Índice de Capítulo

    Para todos os leitores de O que eu deixei para trás?, passem nos capítulos extras!

    Como eles estão sendo adicionados agora, no bloco após o Volume 2, não tenho certeza se as notificações estão chegando corretamente. Por isso, não esqueçam de dar uma espiada de vez em quando para ver se saiu um capítulo extra novo!

    (E isso vale especialmente para quem já finalizou o segundo volume e está no terceiro agora!)

    CAPÍTULO ANTERIOR:

    Até que—

    Ele reconheceu.

    A pressão simplesmente desapareceu, como se jamais tivesse existido. O brilho assassino se dissipou, seu olhar suavizou, e um sorriso surpreso surgiu lentamente em seus lábios.

    — …Kael?

    À sua frente, o comandante se revelava por completo, os cabelos agora grisalhos, o corpo robusto marcado pelo tempo e pelas batalhas.

    — Há quanto tempo… Elian.


    O ambiente ao redor ainda tremulava com os resquícios das pressões recém-libertas.

    Copos congelados, luzes piscando e o ar pesado demais.

    Mas, entre os dois, o mundo parecia ter parado.

    Havia apenas respeito.

    Elian levou a mão ao capuz, abaixando-o.

    Sua postura se mantinha rígida, porém, o olhar carregava algo próximo da nostalgia.

    — Eu… nunca imaginei te ver aqui, comandante. — sua voz saiu firme, mas havia admiração genuína em cada sílaba.

    No mesmo instante, a garota ao seu lado estreitou o olhar.

    — “O Elian chamou esse cara de comandante com um linguajar formal? E ainda por cima… essa cor que eu vejo nele…”

    O ciano cortante que sempre envolvia Elian havia se aprofundado.

    Já não era gelo.

    E sim o próprio oceano.

    Azul denso, silencioso… afundado em respeito.

    Uma inquietação laranja queimou no peito dela, subindo pela garganta como brasa mal apagada.

    — “Quem… quem caralhos é esse cara?”

    Kael soltou uma breve risada.

    Arrastou um banco para perto e se sentou diante do balcão.

    Apoiou os cotovelos sobre a bancada, com calma.

    — Digo o mesmo de ti. — respondeu. — Pensei que tivesse superado esse víci—

    — Epa, epa! — a voz de Diana cortou a conversa. Ela avançou um passo à frente, cruzando os braços. — Primeiro vocês quase destroem tudo… e depois se sentam como se nada tivesse acontecido!?

    Seus olhos percorreram Aya de cima a baixo.

    E então se voltaram.

    Pararam no homem logo à frente de Elian.

    Kael.

    O dourado que o envolvia voltou a se destacar diante de seus olhos.

    Não era como o das medalhas da Escola Ignis.

    Muito menos como o brilho vaidoso de combatentes exibidos.

    Era profundo e sincero.

    — Quem são vocês? — continuou, agora apontando discretamente para ambos. — E de onde conhecem o Elian!?

    Moreau fechou os olhos por um instante.

    Soltou um suspiro longo e pesado.

    — Mais respeito, Diana. — disse, abrindo os olhos novamente e encarando-a com seriedade.

    O dourado do homem diante dela não oscilou nem mesmo por um segundo.

    E isso, a incomodava ainda mais.

    — E desde quando tu te dá ao trabalho de me falar sobre respeito?

    Elian virou o corpo levemente, posicionando-se em frente a garota.

    — É porque esse homem à tua frente… — as palavras carregavam ainda mais peso do que as anteriores. — é Kael Dragan.

    O nome ecoou.

    E, para Diana, o mundo mudou de cor.

    — O Pináculo da Força de Áurea.

    O dourado explodiu como o sol nascente surgindo na escuridão do universo.

    O salão VIP inteiro do Domo Três mergulhou em um silêncio absoluto.

    Os murmúrios sobre o ocorrido cessaram de imediato.

    Até mesmo o bartender, que ainda segurava o copo destinado a Elian, deixou-o escapar.

    O vidro escorregou de seus dedos, fragmentando-se no chão.

    Olhares congelaram no ar.

    Mas o de Diana… tremeu.

    Um arco-íris atravessou suas pupilas, cores conflitantes se chocando em frações de segundo, até que todas foram engolidas por um amarelo pálido.

