Índice de Capítulo

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    CAPÍTULO ANTERIOR:

    Até que—

    Ele reconheceu.

    A pressão simplesmente desapareceu, como se jamais tivesse existido. O brilho assassino se dissipou, seu olhar suavizou, e um sorriso surpreso surgiu lentamente em seus lábios.

    — …Kael?

    À sua frente, o comandante se revelava por completo, os cabelos agora grisalhos, o corpo robusto marcado pelo tempo e pelas batalhas.

    — Há quanto tempo… Elian.


    O ambiente ao redor ainda tremulava com os resquícios das pressões recém-libertas.

    Copos congelados, luzes piscando e o ar pesado demais.

    Mas, entre os dois, o mundo parecia ter parado.

    Havia apenas respeito.

    Elian levou a mão ao capuz, abaixando-o.

    Sua postura se mantinha rígida, porém, o olhar carregava algo próximo da nostalgia.

    — Eu… nunca imaginei te ver aqui, comandante. — sua voz saiu firme, mas havia admiração genuína em cada sílaba.

    No mesmo instante, a garota ao seu lado estreitou o olhar.

    — “O Elian chamou esse cara de comandante com um linguajar formal? E ainda por cima… essa cor que eu vejo nele…”

    O ciano cortante que sempre envolvia Elian havia se aprofundado.

    Já não era gelo.

    E sim o próprio oceano.

    Azul denso, silencioso… afundado em respeito.

    Uma inquietação laranja queimou no peito dela, subindo pela garganta como brasa mal apagada.

    — “Quem… quem caralhos é esse cara?”

    Kael soltou uma breve risada.

    Arrastou um banco para perto e se sentou diante do balcão.

    Apoiou os cotovelos sobre a bancada, com calma.

    — Digo o mesmo de ti. — respondeu. — Pensei que tivesse superado esse víci—

    — Epa, epa! — a voz de Diana cortou a conversa. Ela avançou um passo à frente, cruzando os braços. — Primeiro vocês quase destroem tudo… e depois se sentam como se nada tivesse acontecido!?

    Seus olhos percorreram Aya de cima a baixo.

    E então se voltaram.

    Pararam no homem logo à frente de Elian.

    Kael.

    O dourado que o envolvia voltou a se destacar diante de seus olhos.

    Não era como o das medalhas da Escola Ignis.

    Muito menos como o brilho vaidoso de combatentes exibidos.

    Era profundo e sincero.

    — Quem são vocês? — continuou, agora apontando discretamente para ambos. — E de onde conhecem o Elian!?

    Moreau fechou os olhos por um instante.

    Soltou um suspiro longo e pesado.

    — Mais respeito, Diana. — disse, abrindo os olhos novamente e encarando-a com seriedade.

    O dourado do homem diante dela não oscilou nem mesmo por um segundo.

    E isso, a incomodava ainda mais.

    — E desde quando tu te dá ao trabalho de me falar sobre respeito?

    Elian virou o corpo levemente, posicionando-se em frente a garota.

    — É porque esse homem à tua frente… — as palavras carregavam ainda mais peso do que as anteriores. — é Kael Dragan.

    O nome ecoou.

    E, para Diana, o mundo mudou de cor.

    — O Pináculo da Força de Áurea.

    O dourado explodiu como o sol nascente surgindo na escuridão do universo.

    O salão VIP inteiro do Domo Três mergulhou em um silêncio absoluto.

    Os murmúrios sobre o ocorrido cessaram de imediato.

    Até mesmo o bartender, que ainda segurava o copo destinado a Elian, deixou-o escapar.

    O vidro escorregou de seus dedos, fragmentando-se no chão.

    Olhares congelaram no ar.

    Mas o de Diana… tremeu.

    Um arco-íris atravessou suas pupilas, cores conflitantes se chocando em frações de segundo, até que todas foram engolidas por um amarelo pálido.

    O medo.

    Seu corpo recuou um passo.

    — P-p-pera… é… sério mesmo…?

    Ela balançava as mãos à frente do corpo, como se negar a verdade.

