Capítulo 681 - Bestas vermelhas
Ambos os Capitães correram até Fernando.
Ao ver as gotas de sangue derramando-se de seus olhos e nariz como uma cachoeira, a expressão de Lerona afundou.
“O que devemos fazer? Eu sei Magia de Cura, mas não sou habilidosa nisso”, disse, apressadamente, quando moveu o pulso, tirando uma Poção de Cura Intermediária, já que funcionaria melhor do que sua Magia.
A expressão do Capitão moreno era escura, quando ele balançou a cabeça, em negação.
“Nada”, respondeu, com seriedade.
Ao ouvir isso, a mulher ruiva ficou chocada.
“Do que você está falando? Ele está claramente morrendo! Mesmo eu consigo ver isso!”
Raul respirou fundo, igualmente nervoso com essa situação.
“Uma vez que o processo de concentração de Mana do Corpo Tirânico começa, não há como voltar atrás, se tentarmos interferir pode piorar tudo. Ou ele consegue dominar a Habilidade, ou morre. Agora tudo depende dele.”
Lerona olhou para o sujeito moreno incrédula.
“Está dizendo que tudo que podemos fazer é observá-lo enquanto morre? Está de sacanagem com a minha cara?! Você sabe o quanto esse menino é importante para nós?!”
O Capitão moreno não respondeu, mas agachou-se, apoiando-se em sua própria coxa, sentando-se à frente do rapaz pálido e mantendo alguma distância, enquanto o observava.
Pivete, por que você foi ser tão imprudente? pensou, irritado. Se ele o guiasse passo a passo, acreditava que suas chances teriam sido muito melhores do que tentando sozinho. No entanto, de repente lembrou-se de suas provocações, dizendo ao jovem Tenente que não poderia depender de outros. Isso o fez dar um leve sorriso estranho, não de felicidade, mas uma mistura de amargor e arrependimento. A culpa é minha? Eu e minha boca grande. Eu deveria saber que você realmente é louco o bastante para me ouvir.
Lerona estava frustrada ao ver a atitude aparentemente desleixada do sujeito moreno, mas ao ver seu olhar preocupado, percebeu que realmente não era como se ele não quisesse ajudar, apenas não era capaz. Sendo o mais próximo de um especialista em Habilidades naquela sala, se Raul estava dizendo que não havia nada a fazer, então simplesmente não havia.
Resignando-se, a mulher sentou-se também no chão frio, perto do Capitão, enquanto ambos aguardavam o resultado. Em poucos momentos, eles saberiam se o gênio pálido que havia virado de cabeça para baixo tudo que sabiam viveria para se tornar um verdadeiro monstro ou pereceria antes mesmo de se desenvolver.
Na mente de Fernando, um turbilhão de emoções fluía, enquanto todo seu cérebro trabalhava furiosamente para reunir Mana em seu coração, suportando a dor excruciante.
Sinto como se… meu coração fosse explodir! gritou em sua mente, enquanto rangia os dentes. No momento em que começou a reunir Mana em seu peito, seguindo as instruções da descrição da Habilidade, todo seu fluxo sanguíneo começou a acelerar, assim como as batidas de seu coração, que nesse momento eram como um tambor acelerado com batuques fora de ritmo e completamente irregulares.
Conforme mais e mais Mana chegava ao seu peito, transportados pelas Veias de Mana, maior o seu coração se tornava, inchando-se de um fluxo intenso de Mana e sangue.
Badum! Badum! Badum! Badum! Badum!
Eu vou falhar? Fernando perguntou-se, enquanto sentia, pouco a pouco, que estava perdendo o controle sobre tudo. Não só seu coração estava prestes a estourar, como até mesmo seus vasos sanguíneos estavam queimando, quando começaram a se romper, um a um.
Por um momento, o rapaz começou a se arrepender por ser tão confiante e precipitado. Porém, esse arrependimento durou apenas um instante.
Após tantas batalhas com sua vida em risco, sua mente havia sido refinada. A seu ver, isso não era apenas uma tentativa de aprender o Corpo Tirânico, era como uma batalha de vida ou morte! Após assumir esse entendimento, começou lentamente a se acalmar.
Não, eu não vou morrer, não assim, não derrotado por uma mera Habilidade! gritou para si próprio, quando aumentou a intensidade do Disparo Neural, ao mesmo tempo que ativou Autorregeneração ao máximo, não estando disposto a cair sem uma última luta.
