09 Pequeno Gigante | Julgamento
Goliah e David cruzaram as portas de madeira maciça. O escritório da diretoria estava completamente vazio. A luz vermelha do alarme banhava a mesa de vidro e os móveis do ambiente.
Goliah tocou a lateral do próprio rosto. O olho esquerdo do anão emitiu um brilho azulado. A visão cibernética mapeou o assoalho em busca de variações de temperatura. Pegadas térmicas recentes brilhavam no tapete felpudo e terminavam de forma abrupta em uma parede lisa com painéis de mogno.
Suspirou como se estivesse entediado.
— Tão óbvio. Tão previsível.
O anão apontou para o local exato. David avançou e desferiu um soco pesado na estrutura. A madeira partiu em pedaços e revelou uma passagem oca.
Dentro do compartimento secreto, estava o diretor Luno abraçado aos próprios joelhos no chão apertado do esconderijo. Seus olhos estavam arregalados de pavor.
— Boa noite, Luno — saudou Goliah.

— Seus malditos! — gritou o diretor. — Quem são vocês de verdade? A Vest Corp aprova isso?
O pequeno soltou uma gargalhada ruidosa.
— Nós não somos da Vest Corp.
Ele secou o canto do olho.
— Tira ele daí.
O diretor encarou o gigante se aproximar em pânico. David segurou-o pelas axilas e o tirou de dentro da parede como se fosse um boneco, então o largou no chão.
— Eu me chamo Goliah e este é David. Nós somos executores da Nebula Nostra.
O anão penteava a ponta do bigode com um sorriso.
Luno tremeu dos pés à cabeça.
— Ne-Nebula? O que vocês querem comigo?
— Eu quero acesso aos podres da empresa. Abra todas as informações ocultas. Tudo o que você poderia querer que ninguém soubesse.
O diretor respirava com dificuldade. Seus olhos iam do pequeno para o gigante como se tentassem medir de quem ele devia sentir mais medo.
Goliah estreitou o olhar.
— Agora.
O homem rendido tremeu ao comando, mas assentiu imediatamente.
Ele se levantou de forma desajeitada e caminhou até a mesa, onde encostou o dedo no leitor biométrico e digitou a senha no terminal principal.
Em alguns instantes que lhe pareceram horas, o servidor destravou.
Goliah empurrou-o para o lado e assumiu o controle do computador.
Acessou as pastas criptografadas e os bancos de dados confidenciais.

