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    A pestana tremeu aos poucos, e o rosto se franziu de dor. A esclera apareceu a cada piscar da camada que a protegia. O rosto ficou mais úmido, e a pele demonstrou sofrimento. As pálpebras se abriram de forma súbita, e os olhos se dilataram.

    O rosto molhado acompanhou o som das respirações fortes, como se houvesse falta de ar. Deitado, a pupila percorreu o redor sem compreender o que acontecia. Piscou várias vezes, mas o céu azul, que aos poucos escurecia, não mudou.

    Levantou o tronco, porém as mãos trêmulas não o sustentaram, e o corpo tombou no chão.

    — Não se esforce, é perda de tempo.

    A voz era reconhecida por ser muito parecida com a sua. A única diferença estava no tom mais confiante e ordenante. Ele virou a cabeça e avistou a sua versão sombria. No entanto, ela estava de costas, encarando algo à frente.

    Uma pitada caiu nos olhos e dificultou a visão. Piscou intensamente, mas não houve melhora. Forçou uma das mãos frágeis e conseguiu erguê-la até os olhos. Quando a mão chegou ao topo, a queda foi mais rápida e atingiu o rosto que piscava.

    Ele desistiu do olho esquerdo e o fechou diante da realidade que não compreendia.

    — …

    A voz não saiu, e a mente ficou mais inquieta. Aos poucos, ele começou a lembrar o motivo de estar naquela situação. Ainda assim, permaneceu em dúvida sobre a razão de ter voltado àquela dimensão. O que seria dessa vez? Ele se perguntava.

    As respostas exigiam clareza. No entanto, novas pitadas de algo caíram nos olhos, até que um pouco alcançou os lábios.

    Areia?

    Naquele momento, ele se sentiu um pouco burro. Era óbvio que se tratava de areia. Não demorou para começar a ouvir um barulho que se aproximava cada vez mais.

    — Oh, cansou de cavar? — perguntou sua versão sombria.

    — …

    Mesmo se sentindo melhor, a voz não saiu. Ele sabia, porém, que algo impedia sua outra parte de se concentrar e ignorar o corpo inerte no chão.

    Max percebeu que o sombrio acumulava energia explosiva nas pernas. Estava com uma roupa diferente, e era meio hilário vê-lo apenas de short amarelo vibrante, com um desenho de coelho sorrindo.

    Ele girou rapidamente e atingiu algo preto e grande. Parecia um inseto, como as formigas da Mangolândia, mas com garras mais intimidantes.

    Quando o sombrio atingiu o rosto da criatura, uma cauda diferente surgiu. Era formada por aglomerados de bolas, com a ponta semelhante ao ferrão de uma abelha, que atacou rapidamente o sombrio.

    Ele esquivou para trás, e Max perdeu-o de vista por um instante. Ainda assim, a aberração avançou com suas garras enormes, parecendo uma tesoura, pronta para cortar o inimigo.

    O local, cada vez mais escuro, brilhou intensamente. Em um instante, o sombrio voltou à frente do monstro e atacou novamente. Desta vez, o corpo da criatura foi lançado tão longe que caiu no enorme mar.

    — Vá cavar mais um pouco, escorpião! — declarou, sorrindo.

    Nesse momento, entendeu que aquela coisa era a lei que o destemido havia colocado nele. Sorriu de canto de boca, pois parecia óbvio. Sentia que seu estado atual afetava o processamento da mente.

    Aos poucos, recuperou-se e levantou-se lentamente. Mesmo caindo, ergueu-se novamente. Ao olhar ao redor, surpreendeu-se com o estado do local. Aquela praia bonita e a vista do horizonte estavam destruídas.

    Havia vários buracos na areia e até no mar. Ele não tinha certeza, mas parecia que o mar estava menor, devido aos buracos que faziam a água salgada escorrer por aquele lugar.

    — Entendeu, seu idiota — disse o sombrio.

    — Hum! — concordou.

