Índice de Capítulo

    Um silêncio pesado e úmido pairava sobre a sala de reuniões no centro do Mocambo. O ar cheirava a suor frio e medo.

    Espectro estava de pé, sua postura rígida quebrava a penumbra do cômodo. Diante dele, Ganga Zala e todos os chefes de quilombo ouviam, rostos carrancudos.

    — Hoje de manhã — sua voz era clara e cortante como uma lâmina — tivemos uma série de ataques coordenados. Um homem foi arrastado para o fundo do rio Taracatu por uma Iara, encontramos seu corpo com a ajuda de uma luneta com a gema da visão, o corpo estava retorcido e com um sorriso eterno nos lábios. Uma mulher que colhia frutos na borda sul foi completamente carbonizada, engolida pelas chamas de um Boitatá. E o mais grave… um ataque direto a uma fazenda no mocamo do Carlos, por uma criatura que identificamos como um Mapinguari.

    Um murmúrio de horror percorreu a sala. Maria, sentada ao lado de Zala, levou a mão tremula à boca.

    — No entanto — Espectro fez uma pausa — a Ministra Tassi, usando de sua magia e de sua arma de fogo, conseguiu não apenas impedir o ataque, mas matar a fera. Ela está inconsciente, mas viva. E foi ao examinar o cadáver do monstro que descobrimos algo que muda tudo.

    Zala, que tentava manter a compostura, inclinou-se para a frente, seus dedos entrelaçados sobre a mesa.

    — O que foi, homem? Fale!

    — O Mapinguari… era um homem. Um ser humano transformado.

    A declaração caiu como uma bomba. O som de uma cadeira arrastando no chão de terra batida ecoou. Vários chefes se entreolharam, incredulidade e terror estampados em seus rostos.

    — Humano? — a voz de Zala saiu como um sopro. — Será que… todos esses monstros são… pessoas?

    Espectro balançou a cabeça negativamente, contendo um pouco a histeria que ameaçava se instalar.

    — Não todos, mas pelo menos de todos os monstros que nós atacam, Ganga Zala. O comportamento dessas criaturas é coordenado, tático. São ataques planejados contra nós. E no peito deste homem… — ele fez outra pausa, garantindo que todos estivessem ouvindo — …encontramos isso.

    Ele colocou sobre a mesa um pequeno saquinho de couro e despejou seu conteúdo. Uma gema dourada, do tamanho de uma unha, caiu com um tilincar sinistro. Ela parecia pulsar com uma luz interior fraca, mesmo na penumbra.

    — Uma gema? — perguntou um dos chefes mais velhos, seu rosto marcado pelas intempéries.

    — Presumimos que seja este artefato que permite a transformação — concluiu Espectro.

    Foi quando Carlos, que permanecera calado num canto, observando tudo com olhos analíticos, adiantou-se.

    — Peço que todos mantenham a calma — sua voz era um antídoto de racionalidade contra o pânico que se alastrava. — Como viram, mesmo uma ameaça como um Mapinguari pode ser contida. A arma de fogo foi crucial. E eu estou trabalhando no desenvolvimento de armas ainda mais poderosas.

    O alívio foi palpável. Vários chefes assentiam, murmurando entre si sobre o “revólver milagroso”.

    — No entanto — Carlos continuou — a produção em larga escala ainda vai demorar. A visita da Papisa, marcada para essa semana, é uma oportunidade. Foi ela quem, indiretamente, forneceu as primeiras armas. Podemos negociar por mais.

    A menção à Papisa e a uma possível solução imediata acalmou ainda mais os ânimos. Mas nem todos estavam satisfeitos. Ganga Zala observava Carlos com um misto de esperança e desconfiança.

    Espectro, sentindo o foco da reunião escorrer para Carlos, retomou a palavra.

    — Minha equipe acredita que a origem desses ataques é o novo capitão-mor. Nossa espiã infiltrada confirmou que há olheiros dentro do nosso território, enviando informações diretamente para o governador. Esses ataques são testes, para medir nossa força e reação. — Ele respirou fundo. — E o pior… eles descobriram nossa conexão com a Cidade Sagrada.

    O desespero, que havia recuado, voltou com força total. O ar pareceu sair da sala. A aliança com a Cidade Sagrada era seu maior segredo, sua última tábua de salvação.

    Maria quebrou o silêncio aterrorizado, sua voz um fio.

    — Então… então vamos sofrer mais ataques como esses? A qualquer momento?

    Espectro sentou-se, sua energia parecendo tê-lo abandonado.

    — Infelizmente, sim. A sorte que tivemos foi identificar o método. E matar um dos atacantes.

    O silêncio tomou conta do local mais uma vez, mais pesado e opressivo do que antes.

    — Já estou agindo — a voz de Carlos soou novamente, firme. — Encomendei de comerciantes de confiança ferramentas mágicas com a Gema da Visão. Com elas, nossos sentinelas poderão detectar essas ameaças antes que se aproximem. E acredito que o “assunto urgente” da Papisa seja justamente essa exposição da nossa aliança. Ela pode ter uma solução.

    A menção à Papisa e a uma possível solução imediata acalmou ainda mais os ânimos. Mas Ganga Zala observava Carlos com um crescente desconforto. O jovem chefe, com suas falas de “tecnologia” e “armas mais poderosas”, estava naturalmente atraindo os olhares dos outros chefes, que buscavam uma âncora naquela tempestade. Zala, sentindo o foco da reunião e sua própria liderança escorrerem para Carlos, endireitou-se na cadeira e interveio, sua voz tentando recuperar a solenidade perdida.

    — Certamente a Papisa deve ter vindo por conta disso — ele afirmou, fazendo questão de parecer o único a articular um plano diplomático. — E talvez ela possa ser a mediadora perfeita. Podemos negociar com o capitão-mor. Oferecer o cessar-fogo total dos nossos ataques a engenhos em troca de uma paz duradoura.

    A ideia, que soava como uma retirada honrosa, fez alguns chefes assentirem, aliviados por ver Zala reassumindo o comando com uma proposta concreta.

    Foi então que Espectro, que permanecera em silêncio analisando a gema sobre a mesa, falou. Sua voz era baixa, mas cortou o murmúrio como uma faca. Ele não olhou para Zala, mas seus olhos fixos no mesa carregavam o peso de um respeito cansado.

    — Com todo respeito, Ganga Zala — disse ele, cada palavra medida. — Mas fazemos uma ou duas expedições punitivas no máximo por ano. São um incômodo, não uma ameaça existencial para a Coroa. Cessar esses ataques é entregar nossa única moeda de barganha sem qualquer garantia. O capitão-mor não quer apenas que paremos de cutucá-lo; ele quer que nos rendamos. Parar não vai resolver a raiz do problema, só vai nos deixar mais vulneráveis.

    Um silêncio constrangedor pairou sobre a mesa. Era raro Espectro desafiar Zala abertamente.

    Carlos, percebendo a abertura, juntou-se a Espectro, seu tom era mais de lógica do que de confronto.

    — O Espectro tem um ponto crucial, Ganga Zala. A história do meu mundo está repleta de acordos de paz quebrados com povos que só queriam viver em paz. Líderes quilombolas no Brasil ainda são mortos mesmo séculos após o fim da escravidão. A palavra de um homem que sanciona o uso de gemas para transformar pessoas em monstros não vale o sangue que ele já derramou. — Ele olhou para os outros chefes. — Retaliar não é sobre vingança cega; é sobre mandar uma mensagem inconfundível: cada ataque a nós terá um custo terrível para eles. É a única linguagem que tiranos entendem.

    Zala bateu o punho na mesa, fazendo a gema pular.

    — Não estamos no seu mundo, Carlos! Nós queremos paz! Guerra não é a resposta! Não temos como vencer a capitania de Pernambuco, quem dirá todo o poder de Portugal!

    Carlos permaneceu impassível, um rochedo contra a maré de histeria de Zala.

    — O senhor já ouviu falar da pólvora sem fumaça que comecei a produzir? E dos canhões? — A pergunta foi feita num tom quase casual, mas o efeito foi instantâneo. Todos os olhos se voltaram para ele. — Duas peças já foram finalizadas. São armas feitas para destruir fortalezas, não para combater monstros em escaramuças. Se não fosse por este ataque, eu já estaria demonstrando seu poder para o Espectro.

    Zala riu, um som seco e sem humor.

    — E se, por um milagre, vencermos o governador? E depois? Lutaremos contra a coroa portuguesa? Não importa quão poderosas sejam suas armas, Carlos, a vitória é impossível!

    Carlos ergueu-se lentamente. Seus olhos brilhavam com uma luz fria e determinada.

    — A impossibilidade é uma questão de perspectiva. Venham comigo. — Ele se virou e caminhou para a porta. — Venham todos ver com os próprios olhos o que a “impossibilidade” do meu Mocambo é capaz de criar.

    Ele saiu, sem olhar para trás. Espectro e Maria trocaram um olhar e se levantaram imediatamente, seguindo-o. Um a um, hesitantes, os outros chefes foram se levantando, seus olhares fugindo do rosto congestionado de Ganga Zala. O líder, após um longo momento de luta interna, cuspiu no chão e, com um rosnado, arrastou-se para fora da sala.

    A luz do sol do final de tarde era quase cegante após a penumbra do interior. Carlos os levou a um campo aberto, uma área de terra batida nos arredores do Mocambo. E lá, reluzindo sob a luz alaranjada, estavam elas.

    Duas bestas de aço.

    De um lado, uma peça mais baixa e ágil, com rodas robustas e um cano longo e elegante. Do outro, um monstro. Um canhão massivo, pesado, com um cano tão largo que um homem poderia, se quisesse, enfiar a cabeça dentro. O aço polido brilhava, e o cheiro de óleo e metal novo impregnava o ar. Ao lado de cada uma, uma equipe de artilheiros, vestidos com uniformes simples mas funcionais, mantinha uma postura rígida e profissional, seus rostos sérios como os de sacerdotes antes de um ritual.

    — Essas — anunciou Carlos, sua voz projetando-se sem esforço — são as respostas. Chamo-as de canhões. Elas não lançam feitiços, não invocam demônios. Elas lançam a pura e simples física. Lançam projéteis de ferro a centenas, a milhares de metros de distância. Matar um Mapinguari com elas seria como esmagar uma formiga com uma bigorna.

    Ele se aproximou do canhão menor, o de 75 milímetros. Com um gesto teatral, pegou um dos estojos metálicos que repousavam numa caixa de madeira.

    — A pólvora sem fumaça, a nitrocelulose, e a habilidade da Nia em moldar metais foram a chave. Falar é fácil. Ver é crer. Espectro, se faz favor.

    Espectro, com um aceno quase imperceptível, deu a ordem.

    Os artilheiros do canhão menor moveram-se com uma eficiência hipnótica. Um homem abriu a culatra com um clunk metálico. Outro inseriu o longo estojo. A culatra foi fechada.

    — Alvo: estrutura de madeira, quatrocentos metros! — gritou um dos artilheiros.

    Um homem puxou um cordão. O BAF! foi seco, agudo. Um leve tremor no chão, uma nuvem de fumaça branca e limpa saindo da culatra. Não houve um rugido, mas um sibilo cortante no ar. A centenas de metros de distância, o alvo — um velho barril de madeira — simplesmente se desintegrou. Não quebrou. Desapareceu em uma nuvem de estilhaços finos, como se uma mão invisível e furiosa o tivesse esmagado.

    — Metralha — explicou Carlos, sobre o ruído de espanto coletivo. — Centenas de bolas de chumbo, liberadas no ar. Eficaz contra… bem, contra quase qualquer coisa viva.

    Antes que a admiração se transformasse em palavras, ele prosseguiu.

    — Agora, o mesmo canhão, projétil sólido. Alvo: a rocha no topo da colina distante. Três quilômetros.

