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Capítulo 51: Além das fronteiras
Aviso e agradecimentos!
Boa tarde a todos leitores de O que eu deixei para trás?!
Passando aqui pra avisar que o Capítulo 51: Além das Fronteiras, já está saindo hoje, domingo, ao invés de amanhã.
Amanhã vou ter compromissos praticamente o dia inteiro, e isso acabaria atrapalhando bastante o horário da postagem. Então, pra manter tudo certinho, decidi adiantar pra hoje.
E também dá pra considerar isso como um pequeno agradecimento pelas quase 18 mil views, estamos muito, muito perto de alcançar essa marca! De verdade, obrigado por todo o apoio. Vocês são incríveis.
No mais, é isso. Aproveitem o capítulo!
CAPÍTULO ANTERIOR:
De seus dedos, uma fina névoa congelante se espalhou, cobrindo o membro da garota por completo, selando os ferimentos e desacelerando suas funções celulares.
Ela piscou, surpresa.
— A dor… sumiu.
— Sim. Não resolve o problema, mas ao menos ajuda por enquanto. Vamos ao domo três, encontrar Kael e Diana.
— Certo…
Elian carregou a parceira nos braços até a saída, enquanto a plateia se despedia deles com uma enxurrada de aplausos.
Enquanto isso...
Diana e Kael viam Elian e Aya saírem da arena em silêncio, até que uma pergunta rompeu o momento.
— Senhor comandante. Eu poderia fazer uma pergunta? — ecoou a voz de Diana, enquanto seus olhos se fixavam na animação do golpe final, que era passada diversas vezes no telão.
— Pode.
— Como a Aya desviou da investida do Abutre? Ele aparentava ser mais rápido que ela durante todo o combate…
— Mas ele era.
— Q-que? Como assim? Então como a Aya desviou daquele ataque?!
Kael manteve as mãos apoiadas no vidro da Hexacúpula, observando a arena enquanto a poeira lentamente se assentava. Um leve sorriso tomava seus lábios, mas os olhos permaneciam fixos, analisando cada detalhe da arena.
— Mesmo sendo mais lenta que ele no quesito corpo Kaelum — disse, sem desviar o olhar — Ela tem a capacidade de manipular a própria massa.
Ele ergueu sutilmente o queixo, replicando aquele momento na diversas vezes na própria mente.
— Em resumo, ela reduziu o peso do corpo poucos metros antes do golpe atingi-la. Além disso, Mórghul parece ter a própria visão prejudicada pela tremulação do ar ao redor, causada pelo calor. Provavelmente foi por isso que ele continuou avançando, sem sequer perceber que ela já tinha saído da área de contato do golpe.
Diana piscou, ainda tentando acompanhar o raciocínio.
— Entendi. Isso até que faz sentido.
Kael soltou um breve suspiro, cruzando os braços com calma.
— Ele confiou cegamente na própria análise.
Sua postura se firmou.
— Mórghul acreditou que já compreendia a potência dos golpes dela antes mesmo do impacto. Só que, poucos milímetros antes do embate, Aya aumentou drasticamente a própria densidade, deixando a ave em uma saía justa.
A jovem coçou a nuca, pensativa.
— Saia… justa? — repetiu, com leve estranheza. — Tá, deixando isso de lado, ainda tem uma coisa que não fecha pra mim.
Ela virou o rosto para ele, franzindo a testa.
— Na Escola Ignis, estamos aprendendo sobre Inércia Zero… — disse. — Aquela teoria de que o corpo Kaelum consegue se mover rápido sem perder potência.
Ela fez um gesto leve com a mão, tentando organizar a própria ideia no ar.
— Mas isso que a Aya fez não me parece se encaixar direito.
O olhar dela se estreitou.
— Se ela aumentou a própria massa… como o golpe ainda foi rápido? Isso não contradiz a própria Inércia Zero?
Kael ficou quieto por um instante, seu sorriso diminuindo aos poucos.
