CAPÍTULO 20: OS GUARDIÕES (3/4)
“TOC—TOC—TOC…”
Desnorteado pelo sono, ao lado do colchão em que deveria estar deitado, Noah acordou com as agitadas batidas na porta de seu apartamento e as incessantes chamadas pelo seu nome de uma voz feminina que lhe era familiar.
Era a Sophia e não estava sozinha, podia ouvir o Kevin com ela, a acalmando. E assim que ela parou de insistir em chamá-lo o seu celular tocou, era o Kevin quem estava ligando, percebeu isso ao ouvir outro celular tocando do outro lado da porta de seu apartamento.
Com preguiça de se levantar para pegar o celular que estava na cozinha e só depois ter que ir até a porta, Noah apenas ignorou a ligação e arrastou os pés para atendê-los na única entrada/saída do apartamento enquanto ouvia a música eletrônica que seu celular fazia sempre que alguém o ligava.
— Ótimo, você acordou — disse Kevin, ao ver Noah ainda tentando acordar e com todo o seu cabelo bagunçado.
— Parece um punk com esse cabelo arrepiado — comentou Sophia, caçoando dele.
— Um o que? — perguntou Noah, sem entender nada.
— Um punk, aquelas pessoas com cabelo bagunçado, alguns usam aquele penteado moicano…— explicou.
— Tá, já me lembrei.
— Não gosto muito de interromper a conversa furada dos outros, mas não temos muito tempo sobrando — avisou Kevin, olhando a hora em seu relógio de pulso.
— O sol nem nasceu ainda! — pontuou Noah. — Que horas são?
— Quatro e cinquenta — respondeu Kevin.
— Porque estão aqui tão cedo?
— A aula começa às seis e você ainda tem que se arrumar — explicou.
— E se nos atrasarmos vamos estar muito encrencados. Porque a nova professora, a Kelly, ela odeia atrasos, odeia quando quebram as regras, ou furam com ela. E suas punições deixam qualquer um acabado — contou Sophia, enquanto encenava. — Um dia eu parei para comprar um sorvete, mas a fila estava enorme, então demorei mais do que pensei… E quando cheguei na reunião tinha me atrasado uns trinta minutos, por causa disso, depois da reunião, ela me fez correr até eu cair de exaustão.
— Precisamos estar na sala às seis em ponto, então vai se arrumar logo, enquanto isso nós o esperamos aqui. E pega isso daqui para você — disse entregando uma escova e pasta de dentes para ele. — Você está precisando muito. Culpa minha que esqueci de entregar junto com o sabonete.
— Verdade, você tá com bafo de cachorro — comentou Sophia, abanando o cheiro.
Noah, constrangido, sem dizer nada, apenas os encarou com um olhar que demonstrava o quão desnecessário foi aquele comentário, e então entrou rapidamente para se arrumar. Saindo com outra cara depois de tomar um banho e se ajeitar.
— Que diferença, antes você parecia um zumbi — comentou Sophia, inocentemente.
— Só lembrando que não temos tempo a perder parados aqui. Eu não quero morrer de tanto fazer flexões por causa de atraso — lembrou Kevin.
No caminho, o clima era agradável e divertido, apesar da primeira impressão que ele teve deles, eles eram bem divertidos, o jeito descontraído e animado de Sophia era engraçado, ela era carismática e todos pareciam gostar dela, ainda mais as crianças e os animais.
Já o Kevin era um homem calmo e que tratava tudo com gentileza, ele era inteligente e resolvia problemas facilmente.
Distraídos, logo chegaram na escola e por pouco não se atrasaram por conta de todas as distrações. Era surpreendente quantas pessoas estavam na rua tão cedo.
A escola se parecia muito com uma casa por fora, ninguém imaginaria o que é que tinha do outro lado do muro que a cercava, ainda mais que no quintal da frente não havia nada de diferente de uma casa comum.
