O sol ainda estava baixo quando o som de um apito cortou o pátio do batalhão. 

    Arthur abriu os olhos devagar e se arrependeu no mesmo instante. A claridade bateu contra seu rosto, refletida nas paredes brancas do prédio, e seus olhos arderam como se tivessem areia por trás das pálpebras. Era irritante que a luz pudesse ser tão branca e indiferente depois de tudo que havia acontecido. Ele piscou algumas vezes, tentando entender onde estava. Só então o barulho ao redor começou a fazer sentido.

    Apoiou as mãos no chão e tentou se levantar, mas a dor subiu em pontadas, arrancando um som baixo entre os dentes. A pele repuxava nas bordas dos cortes quando os dedos se moviam. Péssimo momento para estar naquele estado. 

    Ao seu redor, o batalhão já estava em movimento. Lara, Cecília e Clara se levantavam alguns metros adiante, e Rafael já estava de pé, a espingarda na mão como se nunca tivesse largado.

    Dezenas de pessoas estavam espalhadas pelo espaço, sentadas em cobertores, encostadas nas paredes ou simplesmente de pé, esperando. Alguns seguravam crianças no colo. Outros mantinham os olhos fixos no chão. Havia rostos sujos, roupas rasgadas, e o murmúrio baixo de quem está acordado mas ainda não quer acreditar no dia que está começando.

    No centro do pátio, sobre uma estrutura improvisada de caixas empilhadas, estava um militar. Era magro a ponto de parecer que o uniforme estava vazio, com cabelos brancos desordenados e uma barba rala que cobria o queixo marcado por linhas fundas. Havia uma firmeza seca em seus olhos, o tipo de expressão que não convidava interrupções. Ele esperou até que o barulho diminuísse antes de falar.

    A voz era surpreendentemente firme para um homem daquele tamanho.

    — Bom dia. Vou ser direto porque não temos tempo para outra coisa.

    O pátio ficou ainda mais quieto.

    — Guanambi está isolada.

    A frase caiu no silêncio sem encontrar resposta imediata. Algumas pessoas se entreolharam. Outras permaneceram paradas, como se já soubessem mas ainda esperassem ouvir o contrário.

    — Durante a noite, confirmamos a existência de uma barreira ao redor da cidade. As criaturas não conseguem atravessá-la. Pelo menos por enquanto. Também não estabelecemos contato com o exterior. Nenhuma comunicação entrou ou saiu. Comandos superiores, cidades vizinhas, governo… nada. 

    Um homem mais ao fundo murmurou alguma coisa. O militar não desviou o olhar.

    — Por enquanto, este batalhão é o centro de operações. Não escolhemos isso. É o que temos.

    Ele continuou antes que alguém pudesse reagir.

    — Muitos de vocês já viram as janelas. Não sabemos de onde isso veio. Não sabemos por quê. Mas sabemos que é real, e vamos tratar como tal. Matar essas criaturas gera experiência. Quem acumula experiência sobe de nível. E quem sobe de nível fica mais forte. Parte dos nossos soldados já alcançou o nível dois durante a noite. Alguns chegaram ao três.

    O murmúrio voltou, mais inquieto.

    — Isso significa que precisamos nos fortalecer. E, para isso, cada pessoa aqui será necessária. 

    Ele varreu o pátio com os olhos, sem pressa.

    — Quem possui habilidades de combate deve se apresentar para avaliação. Se forem úteis, serão integrados às equipes de patrulha. Ninguém será jogado sozinho contra essas criaturas. Haverá acompanhamento, suporte, armas quando disponíveis e orientação para que subam de nível com o menor risco possível. 

    Uma pausa.

    — Quem não possui habilidades ofensivas também será necessário. Corpos precisam ser removidos. Suprimentos precisam ser organizados. Estruturas precisam ser reforçadas. Água e comida precisam chegar a todos. Nada disso vai acontecer sozinho. 

    A voz ficou mais dura na última parte.

    — Os alimentos são limitados, e a prioridade será de quem contribuir. Não estou aqui para punir ninguém, mas também não vou sustentar quem escolher cruzar os braços enquanto os outros mantêm este lugar de pé.

    O silêncio que veio depois foi pior que o murmúrio.

