Eu cavalguei por dois dias em direção ao sudoeste. Deveria ir para o norte, eu sei, mas eu agora tentava fugir. Não das cinzas que abandonei, ou dos soldados que me perseguiam, se é que ainda perseguiam; mas sim de mim mesmo. 

    Eu tentava de alguma forma abandonar tudo, abandonar essa missão que não me pertencia, abandonar os rostos daqueles que matei no caminho… esses rostos… eles me perseguiam para onde quer que eu fosse, meus sonhos eram repletos deles. O olhar do clérigo e dos soldados, de Cleonice que me chamava de monstro, do Sacerdote que talvez estivesse realmente tentando me salvar. 

    Esses rostos, eles me atormentavam dia e noite. Nesses dois dias, o espírito que me acompanhava estava quieto… ele não respondeu minha pergunta e não tentou mudar de assunto, ele só fica quieto, sequer aparece mais.

    — Piscis, podemos conversar? 

    — Agora você quer conversar? Jura que agora é isso o que você quer? Você não fala comigo desde que deixamos aquela cidade, não aparece nem para impedir que eu tenha sonhos ruins!

    — Eu quis te dar um tempo, tudo bem? Você não está aceitando que certos sacrifícios são necessários para o bem maior!

    — Bem maior?! Eu matei inocentes! Eu vi meu passe de volta para casa me chamar de “criança maldita” em suas últimas palavras! Eu achava que os soldados abandonariam seus postos para me caçar quando me vissem, achava que eles eram monstros, mas eles foram humanos e me deixaram fugir se isso significasse menos mortes!

    — Olha eu errei! É isso que quer ouvir? Eu errei! Mas estou tão desesperado quanto você aqui… você quer viver, eu quero salvar o mundo. E acredito que se aquelas almas soubessem o que estamos fazendo, elas teriam aceitado suas mortes de bom grado! O que são dezenas em troca de milhares?

    — O que são dezenas em troco de um? Nem mesmo Cleonice restou… eu sacrifiquei todos por um motivo egoísta, de salvar minha própria pele! 

    — Isso é como você vê, eu não vejo assim…

    — Claro, você já está morto! E logo vai deixar de estar, minha alma vai ser absorvida e você vai tomar o controle.

    — Sobre isso que eu queria conversar…

    — Quer saber? — Puxei a faca da cintura — Talvez eu devesse me matar… assim ninguém mais irá morrer…

    Com essa frase, segurei a faca com as duas mãos e iria perfurar meu coração, mas não consegui, e não por falta de vontade; meu corpo não respondeu. Não só não respondeu como começou a se mover sozinho. Sagi se materializou em minha frente, e meu corpo passou a se mover como um espelho do espírito que estava à minha frente. Ele fez um gesto, como se pusesse as duas mãos sobre as maçãs de meu rosto, e meu corpo fez o mesmo no rosto dele, então me olhou no fundo dos olhos.

    — Eu não vou deixar você morrer! Agora me escute…

    Eu estava furioso demais, o desgraçado, o espírito maldito estava controlando meu corpo, e podia fazer isso desde o início. O Sacerdote estava certo, ele quer tomar meu corpo e minha alma…

    — Uma fada veio até mim ontem enquanto você dormia… ela me contou sobre uma deusa aprisionada em outro reino que pode impedir a completa fusão de almas, mas até lá, você precisa confiar em mim… precisa confiar no que digo, e no que peço para você fazer. E depois… quando nossas almas estiverem separadas, irei ser levado até Stella por uma fada, e você será livre para recomeçar sua vida em qualquer lugar que você achar melhor… poderá até se matar se esse for seu desejo, mas até lá, até nos encontrarmos com essa deusa, se você não quiser que eu mova suas pernas contra sua vontade, é melhor fazer o que digo… o mundo conta com isso!

    “Eu te odeio!” — Pensei, como eu não podia falar.

    — Eu sei…

    Recuperei o controle do meu corpo, e cavalguei para noroeste seguindo as ordens do espírito maligno. Por dias segui cavalgando, houve mortes no percurso, mortes que iriam me ferir mais. E já longe da fronteira, abandonei meu cavalo e segui a pé. Me fiz de mendigo, de moribundo, pedi esmola para viajantes e não recebi nada. Fadas trouxeram uma bolsa cheia de dinheiro, disseram ser um presente dado a mim pelos moradores de Galvênia, e que eles eram gratos por terem sido libertados. Duvido que seja verdade! Mas aceitei, e fui em uma espécie de bar de guilda, esse tipo de bar e instituição não existe em Dartélia, então foi a primeira vez que entrei em um…

    — Moça… por favor, um prato de comida — Pedi.

    — Prata primeiro! — Retorquiu ela.

