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Capítulo 39: Começar de novo
Alguns minutos depois...
Louie e a menina esperavam por Kael em frente ao grande hospital central de Áurea.
Sentados na calçada do posto, a garota, já sem medo daquela cidade maluca, observava sorridente as pessoas que passavam pelas ruas.
Louie, por outro lado, estava com o queixo apoiado na mão, os olhos perdidos no horizonte e o pé direito batendo inquieto no chão. Ele já não aguentava mais esperar.
— Porra! Esse velho preguiçoso tá atrasado pra caralho! — resmungou Louie, com as veias saltadas. — Ele não consegue estipular um tempo e chegar nele?! O combinado era às nove da noite, já são quase dez!
— Calma, Louie… — disse a menina de olhos roxos, lançando-lhe um sorriso sincero. — Ele tinha dito que tinha alguns compromissos… talvez seja por isso que se atrasou.
— Deve ser… mas ainda assim, fazer a gente esperar nesse frio é sacanagem! — continuou reclamando.
Tudo o que a menina de olhos roxos conseguia fazer era rir da fúria de Louie.
A menina ficou em silêncio por alguns segundos, o sorriso diminuindo levemente enquanto seus olhos roxos se fixavam mais à frente, além da rua movimentada.
Entre o vai e vem das pessoas, uma figura alta se destacava, avançando com passos firmes.
— Olha lá… — apontou ela, indicando uma silhueta ao longe, entre as luzes da cidade. — Lá vem ele!
— Onde?! Deixa só eu ver ele pra dar uns belos cascudos nesse velho! — disse Louie, olhando rapidamente ao redor.
Porém, ele não avistou nada.
— Ué… onde tu viu ele? Não tô achando. — questionou, forçando os olhos. — Tem certeza que era o Kael?
O rosto da menina, antes sorridente, agora lutava desesperadamente para não rir.
— Louie… atrás de ti… — disse ela, já secando lágrimas de riso.
— Hã? Atrás de mim? — Louie virou o rosto no mesmo instante. — Como assim atr-
Antes mesmo de terminar a frase, sua garganta congelou.
Kael estava ali.
Imponente, parado logo atrás dele, bufando enquanto o encarava de cima. Uma leve fumaça saía de seu rosto sério.
— O-a-ah! Kael… d-desde quando você tá aí…? — Louie forçou um sorriso nervoso, rezando para que Kael não tivesse ouvido o que fora dito momentos antes.
— Tu vai fazer o quê quando me ver, Louie? — questionou Kael, com a voz pesada.
— A-ah! Então… veja bem… v-você entendeu errad-
Kael não deixou que ele terminasse.
Com um golpe rápido e certeiro, acertou um cascudo forte de cima para baixo na cabeça do garoto, afundando seu rosto no chão.
— Devia ter mais respeito pelos mais velhos, moleque. — disse Kael, olhando com desdém e superioridade para Louie, ainda jogado no chão.
— V-vou lembrar disso na próxima… — murmurou Louie, levantando a mão e fazendo um joinha.
Depois de tanto tentar se segurar, a menina finalmente estourou em gargalhadas.
— Hahahaha!
Sua risada ecoou alta, bela e doce como uma música, preenchendo a rua fria naquela noite.
— Bom… vamos logo. — disse Kael, com a voz firme.
— Vamos pra onde? — perguntou Louie, se sentando e coçando o galo deixado pelo cascudo.
— Explico no caminho. — suspirou o comandante, saindo caminhando calmamente.
Momentos depois…
— Peço desculpas por ter feito vocês esperarem tanto, eu estava resolvendo algumas coisas. — o olhar de Kael se perdia ao longe, atravessando as iluminadas ruas noturnas de Áurea.
— Tudo bem… — disse a menina, soltando uma risada baixa.
— Uhum… sei. E que coisas seriam essas, importantes o suficiente pra fazer a gente esperar no frio? — perguntou Louie, levemente irritado.
— Eu estava organizando a papelada e ajudando a mobiliar a tua casa, Louie. — retrucou Kael, na lata.
— A-ah… era isso então? Tudo bem ter se atrasado. — coçou a nuca e desviou o olhar na maior cara de pau.
— K-Kael… posso fazer uma pergunta…? — questionou a menina. — O-onde eu vou ficar?
