Capítulo V: Cidade de Galvênia parte II
Dormi e acordei dentro da Cidade de Galvênia. A moça da noite anterior, me acordou cedo apesar de eu ter dormido tarde. Ao levantar-me, olhei ao espelho e averiguei minha aparência. As cicatrizes no rosto ainda estavam lá acima das maçãs. Estava sem meu capuz, e minhas antigas vestes foram jogadas fora — tanto pelo desgaste quanto pela merda —, e as novas eram elegantes. Uma túnica branca de tecido leve, calças marrons e sapatos fechados. As calças eram apertadas, e a túnica ficava justa em cima e larga embaixo; prendê-la foi difícil, já que até o cinto dela era largo. Ao menos os sapatos couberam sem sobra nem falta.
Desci à taverna no andar de baixo, e estava preparado um desjejum. À mesa estava sentado o pai da moça, a moça e os dois irmãos menores nessa sequência da ponta até a metade da mesa. Eu me sentei à frente da que me acordou.
— Então, como foi a noite? — Perguntou o patriarca, enquanto cortava o pão.
— Boa, meu senhor — Respondi, enquanto aceitava o vinho que fora oferecido.
— Que bom! Minha filha Cleonice deve ter-lhe dito que sua hospedagem será descontada de seu pagamento não?
— Sim, meu senhor.
— Ótimo, e saiba que o desjejum e o vinho também serão — Terminou.
Confesso que não estava muito preocupado. Enquanto eles achassem que sou um funcionário, menor a chance de ser denunciado. Além disso, meus bens ficaram ao lado da saída de esgoto leste, então não teria dinheiro para hospedagem e nem comida.
— Sabe jovem, você parece bem forte para um merdeiro — Continuou o patriarca — Cleonice disse que havia contratado um bom merdeiro, mas não esperava que fosse forte assim.
— Não pai, o senhor se confundiu — Disse Cleonice — Ele não é um merdeiro, o nome dele é Merdeiro! — Exclamou.
O homem que estava bebendo seu vinho, riu e cuspiu o vinho de volta ao copo. Continuou rindo, e os filhos menores também riram. Eu fiquei constrangido e confuso, Cleonice estava serena e pedindo para o pai prestar atenção.
— Merdeiro?! — Riu o patriarca — Seu nome realmente é esse?! — Ria ainda mais.
— Sim, meu senhor… — Disse, baixando a cabeça.
— Pois bem, não irá se ofender caso te chame de Merda, não é?! — Gargalhava alto.
E continuou com piadinhas até perder a graça. Quando finalmente parou, Cleonice disse que eu havia sido contratado como assistente e guarda dela.
— Irei aceitar, com esse criminoso à solta qualquer cuidado é pouco. Eu Zabavus, nunca irei poupar recursos se isso significa defender a honra de minha filha. Não quando seu casamento está tão próximo — Disse o pai — Você parece ser habilidoso e honrado também. Irei te deixar à proteção de minha filha, mas lembre-se, tente seduzir minha filha e irei mandar castrá-lo.
— Sim, meu senhor, não irei tentar nada que fira sua filha.
Com isso dito, ele deixou a mesa e levou seus dois filhos menores para algum trabalho na casa de banho abaixo. Mandou Cleonice e eu desfazermos a mesa do desjejum, e pregar o cartaz de procurado que os soldados deixaram pela manhã. Temi olhar para meu retrato, esperando que fosse ser facilmente reconhecível, mas não era. As descrições foram feitas por meus antigos vizinhos, e me entristece ver que eles tinham um olhar tão depreciativo. O cartaz não se parecia em nada comigo, estava mais magro do que eu era, e com feições tão feias, que as minhas pareciam belas próximas a essas.
Ainda estava confuso, e depois de levar o último garrafão de vinho para a cozinha. Ao ver Cleonice lá despreocupada, tive que ter certeza de que estava tudo bem. Porém minha reação foi exagerada. Ia apenas perguntar por que ela mentiu, mas acabei a agarrando no braço e encarando ela enquanto suspirava alto.
— Se vai me beijar, espero que seu hálito não esteja mal como seu cheiro ontem — Disse ela, me olhando com desdém.
— Não… não é isso — Disse, enquanto a soltava.
— Então o que é?
— Por que mentiu por mim?
— Porque posso me aproveitar de você — Disse enquanto passava por mim e saia da cozinha.
