10.CAPÍTULO: A Despedida que Não Dei
Os dias pareciam consideravelmente mais calmos e suportáveis desde que aquela luz cruzara o meu caminho. Ela agia exatamente como um raio de sol inesperado, rompendo a neblina densa e fria da minha solidão crônica. Pela primeira vez em anos de invisibilidade escolar, eu não me sentia um fantasma vagando pelos corredores. Havia alguém de verdade posicionado ao meu lado no banco do pátio. Alguém que genuinamente me escutava, que não me julgava pelas minhas falhas e que me fazia acreditar, mesmo que timidamente, que eu não estava completamente abandonada à própria sorte no universo. Achei, do fundo do meu coração, que finalmente tinha encontrado um porto seguro. Mas o tempo, agindo com a sua crueldade habitual e indiferente, decidiu me provar o contrário da forma mais dolorosa possível.
No início, foram apenas sinais muito sutis, pequenas pistas que a minha mente tentava desesperadamente redefinir para não entrar em pânico. Ela estava visivelmente mais quieta durante nossos encontros, com o olhar perdido em algum ponto distante do horizonte. Parecia distante, mesmo estando a poucos centímetros de mim sob a sombra da nossa árvore. Eu percebia aquelas nuances incômodas na sua postura e no tom de sua voz, mas tentava ignorá-las a todo custo. Dizia a mim mesma que era apenas uma impressão boba, talvez apenas uma fase passageira ou o cansaço acumulado das matérias. Mas não era. O destino já havia traçado o seu rumo.
Um dia, no final do turno, ela me chamou para conversar em um canto mais reservado do corredor, longe do fluxo principal de alunos que saíam em direção aos portões. O tom excessivamente sério e a falta do seu sorriso habitual me fizeram contrair o estômago imediatamente, antecipando uma explicação difícil, algo complexo que nós duas pudéssemos sentar e resolver juntas. Mas o que ouvi saindo de seus lábios foram as palavras exatas que eu passei a vida inteira torcendo para nunca escutar:
— Até logo, Lythsu.
Duas palavras simples. Apenas duas palavras curtas e polidas, mas que carregaram o impacto necessário para partir algo precioso e frágil que vinha se reconstruindo dentro de mim.
Por alguns segundos que pareceram horas, fiquei completamente sem entender, congelada no lugar enquanto o som daquelas sílabas ricocheteava nas paredes de concreto. Minha mente se recusava a acreditar na realidade do que estava acontecendo. Você havia chegado justamente quando tudo ao meu redor parecia irremediavelmente perdido. Me estendeu a mão sem pedir absolutamente nada em troca, suportou meus silêncios e deu cores vivas aos meus dias mais cinzentos. Você tinha reacendido uma chama de esperança que eu já considerava morta e enterrada no meu peito. E agora… agora eu assistia, impotente, aos seus passos começarem a se afastar na direção oposta.
Meu peito apertou de tal forma que senti uma dor física real, como se costelas estivessem esmagando meus pulmões. Minha garganta travou por completo, bloqueando qualquer tentativa de fala. Por dentro, minha mente operava em um cenário de caos absoluto; eu gritava, implorava e chorava internamente, mas nenhuma vibração passava pelas minhas cordas vocais.
Quis correr atrás de você pelo corredor. Quis segurar o seu casaco, agradecer por cada segundo compartilhado e pedir, por favor, para você ficar um pouco mais. Quis dizer em voz alta o quanto a sua amizade havia se tornado o pilar que me mantinha de pé. Mas minhas pernas simplesmente recusaram o comando mecânico, pesadas como blocos de concreto fincados no chão. Quis te abraçar um última vez para guardar a sensação da sua presença, memorizar o som da sua voz e a segurança do seu toque. Mas permaneci imóvel. Rígida. Silenciosa. Como sempre fiz diante dos grandes abalos da minha vida.
Eu me odeio profundamente por isso. Me odeio por não ter falado quando o silêncio exigia palavras. Por não ter corrido atrás quando a distância ainda era curta. Por ter assistido a tudo sem esboçar uma única reação externa. Meu corpo físico travou por completo em uma pane generalizada. Meu coração gritava em desespero, batendo contra o peito, mas minha boca permaneceu fechada, selada pelo medo e pela covardia. E o tempo… o tempo não perdoa hesitações. Ele simplesmente avança e não volta atrás.
Hoje, carrego comigo o peso esmagador de tudo o que deixei de fazer naquele corredor. O fardo das palavras de gratidão que nunca saíram da minha boca, dos sentimentos intensos que nunca foram expressados e que agora mofam no fundo da minha memória. O arrependimento me acompanha a cada passo como uma segunda sombra, sussurrando o que poderia ter sido. Sinto-me eternamente presa nesse limbo cruel entre o querer agir e o silêncio paralisante. Entre a faísca de coragem e o abismo do medo.
A porta lateral da escola ainda estava escancarada, permitindo a entrada da claridade da tarde. Mas você já tinha ido. Eu ouvia o eco dos seus passos apressados reverberando pelo piso de cerâmica do corredor, cada impacto distante funcionando como um anúncio claro de um futuro que eu teria que enfrentar sem você. O silêncio avassalador que se instalou no espaço logo em seguida parecia muito mais barulhento e violento do que qualquer palavra de despedida.
Em um reflexo tardio e inútil, estendi a mão em direção ao espaço vazio. Mas era tarde demais. O vento fresco da tarde entrou pela fresta, batendo contra o meu rosto e trazendo consigo uma sensação gélida que nunca mais consegui esquecer: o gosto amargo do arrependimento tardio.
Quis gritar o seu nome com todas as forças que restavam no meu peito. Quis pedir para você reconsiderar, para ficar e continuar desenhando comigo sob a árvore. Quis, no mínimo, ter tido a decência de dizer um adeus adequado. Mas nada saiu além de um sopro de ar fraco. Fiquei parada no mesmo lugar, estática como uma estátua esquecida, observando a sua silhueta desaparecer na curva do portão principal.
Foi exatamente naquele momento de solidão profunda que compreendi uma verdade dolorosa sobre a existência humana: existem palavras que, uma vez guardadas no momento errado, nunca mais poderão ser recuperadas ou ditas. Existem despedidas definitivas que simplesmente nunca acontecem no plano real. Existem pessoas cruciais que vão embora de nossas vidas muito antes de encontrarmos a coragem necessária para verbalizar o que realmente sentimos por elas.
Eu só queria ter tido a oportunidade e a firmeza de dizer adeus. Queria ter fechado aquele ciclo de forma justa. Mas nem isso eu fui capaz de conseguir. Agora, tudo o que resta na minha rotina é o vazio imenso e ecoante deixado por uma despedida que nunca aconteceu. Um adeus não dito, sufocado pelo medo, que acabou se transformando em um adeus para todo o sempre.

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