Kael levou os braços para o alto, se espreguiçando.
— Ahhh… esse era um dos assuntos que eu ia falar. Mas antes, pegue isso… — o comandante tirou do bolso uma pequena identidade esverdeada e estendeu o braço entregando-a à garota.
— Hã? O que é isso? — perguntou a menina, se aproximando para ler o papel.
Louie, curioso, inclinou a cabeça para perto da dela, tentando decifrar o que estava escrito.
— Espera… — os olhos da garota brilharam em um instante.
— Nós não podíamos continuar te chamando de “garota” ou coisa do tipo pra sempre… — começou Kael. — Então eu supus sua ligação com o Colégio Península e vasculhei minuciosamente tanto a lista de mortos quanto a de vivos.
Um sorriso suave surgiu em seu rosto enquanto ele continuava:
— Nisso, encontrei o registro de uma menina chamada Aya Nafidh, dada como morta naquele fatídico incidente.
— O mais importante é que tanto a aparência quanto os registros genéticos batiam perfeitamente.
O rosto de Kael ficou mais sério.
— Porém… infelizmente, não consegui encontrar nenhum registro do teu passado.
— Não importava o quanto eu pesquisasse.
— Peço desculpas por não conseguir mais informações além do teu nome…
Naquele instante, uma lágrima escorreu pelo rosto da garota, emocionada por finalmente saber algo sobre quem um dia fora.
Louie, ao seu lado, com um sorriso sincero, colocou a mão em seu ombro.
No mesmo instante, os olhos marejados da menina encontraram os do garoto.
— Vamos começar de novo… é um prazer te conhecer… Aya Nafidh.
E então, como uma criança, a menina desabou em choro.
— M-muito obrigada, Louie… e Kael. — suas lágrimas brilhavam sob a luz prateada da lua, enquanto seu sorriso parecia ainda mais intenso que ela. — Muito… obrigada!
Após alguns minutos de choro e comemoração, os três voltaram a caminhar em direção à nova residência dos Kaede.
— Agora, sobre onde tu vai ficar… — começou Kael, caminhando firmemente enquanto olhava para ambos.
Os olhos da garota, ainda vermelhos pelo pranto de mais cedo, o encaravam com atenção.
— A Emi se ofereceu para cuidar de ti. — Kael cravou. Um silêncio se instalou no ambiente.
— Emi? Quem é ela? — perguntou a menina.
— E-e-espera… minha mãe? — questionou Louie, surpreso.
— Exatamente. — confirmou Kael. — Eu estava comentando com ela durante a mudança que não sabia o que faria em relação à Aya. Então ela se ofereceu, dizendo que essa casa, a mesma em que vocês moravam antes de vocês saírem de Áurea, é bem grande. Teria espaço de sobra para mais um integrante.
— E-então… eu vou morar com o Louie?
— Isso mesmo. Considerando que tu e o Louie estão em situações semelhantes e que, até o momento, tu só conhece a mim, a ele e a Lila, considerei essa a melhor opção. — Kael abriu um leve sorriso travesso, claramente prestes a provocar. — Por quê? Não gostaram? Eu posso mudar…
— NÃO. — os dois responderam juntos.
— Quer dizer… não precisa fazer isso… — disfarçou Louie, levemente corado. — Vai ser divertido… não é mesmo, Aya?
Em um instante, o rosto da menina passou da surpresa para um sorriso de orelha a orelha.
— Claro!
— Certo, estejam preparados. — disse Kael, simples. — Amanhã a rotina de vocês vai mudar completamente.
— Hã? — Louie virou o rosto. — Como assim?
— Conversamos depois. Hoje já foi longo demais. — um sorriso satisfeito surgiu no rosto do comandante. — Por hora… o que importa é que chegamos.
Os rostos de Louie e Aya se encheram de espanto no mesmo instante.
Diante deles, uma gigantesca casa de dois andares se revelava.
Um lindo jardim verdejante se estendia pela frente, com um pequeno caminho de pedras que levava até a porta de entrada. Nas laterais, grandes janelas de vidro ocupavam a maior parte das paredes cinzentas. Acima, uma ampla sacada era banhada pela luz da lua.