    Ninguém pareceu saber o que fazer com aquelas palavras. Então as conversas começaram, baixas e inquietas, espalhando-se pelo pátio como fogo em capim seco. Arthur observou os rostos ao redor. Alguns assentiam com a cabeça, como se já tivessem aceitado. Outros trocavam olhares preocupados. Havia também os que cruzavam os braços com a expressão fechada de quem ainda esperava que aquilo passasse. Que o governo aparecesse. 

    Arthur queria acreditar nisso também. Mas olhou para as caixas de suprimentos empilhadas perto do muro, para as fileiras de cobertores e para a quantidade de pessoas espalhadas pelo pátio. A esperança morreu antes mesmo de criar forma. Aquilo não duraria uma semana. 

    Enquanto isso, os soldados já organizavam uma fila perto do ponto de avaliação. As pessoas começaram a se aproximar uma a uma. Algumas demonstravam o que conseguiam fazer, outras explicavam em voz baixa enquanto os oficiais anotavam e as direcionavam para grupos diferentes. 

    Rafael foi avaliado e aprovado sem hesitação. 

    Quando sua habilidade foi ativada, uma figura translúcida surgiu atrás dele, como o contorno de um guerreiro antigo envolto em névoa. Por um instante, a figura permaneceu ali, silenciosa. Então avançou e se fundiu ao corpo de Rafael. Sua postura mudou no mesmo instante. Os ombros se firmaram, o olhar ficou mais afiado, e uma lâmina etérea se formou em sua mão livre, brilhando de maneira pálida sob a luz da manhã. 

    Os militares não disseram nada de imediato, mas as expressões deles ficaram mais sérias. 

    Cecília passou logo depois. Sua habilidade não produziu luz, nem armas, nem qualquer manifestação visível. Isso a tornou ainda mais estranha. Um dos soldados se ofereceu para o teste e, no instante seguinte, ficou parado no meio do pátio, os olhos perdidos, como se tivesse esquecido onde estava. Tentou erguer a mão, mas o movimento saiu lento, como se o próprio corpo tivesse esquecido como se mover. A confusão durou poucos segundos, tempo suficiente para que os oficiais trocassem um olhar e anotassem seu nome. 

    Clara foi a próxima. Ela parecia nervosa antes de começar, mas isso desapareceu quando ativou os Passos do Relâmpago. A eletricidade correu por seus braços e pernas em linhas rápidas, estalando baixo no ar. No instante seguinte, Clara avançou. Seu corpo cruzou alguns metros em um borrão, deixando rastros azulados para trás antes de parar do outro lado do espaço de avaliação.

    Um dos soldados mais jovens murmurou alguma coisa baixo demais para Arthur ouvir. Ainda assim, o espanto no rosto dele dizia o suficiente. 

    Lara foi a última. O golem que havia invocado na noite anterior foi suficiente para convencer os oficiais sem precisar de muita explicação.

    — Você não vai se apresentar? — perguntou ela, em voz baixa. 

    Arthur olhou para as próprias mãos. Os cortes ainda ardiam, e os dedos pareciam duros demais para fechar direito. Era uma desculpa boa o bastante. Melhor do que admitir que sua única habilidade só podia ser usada uma vez. No meio de gente invocando espíritos, confundindo mentes e correndo envolta em eletricidade, aquilo parecia uma piada. 

    — Quando estiverem melhores. 

    Lara acompanhou o olhar dele e não insistiu. 

    Então chegou a vez de um rapaz que Arthur não havia notado antes.

    Devia ter uns dezessete anos, o cabelo despenteado e as mãos enfiadas nos bolsos. Caminhava com uma tranquilidade irritante, como se o pátio cheio de soldados não passasse de uma apresentação qualquer. Parou no centro do espaço de avaliação, olhou para o oficial responsável e ergueu o queixo.

    — Não vou enrolar. Tenho a habilidade mais útil desse pátio. Acerto qualquer coisa que eu mirar.

    O murmúrio que percorreu o grupo foi diferente dos anteriores, mais atento, como se aquilo pudesse ser algo real. Alguns soldados se inclinaram para frente. Um dos oficiais ergueu a caneta, pronto para anotar. 

    O militar responsável estreitou os olhos. 

    — Qualquer alvo?

    — Qualquer alvo.

    — Com que arma?

    O rapaz deu de ombros.

    — Eu não preciso de armas.

    Aquilo pareceu interessar ainda mais os soldados. O oficial apontou para uma lata vazia apoiada sobre uma caixa a alguns metros de distância.

    — Então acerte aquela lata. 

    O rapaz olhou para a lata por um instante. Depois voltou os olhos para o oficial, quase ofendido.

    — Parada assim é fácil demais.

    O oficial estreitou os olhos.

    — O que você sugere?

    O rapaz tirou uma das mãos do bolso e apontou para a lata.

    — Joga para cima.

    O oficial ficou parado por meio segundo. Depois olhou para um soldado ao lado.

    — Jogue.

    O soldado pegou a lata, avaliou o rapaz por um instante e a lançou.

    A lata subiu girando, mas não em linha reta. Foi levada para o lado, afastando-se do espaço de avaliação em direção ao muro. Algumas pessoas ergueram a cabeça para acompanhá-la. Por um instante, pareceu que ela passaria por cima dele e cairia do lado de fora.

    O rapaz não se mexeu. Continuou parado, as mãos nos bolsos, olhando para a lata como se ainda houvesse tempo de sobra.

    — Vai perder — murmurou alguém. 

    Só então ele inclinou a cabeça, encheu a boca e cuspiu.

    A cusparada cortou o ar em uma linha absurda, atravessando o pátio antes de atingir a lata a poucos palmos do topo do muro.

    Toc.

    A lata desviou no ar, girou descontrolada e caiu de volta para dentro do pátio.

    Silêncio.

    O rapaz limpou a boca com o dorso da mão.

    — Eu disse. Qualquer alvo.

    O oficial olhou para a lata caída. Depois olhou para o rapaz. Por alguns segundos, não disse nada. O canto de sua boca tremeu. Uma veia saltou em sua testa, pulsando com força enquanto ele parecia tentar decidir se aquilo era impressionante, ofensivo ou apenas uma perda completa de tempo.

    — Sua habilidade… — começou ele, a voz perigosamente baixa. — É cuspir? 

    O rapaz manteve a tranquilidade irritante.

    — Não. Minha habilidade é acertar.

    O silêncio ao redor ficou ainda pior.

    — Com cuspe — disse o oficial.

    — Isso.

    O rosto do oficial ficou vermelho. Até aquele momento, os militares não haviam anunciado nenhum resultado em voz alta. A única forma de saber quem havia sido aprovado era observar quem saía da avaliação com uma pulseira preta no pulso. Com aquele rapaz, foi diferente. O oficial abaixou a prancheta, apontou para fora da fila e gritou:

    — Rejeitado! 

    O rapaz piscou.

    — Mas eu acertei.

    — Próximo!

    Por um instante, ninguém reagiu. Então alguém riu.

    Foi baixo, quase contido, mas bastou para quebrar alguma coisa no pátio. Outros risos surgiram em seguida, espalhados entre os grupos, alguns nervosos, outros sinceros demais para serem disfarçados. Depois de uma noite inteira de medo, ver alguém ser rejeitado por cuspir bem demais era ridículo o bastante para arrancar risos de quem já não parecia capaz disso. 

    Clara foi a primeira da família a ceder. Tentou esconder o sorriso com a mão, mas os ombros a entregaram. Cecília também sorriu, cansada, enquanto balançava a cabeça de leve, sem saber se devia rir ou fingir que não tinha visto. Rafael continuou sério por mais tempo. Observava o rapaz se afastar da fila com uma expressão difícil de decifrar. Não parecia reprovação. Era mais o espanto de quem reconhecia um descarado quando via um.

    — Idiota — murmurou Lara, ao lado de Arthur.

    Arthur olhou para ela, depois voltou os olhos para o rapaz.

    Ele caminhava para fora do espaço de avaliação do mesmo jeito que havia entrado, com as mãos nos bolsos e a cabeça erguida. Algumas pessoas ainda riam. Outras cochichavam. O próprio rapaz não parecia ofendido. Se estava decepcionado com a rejeição, escondia bem demais.

    Aquilo tinha sido ridículo. Mas não parecia improvisado. O garoto havia escolhido o tom, a pose, o momento de esperar a lata quase sair do pátio. Fez todo mundo prender a respiração antes de cuspir. Naquele momento, ninguém parecia estar pensando na barreira, nos monstros ou na comida acabando. Arthur não sabia se aquilo fazia dele um palhaço ou alguém mais esperto do que parecia.

    Depois da avaliação, o militar de cabelos brancos voltou a subir em cima das caixas. O pátio foi silenciando aos poucos.

    — As criaturas que estavam dentro da área urbana foram eliminadas ou expulsas para fora da barreira — anunciou ele. — Isso não significa que a cidade está segura. Significa que, por enquanto, não há ameaça imediata dentro dos limites protegidos.

    Algumas pessoas respiraram aliviadas. Outras pareciam cansadas demais até para isso.

    — Todos deverão retornar às suas casas, reunir suprimentos e permanecer atentos. Amanhã, ao amanhecer, este batalhão divulgará o plano de ação para os próximos dias. Quem não puder retornar por conta da distância será encaminhado para residências disponíveis nas proximidades.

    Ninguém perguntou o que significava “residências disponíveis”. Também não precisava. Arthur viu alguns rostos baixarem. 

    O militar continuou, e sua voz ficou mais dura.

    — A ordem será mantida. Furtos, agressões, invasões ou qualquer tentativa de sabotagem serão tratados com severidade. Estamos isolados, sem comunicação externa e sob ameaça constante. Isso será considerado estado de guerra para todos os fins práticos.

    O murmúrio que começou no pátio morreu quando ele ergueu a voz.

    — A Constituição prevê pena de morte em caso de guerra declarada. Não estamos declarando nada hoje. Mas deixo claro que traição, sabotagem de suprimentos ou qualquer ato que coloque a sobrevivência coletiva em risco poderá ser punido com exílio ou execução, conforme a gravidade.

    O silêncio ficou pesado.

    — Quem não aceitar essas regras pode atravessar os portões agora e sobreviver por conta própria. 

    Ninguém se moveu. Pouco depois, os grupos começaram a se dispersar. 

    Arthur foi buscar o cavalo perto de uma das árvores no canto do pátio. O animal continuava amarrado ao tronco onde havia sido deixado, imóvel, com os olhos escuros voltados para ele antes mesmo que se aproximasse. Arthur estendeu a mão para soltar a corda, mas parou quando uma sombra se moveu ao lado da árvore. No instante seguinte, um soldado estava entre ele e o nó.

    — O animal fica.

    Arthur parou.

    — Como é?

    O soldado tinha um fuzil apoiado contra o peito e o rosto fechado de quem não estava ali para negociar.

    — O cavalo será requisitado pelo batalhão. Ordem superior.

    Lara deu um passo à frente.

    — Ele trouxe esse cavalo…

    Arthur ergueu a mão antes que ela terminasse. Lara parou.

    Ele manteve os olhos no soldado, mas não disse nada. O calor subiu pelo pescoço, e seus dedos fecharam ao lado do corpo sem que percebesse. Tinha atravessado a mata no escuro, contornado uma horda, entrado numa fazenda desconhecida e voltado vivo em cima daquele animal. E agora estava sendo informado de que ele não era mais seu.

    Mas havia outros soldados a poucos metros. Gente demais observando. Qualquer reação ali seria estupidez. Ele podia odiar aquilo. Podia engolir a raiva até ela queimar por dentro. Mas não podia se dar ao luxo de agir como se ainda estivesse sozinho no meio da estrada.

    Arthur respirou fundo e abriu os dedos devagar, sentindo os cortes repuxarem.

    — Entendi — disse.

    O soldado pegou um saco de arroz de uma pilha próxima.

    — Pelo inconveniente — disse ele, estendendo o saco. — Cinco quilos de arroz.

    Arthur olhou para o saco. O soldado o estendia com a postura de quem estava fazendo um favor, como se aquilo fosse uma escolha generosa e não uma imposição com embalagem de cortesia. Como se chamar aquilo de compensação mudasse o que estava acontecendo. Arthur esticou a mão e pegou o saco sem dizer nada. Não tinha mais energia para discutir isso.

    — Vamos — disse Rafael, baixo, ao lado dele.Arthur não respondeu. Lançou um último olhar para o cavalo antes de se virar. O animal continuava preso pela corda, acompanhando-o com os olhos enquanto ele se afastava.

    Arthur apertou o saco contra o corpo e caminhou para fora do batalhão sem olhar para trás.


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