A bota de David arrombou a porta de metal do açougue no setor seis. A fechadura estourou e os pedaços de aço voaram pelo ambiente escuro. 

    O interior do comércio cheirava a carne sintética e exibia vitrines vazias sob lâmpadas queimadas. 

    Goliah e o parceiro cruzaram o salão em passos rápidos e seguiram direto para a porta dupla de isolamento térmico nos fundos do prédio.

    O gigante  empurrou as travas pesadas e uma rajada de ar congelante atingiu os dois mafiosos. O frigorífico guardava ganchos de carga pendurados no teto baixo e prateleiras de grade enferrujada.

    Eles arregalaram os olhos para a cena que encontraram.

    No centro da sala, Linus pendia de cabeça para baixo preso a um gancho grosso pelos tornozelos. Cabos plásticos transparentes e agulhas perfuravam o pescoço e os braços da vítima. Os tubos sugavam o sangue escuro e direcionavam o fluxo para um maquinário portátil no chão.

    Ao lado da máquina, uma figura vestia um traje completo de proteção química na cor cinza e cobria a cabeça com um capacete selado sem viseira aparente.

    O barulho da invasão sobressaltou o assassino que virou-se na direção da dupla. Sem hesitar, agarrou o feixe de cabos conectados a Linus e puxou todos de uma só vez. A carne rasgou e o sangue espirrou no chão frio. 

    O Açougueiro correu em direção à saída de emergência nos fundos do frigorífico. David sacou sua arma e atirou, mas o desconhecido já havia sumido na porta com sua máquina e seus cabos.

    Goliah disparou atrás do criminoso e gritou para o parceiro:

    — Tire ele do gancho!

    Cruzou a porta de emergência e invadiu o beco escuro atrás do prédio. O assassino escalava uma cerca de arame farpado no final do corredor de tijolos. 

    Goliah ergueu o braço direito e esticou os dedos. 

    As placas de metal na palma de sua mão deslizaram para os lados com um clique mecânico e revelaram o cano circular de uma arma embutida.

    O estampido ensurdecedor ecoou pelas paredes do beco. O projétil rasgou o ar e estilhaçou o concreto a poucos centímetros do ombro do fugitivo. Atirou outra vez, dessa vez a queima roupa. O Açougueiro tombou para o outro lado da cerca, caiu no asfalto molhado e desapareceu na neblina da rua principal.

    A fumaça do disparo subiu do buraco aberto na palma da mão de Goliah. 

    O anão abaixou o braço, xingou a própria falha com um palavrão áspero e voltou para o interior da câmara frigorífica a passos pesados.

    David depositava o corpo de Linus no chão de azulejos brancos. 

    A pele exibia uma palidez extrema sob a luz clara da sala, no seu peito, um buraco ensanguentado onde antes devia estar o marca-passo cibernético.

    O frio do ambiente esfriava o corpo da vítima em um ritmo acelerado. 

    Goliah ajoelhou-se ao lado de Linus e constatou como o pulso do homem batia fraco contra a pele do pescoço.

    Os lábios pálidos tremeram, seus olhos piscaram fracamente.

    — Eu sei que vou morrer.

    O anão sustentou o olhar do ex-fuzileiro em silêncio. David soltou um suspiro profundo e permaneceu imóvel ao lado dos dois.

    Linus engoliu a seco e forçou as próximas palavras pela garganta.

    — E-escute! Eu tenho certeza. O Açougueiro matou a Silvia. O implante…

    Os olhos de Linus perderam o foco e paralisaram na direção do teto. O peito do ex-soldado afundou em uma última exalação, e a musculatura do rosto relaxou de forma definitiva.

    Um silêncio melancólico tomou a câmara frigorífica, dividiu-a com o ruído elétrico dos refrigeradores de ar.

    Goliah levantou-se após alguns instantes e enfiou a mão no bolso do sobretudo de onde sacou um pequeno frasco de vidro. Abaixou-se perto do homem outra vez e recolheu o sangue de suas feridas abertas.

    A interrupção abrupta do maquinário impediu a drenagem completa.Teve que apertar o frasco contra a pele do homem, pois o sangue não pingava. Encarou o líquido. Estava mais escuro do que o comum.

    David desviou os olhos da cena, mexeu os ombros de forma desconfortável.

    Goliah fechou a tampa do frasco e guardou a amostra no bolso, ainda de costas para o colega.

    — Foque no nosso trabalho. Procure por mais pistas na sala ao lado.

    David acenou com a cabeça pesada e caminhou para o salão frontal do açougue.

    O anão encarou as manchas de sangue no chão, deixadas pelo arranque violento dos mecanismos de extração.

    As portas do frigorífico estouraram para dentro com um impacto violento. Vincent cruzou o batente com a arma de serviço em punho. O inspetor cravou o olhar na figura de Goliah por trás das lentes avermelhadas.

    — Você de novo. Então Parvo estava certo.

    Franziu o nariz com a visão da poça escura no chão e fixou a mira no anão.

    — Afaste-se deste homem.

    Goliah manteve as mãos nos bolsos do sobretudo.

    — Você chegou um pouco tarde, policial. A vítima morreu.

    — Identifique-se — exigiu Vincent. — Quem é você e o que faz aqui?

    Goliah abriu um sorriso curto no canto da boca.

    — Eu sou um detetive particular. Eu vim realizar o trabalho que ninguém neste lugar parece capaz de fazer.

    O maxilar de Vincent contraiu.

    — Quem é seu contratante?

    — Não é da sua conta da silva.

    — Seu maldito. Acha que isso aqui é uma brincadeira?

    — Se for, é uma bem sem graça. Nessa colônia vocês já inventaram as piadas?

    Vincent respirou fundo, baixou a mão livre até o cinto tático e sacou um par de algemas.

    — Talvez você se sinta mais à vontade para falar na delegacia.

    O policial avançou em passos curtos, com o cano da arma firme na direção do suspeito e as argolas de metal prontas. O anão não esboçou nenhuma reação de defesa física. De forma súbita, ele arregalou os olhos monocromáticos e apontou o dedo de forma agressiva para o espaço vazio atrás de Vincent.

    — Ei! Você, pare aí mesmo!

    Vincent ergueu o queixo, sorriu de canto e sustentou o contato visual.

    — Você deveria tentar ser mais origi…

    O punho de metal de David atingiu a nuca do policial em um golpe seco e devastador. Vincent revirarou os olhos, seu corpo perdeu a tensão muscular e desabou de bruços no chão de azulejos, completamente desacordado.

    Goliah suspirou.

    — Você foi muito bruto na pancada. Nós precisamos dar o fora daqui logo.

    David assentiu. 

    — Desculpe.

    Os dois caminharam em direção à saída do açougue. O baixinho parou no limite do corredor e olhou para trás. Encarou o corpo pálido de Linus jogado no chão por um último segundo e abandonou a sala fria.


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