Ao abrirem a porta e entrarem, o interior se mostrou belo e aconchegante. Uma lareira acesa iluminava a sala com sua luz alaranjada. À sua frente, um grande sofá cinza em U cercava uma mesa central.
Ao lado, uma cozinha espaçosa surgia, equipada com armários, utensílios elétricos e aparelhos de última geração.
— Uau… ela é tão grande quanto a tua casa, Kael… — cochichou Louie, vasculhando cada canto.
— Ela é linda… — disse Aya, observando o interior com os olhos brilhando.
Então, leves sons de passos descendo a escada ecoaram pela casa.
Era Emi, acompanhada por uma pequena silhueta logo atrás.
— Kael. Meu filho. Como vocês estão? — disse Emi, aproximando-se e abraçando-o.
— Oi, mãe… — sussurrou Louie, com um sorriso no rosto.
— Kael! — exclamou Nina, correndo animada em direção ao comandante.
— E aí, Nina. — sorriu Kael.
Quando enfim se aproximou, seus olhos cruzaram com o olhar púrpura de Aya.
— Nossa… que linda… — a expressão de Nina era de puro encanto.
Então desviou o olhar para o lado, encarando o irmão. No mesmo tom, as palavras escaparam sinceras de sua boca:
— Nossa… que feio.
— Ei! Por que tu age assim com teu mano?! — retrucou Louie, indignado.
— Blêêêê! — fez Nina, mostrando a língua para o irmão.
— Aaaaa, sua garotinha mimad—
— Moça bonita…
A voz de Nina ecoou, cortando Louie, enquanto seus olhos voltavam a se fixar na garota de cabelos negros.
— Qual é o seu nome? — sua voz soava travessa.
A menina de cabelos pretos como carvão sorriu de forma sincera.
— Então você é a Nina… teu irmão falou muito de você hoje…
— E-ei! É mentira! Não falei nada! — rebateu Louie, recuando, envergonhado.
— É um prazer finalmente te conhecer… me chamo Aya Nafidh.
— Aya… Aya… Aya… — Nina repetiu, pensativa por um instante. — Que nome lindo!
— Obrigada… — respondeu Aya, ainda um pouco envergonhada.
Emi se aproximou dela, colocando delicadamente as mãos em seus ombros.
— Seja bem-vinda, Aya Nafidh. A partir de hoje, essa também é a sua casa.
— Eu sinto que já disse isso tantas vezes hoje… — disse a menina, com um sorriso tímido e uma lágrima espontânea. — Mas… de novo… muito obrigada.
Assim, enfim, a noite prosseguiu em Áurea, repleta de descobertas, comemorações e alegria.
Enquanto isso…
Jax caminhava lentamente até o grande sofá da sala dos vigilantes.
Cabelos bagunçados, óculos de sol ainda no rosto e mentalmente exausto, ele se jogou sobre o sofá sem qualquer paciência.
Após ficar alguns segundos parado, com o rosto afundado no estofado macio, sussurrou:
— Por que ele não mandou a Lila, que costuma cuidar desse tipo de missão…?
O silêncio da sala foi sua única resposta.
Apenas o som distante da cidade de Áurea ecoava do lado de fora, constante e indiferente.
Jax respirou fundo, virou o rosto de lado e fechou os olhos por um instante.
— Eu nunca mais quero ser babá de criança.
Assim, a noite se fechava sobre Áurea, tranquila por fora, inquieta e cheia de novas oportunidades por dentro.
Algumas horas depois...
Naquela madrugada silenciosa, Louie abriu os olhos.
O quarto estava escuro, iluminado apenas por um feixe prateado da falsa lua que escapava pelas frestas da cortina.
Ele permaneceu alguns segundos encarando o teto.
Sem sono, mas não inquieto.
Apenas… desperto.
Sentou-se devagar na cama, passando a mão pelos cabelos ainda bagunçados.
O silêncio da casa era profundo, muito diferente do caos que havia vivido dias antes.
Ele se levantou e andou em direção à porta.
Ao atravessar a porta, viu o amplo e acolhedor andar de cima.
À sua frente, um corredor de madeira clara ligava os quartos, iluminado por pequenas e fracas luzes embutidas próximas ao chão.
À esquerda, a porta do quarto de Nina, decorada com adesivos coloridos. À direita, o novo quarto de Aya.
No fim do corredor, uma grande porta de vidro dava acesso à sacada.