    Então a dei duas moedas de ouro de Dartélia, e ela as rejeitou, dizendo que esse ouro não valia nada lá. Seguindo instruções do espírito, perguntei a respeito do câmbio entre moedas, e a atendente me explicou que não havia câmbio entre as moedas, e que era mais válido eu derreter o ouro e vender, do que esperar usar esse dinheiro aqui.

    — Entendo… então vou embora, e volto mais tarde…

    — Espera um pouco! — Interrompeu um homem que estava ao meu lado — Docinho, traga algo para este jovem comer, eu pagarei por ele — Nisso ele jogou três moedas de prata sobre o balcão, e a atendente recolheu e foi fazer o pedido.

    Era um homem magro, pálido e de olhos curiosos, devia ter menos idade do que aparentava. Ele me ofereceu a refeição em troca de saber de onde eu era…

    — De lugar nenhum…

    — Não minta para mim, vi o ouro de Dartélia que você ofereceu àquela moça; estou apenas curioso, você está bem longe da fonte de origem de seu ouro. Este é o Reino de Jarmont, a terra das aventuras… e não Dartélia, a terra da paz…

    — Não sabia que Dartélia tinha esse título aqui fora…

    — Viu só? Você acaba de confirmar que vem de lá… 

    O prato de comida foi entregue a mim, frango e salada. Também acompanhava um suco, de uma fruta que eu não conhecia, mas era doce e cítrico.

    — Enquanto come, deixe-me contar minha relação com seu reino. Eu sou um aventureiro e pesquisador… saio pelo mundo atrás de seus mistérios, e trabalho em minha ciência. Há pessoas com quem me correspondo em Dartélia que são pesquisadoras também, algumas delas trabalham no clero da religião central daquele reino. Eu soube que seu reino entrou em estado de alerta, um criminoso matou um membro do clero e dois soldados numa vila pesqueira que fica no condado de Galtivus, aquele mesmo que faz fronteira com o coração do reino… depois parece que esse assassino causou uma rebelião, seguida de um ato terrorista em Galvênia. O povo daquela cidade agora está enfrentando um cerco ainda mais duro, soldados do exército da capital, a elite do reino, não permite saída nem entrada na cidade, faz quarenta e sete dias que estão assim. Eles querem adentrar na cidade pacificamente e restaurar a ordem, mas algo lavou a mente daqueles homens… eles preferem morrer de fome ou doença do que abrir qualquer um dos quatro portões.

    — Realmente… é muito triste essa situação. Ainda mais na “terra da paz”.

    — Sim… e deseja saber mais sobre o terrorista?

    — Nem um pouco.

    — Vou contar. Disseram que ele fugiu do reino, e abandonou aquelas pessoas. Puseram uma grande recompensa sobre a cabeça dele…

    — Quão grande?

    — Suficiente para me tornar um nobre…

    — Vai me matar?

    — Não… a recompensa pede para levar com vida, mas não diz em que condições… então melhor você comer e se render, senão vou quebrar suas duas pernas e te levar arrastado até a fronteira.

    — Tudo bem… eu me rendo…

    — Ótimo…

    Meu corpo então moveu-se sozinho, com o garfo em minha mão direita perfurou a esquerda do ambicioso pesquisador. Em sequência bateu a cabeça do mesmo contra o cabo do garfo com tanta força, que o olho do pesquisador foi perfurado, mas este não morreu, apenas saiu correndo do bar. A atendente assustada tentou me expulsar, e eu estava indo, mas um homem alto, musculoso e peludo, se ofereceu pagar pelo transtorno, em troca de eu me sentar à sua mesa com seus companheiros. Aceitei, por escolha própria, Sagi não via necessidade, mas permitiu o ato.

    — Um jovem como você não deveria atacar pessoas assim! — Disse o grandalhão — Se bem que aquele cara… bem ele me dá arrepios, sempre vejo ele por aqui, sempre vejo ele na dele sem conversar com ninguém. Deve ter dito algo perverso para você, então tu reagiste né não? — E riu com o término dessa pergunta.

    — Você ainda está com fome? Tem bastante comida aqui… — Disse uma moça que estava conosco à mesa, baixinha, cabelos pretos, sardas nas bochechas, olhos azuis. E carregava um arco nas costas.

    — Esse garoto está muito quieto, talvez Taerdus o tenha assustado com seu jeito extrovertido — Homem, cabelos loiros, aparência afeminada e orelhas pontudas?

    — Espera, você é um elfo? — Perguntei.

    — Sim, me chamo Gryiejörn Malgus, sou um ladino.

