Índice de Capítulo

    Akemi sabia o que o esperava em uma das portas do térreo; sua decisão já havia sido tomada: a decisão de caminhar e tentar.

    O rapaz parou frente a uma curta porta de correr, uma primeira barreira simples, que para ele, parecia um obstáculo impossível de ser tocado. “A recepcionista me disse que ele costuma ficar nesta sala. Mas, será mesmo que eu não o incomodaria? Bom, espero que ao menos esteja aqui.”

    Talvez fosse medo, falta de coragem, ou os dois. Contudo, por mais frágil que fosse, o primeiro teria que ser dado.

    Toc toc toc. A madeira da porta foi tocada com todo o arrojo de um jovem preparado.

    — … Entre — disse uma voz masculina e despreocupada abafado pelo interior da sala misteriosa. 

    Akemi começou a puxar o suporte da entrada. A motivação no rosto se alimentava do feixe amarelado que vinha de dentro do recinto. 

    Naquele dia que parecia sem fim, uma nova promessa foi feita: uma vida seria recomeçada.

    — Com licença, Sub. Masaru?

    O cenário de uma pequena sala no estilo asahiano abriu-se.

    De costas para o garoto, Masaru, soprando toda a fumaça de um cigarro na metade, estava sentado em uma poltrona marrom de base giratória. Uma lareira na parede de madeira era o que aplicava a tonalidade alaranjada ao local, além de, com sua grande brasa, aquecer os arredores formados por estantes, armários e mesas lotadas de papéis e tubos de ensaio. Tudo era acomodado por um tapete carmesim e dourado, um vislumbre de nobreza entre todos os dotes tradicionais e científicos.

    Impressionantemente, quando a porta foi fechada, o cheiro do ambiente não foi tomado pelo odor do cigarro, nem pela atmosfera abafada que uma área estreita e quente poderia ocasionar. O ar era limpo, com um toque de perfume amadeirado no final de cada respiração.

    Akemi estufou o peito, e com toda a seriedade que podia, prestou continência. — Zero Um da Turma 1F, senhor! Gostaria de saber se, como meu conselheiro, teria um tempo para conversar agora.

    — Quanta formalidade — disse Masaru, oculto e tragando — confesso que com base em todas as vezes que o observei, Aburaya, nunca o imaginei falando assim. Gostei do tom. Continue.

    — Eu gostaria de fazer algumas perguntas. 

    — Sobre as instruções que tiveram nesta tarde?

    — Não… não só sobre elas.

    — Então, o que mais te incomoda?

    — Primeiramente, com todo o respeito, gostaria de entender exatamente quais são as funções do senhor como meu conselheiro.

    Uma tragada a mais deu espaço para esclarecimentos. — Nesta academia, conselheiro é aquele que, munido de habilidades inerentes adquiridas por meio de treinamentos e estudos, se propõe a instruir e ajudar seus pupilos. Seja como profissional militar ou mesmo pelo fato de estar em posição de liderança.

    — E… por que o senhor se tornou meu conselheiro? Não que eu ache ruim, mas queria saber como foi feita a escolha.

    — Atribuições como essa não partem dos conselheiros. A designação de cada um é uma decisão exclusiva da diretoria da academia… e com um devido pesar, ou talvez ironia do destino, você acabou vinculado a um dos conselheiros de menor graduação hierárquica. Francamente, esta é a primeira vez que assumo a mentoria de alguém. Normalmente, recuso esse tipo de cargo… a menos, é claro, que venha acompanhada de uma ordem incontestável.

    “Quer dizer que ele foi obrigado a ser o meu mentor? Por que fariam isso…? Bom, isso não me interessaria tanto quanto as minhas outras perguntas.”

    — Certo, então, o senhor poderá me dar instruções exclusivas sobre como posso controlar a minha aura?

    — Você diz aquela energia amarelada que lançou meu sobrinho contra o casco anti-aura da arena desta academia?

    “Ele está falando do Nihara… Entendendo o jeito que essa família é, tenho que tomar cuidado com as palavras.”