    — Essa coisa está consumindo essa dimensão aos poucos. Se deixarmos isso aqui, a sua mentalidade vai zerar.

    — E… você?

    — Eu! Hahahahaha! Não vai ter eu, seu idiota! Entendeu?

    — Sim — respondeu, olhando nos olhos do sombrio.

    — Se entendeu, então vaza. Essa luta é minha!

    — Mas eu…

    — Cala a boca, fracote! Eu não vou perder. Vaza! Essa besta é minha!

    Max, naquele momento, compreendeu a mensagem. No seu estado atual, seria apenas mais uma presa daquele ser. Mesmo sem gostar daquela parte de si, sentiu que podia confiar a missão. Ele não entendia bem o motivo, mas era assim que se sentia.

    — Deixo com você. Orgulho!

    — Orgulho? Gostei! — disse, sorrindo, enquanto se posicionava para continuar a luta.

    Por um momento, abriu a boca para perguntar como sair daquela dimensão. Logo, porém, percebeu que o corpo desaparecia. Então, criou a teoria de que precisava da permissão dos dois para deixar aquele lugar.

    Sua estrutura sumia enquanto o escorpião se aproximava ferozmente para destroçar. O sombrio, no entanto, não demonstrou medo e correu em direção ao alvo com um sorriso no rosto.

    Ele levantou a mão até a testa, fez uma reverência e simplesmente desapareceu.

    Os olhos se abriram novamente, e o corpo estava aconchegado a algo quente. Achou que era a peituda, pois os do clã Zura tinham pele mais quente. Abraçou-a e disse:

    — Idalme…

    Não demorou muito tempo para Max sentir a sua bunda arder com o tombo.

    — Viado do caralho!  — declarou Dam.

    — Quê? — perguntou, surpreso.

    — Max… — disse Idalme preocupada, enquanto o olhava.

    Ele, naquele momento, sentiu vergonha da pessoa que abraçou. Poderia ser qualquer um, mas justo aquele homem? Não acreditava que havia errado o alvo, mas isso não foi o que o surpreendeu e irritou mais.

    Sem nem olhar para o lado, disse:

    — Retira… retira o que disse! — declarou.

    Dam olhou para trás e ignorou. Continuou sua caminhada. Max, sentindo-se ignorado, atacou rapidamente, mas Ui o deteve e perguntou:

    — O que está acontecendo? Ele só te chamou de viado, algum problema?

    — Retire o que disse!

    Sem pensar duas vezes, atacou Ui. Ela girou a mão dele e desequilibrou o corpo, fazendo-o cair no chão.

    Ele levantou-se lentamente, pronunciando a mesma frase: “Retire o que disse!”

    Todos olharam com dúvida, pois era apenas uma palavra cujo significado, naquele momento, só Izumi, Dam e Max conheciam.

    Izumi, ao ver seu irmão atacando Ui, não fez nada. Achou engraçado, pois nunca tinha visto o irmão daquela forma e já começava a bolar planos para tirá-lo do sério.

    — Viado? — perguntou a peituda em dúvida.

    Max, que repetia a mesma frase, atacou Idalme também, e todos ficaram surpresos. Ele levava aquela questão de viado muito a sério. Todos, exceto Izumi, lutavam para contê-lo, mas não estava sendo fácil.

    Izumi observava a luta como quem aprecia um filme, comendo pipoca. Ui pedia para ajudar, mas ele não fazia nada.

    Ao perceber que estava em desvantagem, Max decidiu fazer algo ousado. O corpo começou a brilhar intensamente. Naquele instante, todos ficaram preocupados, pedindo para parar e alertavam que aquela coisa de viado estava indo longe demais.

    Cada vez que diziam isso, porém, a mente dele ficava ainda mais atormentada.

    — O que tem de errado em ser viado? — Idalme perguntou, berrando.

    Foi nesse momento que o estopim se rompeu, e Max disparou sua explosão galante.

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