Índice de Capítulo

    O ar na Cidade Sagrada de Áscoli, aninhada nos Apeninos, cheirava a pinheiros e santidade. Elias, entretanto, estava longe de se sentir abençoado. Ele esfregou a nuca, cansado, enquanto desembarcava de sua modesta caravela, A Donzela do Mar, no movimentado porto fluvial da cidade.

    “Por todos os santos, esse Francisco vai acabar com a minha pouca sanidade que ainda resta,” ele resmungou mentalmente, ajustando o casaco contra a brisa fresca da montanha. “Primeiro eram o ferro, e agora… agora é isso. ‘Apenas um pouquinho de pó amarelo, Elias. É para uma causa nobre!’ Ele fala como se eu fosse um mero recado dele.”

    Sua missão atual era absurda. Francisco, com sua lábia convincente, encomendara uma quantidade considerável de enxofre. “Para a obra de caridade da Papisa Paula,” ele dissera, piscando um olho. “Você sabe, a santa dos milagres de cura. Dizem que esse pó é um ingrediente crucial para seus novos unguentos e remédios.”

    Elias caminhou pelas ruas de pedra, passando por peregrinos com seus chapéus de abas largas e mercadores vendendo relíquias duvidosas. Sua primeira parada foi um armazém próximo ao porto, um lugar escuro e empoeirado que cheirava a especiarias e madeira velha.

    O proprietário, um homem corpulento chamado Vittorio, cumprimentou-o com um aceno.

    — Elias! De volta tão cedo? Os produtos venderam bem?

    — Venderam, Vittorio, venderam — respondeu Elias, forçando um sorriso. — Mas hoje estou atrás de algo… diferente.

    — Diferente? — O homem arqueou uma sobrancelha espessa. — Não me diga que entrou no ramo das relíquias sagradas…

    — Nada disso — Elias interrompeu, baixando a voz. — Estou precisando de enxofre. Puro.

    Vittorio recuou um passo, sua expressão tornando-se genuinamente perplexa.

    — Enxofre? — Ele fez uma careta. — Essa coisa amarela que cheira a ovo podre? Para quê, pelos céus? Nem os alquimistas mais desesperados usam isso! É mais fácil conseguir uma fagulha-gema do que lidar com esse fedor.

    Elias manteve a compostura. Num mundo onde combate se resolvia com gemas de fogo e gelo, ninguém suspeitaria da verdade.

    — É para a Papisa Paula, de Santa Maria— ele explicou, adotando um tom solene. — Você deve ter ouvido falar dos seus milagres de cura. Dizem que descobriu uma propriedade purificadora no enxofre para seus novos remédios.

    Vittorio coçou o queixo, considerando.

    — A santa curandeira? Já ouvi falar… dizem que ela consegue recuperar a perna de um velho em uma única tarde. — Seus olhos estreitaram. — Mas enxofre? Nunca ouvi falar de remédio feito com essa coisa inútil.

    — Os caminhos do Senhor são misteriosos, meu amigo — disse Elias, com a voz cheia de uma piedade que não sentia. — Quem sou eu para questionar os métodos de uma santa? Ela precisa, e eu fui encarregado de fornecer.

    Vittorio olhou para Elias, ainda cético, mas agora por motivos diferentes.

    — Enxofre é o que não falta nas furnas perto de Nápoles — ele finalmente disse, sacudindo a cabeça. — Os camponeses até reclamam do cheiro. Mas ninguém se dá ao trabalho de coletar. — Ele baixou a voz. — Talvez você tenha mais sorte com os monges do Mosteiro de São Bento. Eles colecionam todo tipo de mineral estranho para seus estudos. Se alguém na região tem enxofre guardado, são eles.

    Elias suspirou internamente. “Monges.” Sempre mais complicado. Eles cobrariam um preço santo por algo que consideravam inútil, só por princípio.

    — Obrigado pela dica, Vittorio — ele disse, fazendo uma vénia de despedida. — Vou seguir seu conselho.

    Ao sair para a luz do dia, Elias olhou para as torres do mosteiro ao longe, no topo de uma colina. “Francisco, seu maldito… pagarei quase nada por esse pó inútil, mas você vai me ouvir reclamar por uma semana inteira.”

    Ele começou a subir a colina, sua mente já calculando como convencer os monges a venderem algo que nem eles mesmos valorizavam. Num mundo de magia e gemas reluzentes, quem daria valor a um simples pó amarelo e fedorento? Apenas um homem muito esperto – ou um santo muito estranho. E Elias tinha certeza de que o pessoal do quilombo não era santo nenhum.