    O medo.

    Seu corpo recuou um passo.

    — P-p-pera… é… sério mesmo…?

    Ela balançava as mãos à frente do corpo, como se negar a verdade.

    — Sim. — sentenciou Elian, sem hesitar.

    O rosto da garota empalideceu no mesmo instante.

    Seu corpo começou a tremer sem parar.

    Em um movimento desgovernado, Diana recuou passos curtos e tortos, na direção da primeira silhueta onde poderia usar de escudo.

    E mais um passo.

    E outro.

    Quando percebeu, já estava atrás de Aya, usando a garota de escudo.

    Seus dedos se fecharam levemente no tecido das costas da garota, como se buscasse algum tipo de proteção.

    — N-não, não… isso não pode tá acontecendo… — murmurou rápido demais. — Eu vou morrer. Eu tenho certeza que eu vou morrer.

    Aya piscou, surpresa com o contato.

    Virou levemente o rosto, olhando de canto para ela.

    — …Por que você está atrás de mim?

    — Fica quieta! — sussurrou Diana, desesperada. — Se a gente não fizer contato visual, talvez ele esqueça que a gente existe!

    Aya franziu o testa, confusa.

    — …Isso não faz sentid—

    — Shhh! — insistiu Diana, apertando mais o tecido. — Eu tenho um plano!

    Aya permaneceu em silêncio por um segundo.

    Claramente sem saber como reagir.

    — Plano?

    — Sim… eu o chamo de… IMPLORAR POR SUA VIDA!

    Em um movimento abrupto, ela se curvou profundamente diante do comandante.

    — Peço minhas mais sinceras desculpas! Isso não irá se repetir! Por favor… — a voz falhou no meio da frase. Seus olhos se encheram de lágrimas, trêmulos e frágeis demais para alguém que minutos antes enfrentava o salão inteiro. — Não me mate!

    — Não… matar? — murmurou Aya, genuinamente confusa. — Por que ele faria isso?

    Kael apoiou o queixo sobre a mão, observando a cena com curiosidade.

    Diana Sonari — disse ele, em tom sereno. — Trazida para Áurea pela Aura, tornou-se estudante da Escola Ignis e, em pouco tempo, foi classificada como uma das Sex Lux Cras… jovens com potencial para, no futuro, alcançar o topo da hierarquia de força dos Kaelums.

    A expressão da garota mudou instantaneamente para a mais pura surpresa.

    Um branco vibrante e vivo.

    — Você… sabe quem eu sou? — perguntou, erguendo o corpo aos poucos, ainda brevemente escondida atrás de Aya.

    — É claro que sei. — respondeu Kael, com naturalidade. — Ouvi dizer que você fez um belo espetáculo ao lado de Victor na semifinal do Festival da Forja, no ano passado. Mesmo com a derrota, consolidou seu nome de forma definitiva entre os maiores potenciais da nova geração.

    Ele fez uma breve pausa.

    — Foi ali que o título deixou de ser Quinque Lux Cras… e passou a ser Sex Lux Cras.

    Os olhos da garota brilharam imediatamente.

    O medo começou a perder força.

    Um rosa vibrante surgiu em seu peito.

    — É uma honra ser reconhecida e elogiada pelo grande Pináculo da Força de Áurea! — brandou orgulhosa, dando um passo à frente, deixando a proteção de Aya para trás.

    Kael a observou por um instante.

    O semblante sereno não mudou.

    Mas algo em seu olhar se tornou mais afiado.

    — Contudo…

    O rosa evaporou.

    — H-hã?

    — Há algo que realmente me irritou.

    A leveza desapareceu tão rápido quanto surgira. Carregando consigo um breve brilho carmesim.

    — O que te fez pensar que eu mataria alguém por meras palavras?

    O estômago dela gelou.

    Verde doente misturou-se ao amarelo pálido novamente.

    — A-ah, sobre isso… eu… eu só supus! É isso! — disse rápido demais, desviando o olhar enquanto a voz saía trêmula. — Foi coisa da minha cabeça! Nada externo! Ninguém falou absolutamente nada de você! Especialmente a Aura! Ela jamais diria que você é do tipo que… que… estrangula qualquer pessoa que olha torto pra você!