Louie caminhou descalço até lá.
Deslizou a porta com cuidado, se deparando com o tocar da leve brisa da cidade subterrânea.
Áurea se estendia diante dele.
Mesmo sendo uma cidade sob a terra, sua imensidão era impressionante. Estruturas de concreto e metal erguiam-se sob o teto colossal que sustentava o mundo acima.
Algumas poucas luzes ainda estavam acesas. Janelas solitárias, postes espalhados, pequenos pontos dourados rompendo a madrugada.
Bela e silenciosa, como se respirasse devagar.
Louie apoiou os braços na grade da sacada.
Seu olhar era tranquilo, perdido no horizonte artificial da cidade.
Por alguns segundos, deixou o silêncio preencher tudo.
Então…
Algo chamou sua atenção ao longe.
No topo de um dos edifícios mais altos, uma silhueta tomava forma.
Completamente imóvel.
Escura demais para ser apenas sombra.
Um vulto recortado contra a luz fraca da cidade.
Louie estreitou os olhos.
— Hm?
Tentou focar melhor.
Inclinou levemente o tronco para frente, tentando enxergar com mais clareza.
A figura de máscara branca parecia estar olhando na direção dele.
E então…
— Louie?
A voz suave quebrou o silêncio.
Ele virou o rosto no mesmo instante.
Aya estava parada no corredor, a mão apoiada no batente da porta de vidro.
Os cabelos negros caíam soltos sobre os ombros, os olhos púrpura ainda marcados pelo sono.
— Tá tudo bem? — perguntou ela, a voz baixa para não acordar ninguém.
Louie piscou uma vez.
Duas.
Voltou o olhar rapidamente para o prédio distante.
Nada.
A silhueta havia desaparecido.
O topo estava vazio.
Apenas concreto e escuridão.
Ele continuou encarando por mais alguns segundos.
Então relaxou os ombros.
— Tô sim… — respondeu, coçando a nuca. — Só viajei um pouco.
“Acho que tô vendo coisa…” — pensou — “Deve ser porque estou cansado.”
Aya se aproximou, parando ao lado dele na sacada.
Os dois ficaram olhando Áurea em silêncio por um instante.
— Você também não conseguiu dormir?
Ela balançou a cabeça levemente.
— Não… mas não é nada ruim.
Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
— Acho que só estou… ansiosa. Curiosa sobre como vai ser meu futuro daqui pra frente.
Louie soltou uma risada baixa.
— É… eu também me pergunto isso.
Ele olhou para o horizonte artificial da cidade.
— Mas… seja lá o que o destino planeje…
Ele voltou o olhar para Aya, que apoiava os braços na grade, imitando-o.
— A partir de agora, vou ser eu mesmo. Porque desta vez…
— Não estamos sozinhos. — completou Aya.
Os dois ficaram ali, dividindo o silêncio confortável da madrugada.
Sem perceber que, em algum lugar distante, alguém também observava.
No topo de um prédio afastado, uma figura caminhava lentamente.
Passos firmes.
O manto escuro ondulava com o vento subterrâneo, tão denso quanto naquela noite sobre Porto Alegre.
A máscara profana escondia qualquer traço de humanidade.
Violeta.
Manchada pelo mesmo brilho pulsante que percorria suas ranhuras como veias vivas.
Das fendas que formavam o sorriso perturbador, a sombra parecia mais profunda do que o próprio abismo.
E, ao redor do olho esquerdo, a fumaça roxa escapava em fios lentos, serpenteando pelo ar como se ainda buscasse algo.
Ele parou por um breve instante.
Virou levemente o rosto para trás.
Seus olhos ocultos atravessaram a distância.
Fixos na casa recém-iluminada.
Um sussurro escapou por trás da máscara, leve como antes… pesado como sempre.
— Então essa… é Áurea.
O brilho violeta pulsou uma única vez.
E ele voltou a caminhar.
Como se a noite fosse apenas o começo.
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CURIOSIDADE 16:
O nome Aya Nafidh tem origem árabe.
Āyah (آية) significa “sinal” ou “manifestação divina”, sendo também o termo usado para “versículo” no Alcorão.
Nāfidh (نافذ) significa “penetrante” ou “aquele que atravessa”.