“Me aproveitar de você” essa frase ecoou na minha cabeça. Talvez ter espiado ela na noite anterior tenha causado essa reação. O sonho que tive com ela foi no mínimo excitante — e melhor que os pesadelos que tinha com o demônio, o clérigo e os soldados. Então essa frase, tinha um sentido imaginário maior do que o real. E as ameaças de Zabavus não eram injustificáveis. Perdido nesses pensamentos, fiquei alguns instantes parado, até decidir segui-la. Ela já estava à porta de saída, quando a alcancei.
— Espera!
— Finalmente… leva isso consigo e me acompanhe — Disse ela.
Ela me entregou uma bolsa e duas cestas, saímos da taverna. Descemos uma rua, e virando à direita demos em uma praça nobre. Seguindo o caminho da praça, passamos em frente à entrada da casa de banho, era uma passagem por baixo da rua que acabamos de descer, com dois pilares de sustentação iluminados por tochas. Conforme andávamos, reparei que havia diversos soldados pelas ruas e pessoas de menos. Isso me deixava tenso.
Sem sequer dizermos uma palavra ao outro, andamos lado a lado até passarmos em frente ao castelo do senhor feudal. A construção era belíssima, com seus tons de azul e múltiplas torres; além disso, as tapeçarias retratando o rei nomeando o senhor deste feudo, deviam ser tão grandes que poderiam cobrir todas as docas da vila onde morava. Mais adiante, estava o templo do Alto Clero, por lá só havia soldados rondando e nenhuma pessoa ousava pisar no círculo sagrado do templo.
— Para onde estamos indo? — Perguntei, quebrando o gelo.
— Para a feira — Respondeu Cleonice, sem olhar para mim.
— Longe, não?
— Sim. Com esse bloqueio, a feira foi transferida para pouco antes do portão.
Isso poderia significar que vai haver muitos soldados por lá. Ela quer me denunciar, e a melhor forma seria me levando para onde posso ser capturado sem apresentar riscos. Eu preciso ir embora.
— Acho que eu deveria voltar e consertar a grade… — Disse.
— Deixe que meu pai conserte. Você vem comigo. — Atorquiu
— Não acho que seja uma boa ideia…
— Não vou te entregar aos soldados se é disso que está com medo.
Ela é inteligente, muito inteligente. Sabe exatamente do que tenho medo, assim como porque eu estava sujo. Ela mentiu dizendo que tinha me contratado, e me fez ter pensamentos maliciosos antes. Ela está me manipulando desde o início. Devia fugir enquanto posso. “Confie nela garoto, ela tem outros planos para ti” Disse Sagi em minha mente. Não deveria ouvi-lo, mas se estamos juntos nessa ele não me pediria para fazer uma escolha que nos prejudicasse.
Acabou que ele estava certo. Só fizemos compras normais, as cestas e a bolsa que carregava estavam pesadas de tanta coisa que carregava. Ela também me levou a um barbeiro, que me deixou apresentável, aparando minha barba e cortando meu cabelo. Já era quase meio-dia quando estávamos voltando. E assim que entregamos o óleo para o pai dela. Subimos para a taverna e guardamos tudo o que havíamos comprado. O silêncio era ensurdecedor, não tinha certeza do que ela pensava, ou se ela havia me denunciado sem que eu visse. Estávamos organizando a despensa, quando ela finalmente falou algo.
— Atravessar os esgotos deu muito trabalho? — Perguntou, com toda a naturalidade.
— Mais do que imagina… — Respondi um pouco constrangido.
— Não daria para fugirmos por lá, certo?
“Fugirmos” novamente uma palavra que ficou ecoando, e misturada com “me aproveitar de você” fazia com que minha fantasia virasse cada vez mais realidade.
— Até daria, mas… você sabe, nos sujaríamos muito — Respondi, um pouco animado.
— Não quero me sujar, então você vai ter que achar outra forma de sairmos.
— Você está falando sério? Quer fugir daqui? E seu pai e irmãos?
Uma lágrima caiu de seus olhos, então outra e assim por diante. Não sei o que disse, mas pareceu que afetou ela.
— O que você tem? — Perguntei.
— Nada! — Gritou e saiu com pressa da despensa.
A segui, ela subiu para seu quarto em passos rápidos e pesados. Chegando à porta ela a bateu. Porém não trancou, e pude entrar.
— Vá embora! — Disse ela chorando.
— Não antes de respostas. Por que você quer fugir?
— Não ouviu meu pai falando? Vou me casar! Mas não quero aquele homem, não o amo! — Exclamou.
— Certo… e por que seu pai quer que você se case com ele? — Perguntei.
— Não é da sua conta! O que te interessa é me ajudar a fugir desta cidade antes que seja tarde!
