93. Novos Rumos
Carlos saiu do barracão com um nó de sentimentos contraditórios no peito. A irritação por ter sido contrariado por Ganga Zala misturava-se a um alívio profundo e inesperado. A ideia de carregar o peso de uma sentença de morte na consciência o perturbava mais do que ele admitia. Agora, a responsabilidade por manter Nyran viva e sob controle não era mais dele, mas de Zala. Ele estava, de certa forma, livre daquela culpa.
Tassi caminhava ao seu lado, seu silêncio mais eloquente que qualquer palavra. Ele podia sentir a tensão emanando dela.
— Não acredito que deixaram ela viver! — a voz de Tassi irrompeu, carregada de uma raiva contida que parecia acumulada por anos. — O Rei de Daomé, onde servi antes, jamais teria hesitado! Nyran sabia muito bem as consequências de atacar o coração do quilombo. Já perdi muitas irmãs em batalha… perder uma traidora não seria uma grande perda.
Carlos observou o perfil dela à luz das tochas. Apesar da fúria nas palavras, havia uma ligeira suavidade ao redor de seus olhos, um quase imperceptível relaxamento nos ombros. Ela também estava aliviada, mesmo que se recusasse a admitir. Ele decidiu não confrontá-la sobre isso.
Tassi percebeu seu olhar analítico e tossiu levemente, desviando o rosto.
— Mudando de assunto… — começou ela, sua voz um pouco mais controlada. — Você é muito mais capaz, Carlos. Deveria ser o novo Ganga. Tenho certeza de que lideraria o quilombo melhor do que Zala. Metade dos chefes já pensa assim.
Carlos balançou a cabeça, um sorriso amargo nos lábios.
— Talvez. Mas se soubessem as mudanças radicais que eu implantaria, talvez reconsiderassem seu apoio.
Tassi se inclinou para a frente, intrigada, seus olhos refletindo a chama de uma tocha próxima.
— E que tipo de mudanças seriam essas?
— Para começar — Carlos explicou, gesticulando com as mãos enquanto andava, — não haveria mais ‘chefes de mocambo’ com seus próprios mini-reinados. O governo seria centralizado, com as mesmas leis e regras para todos. Todo mundo receberia pelo seu trabalho; ninguém mais trabalharia de graça por status. — Ele fez uma pausa dramática. — Se os atuais chefes quisessem manter sua influência, teriam que trabalhar para a ‘prefeitura’, provando seu valor com ações, não apenas com títulos herdados ou conquistados pela força.
Nesse momento, Sombra se materializou da escuridão alongada projetada por uma cabana, como se surgisse do próprio ar. Carlos deu um salto, mas Tassi nem sequer piscou.
— Posso garantir — disse Sombra, sua voz um sussurro grave que parecia vir de todas as direções, — que nenhum chefe se oporia a mudanças que, no fim, beneficiem o quilombo. Nenhum deles chegou aonde está sem mérito. Liderança não é um capricho aqui; é uma necessidade de sobrevivência.
Tassi concordou com um aceno.
— Imaginei. Com tantos ataques, só os líderes mais astutos e fortes sobrevivem para comandar. E, para ser justa, Ganga Zala não é incompetente. — Ela então voltou-se para Carlos. — Mas mantenho o que disse. Sua visão, Carlos, nos beneficiaria mais. Essas armas de fogo e a polvora que vocês está trazendo, por exemplo… revolucionaram a forma como lutamos. Sem falar nas lunetas armas mágicas.
— Nisso tenho que concordar. — Disse Sombra.
Carlos ficou visivelmente encabulado, corando levemente. Ele não esperava que alguém como Sombra, um homem de poucas palavras e ações sombrias, expressasse tal apoio.
— Tudo isso… só foi possível por causa da Papisa — ele respondeu, modesto. — Sua cooperação foi crucial. Estamos aqui porque ela decidiu nos ajudar.
Sombra inclinou a cabeça em assentimento.
— Tem razão. Mas isso não tira seu mérito, Chefe. A visão foi sua.
Carlos, ainda sem graça, decidiu mudar de assunto.
— Bem, o único problema prático agora é que a Nyran vai ficar sob minha custódia, no meu mocambo. Por causa da sua… história… com Tassi e os adeptos da gema amarela.
Sombra emitiu um som baixo que poderia ser um suspiro.
— O problema é maior para mim, que vou ter que vigiá-la pessoalmente — retrucou ele. — Em vez de estar com os outros prisioneiros de guerra nos trabalhos forçados, vou ficar vigiando uma traidora em seu mocambo.
Carlos parou abruptamente e olhou para Sombra.
— Espera… você é quem vigia meu mocambo? Já me vigiou antes?
Sombra balançou a cabeça negativamente, sua expressão impenetrável.
