Capítulo 183 de 04 – Os seus olhos, gostei!
Os sonhadores eram aqueles que podiam sonhar e viver aquele mundo como se fosse real. Contudo, existia a possibilidade de compartilharem o mesmo sonho, desde que ambos concordassem.
Nenhum deles conseguia chamar outro para o próprio mundo sem permissão; porém, se um deles não a concedesse, surgiria outra questão. Quando possuíam força igual ou próxima, nenhum conseguia atacar a mente do outro.
No entanto, a situação mudava quando o alvo era ridiculamente mais fraco. Essas pessoas tornavam-se reféns fáceis dos sonhadores. Ainda assim, nenhum deles conseguia moldar o sonho como desejava; apenas o modificava conforme a realidade do momento e, de modo surpreendente, acessava algumas informações do alvo.
Assim ocorreu com o mestiço: o sonhador moldou aquela realidade como quis, sem grandes alterações, e desse modo Izumi acabou humilhado dentro da própria mente.
O que aconteceu? Estou vivo?
Pensou enquanto as espadas caíam de suas mãos e a intenção assassina emanada do inimigo se ocultava. Naquele instante, todos acreditaram que haviam morrido. Contudo, mestiço era o único alvo do sonhador.
Ele se agachou para pegar as lâminas e o corpo passou a suar de súbito, travado no mesmo lugar quando pensou em atacar o destemido à sua frente.
O mestiço rogava para que o corpo se movesse, sem resultado. Atrás dele, os demais já se recuperavam do dano que haviam recebido ou assim julgavam.
— Izumi, tá tudo bem? — perguntou Ui, suando mais que o próprio coração.
O restante das pessoas sofria o mesmo efeito; mesmo ao limparem o rosto, a pele não deixava de permanecer úmida, e não era só isso: o corpo inteiro passava pelo mesmo processo.
O mestiço, por um instante, perdeu a consciência e, ao se dar conta, um dos pés já recuou. Lutava novamente para retomar o controle do próprio corpo, sem êxito. Quanto mais transpirava, mais perdia domínio dos movimentos, e o chão começava a ficar encharcado de suor.
— Super Speed Brute Force Cure Iz!
Mesmo assim, o seu corpo ainda estava paralisado.
— Dark Purge!!!
Todos, inclusive ele, voltaram ao normal; os corpos encharcados cessaram a transpiração e puderam mover-se outra vez.
— Fascinante… escapou da minha técnica. — Ele segurou a gola da camisa preta de manga longa e cheirou fundo. — Parabéns.
— Cala boca!
Com a motivação renovada, Izumi partiu outra vez para o ataque; porém, não sentiu que podia ativar o Sen To Ishi e utilizou apenas dez por cento do poder total.
— Quarta forma! Kotxi veloz!
Outra vez, o inimigo defendeu da mesma maneira; porém, algo estava diferente. No mundo dos sonhos, ele sangrou, mas, dessa vez, nenhuma gota se derramou.
— Não aprendeu mesmo… — disse, fitando-o.
— Quinta forma: Soco Retardo!
Izumi acertou o rosto do inimigo com força, mas nada aconteceu.
— Acabou? — Ele perguntou, sorrindo.
— Não! — Veio a resposta, firme.
Atacou outra vez, mas, antes que tocasse o inimigo, uma palma o lançou para longe. O adversário sentiu o soco no rosto em seguida, fazendo a cabeça bater no trono e cair sobre a poltrona.
Naquele instante, o mestiço sorriu de leve, enquanto o destemido ria baixinho.
— Essa foi boa… Mas nem doeu! — Mostrou o rosto, confiante.
Izumi, pronto para atacar de novo, sentiu uma mão fria no ombro:
— Pare, Izumi.
— Que foi, Max? Vai me atrapalhar?
— Não… só queria conversar primeiro com esse destemido. — Fitou o inimigo. — Ou seria uma das sete energias negativas mais fortes?
O inimigo cruzou as pernas novamente e, com o queixo apoiado no punho, disse:
— Eu sou Armon. Pelo que vejo, vocês já sabem bastante sobre nós.
Todos ficaram imediatamente em alerta. Max, com a voz trêmula, perguntou:
— Nós… você quer dizer… uma das sete energias negativas?
— Hum? — ergueu uma sobrancelha. — Deixe-me explicar. Sou uma dessas forças… e, ao mesmo tempo, um destemido.
Izumi abanou a espada, incrédulo:
— Quê? Isso não faz sentido!
— Concordo — disse Armon, com um leve sorriso. — É meio confuso assim. Se me permitirem, explico melhor.
Max olhou ao redor e todos concordaram em escutar o que aquele ser queria transmitir.
— Continue — pediu.
— Entendido. — Respirou fundo. — Centenas de anos atrás, uma das sete energias atacou meu santuário e controlou meu corpo. Mas cometeram um engano.
— Engano? — perguntou Izumi.
— Sim. Das 12 leis do zodíaco, a minha tinha a mente mais forte. O inimigo achou que podia me controlar… mas até hoje estou no comando.
— Qual… a sua lei? — perguntou Loi.
— Escorpião! — declarou Armon, firme.
— Alguma sugestão, Loi? — perguntou Max.
— Talvez… seja verdade. Entre as leis, Escorpião… é um dos que têm a mente mais forte… capaz de resistir ao mal.
— Então era mesmo verdade — disse Armon, com um sorriso leve.
Todos ficaram em alerta. De repente, o destemido desapareceu da cadeira e reapareceu segurando a cabeça de Léo.
— Slother foi derrotado!
A cabeça começou a suar rapidamente, enquanto a energia negativa fluía da cabeça até as mãos do destemido. Slother não parecia sofrer com isso, e os olhos foram fechando aos poucos até que a luz desapareceu deles.
— Pronto, tome. — Lançou para Léo.
De volta ao trono, o destemido ordenou:
— Coloque no pescoço.
Léo hesitou por alguns instantes, enquanto todos o observavam com dúvida. Sem pensar muito, encaixou a cabeça no pescoço e, graças à regeneração, ela começou a se unir e a restaurar-se. Abriu os olhos e disse:
— Eu voltei?
Loi, que estava ao lado, gritou o nome do irmão e o abraçou com força, enquanto chorava.
— Calma, Loi… minha cabeça vai cair!
— Mas… eu pensei…
Largando lentamente a cabeça, ele abraçou a irmã:
— Eu voltei!
Izumi, ainda desconfiado do inimigo, perguntou:
— E toda aquela energia negativa, para onde foi?
— Veja. — Mostrou um frasco. — Coloquei tudo aqui.
— Me dê! — ordenou Izumi.
— Me dê? — Armon arqueou uma sobrancelha. — O que pensa fazer com isso?
— Consumir!
O destemido fitou o frasco por um instante, guardou-o em um dos bolsos e disse:
— Fica mais seguro comigo.
Izumi tentou falar, mas as palavras não saíram.
— Alguma coisa não encaixa — disse Max. — Parecia que conhecias o Slother melhor do que uma relação comum.
— Sim… és perspicaz. Talvez já tenhas percebido: eu sou o dono dele.
Todos, exceto Max, ficaram surpresos e voltaram a cogitar que aquele ser não era, de fato, um destemido.
O destemido encarou os olhos dele, sedentos por informação, e sorriu.
— Os seus olhos, gostei!

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