Capítulo 8 - A viagem
[ 25 de abril de 1922, Toryu, Asahi. ]
Finalmente, o tão esperado dia.
Sozinho em casa, Akemi ansiava pela primeira impressão na ASA, e evitando que o nervosismo aumentasse, pegou um livro para que acalmasse os pensamentos preocupantes sobre o dia anterior.
Entretanto, seus estudos foram interrompidos pelo inevitável “chamado da natureza1”.
[ 4 minutos depois… ]
Toc, toc, to-toc toc. Toc toc.
O portão da casa foi batido sete vezes em um tom melódico. Akemi limpou as mãos rapidamente e foi à entrada. O relógio na parede apontava doze e meia.
“Ainda nem é de tarde, quem será?”
A porta aberta trouxe uma surpresa.
— Ha haha! Como está, garoto!? Deu tempo de se preparar!?
— Major Hasegawa! Não esperava o senhor aqui agora. Achei que viria outra pessoa mais tarde.
— Aconteceram várias coisas quando relatamos o seu caso ao voltarmos para a ASA. Tem gente animada com você.
— Animada comigo? Legal! Mas, olha, eu realmente não preciso levar nada?
— Negativo. Preciso apenas que você assine aqui — disse o major, apresentando um contrato e uma caneta.
Akemi pegou o papel e a caneta. — Eu deveria ler antes de assinar, certo?
— Fique à vontade, mas seja rápido. Nosso veículo está bem ali e estamos quase atrasados.
A pressa do militar foi ignorada. Olhos atenciosos percorreram as linhas em busca de significados ocultos.
O contrato era dividido em várias seções. A primeira tratava de informações básicas: nome completo, idade, naturalidade, histórico áurico. Nada demais.
A segunda seção era mais densa. Falava sobre “Termos e condições de participação no processo seletivo da Academia Shihai de Asahi”. Akemi leu com cuidado:
“Ao firmar este documento, o candidato declara estar plenamente ciente de que o processo seletivo da ASA (Academia Shihai de Asahi) envolverá situações controladas, destinadas à avaliação da aptidão áurica e da estabilidade mental em cenários que simulam condições reais. Reconhece-se que, por se tratar de uma instituição amplamente almejada, a reprovação no ingresso pode acarretar impactos significativos de ordem emocional ou psicológica, diante disso, o candidato isenta a ASA de qualquer responsabilidade por danos dessa natureza decorrentes de sua participação no processo seletivo.”
“Situações controladas… casos que simulam condições reais de combate…” Akemi tirou uma conclusão. “Isso soa mais intenso do que eu imaginava. Mas faz sentido.”
A leitura seguiu.
“O candidato reconhece que o processo seletivo é de caráter eliminatório e que apenas os candidatos que demonstrarem desempenho satisfatório em todas os tópicos serão admitidos na Academia. O candidato também reconhece que o processo seletivo pode envolver interações diretas com outros candidatos, e que tais interações podem ser de natureza competitiva.”
Akemi refletiu. “Por que esse texto é tão vago? ‘Interações diretas com outros candidatos’ podem significar muitas coisas. Testes em grupo, talvez?”
A terceira seção era a mais curiosa:
“O candidato declara estar ciente de que o processo seletivo visa identificar indivíduos com aptidão excepcional para atuação em situações de extrema adversidade, incluindo, mas não se limitando a, confrontos diretos com ameaças hostis. O candidato reconhece que a ASA busca formar shihais capazes de tomar decisões críticas sob pressão e de proteger a nação de Asahi em qualquer circunstância.”
Akemi gostou do que leu. “Interessante, eles pensam além da força. Isso pode ser uma vantagem tendo em vista o meu corpo… frágil.”
Ele releu a seção novamente, buscou alguma pista que tivesse perdido.
Havia algo subliminar ali, algo que não estava explícito, mas que pairava em entrelinhas que nem existiam. Mas por mais que tentasse, Akemi não decifrava completamente o que o contrato realmente implicava. Tudo parecia razoável para um processo seletivo militar.
“É um teste da ASA, óbvio que será difícil. Provavelmente terão conceitos avançados de aura, combate tático e história militar, coisas que eu não tive oportunidade de estudar a fundo. Hm, nada que uma improvisação não resolva.”
O contrato foi assinado permanentemente. Não havia mais volta.
— Pronto — disse Akemi, devolvendo o documento.
Hasegawa sorriu. — Ótimo. Agora, vamos.
Trancada a porta de casa, Akemi deparou-se com um grande carro camuflado em tons de verde. A luz do sol refletia fortemente no metal cercado por uma multidão de civis curiosos.
No entanto, a maior atenção foi capturada por um par de grandes criaturas atreladas à frente do veículo. Eram animais de olhos azuis, presas enormes, pelagem branca com escuras listras horizontais nas costas e caudas curtas e arredondadas.
“Uma espécie de urso com cabeça e traços de um tigre albino? Há muitos seres híbridos pelas ruas, mas… EU NUNCA VI UMA COISA DESSAS!” Akemi se empolgava com as criaturas.
