Capítulo 81 - Testes contra o medo
[ 2 de maio de 1922, Dojo Abandonado, Campo de Treinamento 3, 21h30 ]
No centro do dojo de pouca luz, Akemi e Miya se encaravam de joelhos sobre tatames escuros, ambos com a postura ereta e mãos sobre as coxas.
De olhos fechados, o rapaz mordia o lábio inferior enquanto ajeitava as costas pela terceira vez. Para ele, qualquer movimento tornava-se uma tortura silenciosa. — Desse jeito minha lombar vau se soltar do corpo e sair andando pra longe de mim.
A garota mantinha a seriedade. Sua aura flamejante baixa circulava ao redor, aquecendo o ambiente para que afastasse o frio da noite e confortasse seu discípulo.
Ela não respondia, somente observava.
O silêncio frustrava Akemi.
— Haah… Novamente você me deixou naquela postura infernal durante… quanto tempo? Meia hora? Uma hora? Eu perdi a noção. E é preciso mesmo as pancadas pra “corrigir”?
Miya permaneceu calada por instantes, analisando friamente as reclamações ouvidas. Resultado: um sorriso singelo. — Hoje te bati menos, ou seja, você tá melhorando. Deveria agradecer — a pergunta sobre treinar a sério foi totalmente ignorada. — Nikko me relatou que você progrediu bastante sua resistência nos treinos físicos. Ela ficou impressionada quando te viu acompanhando o ritmo dela por quase metade do percurso de hoje. Está de parabéns.
Akemi iluminou-se levemente, o cansaço foi momentaneamente esquecido. — Ah… Ela disse isso mesmo?
— Disse.
O orgulho aqueceu ambos os corações.
— Bom, ela tem sido essencial nos treinos. Me ensinou a respiração áurica lá no começo, e até hoje me dá dicas sobre como distribuir energia durante corridas longas. Ela é… incrível, na verdade. — Embora agradecido, Akemi tinha uma dúvida forte martelando sua cabeça. Seus olhos desviaram-se para o lado e sua mão coçou a nuca. A busca era pela mudança do assunto — mas falando nisso, você sumiu de novo hoje de tarde. Onde que… você… — Entretanto, enquanto procurava palavras, percebeu que o clima descontraído foi-se embora bem na sua frente.
— Não se engane, mesmo que alcance um bom nível físico, ainda estará longe de estar pronto.
Akemi estranhou a frieza com que foi tratado.
— … Por quê?
Miya estendeu a mão direita e tocou o peito dele com a ponta dos dedos, um toque leve e deliberado que deu a Akemi a sensação do calor percorrendo suas veias. — A maior força que você possui está aqui, maaas… — Com o dedo indicador da mesma mão, ela tocou a testa dele com a mesma leveza. — A maior fraqueza que você carrega também está aqui.
Akemi piscou, confuso. — O que isso quer dizer?
Miya retraiu a mão e voltou à posição original. — Quer dizer que pretendo fortalecer sua mente. Porque até o modo como você olha pra mim revela insegurança e confusão.
Akemi sentiu o rosto esquentando. — E-eu… eu não-
— Não precisa se explicar. Eu enxergo no fundo dos seus olhos uma vontade real de mudar. Uma chama pequena, mas persistente. Contudo, essa vontade está sempre sufocada por algo maior. Medo.
Akemi baixou o olhar ao tatame — … Eu… acreditava que esse medo vinha só da inexperiência, por não saber lutar, por saber pouco sobre aura, por criar uma imagem errada da ASA e de como o mundo áurico poderia ser — seu rosto levantou-se, a voz firmou-se apesar do tremor — mas depois de tudo que presenciei, desde os testes de ingresso até Jin e a Floresta Estelar, percebi que as raízes desse medo são muito mais profundas do que imaginava.
“Pra piorar, sinto que ainda tô bem longe de arrancá-las. Só de imaginar em voltar ao ponto de partida me assombra… embora, de algum jeito, voltar pra casa dê certo conforto.”
— Akemi.
— … Sim?
— Está pensando demais, assim não irá entender o que quero dizer. Meu objetivo com você não é eliminar seu medo por completo.
— Não?
