar o esgoto. Entrar não foi, mas era nojento. O cheiro penetrava minhas narinas e remetia gosto em minha boca. Cada passo era uma sentença para minhas antigas sandálias, as jogaria fora assim que possível. Muito adiante naquele túnel fétido e inclinado, comecei a ver os bueiros por onde a chuva entrava. Ao olhar pelas grelhas, pude ver uma cidade completamente vazia, com poucos soldados fazendo ronda interna. 

    Mais adiante, cada vez mais inclinado e apertado, fui seguindo, e olhando pelas bocas de lobo para saber onde estava. Então percebi que estava entrando por baixo de algum tipo de residência. O caminho ficou mais estreito, ao ponto de ter de me rastejar nas fezes alheias, e nesse ponto tinha mais fezes que nunca. Uma corrente d’água surgiu, e muita sujeira passou por mim, confesso que vomitei. Há males que vêm para o bem. O caminho ficou razoavelmente mais limpo, e encontrei um fim. Mas não era um fim ideal, à minha frente havia uma sala ampla com várias outras passagens de esgoto como a que eu estava, e escadas que levavam a algum lugar; porém tinha uma grade no caminho. 

    Como não conseguia quebrar a grade na posição em que estava, voltei atrás todo o caminho em que precisava me rastejar. Assim, pondo dessa vez minhas pernas a frente do tronco, poderia chutar a grade e quebrá-la. Dessa vez uma luz se acendeu a meio caminho, e pude ver através de buracos uma sala e uma moça passando com uma lamparina. A moça despiu-se, e se sentou em um dos buracos que eu estava embaixo. Aquela foi a primeira vez que havia visto uma mulher nua e suas partes íntimas. Porém assim que seu cu começou a abrir e dar caminho para uma pedra marrom, me arrastei o mais rápido possível para não cair em meu rosto. No fim, consegui chutar e quebrar a grade.

    Dessa forma consegui entrar naquela sala. Vomitei mais um pouco, e quando me dei conta havia um poço e um balde ali. Enchi o balde o mais rápido, e o joguei sobre mim o mais rápido também. Desceu então as escadas aquela mesma moça que vi nua antes. Ela ao me ver se assustou e disse:

    — Pelos deuses! Não esperava encontrar um merdeiro aqui tão tarde da noite — Disse, totalmente vestida.

    — Sim, eu… estava limpando os canos.

    — Deviam estar entupidos, você está completamente sujo e… — Ela então olhou para a grade quebrada — Você realmente precisava quebrar a grade?!

    — Perdão! Eu vou consertar prometo! — Disse, já me pondo de joelhos e erguendo as mãos sobre a cabeça.

    — Espero mesmo! Mas antes, vá tomar um banho e trocar essas roupas. Te emprestarei algumas do meu pai.

    De acordo com Sagi, aquela devia ser uma casa pública de banho. O lado positivo, é que a água era aquecida e pronta para uso a todo momento; já o negativo, era dividir o mesmo banho com outras várias pessoas. Minha sorte, é que era quase madrugada, e estavam fechando. Aquela moça e o pai dela são os responsáveis por esse lugar. Quando terminei meu banho, ela me entregou as roupas e, eu que estava totalmente envergonhado, não parava de pedir desculpas. Não pela grade, e sim por ter visto demais e ela não saber, mas claro, não disse que era essa a razão das desculpas.

    — Então você é um merdeiro novo e sem experiência, certo? — Perguntou ela, enquanto observava eu me vestir.

    — Sim… eu sou…

    — Não me surpreende… só assim para quebrar a grade do esgoto das latrinas e se sujar inteiro. Também é novo na cidade?

    Essa pergunta me assustou. Muito por conta da forma como havia acabado de invadir, e também por eu ser um procurado.

    — É ou não? — Insistiu.

    — Sim, eu sou.

    — Foi difícil passar pela triagem dos soldados?

    — Como é?

    — Estão fazendo triagem, não é? Separando pessoas e permitindo somente a entrada de algumas.

    — Ah sim, foi muito difícil. Tantas perguntas… não quero falar disso — Desconversei.

    — Por acaso viu algum homem alto, gordo, bem-vestido e com olhos azuis? 

    Não tinha ninguém assim entre as favelas, nem vi alguém desse gênero quando passava pelos esgotos. Então não foi mentira dizer “não”. Mas o olhar daquela mulher, quando falava do homem, já me pareceu se tratar de alguém familiar. Um parente ou irmão? Mas dizer que não tinha visto a fez suspirar aliviada.

    — Ótimo… tens algum lugar para passar a noite? — Perguntou.

    — Eu preciso consertar a grade…

    — Faça amanhã. Já está tarde, preciso fechar o lugar. Se não tiver um lugar fixo, estamos com muitos quartos vazios na pousada em cima. Como o bloqueio vai durar, pode ficar com um quarto por enquanto.

    — Obrigado.

    — Não agradeça! Vou descontar a hospedagem do seu pagamento, assim como o conserto da grade e essas roupas.

    Nem tudo é uma cama de flores, às vezes fede como merda…

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