Ela me expulsou de seu quarto, e dessa vez trancou a porta. Fiquei algum tempo encostado àquela porta, mas desisti e desci até a casa de banho para consertar a grade. Zabavus já havia consertado. Então saí e refiz todo o caminho anterior. Na sequência andei para ver cada um dos portões, e encontrar alguma falha — não tinha nenhuma. A única coisa útil que vi, foi um estábulo próximo ao portão sudoeste, mas sem poder abrir os portões, não poderia roubar um cavalo e fugir.
Voltei à taverna. Já era tarde, passando o sol de meio dia e quase entrando o pôr do sol. Várias pessoas estavam a caminho da casa de banho, muitos eram soldados. Voltando ao quarto de Cleonice, a porta estava entreaberta, e ela já não estava lá. Um de seus irmãos passou e disse que ela estava no banho. Então desci, e entrei à casa. Eu sabia que o banho era compartilhado, só não sabia que não havia distinção de gênero. Homens, mulheres e crianças compartilhando o mesmo banho. E sendo proibido entrar vestido, despi-me e enrolei uma toalha na cintura, apenas para Zabavus me dizer que também não podia fazer isso.
Andei nu e encolhido procurando Cleonice. Por conta de meu corpo atlético e cheio de cicatrizes, houve muitos olhares para mim, de mulheres e alguns homens. Não devia ser incomum paqueras nesse ambiente misto, porém ereções ainda podiam ser mal interpretadas.
“Garoto, é melhor você se controlar aí embaixo” Disse o espírito gargalhando.
“Não é tão fácil, você já viu quantas mulheres nuas há aqui?” Pensei, ainda encolhido, e desviando meu olhar de qualquer nudez feminina.
“Em Björn há banheiros assim, melhor ir se acostumando. Só lembre que sexo e masturbação é punível” Encerrou o espírito, ainda gargalhando.
Achei Cleonice junto de algumas mulheres, numa banheira de pedra bem ao fundo da casa. Ao me aproximar, o olhar das mulheres se voltou para mim. E quando chamei por Cleonice, ela cobriu suas partes com as mãos, as mulheres começaram a murmurar e perguntaram se o noivo dela sabia quem eu era. Ela as mandou sair, e passando por mim, algumas me apalparam e deram tapas.
— Então o que descobriu? — Perguntou Cleonice.
— Não muito, sei onde roubar um cavalo, só não sei ainda como abrir os portões — Disse, enquanto entrava na banheira junto com ela.
— Não é muito, mas é um começo…
— Por que você quer tanto fugir? Não dizem que os pais sempre escolhem o melhor marido para as filhas?
— Você é igual a ele, todos são. Não entendem o que uma mulher deseja — Disse ela, relaxando um pouco o corpo.
— Ele é o tal do homem gordo, não é? Foi por isso que me perguntou ontem se eu tinha o visto.
— Você é meio lento. Como chegou tão longe assim? — Indagou.
— Pode-se dizer que tenho duas mentes em uma.
Por dentro, Sagi disse algo como: “Cuidado com a língua, ela não pode saber demais”.
— Tudo bem, convencido. Se você tem duas mentes me diga, como vamos fugir?
— As duas estão planejando isso — Disse com confiança.
— Só espero que nenhuma esteja tentando entrar em mim — Com essa frase, ela desfez a pose — Então Merdeiro, como você lida com isso?
Meu olhar focou tanto no que havia abaixo do pescoço, que sequer fiquei ofendido com a última pergunta. Cleonice riu, e com o dedo levantou minha cabeça dizendo: “meus olhos estão aqui”.
— Vocês homens são todos uns idiotas — Disse enquanto se levantava — Enfim, terminei meu banho. Termine o seu e amanhã continuamos esse flerte, mas cuidado com meu pai.
Quando ela se virou para ir, fiquei ali sentado observando suas costas e o remexer de seus quadris. Lutei para controlar a maior das ereções que tive. Nunca em dezesseis anos de vida, tive tanta intimidade assim com uma mulher. Porém sabia que aquilo era perigoso.
“Sei que você é jovem, mas você precisa ter foco. Não temos tempo para essas distrações” Disse Sagi, agora sério, sendo que ele estava gargalhando momentos atrás.
“Tudo bem, mas ela pode nos ajudar” Pensei.
“Também acredito nisso. Ela é mais inteligente que você, e mais bonita também. Mas se ela nos atrasar você vai ter que abandonar ela. Ouviu?” Disse Sagi.
“Sim eu entendo”.
Naquela mesma noite, tive outro sonho com Cleonice, mas esse foi ainda mais excitante e agradável que o último. Assim como nosso segundo encontro na casa de banho.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.