Capítulo XI: Masmorra dos Desejos.
Ninguém sabia o que esperar dentro da Masmorra. Todos que entraram não saíram. Morto cedo ou tarde, a Masmorra não devolvia ninguém. Então o plano era manter todos juntos até termos certeza do que estaríamos enfrentando. Taerdus me vestiu com minha armadura, fez na esperança de que se algo desse errado eu poderia ter alguma chance. Porém como não poderia ficar o tempo inteiro me carregando, arrastou a carroça pelos sete lances de escada até a entrada da masmorra. E pondo-me dentro dela, passou a puxá-la como um cavalo. E após feito esses preparativos, enfim entramos na masmorra.
Ao contrário do que ora foi imaginado, não era um lugar escuro e sinistro. Era na verdade um espaço amplo, uma paisagem desértica com poucas figueiras próximas de grandes cachoeiras que caiam para o infinito. Não havia um céu, mas havia uma luz forte vindo do que parecia ser o teto. Era até agradável. Andando um pouco, não vimos nenhum monstro ou inimigo que tentasse nos matar. Mas andamos tanto, e sem saber o que devíamos fazer, e que horas eram, paramos próximo à um rio.
— Vamos encher nossos odres e seguirmos em frente! — Disse um dos guerreiros.
— Giulia, docinho, dê água para Piscis — Disse Taerdus.
Quando Giulia levantou minha cabeça, vi o guerreiro que gritou para os outros sendo devorado. O que saiu do rio era nada menos que um…
— Dragão! — Gritaram.
Taerdus empunhou sua espada, mas vendo o cerco que aqueles demônios fizeram, preferiu correr. Ele pegou a carroça e bateu em retirada, Giulia atirava nos olhos das criaturas sem errar uma flecha. Gryiejörn corria ao lado de Taerdus e o ajudou a me puxar pegando em um dos braços da carroça. Por causa de um peso morto, não conseguíamos correr depressa, então a solução foi voltar a me carregar nos braços e me levar até ao que parecia ser uma caverna.
Quando entramos, um dos dragões, sem poder nos seguir, pôs sua cabeça dentro e soprou fogo. Para não sermos atingidos, pulamos em um buraco, e caímos dentro de uma espécie de lago. Finalmente chegamos no lugar escuro e sinistro que tínhamos imaginado. Havia um corredor estreito e cheio de musgo, diversos esqueletos de outros homens por aqui — esqueletos limpos demais —, e marcações na parede com o número dois nelas.
— Entendi! — Exclamou o Elfo — Nós estávamos procurando uma escada de subida, quando na verdade deveríamos descer!
— Como é? — Perguntou Taerdus.
— Vê essas marcas nas paredes? Elas querem dizer que estamos no segundo nível. Antes nós tentávamos achar um portão ou uma escada de subida, mas na verdade temos que descer, e esses homens mortos estão tentando nos dizer isso!
Seguimos mais adiante naquele corredor, e demos de cara com uma bifurcação em um espaço amplo da caverna. Taerdus me deixou no chão e tentou decidir entre os caminhos. Um deles nos levaria à morte, e outro para o nível inferior.
— Vamos pela esquerda — Disse Giulia.
— Não, não vamos. Ainda não decidi! — Atorquiu Taerdus.
— Você não é nosso líder, tecnicamente eu deveria ser! — Retorquiu Giulia.
— Escuta só garotinha, eu sou o mais homem aqui! E os homens são quem decidem! — Bradou Taerdus.
— Ah é, por quê? Por acaso você usa o pinto para decidir as coisas?! — Gritou Giulia.
— Sim! É esse pau que você tanto ama que me dá o direito de liderar! — Gritou ainda mais alto Taerdus.
Pode ser uma ironia do destino, mas logo após Taerdus gritar isso, uma lâmina o atravessou bem naquele lugar. Um dos esqueletos pelos quais passamos havia se levantado e voltado a usar suas armas. E não só ele, mas todos estavam de pé. Após o ferimento, o “Grande” caiu em choque, outro esqueleto montou em cima dele e continuou o esfaqueando naquele lugar.
— Corre Gryiejörn! — Gritou Giulia.
— Espera! E Piscis?! — Bradou o Elfo.
— Não temos como levá-lo! Vamos agora!
E assim fui abandonado. Sem poder respirar direito, sem conseguir me mexer, eu iria morrer. Os outros esqueletos correram atrás de Giulia e Gryiejörn. Alguns ficaram, e começaram a retirar a carne de Taerdus. Um dos esqueletos marcou o número três na parede, e pelo visto o Elfo estava errado. Outro caminhava lentamente até mim, talvez os esqueletos achassem que eu já estava morto, por isso não me atacaram antes.
“O que vamos fazer?!” Pensei.
“Eu vou assumir o controle. Vai doer bem mais, porém vamos conseguir sair daqui!” Disse Sagi.
Quando ele tomou controle do meu corpo, foi diferente de antes, dessa vez doeu mesmo. Cada articulação que ele movia, acabava por arder como na vez que o demônio havia deslocado meu braço.