— Não…
Um clima pesado dominou o local.
— …e sim.
A expressão da garota, antes séria, quebrou em curiosidade.
— Quê? Tu sabe que isso não me ajudou em nada, né?
— Eu sei… — uma curta risada escapou de seus lábios.
Ele se afastou do vidro, apoiando o peso do corpo em uma perna só.
— Se fosse o eu de um tempo atrás, eu te daria a explicação oficial usada pela OPKM.
Diana arqueou uma sobrancelha.
— Ué, e por quê?
Kael respirou fundo.
— Porque eu comecei a duvidar dela.
Diana arregalou os olhos.
— Como assim!?
Ele levou a mão até a nuca, pensando em como explicar algo tão difícil.
— Bem, digamos que eu acessei o Reino Mental.
Por um segundo, ela ficou completamente imóvel.
— Nem fudendo… tá falando sério mesmo!?
— Sim. — ele respondeu rápido e simples. — Ainda não é uma informação que foi liberada, mas eu cheguei lá.
A menina deu um passo mais perto.
— Que foda! Mas, por que isso muda a teoria?
Kael olhou de volta para arena. A fumaça já não existia mais.
— Pois o que eu vi e entendi lá… não se encaixa tão bem com a ideia de Inércia Zero.
Ele fez uma pausa curta, planejando as palavras.
— Com isso, eu montei uma teoria própria minha. Mas ainda não mostrei e nem falei sobre para ninguém.
A garota inclinou o corpo pra frente, curiosa.
— E qual é? Fala! Fala!
— Calma. Vou tentar simplificar da melhor forma possível.
Ele então estendeu uma mão no ar, como se desenhasse no próprio vento.
— Pensa assim, Imagina o nosso corpo como um fantasma.
Diana levou a mão ao queixo e continuou ouvindo.
— Quando nos deslocamos, esse “fantasma” atravessa o mundo sem ser barrado. Mesmo um simples passo segue esse princípio.
Ele fechou a mão devagar.
— O ar não some. Nós só não reagimos a ele.
A jovem torceu levemente a cabeça.
— Tipo, sem resistência? Mas isso não é exatamente igual ao que a teoria da OPKM fala?
— Não.
— Ué, então o que é?
O comandante assentiu, com calma.
— Nosso corpo fica aqui… mas a ação ocorre no Reino Mental.
O corpo da garota se retraiu, e sua expressão se encheu de incredulidade.
Um sorriso satisfeito surgiu nos lábios de Kael.
— Na luta contra o Sethros, eu fui ferido de forma fatal. Mas, na ínfima parcela de tempo que eu tive entre a morte e a vida, eu fui levado para dentro do Reino Mental.
— Caramba… e pensar que tem alguém no mundo capaz de levar o tão aclamado Pináculo da força mais forte que Áurea já teve a uma situação dessas…
— Lá dentro, parecia que minutos, talvez horas, tinham se passado. Mas aqui fora, nem mesmo um microssegundo passou.
As pálpebras da garota vacilaram diante da informação.
— Sabendo disso, pensa comigo. Avance um passo a frente.
Ele ergueu dois dedos.
— Imagina que esse movimento não acontece exatamente no mesmo ritmo do nosso mundo.
— Ainda tá confuso. — Diana estreitou a expressão, sem entender.
— Como se existisse uma diferença de fluxo no tempo.
Ele girou a mão no ar, buscando uma forma simples de explicar.
— Pra gente, tudo acontece em milésimos. Mas nesse “outro lado”… leva horas.
Kael deu uma breve pausa, antes de continuar:
— Então, enquanto aqui a transição parece quase instantânea, lá ela teve mais “tempo” e “espaço” pra acontecer.
A jovem ficou quieta, processando as informações.
— Tá, mas não entendi. Onde entraria o impacto com massa nisso?
Kael sorriu orgulhosamente.
— Aí que vem a melhor parte.
Ele fechou o punho com firmeza.