    — Sim. — sentenciou Elian, sem hesitar.

    O rosto da garota empalideceu no mesmo instante.

    Seu corpo começou a tremer sem parar.

    Em um movimento desgovernado, Diana recuou passos curtos e tortos, na direção da primeira silhueta onde poderia usar de escudo.

    E mais um passo.

    E outro.

    Quando percebeu, já estava atrás de Aya, usando a garota de escudo.

    Seus dedos se fecharam levemente no tecido das costas da garota, como se buscasse algum tipo de proteção.

    — N-não, não… isso não pode tá acontecendo… — murmurou rápido demais. — Eu vou morrer. Eu tenho certeza que eu vou morrer.

    Aya piscou, surpresa com o contato.

    Virou levemente o rosto, olhando de canto para ela.

    — …Por que você está atrás de mim?

    — Fica quieta! — sussurrou Diana, desesperada. — Se a gente não fizer contato visual, talvez ele esqueça que a gente existe!

    Aya franziu o testa, confusa.

    — …Isso não faz sentid—

    — Shhh! — insistiu Diana, apertando mais o tecido. — Eu tenho um plano!

    Aya permaneceu em silêncio por um segundo.

    Claramente sem saber como reagir.

    — Plano?

    — Sim… eu o chamo de… IMPLORAR POR SUA VIDA!

    Em um movimento abrupto, ela se curvou profundamente diante do comandante.

    — Peço minhas mais sinceras desculpas! Isso não irá se repetir! Por favor… — a voz falhou no meio da frase. Seus olhos se encheram de lágrimas, trêmulos e frágeis demais para alguém que minutos antes enfrentava o salão inteiro. — Não me mate!

    — Não… matar? — murmurou Aya, genuinamente confusa. — Por que ele faria isso?

    Kael apoiou o queixo sobre a mão, observando a cena com curiosidade.

    Diana Sonari — disse ele, em tom sereno. — Trazida para Áurea pela Aura, tornou-se estudante da Escola Ignis e, em pouco tempo, foi classificada como uma das Sex Lux Cras… jovens com potencial para, no futuro, alcançar o topo da hierarquia de força dos Kaelums.

    A expressão da garota mudou instantaneamente para a mais pura surpresa.

    Um branco vibrante e vivo.

    — Você… sabe quem eu sou? — perguntou, erguendo o corpo aos poucos, ainda brevemente escondida atrás de Aya.

    — É claro que sei. — respondeu Kael, com naturalidade. — Ouvi dizer que você fez um belo espetáculo ao lado de Victor na semifinal do Festival da Forja, no ano passado. Mesmo com a derrota, consolidou seu nome de forma definitiva entre os maiores potenciais da nova geração.

    Ele fez uma breve pausa.

    — Foi ali que o título deixou de ser Quinque Lux Cras… e passou a ser Sex Lux Cras.

    Os olhos da garota brilharam imediatamente.

    O medo começou a perder força.

    Um rosa vibrante surgiu em seu peito.

    — É uma honra ser reconhecida e elogiada pelo grande Pináculo da Força de Áurea! — brandou orgulhosa, dando um passo à frente, deixando a proteção de Aya para trás.

    Kael a observou por um instante.

    O semblante sereno não mudou.

    Mas algo em seu olhar se tornou mais afiado.

    — Contudo…

    O rosa evaporou.

    — H-hã?

    — Há algo que realmente me irritou.

    A leveza desapareceu tão rápido quanto surgira. Carregando consigo um breve brilho carmesim.

    — O que te fez pensar que eu mataria alguém por meras palavras?

    O estômago dela gelou.

    Verde doente misturou-se ao amarelo pálido novamente.

    — A-ah, sobre isso… eu… eu só supus! É isso! — disse rápido demais, desviando o olhar enquanto a voz saía trêmula. — Foi coisa da minha cabeça! Nada externo! Ninguém falou absolutamente nada de você! Especialmente a Aura! Ela jamais diria que você é do tipo que… que… estrangula qualquer pessoa que olha torto pra você!

    Kael piscou lentamente.

    — Eu nem falei da Aura… — cochichou.