— Garoto, entre pela traseira do veículo — seguidamente, o major levantou a voz com um sorriso esnobe para a multidão. — Moradores! Por favor, se afastem! Essas feras ainda não comeram nada hoje! Ha Haha!
Atravessando algumas pessoas que bloqueavam o caminho, Akemi seguiu até o compartimento traseiro do camburão. Quando puxou a maçaneta, viu que um garoto ocupava os bancos internos à esquerda.
O outro rapaz era um pouco acima do peso, usava óculos grandes e tinha uma aparência tranquila. Seus cabelos e olhos claros contrastavam com a larga camisa branca de gola alta e calça bege claro.
“Esse cara deve ter a minha idade. Será que ele também tentará a ASA?”
Inesperadamente, o sentimento de arrependimento voltou.
Quantas vezes Akemi teve a oportunidade de conversas com outros jovens, mas preferiu o isolamento no canto da sala? Até as crianças que o caçoavam de longe não se aproximavam. Ele era o garoto estranho, o trivial que não se encaixava em lugar algum.
Entretanto, a decisão de mudança já havia sido tomada.
— Eh… com licença, qual é o seu nome? — perguntou Akemi, entrando no veículo.
— Olá! Meu nome é Sho Yamamoto, mas pode me chamar de Sho.
“Engraçado, ele tem a língua meio presa, mas dá para entender o que fala. Parece simpático”, era a primeira vez que Akemi conversava com alguém de sua idade. Todos os operários da usina, inclusive os áuricos, eram bem mais velhos, enquanto o coitado era o único estagiário. — Prazer em conhecê-lo! Sou Akemi Aburaya! — Ele sentou-se ao lado.
— Você também está a caminho da academia?
— É! Mal posso esperar! — Akemi emitia confiança, mas no fundo, sua mente não parava quieta. “Caraaamba! Será que eu estou agindo com naturalidade? Será que eu estou sendo forçado demais!? Calma, ele ainda está sorrindo, não deve estar me estranhando.”
Subitamente, o camburão partiu em alta velocidade.
— Epa! Que rapidez é essa?! — indagou Akemi, procurando suporte para que não caísse.
Tocando os óculos, Sho respondeu: — Felinursus Smilodensis.
— … Quê?
— Falo dos animais transportando o camburão, você não viu?
— Sim, são novidade pra mim.
— São popularmente chamados de ursos-sabre, híbridos com a força de um urso e a velocidade de um tigre. Mas acho que assim como nós, essas feras específicas são áuricas.
— Legal! É a primeira vez que conheço!
O compartilhamento de informações animou Sho.
— Seres híbridos e áuricos são comuns em Asahi e existem há milhares de anos pelas florestas áuricas. Apesar de sua força extraordinária, caçar certas espécies é estritamente proibido. Entretanto, algumas feras representam ameaça à integridade das cidades, por isso, o governo convoca shihais para domá-las ou, se não houver alternativa, eliminá-las.
Akemi captava tudo com genuíno interesse. — Você sabe qual é a aura desses bichos?
— Sinceramente, não faço ideia. Mas creio que sejam áuricos, considerando que são do Exército Asahiano.
— Entendi… Bom, imagino que você tenha uma aura. Qual?
— Minhas habilidades são relacionadas à natureza, sou um emanador florestal. Mas apenas consigo fazer mudas de plantas — pela palma da mão, Sho emergiu um pequeno broto.
— Wow! Que incrível!
“Ééé, na verdade eu esperava mais. Porém, como ele provavelmente quer se tornar um shihai e está sendo totalmente gentil, devo manter a postura elegante.”
— Hehee, sei que é totalmente inofensivo, mas espero que no futuro seja algo útil. E você? Me mostre também! Com certeza sua aura é mais interessante que a minha.
— A minha aura? Bom, posso tentar…
Akemi aproximou as mãos e procurou sua energia.
Mais uma vez, a canalização não deu certo.
Akemi calou-se com um olhar de mil jardas revivendo momentos que só ele conhecia.
— Fique tranquilo — disse Sho — talvez seja apenas um momento de instabilidade, isso é normal. Todos nós enfrentamos falhas e limitações em nossas auras.
Akemi buscou coragem enquanto olhava as próprias mãos. — Entendo. Obrigado.
— Mas qual é a sua aura?
“Acho melhor não falar sobre o acidente. Posso soar estranho, ou pior, ele pode achar que minha aura é instável demais.”
— Retração de eletricidade. Eu devo estar sem energia sobrando agora, mas quando tiver, poderei mostrar alguns truques legais.
Sho bateu palmas rápidas. — Fascinante! Estou ansioso para vê-lo em ação.
A viagem prosseguiu em direção à ASA, e os dois continuaram conversando.
Akemi descobriu que Sho era filho de uma família de comerciantes bem-sucedida, e que sempre almejou a especialização em suporte tático entre florestas áuricas.