— Não — Miya levantou-se e caminhou até a entrada do dojo, onde o brilho da lua iluminava seus olhos. — Medo é essencial para o ser humano… é o que nos mantém vivos. É o instinto de sobrevivência em sua forma mais pura. Sem medo, você seria imprudente. Sem medo, você morreria na primeira batalha real, tudo em troca de um ego desnecessário e traiçoeiro. — Ela virou-se para o rapaz, e a luz prateada clareou metade de seu rosto. — O problema não é sentir medo. O problema é quando o medo te domina, quando ele paralisa suas decisões, quando ele te impede de agir, de pensar, de criar soluções. O medo desperta o foco, mas o medo descontrolado apaga tudo.
Quieto, Akemi entendeu o que lhe foi dito.
Miya caminhou de volta e sentou-se novamente à frente dele, mais próxima. — Está com dúvidas sobre como resolverá seu medo, né?
O silêncio afirmou.
— Hihihi, certo. Farei três perguntas a você. Três cenários. Cada um exigirá coragem, mas acima de tudo, exigirá que você pense e use sua maior força — Miya tocou a testa dele outra vez — confio no seu potencial com a mente sã, então, por favor, prove-me de que estou certa.
— Tá… tá bom.
— Primeira pergunta. Uma cobra imensa surgiu no seu caminho durante uma caminhada na floresta. Você não tem chances de enfrentá-la, muito menos de escapar dela. O que você faria? Correria e deixaria o instinto te levar, ou respiraria fundo e lembraria que até o medo tem um limite?
“Cobra imensa?” Akemi imaginou a cena: seus passos sobre a trilha cheia de folhas e o forte sol ofuscando sua visão por entre pinheiros gigantes, quando repentinamente, um movimento sinuoso revelou escamas escuras sob brilhos dourados, onde olhos reptilianos e presas à mostra barraram seu caminho.
Seu primeiro instinto: correr.
Mas Miya o encarava, esperando a melhor resposta.
“Respirar fundo e lembrar que até o medo tem um limite.”
— Eu… fico parado primeiro. Cobras reagem a movimentos bruscos. Se eu correr, ela pode atacar. Então eu fico parado, respiro fundo pra controlar o pânico, e depois… recuo devagar. Muito devagar. Dando espaço pra ela, mostrando que eu não sou ameaça.
— E se ela avançar mesmo assim?
Akemi pensou rápido. — Daí eu não teria outra opção a não ser usar a minha aura. Uma descarga elétrica no chão ao redor dela ou algo assim. Não pra matar, mas pra assustar. Criar uma barreira de energia que ela não queira cruzar… Isso… isso funcionaria?
Miya calou-se por três segundos. Então, sorriu sutilmente. — Arriscado… porém, interessante. Você pensou em controle ao invés de destruição. Isso é raro.
Akemi sentiu um alívio estranho.
— Segunda pergunta. Imagine-se encurralado por alguém mais forte, mais rápido e mais experiente. Nada de truques, nada de aura, só o corpo, só você. Esse alguém avança com a intenção de te apagar do mundo. Qual decisão tomaria no instante em que seus passos perdessem o chão?
“Encurralado contra alguém mais forte, rápido… e experiente?” Akemi se viu em um beco obscurecido sob a inacessível luz da lua, onde paredes de pedra fechavam ambos os lados. À frente, uma silhueta imensa e misteriosa bloqueava a passagem. Os músculos, as cicatrizes, e os olhos esbranquiçados e vazios, sequer deixavam resquícios da existência de uma alma naquela carcaça brutal. Conversar não era uma opção. “Nada de aura, só corpo… O que eu faria?”
Fuga? Nem pensar, não havia saída. Combate? Negativo, perderia facilmente.
“Mas… talvez haja uma alternativa.”
— Eu… enganaria ele!
— Como? — duvidou Miya, interessada.
— Eu fingiria que ia pela direita, mas fugiria pela esquerda. Ou… — Akemi gesticulava, tentando explicar — eu usaria o ambiente, talvez jogaria algo pra distrair e… — ele pausou e respirou fundo — se nada disso funcionasse, eu usaria o momento em que ele atacasse contra ele mesmo. Tipo… desviar e fazer ele bater na parede.
Neutra, Miya levou a mão ao queixo, imaginando a cena.
Logo, a conclusão chegou.
— Pft, que ideia horrível, hihihihi!
— Ei! Qual é a graça!?