Seus vasos sanguíneos, que estavam rompendo por todos os lados, causando uma série de hemorragias internas em seu corpo, rapidamente começaram a se curar. Um vaso rompia, enquanto outro se curava, esse processo estava ocorrendo rapidamente ao longo de todo seu corpo. Devido ao Disparo Neural que ‘desacelerava o tempo’ ao mesmo tempo que expandia suas sensações, a quantidade de dor que estava sentindo era simplesmente surreal e fez toda sua mente entrar num turbilhão de dor desumana. Mas, mesmo sentindo tudo isso, sua vontade se mantinha firme.
Ao mesmo tempo que tudo isso ocorria, começou a focar em controlar seu Mana nos três pontos indicados, Aorta Ascendente, Arco e Aorta Descendente, sem permitir que um único fio escapasse. Ele podia sentir que estava chegando o momento de explodir tudo isso e ele só teria uma chance de acertar o tempo.
Seu coração era como uma bomba inflada, todo o tecido estava esticado como uma bexiga, cheio de sangue e mana, prestes a romper, pressionando seu peito em meio a uma dor descomunal. Mas, de repente, algo aconteceu. As batidas, que eram bizarramente rápidas, começaram a desacelerar devido ao enorme tamanho.
Ao sentir isso, Fernando, que estava com os olhos fechados, os abriu, arregalando-os.
Agora! disse para si mesmo em sua cabeça.
Assim que o fez, queimou todo seu mana em seu coração, nos três pontos ao mesmo tempo.
BOOOM!
Um fluxo furioso irrompeu a partir de seu coração, invadindo todos os seus vasos sanguíneos ao entorno, como um vendaval.
Sentindo aquela sensação opressiva, como uma força da natureza, correndo por seu corpo. Fernando não pôde deixar de pensar que era familiar, sendo muito semelhante ao primeiro fluxo de Mana que teve quando usou a Pedra de Mana.
Lerona e Raul, que observavam Fernando com apreensão, de repente perceberam algo. O sangramento em seus olhos e nariz cessou completamente quando, sem qualquer aviso, ele abriu seus olhos, que estavam completamente avermelhados de sangue, fazendo-o assemelhar-se a uma besta.
“E-ei, isso é…!” Raul exclamou, boquiaberto.
Bang! Crack!
Uma enorme ‘aura’ vermelho-carmesim começou a se formar ao redor do rapaz pálido. Era uma neblina tão vermelha que era como se estivesse rodeado de sangue puro. Não só isso, como uma intensa pressão se alastrou ao redor do capaz, fazendo com que todo o chão abaixo dele começasse a rachar.
O jovem pálido então levantou-se do chão num único impulso, usando apenas a força de seu corpo. Logo a névoa carmesim, que envolvia inicialmente apenas seu torso, alastrou-se para todo seu corpo.
Fernando, com o branco de seus olhos ainda manchado de sangue, olhou para suas palmas. Quando fechou uma delas com força, seu olhar parecia de confusão.
“Hahahahaha!” Raul, que estava sentado no chão, levantou-se calmamente, com um sorriso em seu rosto. “Você conseguiu, garoto. Você dominou o Corpo Tirânico!”
Lerona, que estava ao lado, também levantou-se e então deu um suspiro de alívio ao ouvir as palavras do sujeito. No entanto, o que ouviu a seguir a fez travar no lugar.
“Ei, ruiva, não se mexa e, não importa o que aconteça a partir de agora, não se intrometa. Isso é entre mim e o garoto.”
O jovem pálido ainda parecia desconectado da realidade, quando vagamente seu olhar levantou-se ao ouvir a voz de Raul, encarando friamente seu mentor. Porém, não era apenas seu olhar frio habitual, havia uma mistura de ameaça e opressão, como se fosse um predador avisando para não se aproximar.
Com um sorriso no rosto e ignorando a expressão do jovem pálido, Raul despreocupadamente deu um passo à frente.
“Pode vir”, declarou, de forma despreocupada. “Merda, espero que esse lugar aguen-”
BOOOM!
O sujeito mal disse isso, quando um flash vermelho passou ao lado de Lerona, e Raul, que estava bem ali, desapareceu.
O quê?! A mulher exclamou, tendo sido pega de surpresa.
Bang! Shahhh!
O rapaz pálido segurou Raul pelo pescoço, enquanto o arrastava todo o percurso em alta velocidade até o meio da gigantesca sala subterrânea, destruindo todo o piso por mais de cem metros.