    O mundo perdeu a saturação.

    As cores murcharam ao redor dela.

    E, por um segundo, tudo ficou cinza.

    — A… é? N-não falou? — soltou uma risada amarela demais para parecer natural. — Q-quer dizer… eu também não falei! Foi só uma hipótese ilustrativa! Um exemplo! Totalmente… aleatório!

    O silêncio se alongou.

    — Você sabe que está tremendo, né? — observou Kael.

    — Eu? Imagina! — respondeu, escondendo as mãos atrás das costas. — Isso aqui é… é uma doença que eu tenho! Chamada… chamada tremulitite!

    Por um segundo, o dourado ficou absolutamente puro.

    — “Ja está obvio que foi a Aura.” — pensaram Elian e Aya ao mesmo tempo.

    — Entendo… bom saber. Vou me certificar de conversar com a Aura sobre essa… doença. — Os olhos do Pináculo brilharam em fúria.

    O silêncio que se seguiu tornou o ar pesado.

    Um fio rubro atravessou o ouro do comandante.

    Diana sentiu a espinha gelar.

    Seu sorriso forçado tremia em tons desbotados.

    Ela juntou as mãos à frente do corpo, tentando parecer convincente.

    — E-eu posso… participar dessa conversa? — perguntou com uma risada fraca que não convenceu ninguém. — S-só pra… mediar. Evitar algum… mal-entendido…

    Quando os olhos furiosos de Kael deslizaram lentamente até ela, Diana percebeu o erro.

    O vermelho sangue engoliu por completo a aura tranquila anterior.

    Ela deu um passo para trás.

    — Ou… pensando bem… confio plenamente na sua capacidade de diálogo.

    E, pela primeira vez desde que abrira a boca, decidiu que talvez o silêncio fosse sua melhor estratégia.

    — Hunpf. — Kael limpou a garganta, descruzando os braços. — Voltando ao assunto… você não tinha parado com esse vício, Elian?

    Elian desviou o olhar por um instante. Os olhos frios perderam parte da firmeza.

    — Bem… sim. — respondeu baixo. — Mas eu… acabei recaindo.

    Kael inclinou levemente a cabeça, analisando-o.

    — Entendo. — fez uma breve pausa. — Mas por que começou a lutar em vez de apenas apostar, como fazia antes?

    Elian abriu a boca para responder.

    Nenhuma palavra saiu.

    A mandíbula travou.

    — Eu… bem…

    Diana ergueu a mão como se estivesse em sala de aula.

    — O Elian nunca conseguiria explicar tamanha vergonha para você, a quem ele admira tanto. — disse, voltando instantaneamente ao modo tagarela colorida. — Então eu explico.

    Elian fechou os olhos, já prevendo o desastre.

    Diana apontou para ele com o polegar.

    — Ele perdeu todo o dinheiro. Casa, carro… tudo. Aí teve a brilhante ideia de pegar dinheiro emprestado com um agiota pra ajudar ele.

    Aya arregalou levemente os olhos.

    — Só que ele perdeu tudo de novo. — continuou Diana, gesticulando ainda mais, parecendo até… animada. — E como não tinha como pagar a dívida, o agiota decidiu que o Elian ia lutar nesse campeonato em duplas pra ganhar a premiação e quitar o valor.

    Kael apoiou o queixo na mão, atento.

    — Entretanto — ela levantou um dedo — todos os parceiros dele teveram certos… “probleminhas”.

    Elian coçou a nuca, claramente irritado.

    — Como resultado, ele teve que lutar até a semifinal sozinho. — Diana suspirou. — Só que já avisaram que é impensável ele disputar a final sem dupla. E, se não arranjar alguém até lá… vai ter que continuar lutando até vencer o próximo torneio em duplas.

    Kael soltou um suspiro lento.

    — Já consigo imaginar o que aconteceu…

    Diana estalou os dedos.

    — Exatamente. Como o Elian virou praticamente uma celebridade aqui, atraindo apostadores e enchendo o lugar, eles estão sabotando qualquer um que tente formar dupla com ele.

    Aya franziu a testa.