— Como quer enganar alguém tão superior em uma situação como essa?
— Imprevisibilidade. Se não há escapatória, preciso criar a minha, e nesse cenário contra um oponente mais forte em todos os quesitos, não haveria outra opção a não ser tentar o impossível.
A segunda resposta convenceu melhor.
— Oh… Bom, de qualquer forma, você acabou descrevendo três fundamentos da nossa arte marcial: enganar o oponente, usar o ambiente, e redirecionar força. Você formalmente não sabe nada de combate, mas pelo visto, pode pensar como um lutador esperto.
— Então foi uma boa resposta?
— Pra você, não. Pra alguém preparado, sim. Considere isso um elogio.
— … Certo…
— Está indo bem, só foque em uma coisa: sempre buscamos o caminho mais seguro que exista. Porém, tenha em mente que em certas situações a paz pode ficar fora do alcance. Ainda assim, entregar-se ao caos jamais será escolha de quem carrega um coração limpo.
“Ela fala com tanta convicção e clareza…”
— Entendido!
— Preparado para a última questão?
— Positivo!
— Muito bem… — Sorrateiramente, o rosto gentil de Miya perdeu as emoções, mergulhando nas sombras, e a voz ganhou o peso de algo antigo, sério o bastante para que provocasse calafrios. — Terceira e última pergunta. Akemi… imagine-se em uma sala fechada, com sons de botas se aproximando e o cheiro de sangue arrepiando o interior das suas narinas, pois diante de si, estirada no piso, a pessoa que significa tudo para você… que você ama, soluça no próprio líquido carmesim da vida. Ela está respirando devagar, chamando por sua presença como se fossem as últimas palavras que teria a chance de dizer.
Akemi mente imediatamente conjurou uma imagem. Seu avô, deitado no chão. Sangue para todo o lado. Respiração fraca. “Não.” Ele apertou os punhos; a existência daquela cena, mesmo que imaginária, já causava transtornos internos que embaralhavam seus pensamentos, misturando a dor da perda, o medo da tragédia, e a tranquilidade de que tudo aquilo era falso. “Não sei por quanto tempo consigo manter esse cenário, o que ela planeja com isso?”
Miya prosseguiu sem receio. — Essa pessoa está respirando devagar, chamando por sua presença. Últimas palavras. Mas nesse instante, você sente duas rotas bagunçando sua mente: o afeto puxando você para perto de quem ama… e o dever… empurrando você para encarar o causador de toda aquela dor.
— O causador? — repetiu Akemi, voz trêmulo.
— Exato, o causador, aquele que tirou o sangue de quem você ama.
— Mas pensando assim, esse sentimento de “dever” não seria… vingança?
— …
— Miya?
— … Pense como quiser… Continuando, o causador está logo atrás de você. Somente pensar em sua presença já te dá ânsia. E aquele som de botas? Vêm dos passos lentos dele, pronto para desaparecer de vista sem sequer reconhecer que feriu fatalmente o que você mais amava.
Akemi sentiu náusea subindo. O cenário em sua cabeça era tão vívido que parecia real. O cheiro de sangue, o som das botas, a sensação de desespero absoluto… Mas aquele pesadelo estava longe do fim, havia mais história.
— Até que repentinamente, a voz da pessoa caída enfraquece, mas pede que você não reaja… que não tente alcançar o desgraçado que provoca a dor que sentem.
“Essa raiva… Ela está entrando na cena tanto quanto eu.”
— Entretanto, mesmo com o pedido de calma, a adrenalina o consome — a garota acelerava a história, afiando as palavras em gestos bruscos — seus olhos se focam, seus dentes travam, e o sangue sobe. A fúria acaba de te convencer de que pode fazer qualquer coisa. O calor sobe pelo peito, o coração dispara, e seus ouvidos descartam qualquer súplica, como se o mundo tivesse silenciado de uma vez!
— Miya?
— E aí, surge aquela vontade absurda… de interromper aquele monstro, custe o que custar, independente do modo, eliminando-o, queimando-o, decepando-o, mutilando-o! Tudo seria melhor se aquele covarde não existisse! — A última palavra saiu arranhada, um rompimento da alma que tirou o fôlego da garota.
— … Miya?
— Então… me diga… se tudo em você pede… vingança… ao mesmo tempo em que a pessoa que ama implora pela sua calma… o que você… faria?