Sagi atacou o esqueleto que se movia devagar, e com as mãos nuas o desmontou. Acabou por fazer o mesmo com os outros facilmente. Então, roubou a espada de Taerdus, e caminhou até a bifurcação.
“Espera! Se o número na parede são as vítimas, então qualquer caminho é uma armadilha!” Pensei.
— Não exatamente — Falou em voz alta Sagi — Já enfrentei muitas masmorras antes, essa não é diferente. Um dos caminhos é mortífero, outro leva para um atalho e um tesouro escondido.
Ele então seguiu para direita, sendo que Giulia e Gryiejörn haviam ido para esquerda. Estávamos bem a frente por um corredor escuro, quando armadilhas se ativaram, esqueletos surgiram das paredes. Acabou que o nosso caminho era o errado.
“Escolhe bem para caralho!” Pensei.
— Fique feliz, seus amigos podem estar vivos.
Voltamos para a superfície, e encontramos nosso grande portão. Porém havia um dragão enorme fazendo guarda, um tão grande que devorava aqueles que tinham nos atacado antes.
“Acho que devemos passar escondidos, e abrir o portão sem que ele veja…” Pensei.
— Cala a boca! Não está vendo que no portão há dois encaixes para esferas? — Disse ele enquanto apontava — Assim que matarmos esse dragãozinho ridículo ele vai se dissolver e entregar as chaves.
Sagi correu em direção ao dragão. A fera reagiu e tentou nos esmagar, mas Sagi pulou em cima da garra dela e seguiu escalando. O dragão tentou soprar seu bafo em chamas na formiga que o escalava. Porém Sagi chegou às costas da criatura antes. A fera levantou voo, e Sagi não pôde avançar para a cabeça enquanto as asas batiam.
— Pelo visto vou ter que cortar suas asas também! — Gritou Sagi.
E foi exatamente isso o que ele fez. Com uma magia, ele expeliu energia pela espada e cortou as asas do dragão. A fera caiu violentamente, mas Sagi não desgarrou dela. Escalou até sua cabeça e no topo se preparou para o golpe final.
— Garoto eu vou usar sua lança, mas é só por não ter opção melhor — Disse Sagi.
Ele invocou uma lança do espírito, só que ela ficou muito maior do que a que eu invoquei em Galvênia. E assim que perfurou a cabeça do dragão foi como ele disse, a criatura se desmanchou e duas esferas ficaram em seu lugar. Ele encaixou ambas no portão e subiu as escadas que levavam para o segundo nível. Quando estávamos prestes a chegar no topo, uma voz me chamou.
— Piscis! Espera! — Era Giulia, acompanhada de Gryiejörn — Como você está vivo?
— Você é idiota Giulia? — Cortou Gryiejörn — Piscis, que bom que está vivo!
O Elfo avançou para me dar um abraço. Ele tinha plena confiança de que eu o receberia, porém não era eu que estava no controle de meu corpo. Sagi o derrubou com facilidade, e no chão apontou a espada de Taerdus para seu pescoço e disse:
— Aparta-te de mim, pederasta!
— O que é isso?! Nós nos amamos! — Gritou Gryiejörn.
— Você e o dono desse corpo talvez, mas eu não sou ele…
Giulia se preparou para atirar em mim, e ordenou para que largasse minha arma. O Elfo implorava para que ela não atirasse, dizia que eu devia estar delirando por causa de minha doença.
— Se ele estivesse delirando, como poderia ter matado aquele Dragão enorme? — Disse Giulia.
— Então vocês me viram lutar e não ajudaram? Deixe-me adivinhar, ficaram escondidos com medo de serem vistos e contando que eu morreria facilmente — Disse Sagi.
— Nós ajudaríamos se você fosse Piscis! — Bradou a Corvo.
— Quando ainda era Piscis no comando, vocês o abandonaram! Se eu não estivesse o possuindo, ele teria sido esfolado vivo naquela caverna!
— Largue sua arma! — Gritou Giulia.
— Atire! Faça isso e a matarei antes que veja o que lhe atingiu!
Giulia não hesitou. Sagi segurou a flecha com a mão nua, e avançou. A arrancada foi tão rápida que senti meu corpo se quebrando, e órgãos colapsando. Claro que era só a sensação. Sagi parou com a espada colada ao pescoço da Corvo.
“Não a mate por favor!” Pensei.
— Não a matarei, pois não oferece riscos. Mas me ameace novamente e cortarei sua cabeça — Disse Sagi, para mim e para ela ao mesmo tempo — Agora escutem vocês dois. Meu nome é Sagicrus o Indômito, eu possuo esse corpo e não irei largá-lo. Então ajudem-me ou morram.
“Você inventou essa história de “Sagicrus” agora, não?” Pensei.
“Sagi é um nome muito bobo, e eu quero parecer ameaçador aqui” Respondeu Sagi em pensamento.
Ambos concordaram em segui-lo, assim avançamos para o segundo nível da masmorra. Confesso que me achava forte por ter as capacidades físicas desse espírito que me acompanha, mas ele está em outro nível, simplesmente por conseguir aproveitar tudo o que posso fazer. Talvez eu possa admirá-lo um pouco…

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