“Caramba. Isso é mais do que eu esperava.”
Os documentos exibiam provas inegáveis da ligação entre os assassinatos recentes, a Silco Co. e a alta cúpula dos fuzileiros lunares. Os arquivos continham a identidade real do Açougueiro e o escopo total da operação.
Seu implante óptico brilhou num azul mais escuro e capturou os principais pontos dos relatórios para guardá-los no chip de memória.
Os relatórios militares detalhavam o acidente de cinco anos atrás na Latos Construtos. O desastre liberou um composto químico capaz de provocar uma mutação instantânea no sangue humano.
A transformação gerava um combustível extremamente volátil e eficiente. O exército lunar forjou a morte do diretor executivo Laikos Pevensie para acobertar a descoberta. Pevensie passou por cirurgias plásticas profundas e assumiu a identidade de Lunotrius Weber.
Patrocinado pelo exército, Luno guiou o desenvolvimento do óleo para uso militar. Ele estruturou diversas empresas laranjas para fabricar e doar implantes cibernéticos para a população. A Silco Co. controlava essa rede de distribuição.
Os aparelhos injetavam o composto químico nos pacientes de forma silenciosa e programavam a mutação sanguínea para um momento futuro. O Açougueiro atuava no esquema como um mero funcionário encarregado de coletar o óleo após a conversão total do corpo.
Uma pasta de alvos continha o caso de Silvia. A filha do prefeito utilizou os serviços de uma das clínicas laranjas para instalar um implante óptico.
O exército descobriu o apoio financeiro da garota à causa revolucionária e a marcou como um alvo do projeto de coleta. Os fuzileiros lunares também utilizaram militares desertores como cobaias descartáveis do sistema.
Linus integrava essa lista de testes.
Goliah terminou de ler os documentos e retirou o chip de armazenamento do painel.
Retirou o comunicador do bolso e iniciou a transmissão encriptada. O holograma do prefeito Lesbos piscou na projeção sobre a mesa.
— Prefeito…
— Alguma novidade?
Goliah sorriu em resposta.
O anão relatou a descoberta de forma direta. Ele detalhou a rede de empresas laranjas, a contaminação dos implantes cibernéticos e o motivo militar por trás do assassinato de Silvia.
Ao longo da conversa, o rosto do prefeito mudou de surpresa, para choque, e ao final congelou puro ódio.
— Onde está o desgraçado responsável por tudo isso?
Goliah coçou a cabeça e pegou o comunicador da mesa. Ele mostrou a figura recolhida de Luno no canto da sala. Os olhos do diretor se arregalaram ao encontrar os do prefeito e ele cobriu o rosto com as mãos.
Lesbos contraiu as sombrancelhas e seu maxilar travou na hora.
— Eu quero esse desgraçado morto. — Rosnou.
Goliah voltou a pôr a projeção sobre a mesa e cruzou os braços.
— Bem, o contrato é para matar o açougueiro, então…
David coçou a nuca ao lado.
— Mas chefe, e aqueles caras qu-
Goliah o silenciou com um olhar de canto que poderia matar. Seu implante brilhou em um vermelho vivo e incandescido. O gigante engoliu em seco.
— Eu adiciono o dobro do valor original do nosso acordo na sua conta agora mesmo. Execute Luno imediatamente.
Goliah fez uma mesura para a projeção com um sorriso largo.
— O valor adicional é satisfatório. Contrato aceito.
Então, o baixinho encerrou a chamada e a luz do projetor apagou.
Luno ouviu a negociação com os olhos arregalados. Quando o mafioso finalmente se virou, ele estava ajoelhado com a testa no chão.
— Eu pago o dobro do valor dele! O triplo! Pegue o dinheiro das contas da empresa e me deixe fugir!
Goliah guardou o comunicador.
— A nossa reputação possui um valor incalculável. Dinheiro nenhum compra a confiança dos clientes da Nebula Nostra.
O executivo se ergueu e arrastou-se até o canto da sala com a boca aberta em um grito mudo.
Ele ajeitou as lapelas do sobretudo, estufou o peito e adotou uma postura ereta. Então, pigarreou antes de iniciar.
— Lunotrius Weber, antigo Laikos Pevensie. Os seus crimes contra a população desta colônia e a orquestração do assassinato da jovem Silvia Lesbos exigem a punição máxima. Eu, Goliah, executor da corporação Nebula Nostra…
Luno deslizou a mão direita de forma rápida para baixo do tampo de vidro da mesa de canto e seus dedos tocaram o cabo de uma pistola de energia oculta. Os cantos de seus lábios tensos se curvaram em um sorriso.
O braço esquerdo de David moveu-se. O gigante sacou uma arma pesada do coldre interno do paletó e puxou o gatilho sem hesitar.
O estrondo do disparo preencheu o escritório. A bala atingiu o centro da testa de Luno e implodiu a cabeça.

