Os seus últimos dias em casa foram tão curtos. Dividindo seu tempo entre ir para a biblioteca estudar, treinar sua meditação com Marcus (que ainda não deu certo) e passar tempo com sua irmã mais nova, Ulisses ainda sentia que o dia não conseguia comportar todas as suas tarefas e, devido a isso, tinha pouco tempo para aproveitar e ficar um pouco sozinho, pensando nos seus próximos passos. Apesar disso, não deixou que seu tempo atarefado o colocasse para baixo, continuava firme na sua tarefa.

    Mesmo na correria para arrumar tudo para sua viagem com Marcus, Ulisses fazia o possível para fazer companhia para a sua irmã, passando seu tempo com ela para que não se sentisse triste com a sua partida. Quando ela percebeu que o dia da viagem estava chegando, o seu rosto mostrava seu desânimo. Ela tentava esconder, mas seu irmão percebia que ela estava triste.

    Como seu professor havia dito, os empregados haviam feito uma mochila com apenas o essencial. Pensando agora, na jornada que iria acontecer no dia seguinte, tudo chegava como uma onda enorme e fazia o corpo do garoto estremecer com hesitação e um pouco de curiosidade. O que poderia acontecer nessa viagem ou o que iria encontrar? Não sabia ao certo, iria descobrir no dia seguinte, mas, devido a esses pensamentos, Ulisses não conseguiu dormir direito.

    Antes mesmo dos primeiros raios de sol aparecerem, o garoto já estava de pé, com sua roupa mais confortável e sua capa, pronto para o que viesse a seguir. Como seu professor disse que iriam sair cedo, teve certeza de levantar o mais cedo possível, Poderia chutar que eram 4 horas da manhã, mas isso não era impressionante, afinal, tinha acostumado a acordar cedo na sua vida passada, principalmente no tempo em que encontrou um trabalho bem longe da sua casa e, devido a isso, tinha que pegar dois ônibus. Por esse motivo, acordava cedo para chegar no trabalho no horário certo.

    Como tudo já estava arrumado, era só esperar o professor Marcus acordar e dizer que era hora de partir para o reino dos elfos. “Agora tudo realmente começa”, ele pensava, afinal, esse era o início da sua jornada para mudar seu destino da novel, de ter seu próprio final.

    Teve que esperar um pouco, mas logo o sol apareceu. O mordomo o chamou cedo para ir até a sala de estar. Quando desceu, pôde ver seus pais e sua irmã. Até percebeu que Ellie estava esfregando os olhos e bocejando, provavelmente havia acordado cedo sem estar acostumada, apenas para se despedir dele. O pensamento fez um pequeno sorriso surgir no canto da boca de Ulisses.

    — Chegou o dia, Lisses — Haru suspirou — e devo dizer que estou mal por deixá-lo sair de casa tão cedo.

    — Não se preocupeé por uma boa causa — Ulisses usou seu tom de voz mais tranquilo para passar a impressão de que estava tudo bem, mesmo que por dentro um misto de sentimentos o inundasse.

    — Se em algum momento quiser voltar, apenas volte. — Eduina sorriu para ele. — Essa é sua casa e sempre vamos encontrar um jeito de consertar as coisas.

    — Obrigado… mãe… 

    — Irmão… vou sentir saudades… — Ellie abaixou o olhar, tentando conter suas lágrimas.

    Ulisses sorriu suavemente e se aproximou da irmã, segurando seus ombros, tentando confortá-la.

    — Está tudo bem, Ellie… eu sempre irei voltar para nossa casa.

    Ellie não conseguiu aguentar. Ela apenas o abraçou com força e começou a chorar, se agarrando a ele como se, caso soltasse, poderia sumir para sempre. considerando a fragilidade da irmã, Ulisses apenas a abraçou de volta e sussurrou em seu ouvido, para que apenas ela escutasse:

    Na minha ausência, continue estudando. Quando eu voltar, quero que me conte tudo que aprendeu.

    Ellie ficou um pouco surpresa com as palavras do irmão, mas, por algum motivo, aquilo foi reconfortante. Ele dizia que iria voltar para ver o quanto tinha evoluído. Mais do que isso, seu irmão disse que sempre iria voltar para casa e soou como uma promessa calorosa ao seu coração.

    Ao se separarem, Ellie tentou limpar as lágrimas com suas pequenas mãos. Tinha que ser forte, assim como seu irmão. Ela iria dar orgulho a ele, tinha que acreditar que Ulisses iria cumprir suas palavras, assim como os seus pais acreditavam nele.