    Kael piscou lentamente.

    — Eu nem falei da Aura… — cochichou.

    O mundo perdeu a saturação.

    As cores murcharam ao redor dela.

    E, por um segundo, tudo ficou cinza.

    — A… é? N-não falou? — soltou uma risada amarela demais para parecer natural. — Q-quer dizer… eu também não falei! Foi só uma hipótese ilustrativa! Um exemplo! Totalmente… aleatório!

    Ninguém ousou quebrar o vazio que se formou.

    — Você sabe que está tremendo, né? — observou Kael.

    — Eu? Imagina! — respondeu, escondendo as mãos atrás das costas. — Isso aqui é… é uma doença que eu tenho! Chamada… chamada tremulitite!

    Por um segundo, o dourado ficou absolutamente puro.

    — “Ja está obvio que foi a Aura.” — pensaram Elian e Aya ao mesmo tempo.

    — Entendo… bom saber. Vou me certificar de conversar com a Aura sobre essa… doença. — Os olhos do Pináculo brilharam em fúria.

    Até mesmo respirar ficou desconfortável naquele ambiente.

    Um fio rubro atravessou o ouro do comandante.

    Diana sentiu a espinha gelar.

    Seu sorriso forçado tremia em tons desbotados.

    Ela juntou as mãos à frente do corpo, tentando parecer convincente.

    — E-eu posso… participar dessa conversa? — perguntou com uma risada fraca que não convenceu ninguém. — S-só pra… mediar. Evitar algum… mal-entendido…

    Quando os olhos furiosos de Kael deslizaram lentamente até ela, Diana percebeu o erro.

    O vermelho sangue engoliu por completo a aura tranquila anterior.

    Ela deu um passo para trás.

    — Ou… pensando bem… confio plenamente na sua capacidade de diálogo.

    E, pela primeira vez desde que abrira a boca, decidiu que talvez o silêncio fosse sua melhor estratégia.

    — Hunpf. — Kael limpou a garganta, descruzando os braços. — Voltando ao assunto… você não tinha parado com esse vício, Elian?

    Elian desviou o olhar por um instante. Os olhos frios perderam parte da firmeza.

    — Bem… sim. — respondeu baixo. — Mas eu… acabei recaindo.

    Kael inclinou levemente a cabeça, analisando-o.

    — Entendo. — fez uma breve pausa. — Mas por que começou a lutar em vez de apenas apostar, como fazia antes?

    Elian abriu a boca para responder.

    Nenhuma palavra saiu.

    A mandíbula travou.

    — Eu… bem…

    Diana ergueu a mão como se estivesse em sala de aula.

    — O Elian nunca conseguiria explicar tamanha vergonha para você, a quem ele admira tanto. — disse, voltando instantaneamente ao modo tagarela colorida. — Então eu explico.

    Elian fechou os olhos, já prevendo o desastre.

    Diana apontou para ele com o polegar.

    — Ele perdeu todo o dinheiro. Casa, carro… tudo. Aí teve a brilhante ideia de pegar dinheiro emprestado com um agiota pra ajudar ele.

    Aya arregalou levemente os olhos.

    — Só que ele perdeu tudo de novo. — continuou Diana, gesticulando ainda mais, parecendo até… animada. — E como não tinha como pagar a dívida, o agiota decidiu que o Elian ia lutar nesse campeonato em duplas pra ganhar a premiação e quitar o valor.

    Kael apoiou o queixo na mão, atento.

    — Entretanto — ela levantou um dedo — todos os parceiros dele teveram certos… “probleminhas”.

    Elian coçou a nuca, claramente irritado.

    — Como resultado, ele teve que lutar até a semifinal sozinho. — Diana suspirou. — Só que já avisaram que é impensável ele disputar a final sem dupla. E, se não arranjar alguém até lá… vai ter que continuar lutando até vencer o próximo torneio em duplas.

    Kael soltou um suspiro lento.

    — Já consigo imaginar o que aconteceu…

    Diana estalou os dedos.

    — Exatamente. Como o Elian praticamente virou uma celebridade aqui, atraindo apostadores e lotando o lugar, eles estão sabotando qualquer um que tente fazer dupla com ele e ocultando qualquer informação ou registro sobre os poderes dos competidores dele.

    Aya franziu a testa.