    Nunca tinha visto um elfo antes, mas meu avô me contou histórias e vi um pouco disso nas lembranças de Sagi. Conversamos o máximo que podíamos, eu, Taerdus o Grande, Giulia a Corvo, e o Ladrão Malgus. Os três são pessoas divertidas, aventureiros experientes, um trio inabalável que já teve sua cota de missões, e histórias heroicas. Fiquei lá com eles, comemoravam o sucesso de mais uma de suas missões, uma que rendeu uma boa recompensa, que usaram para festejar e comer tudo o que havia de bom e caro. Contaram-me suas aventuras, e eu as ouvi interessado, imaginando para mim esse mundo fantasioso e não esse mundo desastroso em que me encontrava. Até que veio o último prato…

    — Uau! Peixe Gravus! E dos grandes ainda! — exclamou Taerdus — quer experimentar primeiro Piscis?

    — Não, eu estou cheio…

    — Só um pedacinho, que isso não faça desfeita! — Taerdus sorria sem saber minha relação com esse peixe.

    Ele pôs um pedaço da barriga do peixe em um prato e o entregou a mim. Minha reação…

    — NÃO QUERO! TENHO NOJO DESSE PEIXE! — Gritei.

    A decepção em seu olhar, e dos outros em minha mesa. O silêncio que se fez no salão da taverna, aquilo me deixou constrangido, ainda assim recusei o peixe, ao invés de me forçar a comer. O barulho retornou à taverna, Taerdus recolheu o prato e comeu ele mesmo, com frustração. O silêncio continuou à mesa até Giulia o quebrar.

    — Então de onde você vem Piscis?

    — De lugar nenhum…

    — Bom, aqui todos somos conterrâneos desse lugar. Fugitivos de suas moradas, sobreviventes! Isso não é razão para agir com má educação — atorquiu Taerdus.

    — Sinto muito… eu realmente não gosto de peixe…

    — E está tudo bem jovem — Disse Gryiejörn, enquanto punha sua mão em meu ombro.

    — Eu devo ir! Obrigado pela refeição e companhia — Levantei-me.

    — Espere, fique! Ou pelo menos diga para onde vai! — Exclamou Taerdus.

    — Vou ao encontro de uma deusa, sei que ela está presa em uma masmorra. Irei resgatá-la e fazer um pedido.

    — A Deusa da Fertilidade? — Perguntou Giulia.

    — Sim, como sabe?

    — Estamos indo até ela agora… é nossa próxima missão.

    — Não era para ser, mas Taerdus insistiu nessa… — Acentuou o Elfo, enquanto apoiava o rosto contra a mesa — talvez possamos ir juntos, um a mais nessa companhia não faz mal.

    — Sim, mas garoto! É bom que você saiba se cuidar, pois enfrentaremos monstros e feras… — Disse Taerdus, batendo a caneca de cerveja na mesa.

    — Eu sei me virar…

    Assim, formamos uma aliança. Mesmo que Sagi fosse contra, não me impediu fisicamente de sair de viagem com esses aventureiros. Ficamos hospedados em uma pousada da guilda, no dia seguinte pude derreter o ouro e vender, como a atendente sugeriu, assim consegui meu próprio dinheiro e não fiquei tão dependente de Taerdus e cia. A companhia possuía quatro cavalos prontos, o quarto era de um membro que morreu muito tempo atrás. A viagem não seria direta até a masmorra, o trio queria parar de vila em vila atrás de trabalho. Os trabalhos pagavam bem, ajudava aqueles vilarejos, e garantiam equipamentos novos para os membros do grupo. 

    Assim comprei uma nova armadura, e uma espada nova, vendi a velha e os amuletos. Usava muito a espada agora, Sagi me proibiu de usar a lança espiritual enquanto eu estivesse com esse grupo, além de repreender muito sobre a demora para irmos até a masmorra. O espírito que me atormentava, dizia que eu só perdia tempo com aquele bando, que eu não deveria me apegar, e que eles não eram tão bondosos como pareciam ser.

    — Não são heróis de verdade… são mercenários!

    Dizia ele com frequência, e eu também o desafiava:

    — Então assuma o controle e nos leve até o objetivo.

    Sagi se enfurecia, mas não assumia o controle. Assistia pacientemente enquanto eu me aventurava com aquele bando, dava seus sermões, mas era só isso. Às vezes me dava dicas em meio ao combate com os diferentes monstros que enfrentávamos, e eu os seguia instintivamente quando não seguia, ele não assumia o controle e exercia a força, mas deixava que eu errasse para aprender a ouvi-lo. Durante essas semanas de viagem, tive riso, tive paixão por algo novo, tive satisfação… os pesadelos e a culpa não me aturdiam tanto, ainda estamos longe do objetivo final. Mas logo, eu e minha equipe, iremos alcançá-lo…

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