Porra, esse pivete! Raul pensou, com um bizarro sorriso em seu rosto, então segurou sua mão, desvencilhou-se e chutou-o para longe.
Fernando foi arremessado alguns metros para trás, apenas dando tempo suficiente para que o Capitão moreno se levantasse, quando o rapaz atacou novamente, disparando em sua direção.
“Pode vir, porra! Me mostra o que você tem!” Raul gritou, em meio a gargalhadas, quando ativou seu próprio Corpo Tirânico, então uma fina neblina-vermelha formou-se ao seu redor, como se fosse vapor.
BOOM! BOOM! BOOM!
Os dois homens dispararam em alta velocidade, correndo de um ponto ao outro, enquanto se chocavam.
Bang!
Raul acertou um direto no rosto do rapaz pálido, que apenas ignorou, continuando a atacar. Mas, ao ver isso, o sujeito moreno não continuou a recuar, mas aceitou o desafio de frente.
Boom! Bang! Bang!
Ambos trocaram golpes em alta velocidade, acertando um ao outro sem recuar. Socos no rosto e tórax choviam sem parar.
Bang! Bang! Bang!
Sangue espirrava de um lado ao outro dos lábios do rapaz pálido, enquanto hematomas se formavam sem parar e ele, pouco a pouco, recuava. Por outro lado, Raul recebia os golpes em alta velocidade, sempre avançando, um passo de cada vez.
Que força, seus golpes estão muito mais ágeis e pesados! Raul elogiou em sua mente.
Lerona, que viu tudo ao longe, estava assustada. Ambos pareciam como duas bestas vermelhas, atacando-se furiosamente.
Bang! Bang! Swish!
De repente, Fernando, que parecia levemente desnorteado, errou um dos socos. Ao ver isso, os olhos de Raul se estreitaram, quando não perdeu a oportunidade.
BOOM!
Com apenas esse breve instante de erro, ele o acertou com um cruzado amplo e pesado, atingindo diretamente o nariz do rapaz pálido, com extrema violência, esmagando-o contra o chão.
Logo, toda a neblina vermelho-carmesim em torno do rapaz lentamente diminuiu, quando tudo se acalmou, enquanto ele permanecia completamente imóvel.
“Heh, nada mal, pivete. Até que você aguentou bem.” Raul disse, com um leve sorriso, enquanto limpava uma única gota de sangue que escorria de seu nariz.
Ao ver que tudo tinha acabado, Lerona se apressou até os dois.
“O que acabou de acontecer? Não deveríamos ajudá-lo? Por que você o espancou?!”
“Relaxa”, Raul falou, de forma despreocupada, enquanto chutava fracamente o rapaz pálido, certificando-se de que estava realmente desmaiado. “Eu só estava tentando acalmá-lo. Não ataquei para valer.”
A mulher ruiva não pôde deixar de franzir o cenho ao vê-lo falar isso de forma tão calma, já que há poucos momentos não sabiam se ele viveria ou morreria.
Vendo a raiva no rosto da mulher, o sujeito moreno deu de ombros.
“Que cara é essa? Eu não fiz de propósito. O garoto estava fora de si, então dei um calmante para ele.” disse, rindo levemente, numa mistura de emoção e satisfação, enquanto olhava para o jovem pálido caído, como se sua conquista, fosse dele próprio. “Eu não escrevi isso na descrição que o garoto leu, mas após ativar o Corpo Tirânico, a mente fica confusa por alguns momentos. Isso depende muito da potência do seu Mana. Comigo foi apenas por um instante, mas como ele é muito mais talentoso, eu imaginei que seria mais severo, mas não pensei que ele ficaria louco a esse ponto. Esse pivete deve ser realmente um monstro! Hahahaah!”
“O que, então, ele vai ficar assim sempre que usar essa Habilidade?!” A ruiva perguntou, preocupada com o futuro do jovem Tenente.
“Não, nas próximas vezes o efeito não deve ser tão intenso.”
“E o que fazemos?”
“Deixo-o descansar, ele merece”, disse, desviando seu olhar na direção da Capitã. “O garoto realmente conseguiu, ele fez sua parte e aprendeu o Corpo Tirânico. Agora, cara ruiva, só resta você… Acho que é hora de pegar pesado.”
Lerona, mesmo sendo mais forte que Raul, instintivamente recuou um passo.

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