    A subida até o mosteiro foi longa e íngreme, e Elias sentiu as pernas queimarem com o esforço. “Mais uma coisa para culpar o Francisco,” ele pensou, ofegante. Os portões de madeira maciça do Mosteiro de São Bento estavam abertos, levando a um pátio silencioso onde o único som era o canto gregoriano.

    Ele foi recebido por um irmão leigo, que o levou até o Irmão Benedito, o responsável pelo gabinete de curiosidades. O monge era um homem idoso, de barba branca e olhos curiosos por trás de óculos de aro de ferro.

    — Paz seja convosco, meu filho — disse o monge. — O Irmão Porteiro me disse que busca um mineral incomum.

    — E com você também, Irmão Benedito — disse Elias, fazendo uma reverência. — Sim. Estou necessitando de enxofre.

    A expressão do Irmão Benedito se tornou intrigada.

    — Enxofre? — ele repetou, dirigindo-se a uma estante cheia de frascos de vidro. — Um elemento dos mais interessantes! Associado ao fogo e à purificação. — Ele pegou um frasco com pó amarelo. — Raramente recebemos pedidos. Posso perguntar qual a sua aplicação?

    Elias engoliu em seco. Decidiu pela meia-verdade.

    — A encomenda é para a Papisa Paula, de Santa Maria. Está conduzindo obras de caridade e experimentos de cura. Dizem que encontrou uma propriedade purificadora no enxofre.

    O Irmão Benedito acenou lentamente, um sorriso sábio em seus lábios.

    — A Papisa dos milagres. Sim, ouvimos falar. — Balançou o frasco. — Faz sentido. O enxofre queima impurezas, na simbologia alquímica. Usá-lo para purificar o corpo… uma abordagem audaciosa.

    Ele colocou o frasco na mesa.

    — Temos uma boa quantidade nos nossos porões. Coletamos de uma furna ativa anos atrás. — Seu dedo ossudo tamborilou na mesa. — Mas, veja bem, meu filho. Embora o material seja considerado inútil por muitos, o conhecimento de seu uso potencial… isso tem valor.

    Elias entendeu. O monge não estava vendendo enxofre; estava vendendo silêncio.

    — Entendo perfeitamente, Irmão — disse Elias, puxando uma pesada bolsa de moedas. — A Igreja em Santa Maria está disposta a pagar generosamente por essa… contribuição. E, é claro, pela discrição.

    O Irmão Benedito nem olhou para a bolsa.

    — A caridade é uma das virtudes mais nobres. Ficamos felizes em poder contribuir. — Ele ergueu o frasco. — Quantos quilos a obra de caridade necessita?

    — Na verdade, Irmão Benedito — Elias inclinou-se para a frente, baixando a voz — a Papisa prevê que seus… tratamentos… serão contínuos. Não procuro por um único carregamento, mas por um fornecimento estável. Uma fonte confiável.

    O monge ficou em silêncio por um longo momento, seus olhos analisando Elias. O ar no escritório ficou mais pesado.

    — Contínuo? — ele sussurrou finalmente. — Isso é… bastante específico.

    — A doença não tira folgas, Irmão Benedito. E a caridade muito menos — Elias retrucou, mantendo o olhar firme.

    O monge levantou-se e foi até uma janela, olhando para os jardins do mosteiro.

    — Existe um lugar… uma furna nos vales próximos a Nápoles. O ar é ruim, e a terra é amarela. Os camponeses locais a evitam. Dizem que é um lugar amaldiçoado, onde o hálito do demônio sopra da terra. — Ele virou-se para Elias. — Para nós, é apenas uma fenda vulcânica, rica em enxofre elemental. Os monges que lá vivem em um eremitério… coletam o mineral como parte de sua penitência.

    Elias sentiu um frio na espinha. O monge não estava apenas oferecendo enxofre; estava oferecendo acesso a um segredo.

    — E esse eremitério… estaria disposto a uma… doação regular? Em troca de esmolas para a ordem?

    — As esmolas sempre são bem-vindas — o Irmão Benedito concordou, seu sorriso voltando a aparecer. — E o abade do eremitério é um velho amigo. Ele vê a coleta do enxofre como um trabalho sem fim. Saber que serve a uma causa tão nobre… daria um novo propósito aos seus esforços. Posso arranjar que os barris sejam enviados para um porto discreto a cada três luas. Por um preço, é claro, que reflita a logística… e a discrição envolvida.