— Prefiro pensar que garanti a sua segurança e, por consequência, a segurança de todo o quilombo. — Ele fez uma pausa significativa. — Porém, sob novas ordens do Espectro, agora serei sua sombra constante. E você também, Tassi. Minha irmã, Sussurro, ficará responsável por você.
Carlos não gostou da sensação de ser observado o tempo todo, um frio percorrendo sua espinha. Mas, considerando o ataque recente, ele engoliu o desconforto. Em seguida, seu rosto se iluminou com uma curiosidade súbita.
— Sombra, como exatamente seu poder funciona? É teletransporte?
— Não conheço essa palavra… ‘teletransporte’ — respondeu Sombra, ponderando. — Basicamente, eu… pulo de uma sombra para outra. Desde que consiga vê-las.
— E qual é o alcance máximo? Quanta carga você pode levar? — perguntou Carlos, sua mente já trabalhando a todo vapor.
— Consigo pular para qualquer sombra no meu campo de visão. Mas quanto mais distante, mais desgastante é. E carregar peso, ou pessoas, multiplica essa dificuldade.
Carlos colocou a mão no queixo, seus olhos perdidos em cálculos mentais.
“Se ele não fosse um guarda-costas… que ativo logístico seria! Mas não, é melhor para as carroças. Preciso comprar mais cavalos… Mas para outras aplicações, certamente seria útil…”
— Existem outros adeptos da gema da escuridão? — ele perguntou, cheio de esperança. — Eles poderiam revolucionar nosso sistema de transporte!
Sombra balançou a cabeça negativamente.
— Todos os adeptos das gemas da escuridão, visão e do assassino trabalham diretamente para Espectro. São raros e sua função é a defesa do quilombo, não o transporte de mercadorias.
“Entendo”, pensou Carlos, um pouco desapontado. “Mas bem… quem sabe que outras gemas poderiam auxiliar na indústria? Preciso estudar máquinas, química… e agora gemas mágicas? Só de pensar na quantidade de trabalho, já me sinto sobrecarregado.”
A conversa fluiu por mais algum tempo até que chegaram à prefeitura. Tassi foi para casa descansar e Sombra se despediu para buscar os irmãos, que seriam levados à sala de Carlos.
Pouco depois, a porta do seu escritório se abriu. O menino, Silvestre, entrou primeiro. Seu corpo magro estava tenso, os punhos cerrados, e seus olhos, arregalados, varriam o ambiente em busca de perigos. Ele se postou de forma protetora à frente da irmã, Silvana, que se escondia atrás dele, apenas suas orelhinhas pretas de lobo e seus olhos brilhantes dourados e assustados eram visíveis.
Carlos já havia sido informado sobre o medo deles. Na mesa, ele preparara uma pequena armadilha de bondade: um prato com doces coloridos de frutas nativas, seu aroma doce contrastando com o cheiro de tinta e papel do ambiente. Além de claro sorvetes e chocolates.
— Boa tarde — cumprimentou Carlos, mantendo a voz baixa e calmante. Ele se abaixou para ficar na altura do menino. — Sei que estão com muito medo. E eu entendo. Vocês foram colocados numa situação impossível, sem muitas escolhas.
Silvestre apenas fixou nele um olhar desconfiado e cheio de rancor, seus lábios firmemente cerrados.
Carlos então olhou para Silvana, suas orelhas felpudas tremendo levemente.
“Mas que coisa mais fofa!”, pensou ele, uma vontade irresistível de acariciar aquelas orelhas surgindo em sua mente. “Foco, Carlos, foco. Isso é uma conversa importante.”
— Só quero que saibam — continuou ele, direcionando-se a ambos, — que aqui, vocês não precisam mais ter medo. Serão livres. Como são crianças, vão morar no orfanato. Terão comida, um lugar seguro para dormir e estudos. — Ele fez uma pausa, deixando a informação ser absorvida. — Mas, se quiserem trabalhar, tenho uma proposta. Algo que não envolve machucar ninguém.
“Será um trabalho de meio período… espero que não seja perigoso para crianças. Bem, pelo menos não intencionalmente perigoso…”
Silvana, ouvindo aquilo, deu um pequeno passo para o lado, saindo um pouco da proteção do irmão. Sua curiosidade parecia maior que seu medo. Ela olhou para Carlos, depois para os doces na mesa, e então de volta para ele, sua cauda com a ponta branca abanando lentamente, quase imperceptivelmente, atrás dela.
O menino, Silvestre, sentiu um nó de desconfiança começar a se desfazer em seu peito. A lógica cruel do mundo que ele conhecia dizia que nada era de graça. Ouvir que teriam que trabalhar, em vez de receber promessas vazias, paradoxalmente o acalmou. Era uma troca, algo que ele podia entender.