    — Sim. Acho que você pôde perceber que eu não conseguia executar bem o uso da- 

    — Da sua aura? Claro que não conseguiria. Como alguém poderia participar de um combate áurico dias depois de adquirir capacidades áuricas?

    “Ele também sabe?!”

    — E-m, o senhor… conhece da minha história?

    — Você realmente acreditou que eu seria mentor de alguém sobre o qual nada sei? Por favor. Investiguei cada passo da sua vida, garoto. Conheço sua residência, a instituição onde estudou, o emprego que ocupou, até mesmo o responsável por sua criação e muitas outras vertentes estão devidamente registradas em meus arquivos. Contudo, admito com certo incômodo que há lacunas nestes dados. Seu local de nascimento permanece um enigma, e com ele, qualquer vestígio concreto sobre seus progenitores. Mas vejamos… algo me diz que nem você próprio é capaz de responder sobre sua origem. Estou errado, Aburaya?

    — … Não — Akemi abaixou a cabeça, talvez aquela não era a resposta que ele gostaria de dar. A ausência de informações sobre seus pais era um fato que sempre lhe causava dores quando lembrava, aliás, para quem não seria? 

    Porém, para o conselheiro, a resposta deu alegrias.

    — Ha ha haaa! Como imaginei. 

    Masaru girou-se na cadeira e, com um breve sorriso, olhar escondido por óculos foscos e cabelo bem penteado, revelou-se. Em seu tronco, um colete preto e justo, preso por dois pares de botões amarelos que refletiam a luz tênue da sala. Por baixo, uma camisa branca de mangas dobradas contrastava com a gola alta e a gravata estreita no pescoço. Para completar o semblante cerimonial do conjunto, calças ajustadas seguiam até as botas negras de cano médio.

    Todo o uniforme era limpo e finalizado por uma sutil borda dourada nas extremidades, um detalhe pequeno, mas impossível de ignorar.

    — Não me leve a mal, garoto. Sua resposta diminui o meu desconforto em não achar porquês sobre o sumiço de seus pais.

    “Elegante demais, digno de quem tenta impor respeito só no olhar”, pensou Akemi, mas a confiança não o deixava se acuar. — Está tudo bem, é algo que já está no passado.

    — Passado… — Pensativo, Masaru tragou de novo — falando em passado, voltarei a comentar sobre o seu combate contra o meu sobrinho.

    — M-mas antes, senhor! Por favor, entenda que nunca tive o intuito de ferir o seu parente daquela forma. Eu não esperava que poderia chegar àquele ponto.

    A informação tirou outro riso contido. — Hum, entendo. É por essas e outras que você nunca ganharia aquela luta.

    Akemi não teve mais o que dizer ou fazer além de abaixar a cabeça novamente.

    — Não fique cabisbaixo, Aburaya — Masaru virou a poltrona e se perfilou para o aluno. — Sua aura serviu de um entretenimento formidável para os espectadores. Ninguém imaginava que um Miyazaki poderia ser atingido daquela forma. Foi brutal, enérgico, e principalmente, belo de se ver.

    — Fico agradecido por reconhecer a aura, mas, nada daquilo foi o bastante para me salvar do pior. Se não fosse o shihai do tempo, certamente não estaria aqui para falar com o senhor.

    — Lutar contra qualquer um dos Miyazaki exige uma boa experiência ou força sobrenatural. Nossa família é orgulhosa, impulsiva, difícil de parar. Entretanto… — Masaru levantou-se da poltrona; seu olhar seguia memórias distantes — naquela batalha, todos nós que assistimos, presenciamos um acontecimento um tanto quanto… inesperado.

    “O que ele quer dizer com inesperado? Aconteceram tantas coisas, mas o que ele será que ele tem em mente?”

    — O que viram?

    — Me permitiria demonstrar?

    “Demonstrar?! Ah, que seja, não deve ser nada demais.”

    — Claro, senhor.