— Quando o nossa matéria está próxima a tocar em algo, uma espécie de trava automática se ativa.
— Trava?
— exato.
Ele fez um gesto curto, tocando a parede de vidro no lado deles.
— A nossa estrutura corporal deixa de agir como “fantasma” e volta a ser totalmente física.
Diana arregalou os olhos.
— Então tudo volta de uma vez? É como se um humano normal executasse um gesto e, depois, fosse em um Photoshop e aumentasse muito a velocidade desse movimento?
— É… acho que esse exemplo serve melhor para as crianças de hoje em dia. Mas o movimento não volta de uma única vez. E sim progressivamente o quão mais próximo do contato.
A menina assentiu com receio.
— Parece que, no momento do choque, as realidades se sobrepõem completamente na área do ataque.
Ele apontou levemente pra arena, onde Varnek e Mórghul eram recolhidos em macas.
— É por isso que um golpe daqueles acontece. A velocidade e a força se multiplicam ao atravessar essa outra dimensão e retornam no impacto. Assim, a massa atinge o alvo com força real.
Diana fitou de volta, impressionada.
— Então… a velocidade não é só do corpo?
Kael cruzou os braços novamente.
— Talvez não.
Ele continuou encarando a arena, fingindo indiferença. Mas, por dentro, a dúvida crescia como chamas.
— Talvez seja o quanto nós conseguimos acompanhar esse “outro ritmo”.
Assim, as peças enfim se enfaixaram na cabeça da jovem.
— E quanto mais acompanhamos e entendemos essa outra dimensão, mais rápido e livre o movimento ocorre aqui.
Diana ficou em silêncio por alguns segundos.
— Então a Inércia Zero…
— Ainda pode estar certa. — interrompeu Kael, com um sorriso leve, sem virar o rosto. — Ou pode ser só uma forma incompleta de explicar os mistérios do nosso corpo.
O ânimo dele cresceu mais, ansioso pela ideia de buscar tais respostas.
— Não tenho certeza ainda.
DING!!!
A campainha do elevador soou, metálica e breve, cortando o vazio que ainda pairava após a explicação.
Kael virou levemente o rosto em direção à porta.
— Olha… parece que eles voltaram.
As portas se abriram com um leve deslize, revelando duas silhuetas, uma sustentando a outra.
Era Elian, carregando Aya.
O ar ao redor deles estava frio, e uma névoa fina ainda se desprendia de seu corpo, como se o gelo resistisse a desaparecer por completo. Os braços de garota estavam cobertos por uma camada congelada, e sob ela, o metal derretido latejava, contendo o calor à força.
No instante em que Diana viu os dois:
— AYA!!
Ela disparou rapidamente.
E antes mesmo que Elian pudesse reagir, a garota já estava ali, envolvendo Aya em um abraço forte e desajeitado.
— Que susto que tu me deu!
Aya piscou, completamente surpresa, enquanto seu corpo ainda não respondia direito à própria vontade.
— Q-que…? — sua voz saiu tão baixa quanto um sussurro.
Diana apertou ainda mais, o corpo tremendo, sem conseguir esconder o pavor que sentia.
— Eu… eu… eu pensei que tu ia morrer! — as palavras saíram quebradas, enquanto a visão se tornava turva pelas lágrimas.
Aya ficou imóvel por um segundo, dois, três, a mente tentando acompanhar o que estava acontecendo.
“Ela realmente estava preocupada assim comigo?”
Seus cabelos negros, soltos nas costas, se bagunçaram ainda mais após serem apertados pela menina.
“Mas… a gente nem se conhece direito…”
Aya tentou falar, mas a voz travou na garganta, sem saber como reagir àquilo. Tirando Louie, era a primeira vez que conhecia outra pessoa de sua idade desde que havia acordado sem suas memórias.
Kael deu um passo à frente, observando a cena com calma.
— Diana. Acredito que a Aya não esteja exatamente nas melhores condições pra isso agora.