    — Sabotando… como?

    — Ameaças. Subornos. Desclassificações “acidentais”. — Diana fez aspas com os dedos. — Tudo para impedir que ele lute a final… e manter a máquina de apostas girando. Então ele próprio já desistiu de conseguir uma dupla nessas condições.

    Um tensão pesada durou por mais um instante.

    Aya fechou os punhos.

    — Que bando de covardes… — murmurou.

    Kael permaneceu em silêncio.

    Mas, pelo leve estreitar de seus olhos, ficou claro que alguém acabara de cometer um erro grave.

    — Entendi. E você? Por que está aqui com ele?

    Diana passou a mão pelos próprios cabelos, suspirando antes de falar.

    — Bem… depois que a Aura me trouxe pra Áurea, digamos que ela fez do Elian o meu “professor particular de combate”. E agora eu tô aqui pra tentar substituir a dupla dele.

    Elian cruzou os braços, com o rosto sério.

    — Só que ele recusou completamente todas as vezes que me ofereci. — continuou Diana, revirando os olhos. — Disse pra não me envolver nisso, que esse é um problema dele, e blá blá blá…

    — Porque é. — murmurou Elian, seco. — Seria errado te colocar em perigo por minha irresponsabilidade.

    Kael observava os dois em silêncio, avaliando cada reação.

    — Certo… — disse por fim, com calma.

    Diana então se inclinou sobre o balcão, aproximando-se de Kael com um brilho perigoso de ideia surgindo nos olhos.

    — Então, Kael… você não poderia ser a dupla dele?

    Aya virou o rosto imediatamente para o comandante.

    Elian congelou.

    O silêncio que se seguiu foi breve, mas pesado.

    Kael descruzou os braços lentamente.

    — Como Pináculo de Áurea, participar de lutas clandestinas seria falhar com minhas funções… e com meus ideais.

    Ele apoiou uma das mãos sobre a bancada, a postura relaxada, bem diferente da firmeza em sua voz.

    — Além disso, mancharia a reputação atual dos membros da Trion.

    Diana inclinou a cabeça.

    — Mas você não poderia abrir uma exceção, só dessa vez?

    Kael soltou um suspiro quase cansado.

    — Ainda que eu quisesse… eles não permitiriam minha entrada.

    — Como assim? — perguntou Aya.

    O olhar de Kael se tornou mais frio.

    — Já tentei derrubar este lugar inúmeras vezes. — respondeu de forma simples. — O fato de ele ainda existir não é por falta de esforço da minha parte.

    Diana piscou, surpresa.

    Kael continuou:

    — Eles permanecem ativos porque possuem influência política suficiente para dificultar qualquer ação direta. E, principalmente… porque a força de combate deles, considerando todos os membros da casa, é formidável até mesmo dentro de Áurea.

    Aya arregalou os olhos.

    — Tudo isso… por causa de um clube clandestino?

    — Um confronto aberto causaria mortes desnecessárias. — completou Kael. — E eu não estou disposto a sacrificar vidas por orgulho.

    Ele fez uma breve pausa.

    Então concluiu, com uma naturalidade que chegava a ser irônica:

    — Resumindo… todos os donos daqui me odeiam profundamente.

    Diana levou a mão ao queixo, pensativa.

    Percebendo a sinceridade no azul que emanava de suas palavras.

    — Ah… então tá explicado.

    Kael passou a mão pela própria nuca, pensativo.

    — Nosso objetivo aqui era recrutar o Elian para uma missão… — disse, olhando de relance para ele. — Mas, considerando isso, não sei se será possível.

    Elian abaixou o olhar imediatamente.

    Os ombros, antes firmes, cederam de pouco em pouco.

    — Me desculpe… comandante…

    Antes que pudesse continuar, uma voz alta e exageradamente animada ecoou pelo salão VIP.

    — Ótimo espetáculo como sempre, Elian!

    Um homem gordo, de sorriso grande demais para parecer sincero, aproximava-se acompanhado de dois guardas músculosos. Seu terno apertado parecia lutar contra o próprio corpo.

    — Vejo que ainda não conseguiu uma dupla, não é mesmo?

    Os olhos de Elian e Diana se viraram na mesma hora em direção a voz, cheios de raiva.