    A bituca do cigarro foi jogada diretamente nas brasas da lareira, como um pedaço inútil de uma vida. O brilho alaranjado refletiu nos óculos do conselheiro, que por um instante, pareceram conter o próprio incêndio do mundo.

    Então, o próprio inferno se manifestou.

    O homem moveu a perna direita um palmo à frente, firmando a base; sua mão canhota esticou-se às chamas, e a destra abriu-se, como se puxasse algo invisível no ar. Mas aquilo não era ar. Era fogo.

    Fuuuushhh!

    Num instante, a brasa da lareira virou labaredas que partiam para perto da palma de Masaru, dali, um redemoinho de fogo rodeava o braço, indo da mão até o ombro como um dragão indomável.

    De repente, Akemi foi encarado por um rosto que parecia perguntar: Você confia mesmo em mim?

    “Mas o qu-?!”

    Ao girar o tronco, Masaru avançou o punho direito cerrado e inflamado. O soco atingiu o espaço à frente com brutalidade, abrindo caminho para a destruição. O seguimento veio como um canhão de fogo. O impacto formou uma torrente ardente e incessante, tão escaldante que engoliu todo o trajeto.

    Akemi sequer teve como dar passos atrás.

    A onda o atingiu.

    Fu-woooshhh!

    Um estrondo de calor invadiu a sala inteira, e onde havia um jovem, passou a existir um vórtice flamejante, uma cortina de luz viva e abrasiva que se estendia e lambia o teto como um incêndio incontrolável.

    Sereno e concentrado, Masaru mantinha o punho à frente, o fogo em disparado de suas mãos parecia multiplicar-se, engrossando o poder. As chamas rugiam, o próprio inferno tinha sido liberado ali.

    E enfim, a chama cessou, e o silêncio, pairou…

    O cheiro do fogo ainda pairava pelo ambiente, mas já era suave, quase inexistente.

    Masaru juntou as mãos para trás da cintura e ergueu levemente o queixo. A análise ao centro do ataque esperava apenas por uma pilha de cinzas.

    Mas não foi o que encontrou.

    A expressão do conselheiro passou entre o ceticismo e a fascinação. — Hmmm…

    Em meio à fumaça que se dispersava, ainda estava Akemi Aburaya.

    Intacto.

    Nem mesmo o gakuran havia sido afetado pelas labaredas. As mangas, os botões, até o pano rente ao pescoço permaneciam como antes. Nenhuma marca, nenhum cheiro de queimado. Nada.

    Mas se algo havia mudado, era o rosto do jovem. Os olhos antes confiantes, pareciam mais vazios do que nunca. Aparentemente, estava complicado compreender o que acabara de acontecer.

    “Eu… fui atingido por tudo aquilo? Eu senti o calor, mas… não doeu…? Eu me senti energizado, abastecido… Exato, foi como antes!” Os lábios entreabertos de Akemi transformaram-se em um leve sorriso.

    Interessante… — Masaru aproximou-se até menos de dois passos do aluno, e inclinaou levemente a cabeça para observá-lo de cima. — Nenhum ferimento, nenhum desgaste externo, mas seus olhos… ah, eles contam uma história diferente. Está sentindo algo diferente, não está?

    Akemi continuava confuso, mas sorria. — Sim.

    — Isso confirma o que eu teorizava. Seu corpo, Aburaya, absorve energia áurica, mas não a anula. Ela passa por você e é armazenada, assim como ocorre em um capacitor.

    — Em um… capacitor?

    — Exatamente, você acumulou todo o meu golpe como um recipiente, porém, ainda não é capaz de entender como manipular essa energia… Para sua sorte, nós nem começamos. Temos muito o que analisar.

    — Você… fala sério?

    — Não posso garantir que irei sanar todos os seus problemas, Aburaya, mas se o seu objetivo é controlar sua aura, devemos entender exatamente o porquê de você ter sobrevivido a isso.

    Akemi fechou os olhos, sua mente parecia finalmente despertar. “Ele parece entender rápido o que está acontecendo comigo, como um cientista! Ele parece estar apto a me ajudar, espero que dê tudo certo.”

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