Ele ergueu levemente a mão.
— Pode chorar e abraçá-la depois.
Diana hesitou por um momento antes de, enfim, soltar Aya aos poucos e passar a manga no rosto, sem sequer se preocupar em disfarçar o choro.
Kael se aproximou com cuidado e segurou os braços da garota, que continuava limpando as lágrimas sem dar atenção ao movimento dele. Com facilidade, ele a ergueu, como se não pesasse mais do que uma pena, deu alguns passos para o lado e a colocou no chão com delicadeza.
Então voltou o olhar para sua aluna, teimosa e inconsequente.
— Deixe-me ver como está.
Suas pupilas douradas percorreram o ferimento com atenção.
O antebraço de Aya tremia, de frio, de dor, ou ambos.
Sob a camada cristalina, a pele efervescente se agitava contra a pressão, pulsando como lava aprisionada em vidro.
O comandante estreitou o olhar.
— Foi mais sério do que eu esperava.
Ele soltou um breve suspiro, endireitando a postura.
— O ideal seria te levar até a Mira. Precisamos tratar isso o quanto antes.
Fez uma pequena pausa, enquanto sua expressão se tornava mais firme.
— Mas, na situação atual, qualquer um pode ser um espião. Incluindo uma vigilante como ela, que possui influência militar e acesso direto às áreas de pesquisa e à administração de Áurea.
Aya franziu a testa, sentindo a queimação se espalhar pelo corpo.
— M-mas e se a gente fosse aos hospitais da Zona Central?
— Haveria muitos olhos no caminho e na chegada — respondeu Kael sem pestanejar, cruzando os braços com autoridade.
Sua iris vacilou, inquieta, percorrendo o ambiente em busca de alguma alternativa.
— E se usássemos o teletransporte por sombras da Lila? Ninguém nos ver—
— Impossível. — cravou o pináculo. — Lila, Arin e Zara estão fora do estado em missão.
Sua voz se manteve inabalável, como uma rocha antiga.
— Justamente por serem confiáveis, eu as enviei para uma operação secreta. Ainda assim, mesmo que estivessem disponíveis, os hospitais de Áurea levariam pelo menos cinco dias para restaurar você por completo.
Diana cerrou os punhos, os dedos ficando brancos pela má circulação.
— M-mas e agora? Eu não sei qual é a missão, mas, se tu veio chamar o Elian, coisa boa com certeza não é. Como a Aya vai nesse estado?!
Kael não respondeu de imediato.
— Você está certa. Mesmo com os riscos, a segurança dela vem em primeiro lugar. Ainda que isso comprometa o sigilo da missão, vamos pedir ajuda à Mira.
— Kael.
A voz rouca de Elian o interrompeu, fazendo todos se voltarem em sua direção.
Ele evitava encarar o comandante diretamente, mas ainda assim falava com firmeza.
— O ferimento dela é culpa minha. — respirou fundo, visivelmente exausto. — Por isso, deixe-me cuidar dela. Não será tão rápido nem tão eficaz quanto o trabalho da Mira, mas será o suficiente para que consiga nos acompanhar.
Então, ergueu seu olhar ciano, decidido.
— Só preciso de dois dias.
Diana arregalou os olhos no mesmo momento.
— O quê?!
Ela deu um passo à frente.
— Como tu vai curar ela, se tu nem tem nenhum poder de cura?!
Elian relaxou levemente os ombros, ainda tenso sob os danos causados pelo próprio poder.
— Não é exatamente um poder de cura.
Sua visão deslizou até os braços de Aya.
— Mas, se ela conseguir remover as partículas de ferro, posso restaurar o movimento e parte da força. Ainda assim, é provável que fiquem cicatrizes, e o processo será extremamente dolor—
— Não importa. Desde que eu consiga ir com vocês no resgate do Louie, eu aceito.
A tensão caiu abruptamente sobre o grupo após a afirmação da garota.
