Índice de Capítulo

    Todos os seres mágicos ficaram surpresos com a desistência do K’allpaq.

    As fadas deram piruetas no ar, e jogaram para o alto um tipo de pó colorido que, quando caiu no chão, grama úmida de orvalho brotou sobre a neve.

    Os elfos intensificaram a música e a dança.

    Os anões gargalharam alto e brindaram com seus chifres cheios de cerveja.

    Até o ronronado do dragão dorminhoco pareceu mais intenso.

    Os outros K’allpaqs ficaram incrédulos e vaiavam seu companheiro que, vergonhosamente, deixava a arena improvisada.

    — Vão vocês enfrentar o homenzinho! — murmurava ele, indignado.

    A marquesa se permitiu um sorriso discreto, mas não demonstrou muita emoção para além disso.

    — Entendo. Se é assim, então que seja! Lua, acompanhe-me! Soll, você também! Quero falar com minhas filhas!

    As duas irmãs se entreolharam.

    — Sim, mãe! — disseram, um tanto preocupadas.

    — Senhor Renato! — A voz da marquesa saiu aveludada. Porém, parecia esconder alguma coisa. — Por favor, nos dê licença por um instante, sim? Sinta-se em casa. Afinal, agora você é da família mesmo!

    Ela virou as costas e foi em direção ao palácio, enquanto era seguida pelas duas marquesas infantes.

    Irina franziu o cenho.

    — Como assim “parte da família”? O que ela quis dizer com isso? Não gostei do tom de voz dela.

    Irina olhou para o lado, para buscar apoio na fofoca com uma das outras garotas, mas tomou um susto.

    Tâmara, em silêncio, apenas expelia uma aura sombria, como se ela estivesse a ponto de cometer um crime.

    — Não tô gostando dessa história nem um pouco! — disse Jéssica, mordiscando os lábios.

    — Ei, homenzinho! Venha cá! — gritou o líder dos anões. — Você amedrontou mesmo aquele monstro! Há! Há! He! Bebe cerveja? — Ele enfiou um chifre dentro do barril e, quando o puxou de volta, ele tinha tanta cerveja que a espuma escorria pelas laterais.

    Renato achou um tanto irônico ser chamado de “homenzinho” por alguém que deveria ter, no mínimo, cinquenta centímetros de altura a menos que ele. Mas eles tinham cerveja, então preferiu não discutir.

    — Opa! Quem bebe tá aqui! — respondeu o garoto, se aproximando.

    O anão entregou o chifre pra ele. Renato bebeu um gole generoso, quase metade do conteúdo do chifre.

    — Ah! — suspirou com satisfação. — Essa cerveja é maravilhosa! Nunca bebi uma tão boa assim!

    — Mas é claro que é boa! — respondeu o anão. — Afinal, foi feita artesanalmente pelos anões da montanha de Grot! Impossível ficar ruim!

    — Bem melhor que aquele suco de milho fermentado com gosto de mijo de égua velha que os humanos bebem! — disse outro anão, gargalhando.

    — Vamos ver se é boa mesmo! — disse Clara, se aproximando. 

    — É claro! — disse o líder dos anões, entregando a ela um chifre. — Os companheiros de meu convidado também são meus convidados!

    Clara bebeu um gole. Sua expressão permaneceu neutra. Ela pensou por alguns segundos sobre qual seria sua abordagem, afinal, sabia ela que os demônios faziam bebidas muito superiores, e mesmo assim os anões eram tão arrogantes quanto a sua cerveja!

    O pior, pensou ela, é que realmente era gostosa e refrescante. Mesmo nesse mundo de gelo onde estavam, a bebida parecia aquecer o peito.

    — Droga! É boa mesmo! Rivaliza com o vinho de Belfegor.

    O líder dos anões cuspiu no chão, estufou o peito e ergueu o queixo.

    — Que se foda o vinho do seu demônio! Anões bebem cerveja! Apenas cerveja!

    — Sim! Apenas cerveja!

    — Cerveja é a melhor bebida!

    — Viva a supremacia da cerveja!

    — Cerveja é a rainha das bebidas!

    Os anões vibraram, eufóricos, balançando seus machados e martelos de guerra.

    “Droga! A Clara ofendeu os caras que estão nos dando cerveja grátis!” pensou Renato.