Por sua vez, Akemi falou sobre sua vida na usina, sobre o avô e sobre os sonhos. Os detalhes mais dolorosos da infância foram omitidos, mas a honestidade sobre as motivações prevaleceu.
Sho escutava com atenção, sem julgamentos.
Era estranho, mas reconfortante. Pela primeira vez em muito tempo, Akemi sentia que tinha feito um amigo.
[ 9 minutos depois… ]
Após uma longa viagem, o camburão finalmente alcançou o centro de Toryu, uma região reservada exclusivamente para as famílias nobres e burguesas de Asahi.
Akemi quase nunca frequentava aquela área distante de sua casa. As ruas, comentadas feito um exemplo de riqueza e tradição, eram um mundo praticamente desconhecido por ele.
A luz amarelada dos postes de gás dava uma sensação acolhedora, iluminando os caminhos que levavam a diversos lugares. Em meio ao cenário de construções de concreto, existiam casas de madeira com arquiteturas singulares. Telhados de cerâmica remetiam as tradições de Asahi com suas inclinações enquanto lojas e restaurantes caros se espalhavam entre as moradias.
Akemi sentiu o aroma das comidas típicas que seu avô costumava cozinhar. O gosto de alimentos deliciosos, como takoyaki e tempura, podia até ser saboreado pelo aroma no ar. “Esse cheiro está me matando… Será que na academia vai ter algo para comer?”
O camburão passou por uma rua repleta de lojas de artesanato, onde peças de cerâmica, bonecas Kokeshi2 e belos quimonos de seda estavam em exibição nas vitrines.
Em outra esquina, uma casa de chá embelezava o local com sua fachada decorada por lanternas de papel vermelhas e brancas. Dentro daquele estabelecimento, uma geisha elegante acenou gentilmente para os rapazes no camburão.
— Olha só, Akemi! Ela tá olhando pra gente. Esbelta, não? Hehee.
Hipnotizado e envergonhado, Akemi respondeu ao aceno da geisha.
Repentinamente, o veículo chegou à localização das escolas áuricas mais famosas de Toryu.
No lado esquerdo encontrava-se o Instituto Lunar Hoshizora, cuja imensa estrutura de concreto azulado transmitia serenidade, especialmente pelos amplos jardins próximos às entradas.
Os brasões de Hoshizora acima dos portões de entrada simbolizavam uma lua cheia com uma coruja mística à frente, tudo em tons suaves de azul e branco.
“Esses institutos áuricos são bem maiores que a minha antiga escola. A experiência neles deve ser incrível.”
— Você estudou em algum desses institutos, Sho? — perguntou Akemi.
— Ele está bem na sua frente.
— Hoshizora?
— Certamente que sim.
— Hm, como era sempre perder nas Olimpíadas Estudantis? — zombou Akemi.
— Você é de Taira!?
— Não! Eu… eu sou de um outro lugar… mas isso não vem ao caso!
— Hehee, tudo bem… Eu não participava muito dos esportes que exigiam aptidão física, mas no tabuleiro, eu era imbatível!
“Apenas as famílias nobres têm o privilégio de enviar seus jovens para estudar nesses lugares. Sho deve vir de uma família abastada… Nem imagino o quanto ele sabe além de mim, já que jamais me vejo sequer passando pela entrada dessas escolas.”
O Instituto Lunar Hoshizora era uma das escolas áuricas mais influentes de Asahi, empatada em qualidade com seu rival, o Instituto Solar Taira.
Separadas pela ampla praça central, onde árvores frondosas e arbustos multicoloridos alegravam o ambiente, essas instituições áuricas possuíam eras de existência e mantinham sua rivalidade desde o primeiro dia de suas fundações.
Por conta dos muros feitos de concreto negro e toques de madeiras tingidas de vermelho, o Instituto Taira representava uma ferocidade inegável, com destaque ao brasão que representava um dragão dourado em chamas alcançando o sol.
“Admito apreensão quanto aos graduados de Taira. Diferente de Hoshizora, são mestres em criar cascas grossas. Hmpf, isso pouco surpreende considerando que esse instituto nasceu sob a influência direta da família Miyazaki.”
Embora fossem essenciais para a formação básica áurica, era evidente a distinção entre as instituições desde a primeira vista. Uma transbordava sabedoria e serenidade, ao passo que a outra levava uma filosofia de força e bravura…
Em cada canto do centro de Toryu, entre toques de modernidade, quase tudo capturava a essência da antiga Asahi. Akemi queria muito continuar contemplando as paisagens, entretanto, o veículo bruscamente virou em direção a outra rua, saiu do centro.
A velocidade do veículo aumentou, e após a travessia por bairros vazios, a estrada de terra foi alcançada. Tudo começou a balançar.
— Acho que estamos chegando — alertou Sho — eita… sempre fico enjoado nesta parte.
[ 16 minutos depois… ]
O longo caminho onde só se enxergava um alto matagal parecia interminável, até que finalmente surgiu o que parecia a grandiosa Academia Shihai de Asahi.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.