Kael a observou por alguns segundos, encontrando em seu semblante uma determinação imensurável.
— Certo.
Ele endireitou o corpo.
— Isso é melhor do que arriscar o nosso sigilo. Se descobrirem que sabemos sobre Vallheim Vestrak, perdemos boa parte da pouca vantagem que temos.
Ele levou a mão ao pescoço e o estalou.
— Nossa única chance é a surpresa.
Com uma última fitada firme na arena, caminhou lentamente até a saída.
— Em dois dias partiremos.
O peso do momento calou a todos.
— Rumo a Vallheim Vestrak.
Aya abaixou levemente a cabeça. Por trás do rosto calmo, a decisão já estava tomada: ela iria atrás de Louie, custe o que custasse.
Enquanto isso — área administrativa do Hexacúpula.
A porta do corredor gerencial se fechou com força.
BANG!
O som ecoou seco, e por um breve instante a calmaria se instaurou.
Até que—
CRASH!!
O vaso de vidro se despedaçou contra a parede, explodindo em fragmentos que se espalharam pelo chão polido.
— INÚTEIS!! — o grito rasgou o ambiente.
Roderick avançava de um lado para o outro, o ar pesado, seu rosto vermelho e o bigode curvado tremendo de fúria.
O terno apertado ameaçava ceder a qualquer movimento brusco, os botões lutando para conter o corpo largo e mal distribuído.
— DOIS COMPLETOS INÚTEIS!!
Ele agarrou uma cadeira e a arremessou contra uma mesa.
— ELES SÓ TINHAM UMA MISSÃO!!! A PORRA DE UMA MISSÃO!!!
Outro impacto.
BANG!!
A estante virou, papéis voando, garrafas rolando pelo chão.
— MÓRGHUL E VARNEK — cuspiu os nomes com ódio. — PREDERAM PRA MERDA DE UMA PIRRALHA!!!
Ele levou as mãos à cabeça, puxando os próprios cabelos com força, o suor escorrendo pela testa.
— Era pra ser simples… SIMPLES! — rosnou. — Ele era a nossa melhor chance de ganhar muito dinheiro… E ELES ESTRAGARAM TUDO!!!
O olhar dele tremia enquanto outro objeto voava, um copo se despedaçando contra a parede e deixando um rastro molhado escorrer lentamente.
A respiração falhava entre os dentes cerrados, tornando o ambiente ainda mais sufocante e tenso.
E, naquela ocasião… uma mulher estava ali.
Magra, como se faltasse alimento há dias. Os braços finos, marcados por manchas roxas que a acompanhavam há muito tempo.
Mal conseguia sustentar o pano encharcado entre os dedos.
Sobre o corpo, um uniforme de limpeza velho e sujo, e nos olhos baixos, um desespero opaco, quase apagado.
Ela se abaixou, fraquejando até mesmo nesse natural movimento.
Com extremo cuidado, deslizava o pano sobre o chão, recolhendo o líquido espalhado.
Suas mãos fracas tremiam.
Roderick a observava atentamente, o fôlego ainda instável, mas desacelerando aos poucos, enquanto seus olhos desciam até a mulher de postura curvada. Havia algo ali que o agradava.
Medo.
A fragilidade de um ser inferior a si próprio.
Então, um sorriso doentio surgiu em seu rosto.
— Patética.
Apalavra saiu baixa, quase um sussurro.
A mulher congelou por um instante, mas não respondeu, muito menos olhou. Apenas continuou limpando.
Roderick deu um passo à frente. Depois outro. E outro.
Seus sapatos esmagando pequenos cacos de vidro durante o caminho.
Ele parou ao lado dela.
A mulher enrijeceu, a toalha travanda contra o chão.
— Sabe o que eu mais odeio? — a voz de Roderick saiu calma, completamente diferente da fúria de antes.
Ele inclinou levemente a cabeça ao perceber a ausência de resposta.
— Quando as coisas… não saem como eu quero.
Sem qualquer aviso:
THUD!!