    — Sabotando… como?

    — Ameaças. Subornos. Desclassificações “acidentais”. — Diana fez aspas com os dedos. — Tudo para impedir que ele lute a final… e manter a máquina de apostas girando. Então ele próprio já desistiu de conseguir uma dupla nessas condições.

    Um silêncio pesado pairou por um instante.

    Aya fechou os punhos.

    — Que bando de covardes… — murmurou.

    Kael permaneceu em silêncio.

    Mas, pelo leve estreitar de seus olhos, ficou claro que alguém acabara de cometer um erro grave.

    — Entendi. E você? Por que está aqui com ele?

    Diana passou a mão pelos próprios cabelos, suspirando antes de falar.

    — Bem… depois que a Aura me trouxe pra Áurea, digamos que ela fez do Elian o meu “professor particular de combate”. E agora eu tô aqui pra tentar substituir a dupla dele.

    Elian cruzou os braços, com o rosto sério.

    — Só que ele recusou completamente todas as vezes que me ofereci. — continuou Diana, revirando os olhos. — Disse pra não me envolver nisso, que esse é um problema dele, e blá blá blá…

    — Porque é. — murmurou Elian, seco. — Seria errado te colocar em perigo por minha irresponsabilidade.

    Kael observava os dois em silêncio, avaliando cada reação.

    — Certo… — disse por fim, com calma.

    Diana então se inclinou sobre o balcão, aproximando-se de Kael com um brilho perigoso de ideia surgindo nos olhos.

    — Então, Kael… você não poderia ser a dupla dele?

    Aya virou o rosto imediatamente para o comandante.

    Elian congelou.

    O silêncio que se seguiu foi breve, mas pesado.

    Kael descruzou os braços lentamente.

    — Como Pináculo de Áurea, participar de lutas clandestinas seria falhar com minhas funções… e com meus ideais.

    Ele apoiou uma das mãos sobre a bancada, a postura relaxada, bem diferente da firmeza em sua voz.

    — Além disso, mancharia a reputação atual dos membros da Trion.

    Diana inclinou a cabeça.

    — Mas você não poderia abrir uma exceção, só dessa vez?

    Kael soltou um suspiro quase cansado.

    — Ainda que eu quisesse… eles não permitiriam minha entrada.

    — Como assim? — perguntou Aya.

    O olhar de Kael se tornou mais frio.

    — Já tentei derrubar este lugar inúmeras vezes. — respondeu de forma simples. — O fato de ele ainda existir não é por falta de esforço da minha parte.

    Diana piscou, surpresa.

    Kael continuou:

    — Eles permanecem ativos porque possuem influência política suficiente para dificultar qualquer ação direta. E, principalmente… porque a força de combate deles, considerando todos os membros da casa, é formidável até mesmo dentro de Áurea.

    Aya arregalou os olhos.

    — Tudo isso… por causa de um clube clandestino?

    — Um confronto aberto causaria mortes desnecessárias. — completou Kael. — E eu não estou disposto a sacrificar vidas por orgulho.

    Ele fez uma breve pausa.

    Então concluiu, com uma naturalidade que chegava a ser irônica:

    — Resumindo… todos os donos daqui me odeiam profundamente.

    Diana levou a mão ao queixo, pensativa.

    Percebendo a sinceridade no azul que emanava de suas palavras.

    — Ah… então tá explicado.

    Kael passou a mão pela própria nuca, pensativo.

    — Nosso objetivo aqui era recrutar o Elian para uma missão… — disse, olhando de relance para ele. — Mas, considerando isso, não sei se será possível.

    Elian abaixou o olhar imediatamente.

    Os ombros, antes firmes, cederam de pouco em pouco.

    — Me desculpe… comandante…

    Antes que pudesse continuar, uma voz alta e exageradamente animada ecoou pelo salão VIP.

    — Ótimo espetáculo como sempre, Elian!

    Um homem gordo, de sorriso grande demais para parecer sincero, aproximava-se acompanhado de dois guardas músculosos. Seu terno apertado parecia lutar contra o próprio corpo.