    — Pode deixar. — Ela tentou sorrir.

    — Fico feliz por isso, Ellie.

    Ele não sabia muito bem o que estava sentindo naquele momento. Era como estar se desfazendo de um pedaço do seu corpo. Se ele pensasse como Eddie, não haveria razão para ele sentir saudades das pessoas à sua frente, pelo fato de que aquela família não era dele, e sim do verdadeiro Ulisses. Na sua vida passada, nunca teve que se despedir de ninguém ou pensar que alguém estaria o esperando em algum lugar, mas agora era diferente e, por algum motivo, era bem caloroso ter um lugar para voltar, saber que havia pessoas o esperando, mesmo que elas não soubessem a verdade sobre ele não ser quem pensavam que era.

    — Que momento lindo em família. — Marcus soltou um pequeno riso, descendo as escadas.

    — Não seja bobo, Marcus. — Eduina olhou para ele. — E tenha certeza de cuidar bem de Ulisses.

    — Não se preocupe, quando menos esperar, ele estará de volta — disse Marcus com um tom confiante.

    — Eu espero mesmo — comentou Haru.

    — Haha! Vou cuidar bem dele — disse Marcus com convicção, enquanto se virava e andava na direção da porta da frente, sem nem dizer para Ulisses o seguir. Não precisava, pois sabia que ele iria até ele em breve, já que precisava de mais alguns segundos para se despedir da família.

    Marcus não estava errado em seu pensamento. Os olhos de Ulisses seguiram as costas do professor e logo soube que teria que ir atrás dele para poderem começar a grande jornada até Isclaris. Com um suspiro suave, os olhos azuis do garoto voltaram para seus pais e sua irmã, que olhavam para ele com uma mistura de sentimentos. Ver seus pais preocupados e sua irmã com seus olhos vermelhos de tanto chorar fez o algo dentro de Ulisses se contorcer.

    — Estamos orgulhosos de você, filho… — disse Haru. — Tenha uma boa viagem.

    — Obrigado… 

    — Se algo acontecer, por favor — começou Eduina — volte para casa imediatamente!

    — Hum! Eu vou sim. — “Mas, ao voltar, estarei forte” , pensou ele.

    — Querida. — Haru apertou delicadamente o ombro da sua esposa. Foi um ato pequeno, mas que fez o corpo de Eduina relaxar um pouco. — Ele vai ficar bem… 

    Ulisses até pensou em dizer algo mais, porém sentia que não seria bom. Se essa conversa continuasse, os seus pais poderiam desistir dos planos. Olhou novamente para Ellie e piscou para ela, como se estivesse dizendo que voltaria logo para casa. Com isso, sorriu uma última vez para sua aquelas pessoas e se virou, começando a andar na direção da porta.

    Cada passo parecia o levar mais perto do seu verdadeiro objetivo. Iria ganhar aquele Abate de Sangue e se tornar um aventureiro, para conseguir evitar a protagonista e todos que estariam à sua volta. O enredo original não iria ganhar e ele teria a certeza de que sua própria história iria começar em algum momento, e iria se certificar disso. 

    Agora seria apenas o começo para algo grande.

    “Stelle, espero nunca te conhecer…” pensou o garoto, com um sorriso sutil aparecendo em seus lábios.

    Como Haru não teve coragem de ver seu filho sair pelos portões da propriedade, apenas o viu sair pela porta da frente, suas costas sumindo ao ter a entrada fechada, mas pensou que deveria dar a Ulisses sua confiança e isso fez um sorriso suave aparecer no rosto de Haru.

    No momento que escutou a porta fechar atrás de si, Ulisses respirou fundo e caminhou até os dois cavalos que estavam esperando, com Marcus já devidamente montado nas costas do animal. O professor seguiu o garoto com os olhos e decidiu brincar com ele, apenas um pouquinho.

    — Vamos, sobe aí! — Marcus apontou para suas costas.

    — Eh? — Ulisses olhou para o professor com uma certa confusão. — O que quer dizer com isso? Não vou ter meu próprio cavalo?

    — Garoto, você nem consegue alcançar na pedaleira. No máximo, você vai cair no chão igual madeira velha e vai quebrar. — Marcus soltou um riso. — Dito isso, aposto que nem sabe montar a cavalo… ou estou errado?