O chute veio direto nas costelas.
A mulher foi arremessada contra o chão, o balde virando e a água se espalhando desordenadamente.
Um gemido fraco escapou de seus lábios pálidos.
— A-Ah…!
— Olha só… — ele riu, baixo. — Pelo menos alguma coisa aqui ainda reage como deveria.
Um chute. E outro. Mais outro, cada vez mais forte, mais rápido, mais animador.
O sangue começou a se espalhar pelo chão, escorrendo lentamente, abrindo um rastro irregular sobre a superfície fria.
— Gente inútil… — THUD!! — só serve pra isso mesmo… — THUD!!
A mulher tentou se proteger, encolhendo o corpo e levando os braços sobre a cabeça.
O pano ficou preso sob ela.
Molhado. Sujo. Vermelho.
— P-por favor… — a voz saiu falhada, quase inaudível.
— Por favor? — ele repetiu, rindo. — Por favor o quê?
Ele segurou o cabelo dela, puxando sua cabeça para cima. Seus olhos latejavam de dor, cheios de lágrimas.
— Você acha que alguém vai vir te salvar?
A agonia da mulher parecia se espalhar pelo ambiente.
Roderick ergueu o pé novamente, pronto para retomar o “trabalho”, mas uma risada interrompeu seu movimento.
— Hahaha…
O som veio leve, quase descontraído, destoando da tensão do ambiente.
O pé de Roderick parou no ar, os olhos se arregalaram, e, lentamente, ele virou o rosto.
A porta estava aberta.
E alguém estava ali, encostado no batente.
Um homem muito alto.
O corpo largo e denso, completamente tomado por músculos.
O sobretudo aberto deixava à mostra parte do torso, coberto por cicatrizes. Cortes profundos, perfurações, queimaduras.
O rosto era ainda pior. Uma cicatriz atravessava o olho esquerdo até a mandíbula, outra cortava o lábio, distorcendo levemente seu sorriso. O restante era tomado por marcas que rasgavam sua face.
Os cabelos estavam presos para trás em um rabo baixo, longos, de um tom roxo escurecido, como um bom e velho vinho.
A risada parou devagar.
— Poxa… — disse, com a voz grave, calma e divertida. — Por que parou? Continue seu espetáculo.
Roderick tremeu.
O pé que antes pisaria na mulher desceu lentamente, tocando o chão com uma gentileza até então inexistente. A mão soltou o cabelo dela.
— V-você… — a voz falhou, mas o pensamento continuou. — “E-esse cara… um dos peixes grandes dentro do Hexacúpula, e ainda por cima… o vice-líder da Fracture…”
E antes que conseguisse sequer reagir, o homem já não estava mais ali.
Um arrepio percorreu a espinha de Roderick.
— Q…?
A voz morreu antes de chegar na garganta.
— Coitadinha… ele te machucou, não foi?
O som veio de trás. Perto demais para uma voz que, um segundo antes, estava a metros dali.
Roderick virou o rosto bruscamente.
Lá estava ele.
Agachado ao lado da mulher, passando a mão suavemente por seus cabelos, como se nada ao redor tivesse importância.
— A-ah… s-senhor Caio! Eu posso explica—
— Não. — a resposta veio imediata. — A partir de hoje, você deixa de ser um dos administradores do Hexacúpula. Recolha suas coisas e vá embora. Agora.
— M-mas—
— Se eu ouvir sua voz de novo, você não sai daqui para a rua.
Caio lançou um olhar lateral para o homem, tão mortal quanto uma lâmina.
— Vai para o inferno, onde é o seu lugar.
O corpo de Roderick travou. A umidade se espalhou por suas calças e espuma surgiu no canto de sua boca.
Seu corpo gordo rapidamente cedeu contra o chão.
Caio se levantou calmamente e caminhou até ele.
— E ainda tem coragem de chamar ela de patética…
Ele parou ao lado do corpo caído.
— Patético é você.

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