— Então… — ele começou, sua voz ainda um pouco áspera, mas já sem a hostilidade inicial. — O que o senhor precisa que a gente faça? Matar alguém? Espionar?
Carlos, percebendo a abertura, pegou um quadrado de chocolate escuro que estava em uma bandeja na mesa e deu uma mordida deliberada. O aroma doce e amargo encheu o ar entre eles. Silvana, ainda atrás do irmão, seguiu o movimento com os olhos fixos, seu narizinho farejando levemente. Um brilho de interesse intenso iluminou seu rosto, e suas orelhinhas de lobo se ergueram um pouco.
— Como eu já disse, não será nada perigoso — Carlos repetiu, engolindo o chocolate. — Aqui no meu mocambo, temos regras. E uma delas é que criança não faz trabalho pesado ou perigoso. — Ele se inclinou para a frente, como se compartilhasse um segredo. — O que eu preciso é simples. Quero que vocês usem seus dons. Voem sobre todo o quilombo e descreva tudo o que vir de importante. Depois de mapear o mocambo, precisamos fazer o mesmo com a Mata da Onça. Precisamos conhecer nosso território como a palma da nossa mão.
Silvestre relaxou visivelmente ao ouvir a proposta. Voar e observar? Isso ele podia fazer. Mas então um velho medo, familiar e afiado, apertou seu coração.
— Minha irmã… — ele disse, sua voz ficando defensiva novamente. — Ela não consegue se transformar num pássaro. Quando fizeram o ritual nela, para virar lobisomem… ela consumiu sangue demais da fera. Por causa disso, ela só vira o lobisomens e lobos. E… e ficou meio humana, meio monstro para sempre. — Ele cuspiu as próximas palavras com raiva: — Todo mundo diz que ela é uma aberração. Mas estão todos errados! A minha irmã continua a mesma por dentro!
Carlos não hesitou. Seu olhar foi direto para Silvana, que baixou a cabeça, como se esperasse outra repreensão.
— Concordo totalmente com você, Silvestre — disse Carlos, sua voz firme e sincera. — Sua irmã não é, de forma alguma, uma aberração. Na verdade, eu acho ela fofíssima do jeito que é!
Silvana deu uma olhada rápida e surpresa em Carlos antes de se encolher novamente, mas desta vez um leve rubor corou suas bochechas. Silvestre ficou simplesmente paralisado, sua mente tentando processar as palavras. Elogios? Para sua irmã? Isso era… inédito.
Cof! Cof!
Carlos bateu levemente no peito, fingindo se engasgar com o próprio chocolate para quebrar a tensão.
— Bom, porque não se sentam aqui? — ele sugeriu, puxando duas cadeiras pesadas de madeira para a mesa. — Vamos comer alguma coisa enquanto conversamos com mais calma.
Relutantemente, Silvestre se sentou na beirada da cadeira, mantendo a postura ereta. Silvana o imitou, escorregando para a cadeira ao lado. Seus olhos, no entanto, estavam presos às tentações sobre a mesa: não apenas o chocolate, mas também pequenas taças de sorvete cremoso que começavam a suar no ar quente do escritório. Apesar da atração, ambos mantinham um foco vigilante.
— Se… se ela não vai poder me ajudar com isso… — Silvestre falou, hesitante, — você não vai querer ficar com ela, é? Pois saiba que não vai nos separar! Onde eu for, ela vai!
Carlos balançou a cabeça com um sorriso paciente.
— Mesmo se vocês dois não tivessem nenhum dom mágico, ficariam juntos no orfanato que estou construindo. E os dois frequentariam a escola. O trabalho, que seria apenas no turno da tarde, é opcional. Como a Silvana não poderá ajudar nessa tarefa específica de mapeamento aéreo, ela estará livre. Isso significa que, por enquanto, apenas você, Silvestre, receberá um salário.
O rosto de Silvestre ficou sério novamente. O mundo tinha lhe ensinado que “salário” era sinônimo de “sobrevivência precária”.
— E quanto é esse salário? — ele perguntou, seu tom desafiador. — Aposto que não é suficiente para comprar comida pra nós dois e pagar um aluguel.
“Meu Deus”, pensou Carlos, seu coração apertando. “O que essa criança deve ter passado para que suas primeiras preocupações sejam aluguel e comida?”
— Não, escutem — ele explicou, suavemente. — Vocês não vão pagar nada pelo orfanato. A comida, o abrigo, as roupas, o material da escola… tudo isso será fornecido até que vocês sejam adultos. — Ele apontou para a mesa. — Mas coisas assim, como sorvetes e chocolates extras… isso sim, vocês terão que comprar com o salário. Por isso sugiro que aproveitem o que já está na frente de vocês. É por minha conta.