    — A-ah… b-bem… — Ulisses coçou a nuca.

    De fato, seu professor não estava errado em nenhum sentido da frase. Ele realmente não sabia montar e nem sabia o motivo de pensar que poderia ter seu próprio cavalo. Afinal, na sua vida passada não tinha motivos para aprender e, nessa vida… bem, não teve nem tempo ou sequer tinha um professor para o ensinar. Isso o fez se sentir horrível.

    — Se sua mãe souber que eu deixei seu filhote se quebrar ao meio, ela me mata, então vamos colaborar.

    Ulisses soltou um suspiro, mas, ao analisar a situação, um ponto de interrogação apareceu em cima da sua cabeça e uma pergunta logo surgiu.

    — Ei, então por que tem dois cavalos, cabeção?

    — Ele é seu.

    — Ah? Então por que… 

    — Você só vai andar nele até aprender a não cair de cima do cavalo como fruta podre. Até isso acontecer… ele vai ser usado para carregar nossas coisas.

    — Ah, entendi… — Ulisses revirou os olhos para o insulto gratuito que recebeu. — Só deveria parar de me xingar.

    — Eu não estou te xingando.

    — Sei.

    — Só suba logo!

    De certa forma, mesmo que não quisesse admitir, Ulisses sabia que essa era a melhor opção, ao menos por enquanto. Marcus até percebeu um certo desagrado no garoto, mas apenas soltou uma risada e o ajudou a subir no cavalo. Às mãos do filho mais velho da casa Urion seguraram o professor e ele até escutou Ulisses suspirar de desagrado.

    — Segure isso. — O professor entregou a rédea do segundo cavalo para Ulisses e o garoto apenas o segurou com uma das mãos.

    Marcus não disse mais nada, apenas continuou rindo por dentro, achando tudo aquilo bem divertido. Com seu comando, o cavalo começou a andar, o segundo cavalo começou a andar também. 

    Conforme passavam pelos grandes portões da propriedade Urion, Ulisses não pôde deixar de olhar para trás, vendo a grande e bonita casa da família ficar cada vez mais para trás, mais longe a cada passo que o cavalo dava. Isso lhe causava uma sensação estranha no peito.

    Do lado de dentro, Haru ainda sentia sua determinação vacilar um pouco, com seus pensamentos dizendo que ainda dava tempo de sair para fora e impedir que seu filho fosse para longe, mas logo balançou a cabeça, afastando todo aquele pensamento. Isso só faria sua dor ganhar, então decidiu colocar sua atenção na família, especialmente Ellierin, que tentava parar de chorar e nem mesmo Eduina conseguia ajudar direito, mesmo com palavras reconfortantes.

    — Querida, se chorar te faz se sentir bem, então não precisa para tão já. — Haru acariciou seus cabelos.

    — Eu… eu  só queria… p-parecer forte… — Ellie tentou falar, mas sua voz saiu embargada.

    — Não precisa se forçar tanto… — Eduina sorriu suavemente para a filha. — Todos nós estamos tristes pelo seu irmão, mas temos que acreditar que ele logo voltará para casa.

    — Eu… eu sei… 

    Bem, Haru sabia que tanto ele quanto sua esposa estavam bem preocupados com Ulisses e só de pensar em vê-lo sozinho naquele longo caminho já deixava um gosto amargo na boca.

     Mesmo com muita angústia, sabiam que o melhor era confiar que tudo iria dar certo no final e que Ulisses  logo iria voltar para eles, para casa. Marcus estava com ele e o professor havia feito um juramento, mostrando o quanto ele estava falando sério em fazer o possível para proteger Ulisses até chegar no reino dos elfos.

    Era manhã e a brisa fresca entrava pelas janelas. Pensando um pouco, o patriarca da família percebeu que essa ida do seu filho era bem parecida na manhã em que saiu de casa para ser um aventureiro. A única diferença era a idade. Enquanto ele próprio saiu de casa no auge dos seus 20 anos, Ulisses tinha apenas nove, e esse detalhe não passou despercebido por ele. 

    Haru não acreditava muito na Deusa do continente de Malinis, mas por um momento, desejou que ela protegesse o seu filho de todo mal que ele  encontrasse no caminho, seja pequeno ou muito grande, qualquer ameaça que Ulisses não conseguisse lidar, Haru queria que alguém o deixasse vivo para que ele voltasse para casa, para eles, sua família.

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