    — Vejo que ainda não conseguiu uma dupla, não é mesmo?

    Os olhos de Elian e Diana se viraram na mesma hora em direção a voz, cheios de raiva.

    Antes mesmo de encarar o rosto dele, Diana viu a cor.

    Não era quente como o dourado de Kael.

    Nem fria como o ciano de Elian.

    Era nojenta. Um verde gorduroso que parecia escorrer pelo ar, espesso e viscoso, como ranho.

    — Roderick, seu desgraçado! — explodiu Diana, avançando sem pensar. — Claro que ele está sem dupla! Foi você quem armou pra ele, seu ranhento maldito!

    Os dois guardas se moveram simultaneamente, bloqueando o caminho.

    Elian segurou o antebraço dela, firme, e balançou a cabeça em negativa.

    O homem levou a mão ao bigode grande e curvado, alisando-o com satisfação.

    — Hohoho… realmente não faço ideia do que você está insinuando. — Seu sorriso se alargou. — Mas é mesmo uma pena. A final começa em meia hora.

    Ele abriu os braços teatralmente.

    — Como você não conseguiu uma dupla… infelizmente terei de cancel—

    Eu.

    A doce voz cortou o ar como uma lâmina.

    O salão inteiro ficou em silêncio.

    Todos os olhares se voltaram para Aya.

    Ela estava imóvel.

    Os olhos roxos firmes e decididos.

    — Eu serei a dupla dele.

    Diana piscou, surpresa.

    — Aya, isso é impensável! — Kael segurou o braço dela imediatamente. — Você pode acabar morrendo!

    — E o que tem?

    Aya puxou o braço de volta, encarando-o diretamente.

    — Se nós formos até Vallheim Vestrak sem o Elian… minhas chances de morrer não seriam muito maiores?

    Kael ficou em silêncio por um segundo.

    — Ainda assim! — rebateu ele. — Aqui eu não posso interferir! Mesmo se você estiver à beira da morte, não tenho como agir!

    Aya não desviou o olhar.

    Não hesitou.

    — Se precisamos do Elian para resgatar o Louie… então eu farei o que for preciso.

    O salão VIP permaneceu em silêncio.

    Mas, pela primeira vez desde que chegara ali, o sorriso do homem do bigode desapareceu.

    Os olhos pequenos se estreitaram.

    Mas o olhar de Aya não recuou.

    — Então… eu serei a dupla dele.

    Um murmúrio atravessou o salão, baixo e inquieto.

    Kael virou o rosto, sentindo um aperto inesperado no peito.

    Ela estava certa.

    Sem Elian, as chances de resgatar Louie despencavam drasticamente.

    Era simples.

    Então por que a ideia de vê-la naquela arena o incomodava tanto?

    Ele fechou os olhos por um instante.

    — “Eu sei que é a melhor opção…” — murmurou, o olhar perdido em confusão. — “Então por que eu…?”

    O pensamento morreu antes de se completar.

    Agir assim não era do seu feitio.

    E era isso que o incomodava.

    Soltou um breve suspiro, ainda perturbado consigo mesmo.

    Porém, quando enfim abriu os olhos novamente, o comandante estava de volta.

    — Certo… eu libero sua participação.

    O homem gordo estalou a língua, ajeitando o paletó apertado sobre a barriga.

    — Humpf. — Seu olhar desceu sobre ela com desprezo. — Pirralha… você só pode estar querendo morrer mesmo.

    Deu alguns passos lentos à frente, os sapatos ecoando contra o chão polido.

    — Os Abutres Carniceiros não são considerados os reis do Hexacúpula por nada. — ergueu um dedo grosso no ar. — Ninguém aqui conseguiu derrotá-los desde que chegaram.

    Elian sustentou o olhar, mas permaneceu em silêncio.

    — Até mesmo Elian teria dificuldade se lutasse sozinho dentro das regras da arena… — continuou o homem, com um sorriso malicioso retornando aos poucos.

    Ele inclinou o corpo para frente, encarando Aya de cima abaixo.

    — Porém, com uma pirralha dessas… ele só vai ganhar um peso morto para tentar proteger.