    O preço que o Irmão Benedito mencionou a seguir fez Elias estremecer por dentro, como se tivesse levado um golpe no estômago. O valor era não apenas alto, era exorbitante – suficiente para comprar uma pequena fazenda com escravos e ainda sobrar para uma carruagem nova.

    “Santo Deus,” ele pensou, sentindo as pernas amolecerem. “Francisco vai ter um troço quando vir essa conta. E eu, pobre diabo, serei o mensageiro a levar a notícia.”

    Por um instante, ele quase questionou o monge. Quase disse: “Irmão, isso é um assalto!” Mas engoliu seco. A verdade era que ele próprio não entendia por que Francisco insistia em quantidades tão grandes daquele pó amarelo e fedorento. O comerciante gordo fora vago, falando apenas em “necessidades do quilombo” e “projetos especiais”.

    — Irmão Benedito — ele começou, tentando disfarçar o aperto no peito —, é… um valor considerável para um mineral que, com todo respeito, ninguém quer.

    O monge sênior encarou Elias por sobre seus óculos de ferro.

    — O valor, meu filho, não está no mineral, mas no serviço — explicou, com paciência de quem já fizera essa explicação muitas vezes. — Coletar enxofre não é como colher uvas. É trabalho perigoso, em furnas onde o ar queima os pulmões. E enviar discretamente… bem, a discrição sempre tem seu preço.

    Enquanto isso, a milhares de léguas dali, no Mocambo do Tatu, Carlos suava sobre seus cadernos. Ele entendia muito bem aquele preço – na verdade, teria pago ainda mais se soubesse. Seu processo atual de obter enxofre era um pesadelo: aquecer pirita em fornos improvisados, um método lento e perigoso que mal produzia o suficiente para a pólvora negra que alimentava suas poucas espingardas.

    E seus planos iam muito além. As anotações em suas páginas falavam de pólvora sem fumaça – um salto tecnológico que exigiria toneladas de enxofre puro. Enquanto Elias via apenas um pó amarelo, Carlos via o poder de mudar o equilheiro de forças na colônia.

    — Entendo — disse Elias, finalmente, expirando lentamente. O cheiro de cera de abelha do escritório parecia ironicamente puro comparado ao fedor do enxofre que compraria. Ele se corrigiu rapidamente: — A Santa Papisa… tem seus projetos de caridade. — Ele pegou a bolsa de moedas, seu peso agora parecendo insignificante perto do risco que corria. “Quilombo… quase disse quilombo, seu idiota!”, pensou, sentindo um suor frio na nuca. — Muito bem, Irmão Benedito. Considero o acordo fechado.

    O monge acenou gravemente, sem parecer notar o quase deslize.

    — Que os projetos de caridade de Sua Santidade sejam abençoados. Os primeiros barris estarão no seu navio ao amanhecer.

    “Projetos de caridade… sim, com certeza,” pensou Elias, já imaginando a conversa difícil que teria com Francisco. “Porque se esse ‘projeto de caridade’ não valer a pena, é minha cabeça que vai rolar.”

    — Fechado — Elias disse, a palavra saindo mais como um suspiro de resignação do que de triunfo. Ele sentiu o gosto amargo da despesa na boca, mas forçou-se a acrescentar: — E… se no futuro for preciso aumentar a produção, pagaremos mais ainda, é claro.

    O Irmão Benedito inclinou a cabeça, um brilho de satisfação nos olhos enquanto suas mãos, finas e ossudas, acariciavam a bolsa de moedas sobre a mesa.

    — A caridade, meu filho, é um rio que deve correr sempre — respondeu o monge, sua voz suave como seda, mas com uma firmeza subjacente. — E nós, humildes servos, estamos aqui para garantir que seu leito nunca seque. Fique tranquilo… a discrição é parte de nossa devoção.

    O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo tilintar das moedas quando o monge guardou a bolsa em uma gaveta de madeira maciça. O som ecoou na sala austera como um ponto final na negociação.

    Uma hora depois, Elias deixava o mosteiro com a promessa de três barris iniciais e um acordo de fornecimento contínuo. Ele havia drenado uma parte significativa do capital de Francisco, mas a transação estava feita.

    Enquanto descia a colina, muito mais leve, ele olhou para o céu. “Francisco vai me matar quando vir o custo,” ele pensou. “Mas se o ‘Chefe’ Carlos precisa disso de forma contínua para seja lá o que for… bem, então que paguem o preço por sua vantagem secreta.”

    Agora, ele só precisava convencer Francisco de que valeria a pena. E, considerando os lucros dos tecidos, ele tinha seus argumentos.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota