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    Mesmo sendo brutalmente molestado pelo Léo, ele arrastava-se pelo chão, o corpo consumido pouco a pouco, enquanto a consciência se desfazia em sombras.

    — Ahhh, que tédio… — murmurou, pressionando o pé sobre a mão de Izumi.

    Mesmo após ser pisoteado inúmeras vezes, permaneceu imóvel, o rosto colado ao chão frio, a respiração rarefeita e quase imperceptível. Nenhum gemido lhe escapou, embora cada osso do corpo denunciasse a proximidade do colapso. O limite foi alcançado; ainda assim, o demônio, insaciável em sua crueldade, firmou o pé descalço sobre a mão caída e esmagou-lhe os dedos com brutal lentidão.

    — Morreu?

    Continuou sem piedade, mas Izumi, naquele instante, pareceu entregar a mente ao vazio. Aos olhos de Loi, o corpo jazia como morto, desprovido de qualquer reação. O demônio, contudo, insatisfeito com o silêncio e a inércia, prosseguiu em sua crueldade, molestando-o ainda mais; nada, porém, sucedia.

    — Que preguiça… — disse, fitando Ui com um meio sorriso. — Acho que ela também vai sentir o meu carinho…

    O demônio desferiu violentos golpes contra a cabeça dela, cada impacto retumbava como açoite. O sangue, já farto, correu em torrentes mais espessas, manchando o chão como se a própria vida lhe fosse arrancada.

    — Sua vadia… — gemeu, segurando o corpo. — Aqueles golpes doeram… ouviu? Ahhh… que agonia, que preguiça.

    Da energia sombria, moldou uma foice, cuja lâmina reluzia em trevas. Aproximou-a da cabeça de Ui, deixando o fio pousar a um sopro de distância da pele.

    — Cansei… é hora de acabar com isso.

    Ergueu a foice, decidido a decepar-lhe a cabeça. O golpe caiu com violência, mas apenas abriu o chão, pois a lâmina errou o alvo. O corpo tremia, tomado pelo medo, e o desejo de fugir quase o dominava. Então, uma voz, um simples “Ei” penetrou-lhe os ossos e paralisou-lhe os movimentos, desviando a mira.

    Olhou em todas as direções, ávido por descobrir de onde surgiu aquele chamado. Nada, porém, se revelava ao seu olhar. Ainda assim, no fundo, sabia o que evitava encarar; o instinto negava-lhe coragem de voltar-se para certo ponto.

    Léo sentiu um medo que nunca o atingiu, um temor que o tornava pequena presa sob um olhar penetrante, capaz de esmagá-lo. A pele suava cada vez mais e o rosto se voltava, contra sua vontade, para o ponto que insistia em negar.

    O coração disparava e ele mal podia acreditar no que se passava. Não queria olhar, mas o corpo parecia mover-se por si. Os olhos finalmente se depararam com os cabelos cacheados e brancos, enegrecidos pela sujeira.

    Antes mesmo de observar a testa, engoliu em seco. A foice, tomada pela energia negativa, dissipou-se no ar e Léo recuou, dominado pelo medo. Naquele instante, compreendeu de quem emanava aquela intenção assassina fora do comum.

    Os olhos amarelos, ao cruzarem os seus, transformaram o rosto de Léo em puro desespero. A alma parecia clamar por perdão; a boca abriu-se involuntariamente, e o líquido escorreu sem controle, como se retornasse ao estado de recém-nascido, desprovido de qualquer defesa.

    — Su…

    O corpo contorceu-se em agonia, como se a própria energia negativa quisesse escapar junto com a alma. Ajoelhou-se, tremendo, derrotado. Ao observar a boca do ser, percebeu que os dentes que tanto o aterrorizavam estavam ocultos; o rosto permanecia fechado, irradiando apenas ódio puro.

    Mesmo sem precisar das funções básicas da vida, o corpo reagiu: a calça molhou-se e lágrimas desceram pelo rosto. Naquele instante, sentiu um arrependimento profundo, como se lamentasse a própria existência.

    — Ma…

    Quando a mente de Léo compreendeu a ordem — toda a sua imensa energia negativa escapou do corpo, lançada para longe, como se fosse expelida pelo próprio ar. O corpo vazio desabou ao chão, inerte e inconsciente.

    Enquanto isso, o demônio, antes disperso, começou a recompor-se, recuperando lentamente sua presença e força.

    — Eu… O que aconteceu comigo?

    A mente retornava ao equilíbrio, e o medo que antes o afligia dissipava-se como neblina ao vento.

    — Aquele corpo… não posso o perder.

    O demônio avançou novamente, mas, ao supor que Izumi pudesse estar consciente, sentiu o peso da mente. Mesmo reduzido à forma de energia negativa, aquele mestiço permanecia uma ameaça intricada e imprevisível.

    — Pelo nosso objetivo, não posso ceder ao medo.

    Ao reunir coragem, avançou com rapidez até o local. Ao ver Izumi caído no chão, um alívio inesperado percorreu-o.

    — Talvez… senti mais medo por estar num corpo humano… — murmurou, entrando novamente no corpo de Léo.

    Olhou ao redor e sorriu. Dam e Loi se enfrentavam com violência, e naquele instante não havia quem os contivesse. Novamente invocou a foice e, tomado por um medo ainda maior, decidiu ceifar a vida de Izumi antes de qualquer outro.

    — Mestiço do caralho!

    Mais uma vez, balançou a foice, mas não atingiu o alvo. De repente, encontrou-se suspenso no céu, confuso com o que ocorria. Invocou asas formadas de energia negativa e começou a sobrevoar o local, observando tudo de cima.

    — Como… vim parar aqui?

    — Serio que não notou?

    — Quê?!

    Antes mesmo de cogitar de onde veio a voz, Léo recebeu um golpe nas costas que o lançou ao chão, arrastando-se pela terra. Mal conseguiu se erguer quando algo desceu do céu, atingiu seu corpo e explodiu com violência.

    Caído em um buraco, bastante ferido, começou a se regenerar rapidamente graças à sua alta taxa de cura. Enquanto o corpo se recompunha, os olhos vasculhavam o entorno, em busca do inimigo que lhe infligiu dor.

    — Quem… quem fez isso?! — gritou.

    Logo sentiu alguém pousar o pé no chão e ouvir a voz:

    — Sério, realmente não consegue me ver?

    Sem hesitar, lançou suas chamas para trás. A explosão devastou o terreno, mas ele percebeu que não havia atingido nada.

    — Ele estava aqui há pouco… — disse, confuso.

    — Eu estava.

    O demônio girou o corpo na direção do inimigo, mas antes mesmo de ver o rosto, uma mão agarrou-lhe a face e o lançou aos céus. De longe, tentava descobrir quem o atacou, mas era impossível discernir a natureza daquele ser.

    Então desapareceu novamente. Ele vasculhou o entorno até perceber uma luz intensa caindo do céu como um cometa e impactou com força total contra sua barriga.

    Enquanto o ser descia com o corpo de Léo até o chão, o demônio rugiu:

    — Quem é você?!

    Ele sorriu diante da pergunta e gritou:

    — Cometa Explosivo!!!

    O corpo de Loi colidiu com o chão com tamanha violência que a terra se abriu em uma fissura profunda, poeira e fragmentos de pedra levantando-se ao redor. O ser pousou suavemente e ergueu o olhar para contemplar o estrago que causou. 

    Encostou a mão na boca por um instante e, ao abrir lentamente o canto dos lábios, um gemido baixo de superioridade escapou.

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