O corpo do diretor despencou para trás e bateu no assoalho de madeira com um baque seco. O sangue formou uma poça escura ao redor da cabeça.
A fala de Goliah morreu pela metade. O anão encarou o cadáver por um instante e virou o rosto irritado na direção de David.
— Você interrompeu o meu discurso.
David abaixou a arma e guardou o equipamento no coldre.
— Ele ia atirar em você.
— E?
Eles se encararam em silêncio por um instante antes que o gigante suspirasse.
— A sua teatralidade não combina com a brutalidade do nosso trabalho.
Goliah cruzou os braços e endureceu as linhas de seu rosto.
— Os ritos da Justiça possuem uma enorme importância. O protocolo formal evita a banalização das execuções.
A expressão monótona de David não condizia com a de alguém que concordava.
O anão ajeitou as golas do terno e se virou para a saída.
— E o pavor no olhar dos condenados é parte do meu pagamento.
David ajeitou o paletó amassado e seguiu atrás do colega.
— Essa última parte faz mais o seu estilo.
— Setor norte isolado! Três guardas mortos perto dos elevadores principais! — gritou um sargento no rádio comunicador.
— Nós temos perfurações de alta velocidade nas paredes e nos corpos dos seguranças — relatou uma perita criminal agachada perto de uma poça de sangue espessa. — O calibre é desconhecido e não deixou projéteis rastreáveis. Meu Deus… Quem são esses caras?
Vincent ignorou a movimentação dos colegas. Sua mente estava em turbilhão.
“Aquele maldito Laikos foi capaz disso para fugir?”
A ideia de que isso tudo era uma cortina de fumaça o assombrava.
O inspetor sacou a arma de serviço e correu em direção à escadaria de acesso. Ele subiu os degraus de dois em dois, impulsionado pela urgência da situação.
Quando chegou ao sexto andar, ficou paralisado.
Dez seguranças da corporação jaziam mortos no saguão central. Cápsulas deflagradas de fuzil forravam o chão. O secretário Sínodo repousava com o tórax e os ossos da face afundados em direção ao chão.
Vincent seguiu o rastro de destruição até a sala da diretoria executiva. As portas pesadas de mogno estavam abertas. O alarme silencioso piscava em um tom vermelho constante no teto de gesso.
Mas a surpresa estava no meio. Ele arregalou os olhos atrás das lentes vermelhas.
O corpo de Luno ocupava o espaço entre a mesa e a estante. Uma poça de sangue manchava o tapete felpudo, escorrido do vazio sobre a placa cibernética no pescoço do cadáver.
— Que… O que houve aqui?
Seu olhar recaiu sobre a mesa de vidro, onde o terminal de computador exibia a tela de acesso liberado. O servidor brilhava com pastas descriptografadas e arquivos militares confidenciais abertos.
Vincent engoliu em seco e olhou para a porta. Ninguém estava a caminho.
Ele guardou a arma no coldre e contornou a mesa de vidro. Ele tocou a interface digital brilhante. O sistema carregou os dados do projeto Sangria e projetou um holograma de identificação no centro da sala.
Vincent franziu o cenho. O arquivo listava os dados biológicos e o registro tático do Açougueiro. Com um clique, um arquivo com extensão de imagem se abriu numa projeção larga para o centro da sala.
A imagem em três dimensões girou sob a luz azul.
Vincent paralisou. Os músculos do seu corpo travaram.
— Isso…
A projeção holográfica exibia o rosto de um homem. Barba farta, cabelos negros, cicatriz no supercílio esquerdo. Um nome piscava abaixo: Jonatan.

O ar sumiu dos pulmões do inspetor. As pernas dele perderam a força de sustentação. Vincent tropeçou para trás de forma desajeitada e caiu sentado no tapete ensopado de sangue, a poucos centímetros do braço do cadáver de Luno. Fitou a poça de sangue ao redor do pescoço metálico.
A imagem do anão engravatado retornou à mente do policial com clareza absoluta. O mafioso procurava o assassino para cumprir um contrato de execução.
Vincent apoiou as duas mãos no assoalho e levantou de forma brusca e correu para fora do escritório.
Cruzou o saguão cheio de corpos e desceu a escadaria em velocidade máxima.
No terceiro andar, um policial fardado subia os degraus em ritmo acelerado com um fuzil na mão. O agente esbarrou com força no ombro de Vincent, mas não foi capaz de freá-lo.
— Inspetor! — gritou o policial, apontando o dedo freneticamente para a própria escuta no ouvido. — Encontramos mais pessoas no subsolo!
Mas Vincent já virava o cruzamento abaixo. Ele disparou em direção à rua sob a chuva fina.

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