    — Aliás, meu nome é Ryon Tsoavk Dration Quivaric Alaric! — disse o líder dos anões que, aparentemente, não se incomodou tanto com as palavras da súcubo. — O rei sob a montanha de Grot! Filho de Ryon Drakimi Dration Lukisic Evoan! Neto de Ryon Eulian Alaric Salvator! Ambos reis sob a montanha de Grot, em seus respectivos tempos!

    Renato fez uma mesura, afinal, estava diante de um rei.

    — É um nome longo para lembrar! — respondeu ele.

    — Te darei a honra de me chamar apenas de Ryon! Os anões valorizam pessoas destemidas, garoto! Tome, beba mais cerveja!

    Renato não discutiu. Cerveja era sempre bom!

    Finalmente, a marquesa voltou. Direcionou seus olhos de rubis diretamente para Renato. Ele sentiu um calafrio atrás da nuca.

    Ryon lhe deu um tapa no ombro.

    — Parece que a marquesa Nevasca gostou de você, rapaz!

    — Não tenho tanta certeza disso, não!

    — Por favor, siga-me — disse ela, com uma mesura educada. — Suas… acompanhantes também serão bem-vindas.

    Enquanto subiam os translúcidos degraus de gelo em direção ao palácio, Irina se aproximou de Clara para cochichar.

    — Que história é essa de acompanhante? Acompanhante não quer dizer put…

    — Shi! Também significa alguém que acompanha, ué. Nada demais!

    — Nada demais uma ova! Essa marquesa tá xingando a gente com calma e eloquência!

    O interior do palácio era uma das coisas mais bonitas que Renato já tinha visto. As paredes, o chão, o teto, tudo era de gelo. A translucidez guiava os raios de luz, então tudo brilhava como uma jóia.

    A marquesa guiou os visitantes até uma sala onde Soll e Lua já os aguardavam, sentadas à mesa.

    Aerin, com sua roupa de visconde de sabugosa e o chapéu de folhas congeladas, estava de pé, ao lado delas, parecendo um mordomo.

    Soll bebia um tipo de bebida quente.

    Lua desviou os olhos assim que eles chegaram. Vê-la com uma expressão envergonhada desse jeito era coisa rara.

    — Senhor Renato, eu ouvi algumas coisas sobre você — disse a marquesa Nevasca. — Algumas bastante… impressionantes.

    — Ah, bom… — Renato tentou forçar o cérebro ao máximo para usar as palavras da melhor maneira possível. — Eu passei por algumas situações bastante intensas, eu acho.

    — Intensas de que tipo?

    — Do tipo envolvendo mercenários possuídos, fogo infernal, morte, cavaleiros do apocalipse… essas coisas. Só o básico mesmo. Nada demais.

    Os olhos de rubi da marquesa se fixaram nele, como se estivesse decifrando-o totalmente. E então, um sorriso cintilou em seu rosto.

    — Você é divertido, Renato! Só o básico, veja só! — Ela riu. — Agora eu percebo porque minha filha gostou de você.

    — Mãe! — Lua tentou protestar.

    — Ora, filha, você vai ficar tímida na frente dele, depois de dizer tudo aquilo pra mim?

    — Mas eu não disse nada demais, mãe! Eu não disse que “gooosto” dele. Eu disse apenas que… você sabe… ele é só um pouquinho mais suportável do que todos os outros garotos.

    — Isso parece gostar para mim — a marquesa sorriu.  — E então, Renato, quais são suas intenções com a minha filha? Desculpe se pareço superprotetora, mas zelar pelo futuro da filha é uma das principais funções de uma mãe, não concorda?

    — Intenções? — O garoto moveu os olhos, visualizando cada uma das garotas.

    Irina tinha aquele sorriso falso que ela fazia quando queria disfarçar o nervosismo. O mesmo que já enganou um general e um primeiro ministro certa vez.

    Tâmara, séria, fitava a marquesa com os olhos de um predador. Parecia a ponto de explodir. Soll percebeu e, debaixo da mesa, sua mão cintilava em chamas.

    Jéssica e Mical encaravam Renato com olhares inquisidores que queriam dizer algo como “e agora? O que vai fazer?”. Jéssica mordiscava os lábios, inquieta.