    Antes mesmo de encarar o rosto dele, Diana viu a cor.

    Não era quente como o dourado de Kael.

    Nem fria como o ciano de Elian.

    Era nojenta. Um verde gorduroso que parecia escorrer pelo ar, espesso e viscoso, como ranho.

    — Roderick, seu desgraçado! — explodiu Diana, avançando sem pensar. — Claro que ele está sem dupla! Foi você quem armou pra ele, seu ranhento maldito!

    Os dois guardas se moveram simultaneamente, bloqueando o caminho.

    Elian segurou o antebraço dela, firme, e balançou a cabeça em negativa.

    O homem levou a mão ao bigode grande e curvado, alisando-o com satisfação.

    — Hohoho… realmente não faço ideia do que você está insinuando. — Seu sorriso se alargou. — Mas é mesmo uma pena. A final começa em meia hora.

    Ele abriu os braços teatralmente.

    — Como você não conseguiu uma dupla… infelizmente terei de cancel—

    Eu.

    A doce voz cortou o ar como uma lâmina.

    Ninguém ousou dizer nada.

    Todos os olhares se voltaram para Aya.

    Ela estava imóvel.

    Os olhos roxos firmes e decididos.

    — Eu serei a dupla dele.

    Diana piscou, surpresa.

    — Aya, isso é impensável! — Kael segurou o braço dela imediatamente. — Você pode acabar morrendo!

    — E o que tem?

    Aya puxou o braço de volta, encarando-o diretamente.

    — Se nós formos até Vallheim Vestrak sem o Elian… minhas chances de morrer não seriam muito maiores?

    Kael ficou em silêncio por um segundo.

    — Ainda assim! — rebateu ele. — Aqui eu não posso interferir! Mesmo se você estiver à beira da morte, não tenho como agir!

    Aya não desviou o olhar.

    Não hesitou.

    — Se precisamos do Elian para resgatar o Louie… então eu farei o que for preciso.

    Até os ex lutadores mais ousados do salão VIP ficaram imóveis.

    Mas, pela primeira vez desde que chegara ali, o sorriso do homem do bigode desapareceu.

    Os olhos pequenos se estreitaram.

    Mas o olhar de Aya não recuou.

    — Então… eu serei a dupla dele.

    Um murmúrio atravessou o salão, baixo e inquieto.

    Kael virou o rosto, sentindo um aperto inesperado no peito.

    Ela estava certa.

    Sem Elian, as chances de resgatar Louie despencavam drasticamente.

    Era simples.

    Então por que a ideia de vê-la naquela arena o incomodava tanto?

    Ele fechou os olhos por um instante.

    — “Eu sei que é a melhor opção…” — murmurou, o olhar perdido em confusão. — “Então por que eu…?”

    O pensamento morreu antes de se completar.

    Agir assim não era do seu feitio.

    E era isso que o incomodava.

    Soltou um breve suspiro, ainda perturbado consigo mesmo.

    Porém, quando enfim abriu os olhos novamente, o comandante estava de volta.

    — Certo… eu libero sua participação.

    O homem gordo estalou a língua, ajeitando o paletó apertado sobre a barriga.

    — Humpf. — Seu olhar desceu sobre ela com desprezo. — Pirralha… você só pode estar querendo morrer mesmo.

    Deu alguns passos lentos à frente, os sapatos ecoando contra o chão polido.

    — Os Abutres Carniceiros não são considerados os reis do Hexacúpula por nada. — ergueu um dedo grosso no ar. — Ninguém aqui conseguiu derrotá-los desde que chegaram.

    Elian sustentou o olhar, mas permaneceu em silêncio.

    — Até mesmo Elian teria dificuldade se lutasse sozinho dentro das regras da arena… — continuou o homem, com um sorriso malicioso retornando aos poucos.

    Ele inclinou o corpo para frente, encarando Aya de cima abaixo.

    — Porém, com uma pirralha dessas… ele só vai ganhar um peso morto para tentar proteger.

    Diana cerrou os dentes.

    Kael observava, serio.

    O homem abriu os braços teatralmente.

    — Isso vai ser ainda mais interessante! — exclamou, rindo. — Ver a derrota de vocês dois… vai ser incrível.

    O salão reagiu com risadas nervosas e cochichos.