    Diana cerrou os dentes.

    Kael observava, serio.

    O homem abriu os braços teatralmente.

    — Isso vai ser ainda mais interessante! — exclamou, rindo. — Ver a derrota de vocês dois… vai ser incrível.

    O salão reagiu com risadas nervosas e cochichos.

    Elian deu um passo à frente, posicionando-se levemente à frente de Aya.

    Mas, por trás dele, os olhos roxos da garota não demonstravam medo.

    Apenas determinação.

    — Veremos, então… do que vocês são capazes. — finalizou o homem gordo, ajeitando o bigode com um sorriso travesso.

    Ele lançou um último olhar carregado de desprezo para Elian e Aya.

    Em seguida, girou nos calcanhares.

    O paletó estalou sob a tensão do movimento enquanto ele caminhava em direção à saída.

    Os dois guardas o acompanharam imediatamente, abrindo caminho entre as mesas.

    A porta do salão VIP se fechou com um som seco.

    O silêncio que ficou para trás era muito mais tenso do que antes.


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    FRAGMENTO HISTÓRICO ?:

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                      ⟬ ARQUIVO DE ESTÁGIO 1 — Nº 012

               Diário pessoal — Observações

            Autor: Marek Aurellum — Ano XL após a morte de Cristo.

    (Documento confidencial. Extraído dos registros centrais da OPKM.)

    Originalmente compilado por Marek Aurellum no quadragésimo ano após a morte de Cristo, como parte da obra “Crônica de Um Poder que Não Compreendo”.

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    𐌌 Escrevo estas linhas após finalmente conversar com a mulher que nos trouxe para este abrigo.

    Seu nome é Livia.

    Ela não pertence a este lugar. Segundo me contou, é uma viajante, uma dessas pessoas que percorrem caminhos longos sem se prender por muito tempo a qualquer cidade ou assentamento. Segue as rotas quando pode, permanece onde é seguro quando precisa.

    A presença dela nesta caverna começou alguns dias atrás.

    Foi logo antes do grande ciclone que atravessou esta região. Quando a fúria finalmente cessou, as trilhas tornaram-se perigosas demais para continuar viagem imediatamente.

    Foi por essa razão que ela escolheu esta caverna.

    Um abrigo temporário até que os caminhos voltassem a ser transitáveis.

    Segundo seu relato, no mesmo dia em que o ciclone terminou ocorreu o primeiro acontecimento estranho.

    Pouco tempo depois de o vento finalmente se acalmar, um estrondo ecoou pela entrada oposta da caverna. O som de pedras sendo dilaceradas, como se a própria rocha estivesse sendo forçada a ceder por algo além de sua natureza.

    Ao dirigir-se até lá para averiguar, deparou-se com a cena.

    Um homem surgiu diante da entrada.

    Atrás dele, a parede encontrava-se marcada por cortes profundos e descontrolados, sulcos irregulares que não seguiam padrão algum, apenas a violência de algo que abriu passagem à força.

    Ele estava gravemente ferido.

    Cortes profundos marcavam seu corpo e seu estado era alarmante. Ainda assim, encontrou forças para falar algumas palavras antes de desmaiar.

    Disse apenas que precisava fugir.

    Disse que aquilo o encontraria.

    Não houve mais explicações.

    Não por recusa.

    Não por omissão deliberada.

    Mas porque, logo após pronunciar tais palavras, perdeu os sentidos.

    Livia decidiu ajudá-lo. Trouxe-o para dentro e tratou suas feridas da melhor forma que pôde, utilizando ervas e tecidos que possuía.

    Desde então, ele permanece aqui, o mesmo homem que agora repousa na terceira cama improvisada desta caverna.

    Ainda não despertou desde que cheguei à consciência.

    O relato dela termina ali por enquanto.

    Lucanus também continua inconsciente, embora sua respiração tenha se estabilizado.

    Quanto a mim, restam mais perguntas do que respostas.

    Continuarei registrando assim que houver novas informações.

    Assinado: Marek Aurellum.

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                          FIM DO FRAGMENTO

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    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
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