Juntos, podem ser interpretados como “versículo penetrante” ou “manifestação divina que atravessa”.
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FRAGMENTO HISTÓRICO 14:
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⟬ ARQUIVO DE ESTÁGIO 1 — Nº 011 ⟭
Diário pessoal — Observações
Autor: Marek Aurellum — Ano XL após a morte de Cristo.
(Documento confidencial. Extraído dos registros centrais da OPKM.)
Originalmente compilado por Marek Aurellum no quadragésimo ano após a morte de Cristo, como parte da obra “Crônica de Um Poder que Não Compreendo”.
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𐌌 A chama oscilou.
Por um momento, pensei que fosse apenas mais um capricho do ar rarefeito daquele abismo de pedra. Porém, o tremor não vinha da tocha, vinha de minhas mãos.
O chão pareceu inclinar-se sob meus pés.
Lucanus tentou dizer algo. Vi seus lábios moverem-se, mas as palavras não chegaram até mim.
O som tornou-se distante, como se estivéssemos submersos em águas profundas. A escuridão, antes externa, começou a avançar de dentro para fora.
A tocha caiu.
O impacto ecoou seco.
Lembro-me do cheiro de fumaça.
Depois… nada.
Não sei por quanto tempo permaneci entregue ao vazio.
Mas, a primeira sensação que retornou-me foi o calor.
Não o mesmo calor sufocante da caverna, mas um calor constante, quase doméstico.
Havia também um aroma, ervas, raízes cozidas, algo reconfortante que contrastava violentamente com as últimas horas que recordava.
Abri os olhos com dificuldade.
O teto era de pedra, irregular, mas diferente do túnel por onde caminhávamos. Havia vigas de madeira sustentando partes da rocha, cordas pendendo com pequenos feixes de plantas secas amarradas. A luz não vinha de uma tocha instável, mas de lamparinas fixas nas paredes.
Eu estava deitado.
Sob mim, peles e tecidos improvisavam uma cama. Meu corpo doía como se tivesse sido esmagado, mas estava inteiro.
Lucanus jazia ao meu lado, sobre outra cama rudimentar. Seu peito subia e descia lentamente. A respiração ainda pesada, mas estável. Seu semblante, apesar do cansaço, estava em paz, algo que não via desde que adentráramos a escuridão.
Um pouco além, outro homem ocupava uma terceira estrutura semelhante.
Ele estava muito mais ferido.
Ataduras grossas envolviam seu torso e parte do braço. Manchas escuras marcavam o tecido. Seu rosto era pálido, marcado por cortes recentes. Ainda assim, ele respirava.
O som de um leve assobio preencheu o ambiente.
Virei-me imediatamente na direção do som.
Mais adiante, próximo a uma abertura mais ampla da caverna adaptada como cozinha improvisada, uma mulher mexia um caldeirão suspenso sobre o fogo.
Seus cabelos caíam em ondas suaves, da cor do mel sob a luz do entardecer. Os olhos, quando ela inclinou levemente o rosto, possuíam o mesmo tom dourado do sol.
Seus movimentos eram habituais. Como alguém que já fizera aquilo incontáveis vezes.
Ela parecia não ter notado que eu despertara.
O aroma da comida tornou-se mais intenso. Meu estômago reagiu imediatamente, lembrando-me da fome que antes me consumia.
Tentei me erguer.
A fraqueza ainda era grande, mas não havia dor aguda. Alguém cuidara de nós.
Alguém nos trouxera para cá.
Antes de qualquer movimento mais brusco, deslizei a mão lentamente até minha bolsa lateral. Para meu alívio, ainda estava ali.
Com cuidado, retirei meu diário, este mesmo no qual escrevo agora, e, aproveitando que a mulher permanecia de costas, comecei a registrar estas linhas enquanto a memória ainda se encontrava fresca e intacta.
A memória final que possuo é a da tocha se apagando e do chão aproximando-se rapidamente.
Não havia qualquer saída à vista.
Não havia forças restantes.
E, ainda assim…
Estou vivo.
Lucanus está vivo.
Quem nos encontrou naquele labirinto sem fim?
Onde exatamente estamos?
E… por que fomos salvos?
Atualizarei assim que conseguir mais informações.
Assinado: Marek Aurellum
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⟬ FIM DO FRAGMENTO ⟭
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