    Elian deu um passo à frente, posicionando-se levemente à frente de Aya.

    Mas, por trás dele, os olhos roxos da garota não demonstravam medo.

    Apenas determinação.

    — Veremos, então… do que vocês são capazes. — finalizou o homem gordo, ajeitando o bigode com um sorriso travesso.

    Ele lançou um último olhar carregado de desprezo para Elian e Aya.

    Em seguida, girou nos calcanhares.

    O paletó estalou sob a tensão do movimento enquanto ele caminhava em direção à saída.

    Os dois guardas o acompanharam imediatamente, abrindo caminho entre as mesas.

    A porta do salão VIP se fechou com um som seco.

    O silêncio que ficou para trás era muito mais tenso do que antes.


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    CURIOSIDADE 19:

    Heterocromia setorial é uma condição rara em que a íris apresenta mais de uma cor no mesmo olho, formando padrões únicos.

    Diana nasceu com essa característica: no olho direito, um azul profundo com feixes carmim, no esquerdo, verde-esmeralda ao redor de um centro âmbar.

    Após a adaptação ao Corpo Kaelum, sua heterocromia passou a reagir às suas habilidades, mudando de cor conforme o tipo e a ativação de seus poderes.

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    FRAGMENTO HISTÓRICO 15:

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                      ⟬ ARQUIVO DE ESTÁGIO 1 — Nº 012

               Diário pessoal — Observações

            Autor: Marek Aurellum — Ano XL após a morte de Cristo.

    (Documento confidencial. Extraído dos registros centrais da OPKM.)

    Originalmente compilado por Marek Aurellum no quadragésimo ano após a morte de Cristo, como parte da obra “Crônica de Um Poder que Não Compreendo”.

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    𐌌 Escrevo estas linhas após finalmente conversar com a mulher que nos trouxe para este abrigo.

    Seu nome é Livia.

    Ela não pertence a este lugar. Segundo me contou, é uma viajante, uma dessas pessoas que percorrem caminhos longos sem se prender por muito tempo a qualquer cidade ou assentamento. Segue as rotas quando pode, permanece onde é seguro quando precisa.

    A presença dela nesta caverna começou alguns dias atrás.

    Foi logo antes do grande ciclone que atravessou esta região. Quando a fúria finalmente cessou, as trilhas tornaram-se perigosas demais para continuar viagem imediatamente.

    Foi por essa razão que ela escolheu esta caverna.

    Um abrigo temporário até que os caminhos voltassem a ser transitáveis.

    Segundo seu relato, no mesmo dia em que o ciclone terminou ocorreu o primeiro acontecimento estranho.

    Pouco tempo depois de o vento finalmente se acalmar, um estrondo ecoou pela entrada oposta da caverna. O som de pedras sendo dilaceradas, como se a própria rocha estivesse sendo forçada a ceder por algo além de sua natureza.

    Ao dirigir-se até lá para averiguar, deparou-se com a cena.

    Um homem surgiu diante da entrada.

    Atrás dele, a parede encontrava-se marcada por cortes profundos e descontrolados, sulcos irregulares que não seguiam padrão algum, apenas a violência de algo que abriu passagem à força.

    Ele estava gravemente ferido.

    Cortes profundos marcavam seu corpo e seu estado era alarmante. Ainda assim, encontrou forças para falar algumas palavras antes de desmaiar.

    Disse apenas que precisava fugir.

    Disse que aquilo o encontraria.

    Não houve mais explicações.

    Não por recusa.

    Não por omissão deliberada.

    Mas porque, logo após pronunciar tais palavras, perdeu os sentidos.

    Livia decidiu ajudá-lo. Trouxe-o para dentro e tratou suas feridas da melhor forma que pôde, utilizando ervas e tecidos que possuía.

    Desde então, ele permanece aqui, o mesmo homem que agora repousa na terceira cama improvisada desta caverna.

    Ainda não despertou desde que cheguei à consciência.

    O relato dela termina ali por enquanto.

    Lucanus também continua inconsciente, embora sua respiração tenha se estabilizado.

    Quanto a mim, restam mais perguntas do que respostas.

    Continuarei registrando assim que houver novas informações.

    Assinado: Marek Aurellum.

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                          FIM DO FRAGMENTO

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    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
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