    Lírica permanecia imóvel, sem qualquer expressão no rosto. Seus olhos de cobre eram tão frios quanto as paredes e o chão desse belo palácio.

    E Clara. A mais cortês de todas. Seu sorriso parecia sincero. No entanto, era a mais volátil no humor e, provavelmente, a mais imprevisível. Difícil adivinhar o que passava pela cabeça dela nesse momento.

    — Minhas intenções eram apenas ajudar Lua quanto a questão do casamento.  Nada além disso.

    — Ah, Renato, não precisa ficar intimidado.  Estamos em família aqui.

    — Mãe! Eu não acho que seja uma boa hor…

    — Shh! Quieta, criança. Deixa que a mamãe resolve.

    — Ah, merda! — Soll bateu com a mão sobre a mesa. Em sua pele, pequenas faíscas cintilavam. — Ele nem sequer é um ser elemental! É uma… uma coisa! Uma aberração! Até os demônios consideram ele uma coisa bizarra! Não aceito que…!

    — Quieta! — Com um gesto de Nevasca, gelo brotou nos lábios de Soll, selando-os. — Já conversamos.

    O fogo de Soll fez o gelo em seus lábios derreterem e se romperem violentamente.

    — A Lua é minha irmã!

    — E minha filha. E também a marquesa infante de nossa terra. Ela tem obrigações a cumprir.

    — Você ia mesmo dar sua filha em casamento pra um monstro?

    — As decisões que tomei, nos levaram a esse exato momento, não foi? Diz pra mim, minha filha Lua, você quer se casar com esse humano?

    Lua baixou o rosto. Sua pele branca adquiriu uma tonalidade avermelhada. Suas bochechas estavam ruborizadas.

    — Eu…

    — Diz, Lua— Clara abriu um sorriso provocador. Seus olhos brilhando como os olhos de um tigre na noite. — Você quer se casar com o Renato?

    — Eu…

    — É claro que ela quer — disse Lírica. — Eu sinto o cheiro de cio nela.

    — É uma safada mesmo! — Irina não conseguiu conter os pensamentos intrusivos.

    — Cuidado com a língua, senhoritas — disse a marquesa Nevasca. — Não queremos que nosso encontro amigável termine em violência, não é?

    Soll, no entanto, não partilhava do mesmo espírito diplomático da senhora dessas terras frias. E sua voz explodiu com ira:

    — Xingue minha irmã de novo e eu cozinho você de dentro pra fora!

    — Seria divertido ver você tentar! — retrucou Irina, com dentes cerrados.

    As duas até tentaram se levantar de suas cadeiras, mas não conseguiram. Uma película de gelo as manteve grudadas em seus lugares.

    — Quero pedir que acalmem os ânimos — disse Nevasca. — Precisamos discutir assuntos relevantes para o futuro de todos.

    — Não vai levar o Renato — respondeu Tâmara, com a voz seca.

    O mordomo Aerin suspirou, cansado, e se inclinou numa mesura.

    — Senhora Nevasca, benevolente protetora dessas terras, permita-me ausentar-me por um instante.

    — Tudo bem, Aerin, pode ir. Isso deve ser cansativo pra você.

    — Obrigado, senhora!

    O mordomo virou as costas e se retirou.

    Num quarto que ficava longe o suficiente dos ouvidos sobrenaturalmente eficientes daqueles seres, Aerin mudou.

    Seu rosto derreteu, e terra barrenta descolou de sua cara, como uma máscara que derretia.

    Uma casca de barro e terra se soltou de todo o seu corpo, revelando uma nova forma antes oculta.

    Não era mais Aerin que ali estava, mas A Besta que Subiu da Terra.

    Ele tirou do bolso um comunicador rúnico e entrou em contato com seu mestre.

    — Emannuel, estou aqui, infiltrado na Marca gelada da Feéria, conforme sua ordem. Eles acreditam que eu sou o elemental.

    — Sim. E o que há de errado?

    — O garoto, senhor! O condutor! Ele está aqui.

    Na sala de reuniões, Nevasca, um ser elemental antigo e poderoso, teve sua intuição atravessada por uma sensação esquisita que lhe causou comichão no cérebro.

    — Com licença! Volto num instante! 

    Disse ela, antes de ir atrás de seu mordomo.

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