Assim seguia ao entrarem pela porta da frente, na qual os levava diretamente para a cozinha, em seguida, estava a sala de estar e duas portas, uma das portas era o espaçoso banheiro ao lado de uma escada que levava para o segundo andar, onde morava a pessoa que cuidava da escola, enquanto a outra dava diretamente para os fundos.
Nos fundos havia mais um quintal com outras duas casas juntas, uma pequena, onde era a sala em que ficariam estudando, e a outra continha uma pequena arena de luta, com um círculo enorme desenhado no meio do tatame que cobria quase o chão inteiro, no qual era o limite da arena.
No quintal havia um pequeno galpão, onde ficavam guardados alguns dos equipamentos de demonstração usados nas aulas que não cabiam no armário da sala.
— Bom dia turma — cumprimentou Kelly, ao entrar na sala exatamente às seis horas da manhã. — Imagino que todos já saibam que irei substituir a outra professora na turma deste mês, fazia tempo que ela merecia umas férias longas e agora ganhou. E para quem não me conhece, eu me chamo Kelly, mas não sou a única novata por aqui, já que entrando comigo também tem um novo aluno, que peço para que se apresente ao resto da sala — disse, inquieta, só se sentando no final, pois se sentia incomodada de estar ali e demonstrava isso sutilmente.
— Eu sou o Noah, e fui aceito ontem para participar das aulas, então aproveitaram que esta turma tinha tido apenas um dia de aula e que havia uma mesa sobrando para me incluírem aqui, em vez de me mandar para qualquer outro lugar ou esperar pela próxima turma que fosse ter aqui — contou.
— Já é o suficiente — disse Kelly —, muito obrigada, Noah. Agora eu vou começar a aula dando sequência ao tema que a professora anterior comentou com vocês, e para o novato não se perder, abra a sua apostila no tema “sobrevivência”.
— Eu não recebi a apostila — avisou Noah.
— As apostilas estão no armário — disse Kevin.
— Você nunca esteve numa sala de aula antes, né? Está totalmente perdida — zombou Sophia.
— No meu tempo, recebíamos a apostila antes de sequer pisar na academia — explicou. — E diferente de você, eu tive a nota mais alta da classe — retrucou.
— Desde que alguns novatos foram sequestrados ano passado, ficou proibido que os materiais saíssem da academia — informou um aluno.
— Entendi. De qualquer forma, isso não importa — disse indo até o armário fechado com uma chave. — Enquanto isso, todos os outros abram a apostila aonde falei.
Quando ela abriu o grande armário, Noah, que esperava, ficou surpreso com o que tinha ali dentro, pois não esperava ver pistolas, revólveres, granadas e outros armamentos que cabiam ali por serem de pequeno porte, além de equipamentos básicos usados no exército, como capacetes, uma bolsa de remédios, meias, coletes, uma bolsa d’água, um cantil, um poncho, alguns kits para limpar armas, luzes química e um toldo.
Ficava tudo apertadinho ali dentro, mas quando guardados da forma correta e no espaço separado para cada coisa, tudo cabia perfeitamente. O único espaço com materiais escolares era a pequena prateleira que ficava em cima de tudo.
Com a apostila finalmente em mãos, a aula começou de verdade, e quase duas horas só falando sobre sobrevivência se passaram, uma aula extensa, contudo, fluida, que começou com uma simples pergunta, com a intenção de testar o conhecimento básico de cada um na sala sobre o tema do dia:
“Agora que todos têm a apostila, quero que me digam… O que vocês gostariam de ter em mãos se estivessem presos na mata? — perguntou Kelly, ainda inquieta, não parando por muito tempo no mesmo lugar”.
A resposta mais inusitada foi a de Noah, que escolheu uma machadinha, pelo fácil manuseio, a sua resistência e versatilidade. E após ouvir todas as respostas ela complementou, explicou desde a melhor maneira de se fazer uma fogueira, de saber qual direção está seguindo, de como encontrar água, até qual a melhor escolha a se fazer quando diante de uma situação difícil, como enfrentando algum predador, ou pior, outro ser humano.

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