O alívio que tomou conta dos dois irmãos foi quase palpável. Uma tensão saiu de seus ombros magros. Silvana, finalmente, esticou a mão com curiosidade e pegou um quadrado de chocolate, cheirando-o antes de dar uma mordida cautelosa. Seus olhos se arregalaram, e um suspiro de prazer quase inaudível escapou de seus lábios. Silvestre, observando-a, pegou uma colher de sorvete. O sabor doce e frio na língua era uma sensação há muito esquecida.
“Me sinto até mal, usando doces para ‘comprar’ a cooperação de crianças”, refletiu Carlos, internamente. “Mas ter um mapa aéreo preciso desta região é uma vantagem estratégica imensa. Preciso saber cada pedaço deste território, cada rio, cada clareira… Falando nisso, também preciso comprar mapas dos comerciantes, verificar as cidades vizinhas e planejar rotas…”
Enquanto as duas crianças se deliciavam com os doces, perdendo um pouco da rigidez, Carlos viu uma oportunidade.
— Aqui no mocambo — ele começou, tentando soar casual, — temos alguns adeptos que usam gemas, e até conseguimos algumas gemas douradas como a de vocês de outros invasores. Mas não sabemos como usá-las direito. Vocês sabem me dizer como funcionam?
Silvestre terminou de engolir uma colherada de sorvete e apontou para a gema dourada incrustada em seu próprio peito, que brilhava suavemente.
— Para a gente se transformar — ele explicou, — a gema tem que estar grudada no corpo, bem aqui. Eles usam a magia da gema da cura na hora de colocar, senão a pessoa morre. — Ele fez uma careta. — Ouvi dizer que os antigos índios nem usavam cura… diziam que se você morresse, era porque não era digno da gema. — Ele encolheu os ombros. — Agora, sobre os desenhos que eles fazem nas gemas… a ordem certa das runas… isso eu não sei. Só o alquimista do Caetano sabia.
— Tá bom, sem problemas! — Carlos animou-se, anotando mentalmente as informações. — Só isso que você me contou já ajuda demais!
A conversa continuou, com Carlos tentando extrair mais informações, mas ficou claro que o conhecimento prático das crianças sobre as gemas se limitava à sua própria experiência traumática. Após um tempo, uma mulher de avental branco apareceu na porta.
— Estão prontos para conhecer sua nova casa? — ela perguntou, com um sorriso caloroso.
Carlos acenou para os irmãos.
— A Dona Iara vai levar vocês ao orfanato. Lembrem-se, vocês podem me visitar quando quiserem. E podem visitar a Nyran também, com supervisão.
Silvana olhou para Carlos rapidamente e deu um pequeno aceno, quase imperceptível.
Dona Iara levou os dois através do mocambo, até um prédio novo e simples, mas bem construído, com paredes de cimento e um telhado de telhas de argila. Era o Orfanato Sol Nascente. Dentro, o cheiro era de madeira limpa e sabão. O lugar era espaçoso. Um grande salão central com esteiras e almofadas coloridas para brincar dava para vários quartos menores. Cada quarto abrigava de quatro a seis camas de madeira rústica, cobertas com cobertores limpos. Havia um silêncio pacífico no lugar, quebrado apenas pelo canto dos pássaros do lado de fora. Eles foram levados a um quarto com duas camas lado a lado, perto de uma janela que deixava entrar o ar fresco da tarde.
Assim que a porta se fechou e ficaram sozinhos, Silvana correu para uma das camas, pegou o travesseiro macio e abraçou, enterrando o rosto nele.
— Eu gostei daquele moço… — ela sussurrou, sua voz abafada pelo tecido. — E ele disse que a gente pode visitar a tia Nyran… — Ela ergueu o rosto, uma sombra de preocupação passando por seus olhos amendoados. — Mas eu tenho medo da escola.
Silvestre sentou na cama ao lado dela, balançando as pernas que não alcançavam o chão.
— Não se preocupe — ele disse, com uma seriedade que era grande demais para sua idade. — Eu vou te proteger. Sempre. — Ele então deu uma leve risada. —…apesar de que, se precisar, é só você virar um lobisomem e assustar todo mundo. Aí ninguém mexe com a gente.
Ele olhou ao redor do quarto vazio, depois para o corredor silencioso. Havia outras camas vazias, esperando por outras crianças que, ele esperava, não tivessem histórias tão sombrias quanto a deles. O som de panelas baixando vindo de uma cozinha distante trouxe uma promessa de refeição quente. Pela primeira vez em muito, muito tempo, o futuro não parecia uma ameaça iminente, mas sim uma possibilidade um pouco menos assustadora. Mas não queria dizer que o pequeno coração dos dois não estava cheio de ansiedade.

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