Silêncio.
Ambos os jovens respiravam pesado. Mãos tremiam, mentes giravam.
“O que eu faria.”
Akemi fechou os olhos, respirou fundo, e quando abriu os olhos novamente, havia algo diferente neles:
Determinação.
— Eu ficaria com a pessoa que amo. Ao lado dela, seguraria sua mão, ouviria suas últimas palavras. Porque… porque se aqueles são os últimos momentos que terei com ela, deixar isso escapar para correr atrás de vingança seria… seria desperdiçar o que resta.
Miya enrijeceu-se e murmurou. — Desperdiçar? — A indignação a tomava — e o causador? Ele simplesmente… escapa?
— Eu… acho que ele deixaria de ter qualquer importância. Eu abriria mão da fuga dele sem pensar, só para permanecer nos últimos momentos com quem realmente significa algo pra mim. Perder tudo de uma vez, inclusive a mim mesmo, seria um risco inconsequente. Faz sentido, não faz?
— Você realmente acha que é tão fácil assim?
Akemi surpreendeu-se com a intensidade repentina. — Miya, eu-
— Você nem está escutando o que dizem! — A garota apontou para o jovem, sua mão tremia levemente. — Seu coração já decidiu! Porque tudo em você grita para ir atrás daquele monstro! A raiva já tomou conta, lembra!? — Sua respiração acelerou juntamente das palavras — e então, o que você faz? Finge que está calmo? Finge que consegue controlar? Finge que pode simplesmente… simplesmente ficar lá parado enquanto aquele desgraçado desaparece pela saída!?
— Miya, calma-
— Calma!? — Ela riu, mas com um sentimento amargo e quebrado — você fala de calma? Sabe o que é sentir isso!? Sabe o que é ter que escolher entre salvar alguém que você ama ou… ou…
Paralisado, Akemi via Miya buscando palavras.
Era estranho vê-la daquela forma. Aquela pessoa calma, gentil, sempre no controle… estava desmoronando diante dele. “Ela viveu isso. Ela realmente viveu algo assim.” O coração dele apertou. — Miya… eu… eu sinto muito, eu-
— Não me peça desculpas! — A garota abaixou o rosto e limpou os olhos rapidamente com as costas da mão. A angústia cresceu tanto que não restou mais forças na fala. — Só… só me diga a verdade. O que você faria? De verdade. Essa resposta óbvia… essa resposta bonita de “ficar com quem amo”… ela… não existe. Eu sei que ela não existe.
“Ela não quer uma resposta perfeita, ela quer que eu entenda. Mas entender o quê? Que às vezes, a escolha certa é impossível? Que às vezes, você perde de qualquer jeito? Não, tem que haver outra resposta.” Akemi fechou os olhos e lembrou das duas primeiras perguntas. A cobra: controle ao invés de destruição. O oponente: criar saídas onde elas não existem.
Finalmente, a resposta veio.
Não em palavras, em ação.
Em um movimento rápido, antes que Miya reagisse, Akemi envolveu-a em um abraço.
A jovem congelou, seus olhos se abriram surpresos. — O-o que você-
— Eu não sei a resposta — confessou Akemi, sua voz baixa, quase envergonhada, saía um pouco abafada por conta de sua boca levemente escondida sobre o ombro da garota. — Sou só um garoto que cresceu em uma área tranquila. Minha vida inteira foi ajudar meu avô no trabalho, imaginar coisas, sonhar com algo maior. Um cenário como esse… de magnitude tão complexa, tão caótica… seria impossível de ser solucionado por mim.
Miya abriu a boca para falar, mas nada saiu.
— Mas mesmo que a resposta de manter a calma e permanecer com a pessoa que você ama pareça óbvia, entendi que ela é a opção mais complicada a ser escolhida. Talvez impossível para aqueles que possuem um coração, porque quando tudo está desabando… as emoções vencem, sempre vencem, e eu sei bem disso.
Akemi pausou, respirou fundo, e seguiu.