    Os chefes entreolharam-se. A colina era um borrão verde no horizonte. Os artilheiros recarregaram, seus movimentos ainda precisos, mas um pouco mais lentos. Desta vez, o disparo foi um CRAC! mais profundo. O projétil era invisível, mas seu efeito não: uma nuvem de poeira e pedriscos explodiu no alto da colina, marcando o local do impacto com precisão cirúrgica.

    O silêncio que se seguiu foi de puro êxtase. Homens que passaram a vida toda se escondendo, vendo suas forças como insuficientes, agora viam o poder absoluto materializado em aço e fogo.

    — Este — Carlos apontou para o monstro maior, o de 155mm — é o “Quebrador de Muralhas”. Ele não luta contra homens. Luta contra pedra. Contra fortalezas.

    A equipe do canhão grande começou o ritual. Era um balé de força bruta. O projétil, sozinho, era um cilindro de ferro maciço que dois homens carregavam com dificuldade. O cano foi elevado, apontando para um ângulo muito alto, mirando algo muito, muito além do que qualquer olho podia ver.

    — O alvo — disse Carlos, quase num sussurro, mas que foi ouvido por todos — é um aglomerado de rochas a dez quilômetros daqui.

    O artilheiro-chefe puxou o cordão.

    O mundo pareceu parar.

    O estrondo não foi um som, foi uma experiência física. Um golpe no peito que fez todos darem um passo para trás. A terra tremeu sob seus pés. Uma enorme nuvem de poeira e fumaça branca jorrou da boca do canhão, obscurecendo-o por um momento. O projétil não sibilou; ele rugiu ao subir, um som que se perdeu na distância até se tornar um silêncio agonizante. Segundos que pareceram horas se passaram. Nada. Ninguém naquele campo seria capaz de ver o impacto.

    — Confiem na matemática — disse Carlos, quebrando o feitiço. — A uma distância que uma hora de caminhada vigorosa não vence, nossa vontade, fundida em aço, já cumpriu seu propósito.

    A coragem, como um rio transbordando, inundou o coração daqueles chefes. Olhos que antes brilhavam com medo, agora brilhavam com uma chama nova e perigosa: a da possibilidade.

    Ganga Zala abriu a boca para falar, seu rosto pálido, mas Carlos ergueu a mão.

    — E isto é só o começo. Estas são balas sólidas. Em breve, com nossa indústria química, produziremos projéteis explosivos. — Ele deixou a palavra ecoar. — Granadas. Imaginem. O Palácio de Duas Torres, a residência do governador. Imaginem uma explosão surgindo do nada em seu jardim, em seu telhado, em seu salão principal… vinda de um lugar tão distante que eles nem mesmo nos ouviriam chegar.

    Era uma imagem poderosa demais. A vingança, a inversão total de poder, servida em uma bandeja de aço. Vários chefes balançavam a cabeça, maravilhados, seus medos dissipados pela promessa de um poder retaliatório absoluto.

    Zala, porém, parecia ter encolhido. O único que não se deixou embriagar.

    — Isso é um sonho do futuro, Carlos! — sua voz soou rouca e cansada. — Enquanto isso, o nosso povo morre agora! Esses canhões, por mais impressionantes que sejam, não salvaram a mulher no campo nem o homem no rio! A paz, uma trégua, é o que pode nos dar o tempo que você tanto precisa!

    Carlos acenou lentamente, um gesto de reconhecimento, não de submissão.

    — O senhor tem razão, Ganga Zala. Precisamos de tempo. Mas apenas isso. Não devemos, não podemos, negociar a nossa submissão.

    Zala ergueu-se à sua altura completa, recuperando um resquício de sua autoridade. Seus olhos, velhos e sábios, fitaram os de Carlos, o jovem chefe de um novo mundo.

    — Devo lembrá-lo, Carlos, que você serve a mim. E a este conselho. A decisão final é minha. — Sua voz era fria como o aço dos canhões. — Estou aberto a ouvir suas ideias, mas saiba de uma coisa: quando a Papisa chegar, eu conduzirei as negociações. Desta vez, você não falará com ela sozinho. A paz será a minha prioridade, não a sua guerra.

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