Capítulo 98 - Uma Nova República Parte I
O barracão estava em silêncio absoluto. O peso da decisão que recém-fora tomada parecia ter esgotado até o ar que respiravam. Carlos sentiu o olhar de todos os chefes sobre si – Espectro, Jabari, Mohammed, Malik – e percebeu que o momento de assumir a liderança havia chegado. Com as pernas ainda um pouco trêmulas pela emoção contida, ele ergueu-se, apoiando as mãos na mesa de madeira áspera.
— Agradeço… agradeço profundamente a confiança de vocês — começou ele, sua voz saindo um pouco embargada no início, mas firmeando a cada palavra. — Mas antes que confirmem essa escolha, preciso ser claro: se me aceitarem como líder, saibam que não serei um Ganga. E vocês não serão mais chefes de mocambo como eram antes. Mudarei tudo. A estrutura, os títulos, a forma como governamos.
Espectro, imóvel em sua cadeira, foi o primeiro a responder. Sua voz ecoou com uma solenidade que cortou qualquer dúvida.
— Desde que você nos conduza à vitória, Carlos, não me importo com títulos ou estruturas. — Ele inclinou o torso para frente, seus olhos fixos no novo líder. — Não estou aqui para usufruir da riqueza do seu mocambo. Estou aqui porque conheci a chibata e o ferro quente. Fui escravo. E jurei que faria tudo para que nenhum homem, mulher ou criança precisasse passar por aquilo novamente. É pelo fim da escravidão que luto.
Um coro de assentimentos sérios e gestos de apoio veio dos outros chefes. Mohammed bateu o punho cerrado no peito, num gesto silencioso de lealdade. Jabari, o mais velho entre eles, acenou lentamente, seu rosto marcado pelas intempéries mostrava uma resignação confiante.
Carlos sentiu um calor de gratidão percorrer seu peito. Aqueles não eram homens que se rendiam facilmente; sua lealdade era conquistada com ações, não com palavras.
— Entendo… e sou grato a cada um de vocês. Podem confiar em mim. Conduzirei nossa gente à vitória! — prometeu ele, com uma convicção que não era apenas retórica. — No entanto, a noite já chegou, e decisões precipitadas são tão perigosas quanto a inação. Amanhã, ao nascer do sol, quero que todos se dirijam à prefeitura, no meu mocambo. Lá, anunciarei como será o nosso futuro.
A notícia da cisão espalhou-se como fogo em palha seca. Ao entardecer e pela noite adentro, um burburinho ansioso tomou conta de todos os mocambos. Sussurros em torno das fogueiras, discussões acaloradas nas portas das cabanas, olhares preocupados trocados entre famílias. A escolha era angustiante: partir com Ganga Zala em busca de uma paz incerta, ou ficar com Carlos e se preparar para uma guerra que parecia inevitável. O ar noturno, normalmente preenchido pelos cantos e histórias, agora carregava o peso silencioso da dúvida e do medo.
***
A luz da manhã entrava pelos altos janelões da sala de reuniões da prefeitura, iluminando a poeira que dançava no ar. Era a primeira vez que Carlos usava o cômodo para seu propósito original. Sentado à cabeceira de uma imensa mesa de madeira maciça, ele observava os rostos à sua volta. Estavam todos lá: seus ministros – Aqua, da Economia; Tassi, da Agricultura; Quixotina, da Educação; Fernanda, do Trabalho; e o recém-empossado Guaíra Mirim, da Construção Civil. Os chefes de mocambo – Espectro, Jabari, Mohammed e Malik – completavam o círculo de poder. Em pé, junto à parede, estavam Nia e Davi, ainda sem cargos formais, mas cuja presença era fundamental.
— Bom dia a todos — Carlos iniciou, suas mãos pousadas sobre a mesa. — Como já devem saber, Ganga Zala e vários outros chefes decidiram partir com seus seguidores. Com a saída deles, fui escolhido para liderar os que permanecem. E hoje, reunidos aqui, não vamos apenas discutir mudanças. Vamos fundar algo novo. Isto… — ele fez uma pausa dramática, olhando para cada rosto, — não será mais um quilombo. A partir de hoje, somos uma República. A República do Brasil!
A reação foi imediata. Espectro ergueu a mão, um gesto de interrupção respeitosa, mas firme.
— Com toda a licença, Presidente Carlos — disse ele, enfatizando o novo título com um tom que beirava o ceticismo. — Mas adotar o mesmo nome que Portugal usa para sua colônia não é um ato de independência; é uma declaração de guerra direta. Estaremos dizendo que todo o território é nosso por direito.
Tassi complementou, seu tom de voz era mais suave, mas sua preocupação, igualmente genuína.
— E quase ninguém aqui se identifica com esse nome, Carlos. “Brasil” é uma palavra que ouvimos dos capitães-do-mato e dos senhores de engenho. É o nome dos nossos opressores.
Carlos acenou, mostrando que havia considerado esses pontos.
— É exatamente por isso que precisamos resgatar esse nome! — ele argumentou, passionais. — Não podemos deixar que eles definam o que o Brasil é ou será. Temos que criar uma nova ideia, uma bandeira sob a qual todos possam se reunir. Brancos, negros, indígenas, mestiços… um Brasil para todos, não apenas para alguns. E sim, Espectro, isso significará guerra. Mas não seremos pegos desprevenidos. E para isso, as mudanças começam agora.
— