Capítulo 197: Céu Claro
O sol brilhava forte do lado de fora da janela. O clima horrível da noite anterior agora parecia apenas um sonho distante. Apenas as poças d’água no parapeito e o chão úmido das ruas ainda serviam como provas de que realmente havia caído um temporal durante a madrugada — e esse céu limpo que surgira após a chuva parecia ideal para ficar em casa e dormir mais um pouco.
Mas Shirley já tinha dormido o bastante. Nunca dormira tantas horas seguidas, e agora seu estômago começava a roncar — um motivo bem convincente para se levantar.
Afinal, ficar deitada com fome sempre lhe trazia lembranças nada agradáveis — quando era menor, dormia para enganar a fome durante as noites mais difíceis. Se não fosse por Cão, que a acordava e lhe dava forças, talvez já tivesse morrido num daqueles invernos frios e famintos.
Ela aprendeu, com a própria vida, que quando a fome passa de certo limite, a morte pode vir sorrateira no meio do sono.
Levantou-se da cama macia, trocou de roupa, e justo nesse momento, passos leves soaram do lado de fora da porta.
“Shirley! Você acordou? Ouvi barulho!”
Era a voz de Nina.
Shirley se assustou levemente, mas respondeu rápido:
“Sim! Tô acordada!”
A porta se abriu, e Nina apareceu — vestindo uma camisa branca, jaqueta curta e uma saia xadrez em tom marrom-claro. Assim que viu Shirley já trocada, abriu um sorriso e correu até ela:
“Você dormiu muuuito! Como tá se sentindo? As costas ainda doem? E os machucados… deixa eu ver, deixa eu ver!”
“Foi só cansaço, por isso apaguei assim… mas eu tô bem, sério.” Shirley tentou escapar do entusiasmo exagerado de Nina, um tanto sem jeito. Mas sua resistência habitual — de força bruta mesmo — parecia inútil diante da amiga, então no fim ela acabou virando obedientemente de costas para deixar Nina conferir os ferimentos nos ombros e braços.
“Foi só uns arranhões… minha recuperação é rápida. E… ai, para, isso faz cócega… hahaha, paraaa…”
“Já sararam mesmo!” Nina finalmente recuou, surpresa, observando a amiga como se estivesse diante de uma criatura rara. “Ontem à noite tinha um corte enorme nas suas costas. Agora sumiu tudo… nem cicatriz ficou! Como você conseguiu isso?”
“Ué, eu já te falei: vivo em simbiose com um demônio abissal. O Cão é forte, e as habilidades dele são corpo resistente e regeneração”, respondeu Shirley, arrumando a roupa. A vestimenta de ontem tinha sido destruída na luta, então agora usava outra peça antiga que trouxera de casa — uma das poucas que conseguiu salvar depois do ataque.
“Minha regeneração podia ser ainda melhor, mas o Cão disse que eu tô desnutrida. Aí a recuperação também fica limitada…”
“Então aqui você vai comer direitinho! O tio tá cozinhando muito bem ultimamente!” Nina declarou na hora. Logo depois, sua curiosidade despertou: “Ahm… e todos os que são como você… digo, todos que vivem com demônios abissais… são fortes assim?”
“Depende do tipo de demônio. Se for um Cão Abissal, o foco é corpo resistente, regeneração e percepção. Se for um Terror Abissal, aí o dom é força de vontade e resistência a contaminação mental. Existem muitos outros tipos também… não sei explicar tudo.”
Ela deu de ombros. “Na real, os que vivem com demônios abissais são os mais bagunçados entre os transcendentes1. Esses demônios, pra poderem agir no mundo real, costumam ser bem generosos com quem compartilha o corpo com eles…”
Shirley de repente fez uma pausa. Seu semblante ficou sério. Ela olhou diretamente nos olhos de Nina:
“Falando nisso… deixa eu te avisar: melhor você não se envolver demais com esse tipo de coisa. Você já deve saber — normalmente, quem tem simbiose com demônios abissais são os malucos do Culto da Aniquilação. Eles não são como eu. E os demônios deles… não são como o Cão.”
“Eu sei, eu sei, não sou criança,” Nina respondeu rapidamente, abanando as mãos. Ainda assim, era nítida sua curiosidade. “Mas… você já viu outro simbiôntico assim? Digo… desses seguidores da Aniquilação…”
“Nunca vi. Nem quero ver. Só de ouvir o Cão descrevendo já me dá enjoo. Se eu encontrar um deles, pode apostar que vou… hm, surrar muito bem antes de entregar pros guardas”, disse Shirley, fazendo uma careta de nojo.
“Aliás, Nina… você tá perguntando demais hoje, hein? Quando viu o Cão pela primeira vez, não ficou assim… E hoje você não tem aula, não?”
“Você vai morar aqui agora. É claro que eu quero te conhecer melhor! O tio Duncan me contou que sua casa foi destruída numa explosão de gás e que agora você não tem mais pra onde ir…” disse Nina com toda a seriedade, ao mesmo tempo em que puxava Shirley pela mão. “E a escola tá de férias, oras! Quase dois meses de folga! Você não sabia?”
“Como eu ia saber? Nunca fui pra escola…” murmurou Shirley, baixinho, enquanto era puxada porta afora, seguindo o cheiro da comida vindo da cozinha. Ela notou que o andar de cima estava bem quieto, e perguntou, curiosa:
“O senhor Duncan não tá por aqui?”
“Tio desceu pro primeiro andar. Disse que vai receber uns visitantes e que a gente pode comer aqui em cima mesmo”, explicou Nina, parando de repente ao lembrar de algo. Em seguida, puxou Shirley na direção do lavabo: “Ah! Lavar as mãos! Antes de comer tem que lavar, senão o tio vai começar a reclamar de novo.”
“Ah… tá bom…” Shirley foi levada sem resistência, um tanto zonza — talvez de fome, talvez por ter dormido demais. Mas… estranhamente, aquela sensação até que era boa.
No mesmo momento, no andar de baixo da loja de antiguidades, Duncan estava ao lado do balcão, explicando detalhadamente algo para a pessoa à sua frente.
Sentada diante dele havia uma jovem vestida com um longo vestido elegante e refinado, com um véu rendado cobrindo parte do rosto e longos cabelos loiros caindo sobre os ombros. Seu rosto era belo e sereno.
Uma dama loira de aparência nobre e recatada (✘)
Na verdade… era Alice usando uma peruca (✔)
“…Mais ou menos é isso. Há muitas coisas sobre a sociedade humana que você precisa entender, mas o mais importante é dominar o básico. Isso já vai ser o suficiente por enquanto, considerando o tamanho da sua área de atividade atual. E, aqui na loja, você quase não vai ter responsabilidade — só precisa ir se acostumando aos afazeres mais simples, como limpar e organizar as prateleiras”, Duncan finalmente terminou sua explicação, embora ainda parecesse cauteloso com a moça sentada diante dele.
“E as coisas que eu ensinei pra você lá no navio… ainda lembra de tudo?”
“Lembro, lembro!” Alice respondeu apressada, balançando a cabeça com força — mas mal fez isso duas vezes e logo se lembrou de algo, reduzindo imediatamente o movimento. Endireitou a postura e fez um aceno de cabeça discreto, extremamente elegante: “Pode ficar tranquilo! Eu lembro direitinho!”
“Certo, o movimento contido de cabeça… pelo menos isso você aprendeu.” Duncan soltou um leve suspiro e voltou a analisar cuidadosamente os detalhes do disfarce de Alice.
Ela agora usava uma peruca loira cobrindo os longos cabelos prateados. Maquiagem leve corrigia certos traços faciais, e um véu rendado ocultava a metade inferior de seu rosto. Luvas longas de seda cobriam suas mãos, e um colar com babados escondia as articulações do pescoço, que tinham uma estrutura um tanto… incomum.
Todas as partes que podiam ser disfarçadas, estavam bem cobertas.
Claro, se por acaso alguém que realmente conhecesse a Rainha de Geada, Ray Nora, estivesse ali — ou se fosse alguém que já tivesse observado a Anomalia 099 bem de perto — talvez pudesse notar algo estranho no rosto dessa ‘jovem loira’. Mas a chance disso acontecer era quase nula.
A Rainha de Geada era figura de meio século atrás. E quem teve contato direto com a Anomalia 099… dificilmente ainda estaria vivo.
Mesmo entre os guardiões da Igreja, era praticamente impossível alguém reconhecer que essa garota elegante à sua frente era, na verdade, a boneca amaldiçoada fora de controle.
Duncan suspirou de novo, desta vez apenas por dentro.
No plano original, ele pretendia esperar mais um tempo antes de trazer Alice para conhecer o mundo humano. A ideia era deixá-la por mais alguns dias no navio, reforçando os estudos e ajustando sua compreensão básica da realidade.
Mas não aguentou ver aquela criatura entediada se encostando no parapeito do navio o dia inteiro, olhando o horizonte com aquele olhar vazio e murmurando frases perdidas pro nada. Então resolveu antecipar os planos.
Ainda assim, dentro do possível, deu a ela uma boa dose de ‘educação de emergência’, despejando os conhecimentos mais fundamentais sobre convivência humana e um senso de moralidade razoável. Na teoria… deveria bastar.
Mais ou menos.
Com Nina e Shirley almoçando no andar de cima, ele aproveitou o momento para pedir a Ai que trouxesse Alice direto do navio até a loja, para que ela se ambientasse. Assim que chegou, a primeira reação de Alice foi sair fuçando tudo, curiosa como uma criança em feira. Duncan teve que se esforçar bastante para fazê-la sentar ao lado do balcão — e, mesmo assim, era óbvio que sua atenção estava totalmente dispersa.
Ela continuava olhando em volta. Mesmo sentada de maneira composta e formal, seus olhos rodavam inquietos, e o pescoço não parava de se mexer discretamente.
O contraste entre a pose refinada e o olhar agitado fazia Duncan pensar que, sinceramente… só poderia ser a Alice mesmo. Conseguia unir, ao mesmo tempo, a elegância de uma dama e o jeito estabanado de uma completa cabeça de vento — como se as duas personalidades coexistissem no mesmo corpo em estado de sobreposição.
Depois de tanto espiar os cantos, os olhos dela finalmente voltaram a se fixar em Duncan — com um brilho de interesse sincero e uma curiosidade mal disfarçada.
- No capítulo 144, eu havia dito que passaria a usar Sobrenatural no lugar de Transcendente. Mas acontece que já tem muita coisa que usa a palavra ‘sobrenatural’ na história, então voltei pro transcendente, já corrigi em todas as menções anteriores também[↩]

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