— Sendo inexperiente, não dá pra ter escolhas corretas em uma encruzilhada que envolve pessoas que você ama e pessoas que você odeia, ainda mais quando se trata de vida ou morte. Ninguém nasce como o gênio do controle emocional. Então… a resposta não está no que fazer naquele cenário, e sim, o que fazer antes para evitar aquela dor. Ser forte. Ser protetor. Ser corajoso. Se você é uma pessoa poderosa o bastante para defender tudo o que ama, você nunca verá a dor daqueles que você ama. Então… esse é o meu objetivo, e espero que você, Miya, me ajude a ser dessa forma.
Durante o abraço, Akemi esperava por uma reação, palavra, ou qualquer coisa.
Nada.
Segundos passaram, e sutilmente, surgiu-se uma mudança no corpo de Miya.
“Espera… ela tá… tremendo?”
Pânico.
— Miya?! — Akemi a soltou imediatamente, afastando-se sem olhá-la. Seu rosto vermelho e gestos descontrolados escancararam o vexame. — Desculpa! Desculpa mesmo! Eu… eu não devia ter te abraçado assim, foi invasivo, foi estranho. Só senti que você tava estressada e achei que talvez um abraço ajudasse a te acalmar, mas eu fui um idiota e-
Ele parou. Pois finalmente, olhou para ela, e viu:
O rosto neutro, contudo, com lágrimas que caíam silenciosamente pelos cantos dos olhos.
— Miya…?
Ela não respondia, somente permanecia parada, chorando em silêncio, sem um único som.
Os dois se encararam, nenhum sabia o que dizer.
De um lado, uma garota emocionada, sem palavras para que expressasse tudo o que sentia. Do outro, um rapaz confuso, esperando a primeira palavra daquela que chorava à sua frente.
Então, Miya piscou. Uma vez, duas vezes. E finalmente, acordou do transe. — Ah… — Suas mãos rapidamente foram ao rosto, secando as lágrimas com as palmas. — Desculpa. Isso foi… inesperado.
— Você tá bem? — perguntou Akemi, preocupado.
— Estou… Estou sim — respondeu ela, a voz trêmula voltava ao controle.
— Tem certeza? Porque você-
— Sua resposta foi perfeita, Akemi.
— … Foi?
Miya assentiu, sua alegria voltou aos lábios. — Foi, realmente, perfeita.
O rapaz sentiu um alívio imenso. — Ah… então… fico feliz.
— Porém… — Miya juntou as mãos à frente da cintura e baixou o olhar — não sei se serei realmente capaz de te ajudar a alcançar o patamar que precisa.
— Por quê?
— Porque eu mesma entendo que estou longe de ter o controle emocional perfeito que você mencionou. Eu ainda… ainda carrego muita coisa. Muita raiva. Muito medo. Muita confusão — Terminado o desabafo, a garota ergueu o rosto. Por um momento, quase hesitou, mas não se segurou. — Prometo que farei de tudo para compartilhar o que sei.
— Então tá decidido! — Akemi devolveu a alegria.
— Tá — Miya ampliou a simpatia. — Mas por hoje, chega — ela iniciou a caminhada à saída do dojo.
— Ah, mas já? — O rapaz abriu os braços.
— Eu e você precisamos descansar, amanhã continuaremos com os mesmos treinos de equilíbrio. Você tem muito a melhorar nesse quesito.
— Entendi…
— Você não vem?
— Acho que consigo treinar a posição de equilíbrio por mais alguns minutos, gostaria de tentar sozinho. Vá na frente, ja, já irei ao dormitório.
— Você quem sabe.
Parado, Akemi pensava sobre o que acabara de acontecer, perguntando-se que tipo de ferida Miya carregava a ponto de esconder tamanha angústia sob um semblante que priorizava gentileza. Ele cogitou perguntar algum dia, mas a ideia se desfez. “Se for pra saber… vai chegar até mim do jeito certo.”
De repente, Miya parou entre a entrada do dojo e retornou o rosto. — Akemi.
— … Sim?
— Obrigada.
— Ah… de nada… hehe.
Após um aceno, a garota iniciou a descida pelas escadarias de mármore. No caminho, ela levou a mão ao peito, percebendo o coração acelerado. Uma fala de Akemi reverberava na memória:
“Se você é uma pessoa poderosa o bastante para defender tudo o que ama, você nunca verá a dor daqueles que você ama.”
Pela primeira vez em muito tempo, algo parecido com esperança surgiu dentro dela. “Talvez… talvez ele realmente consiga fazer o que eu não pude fazer…”

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.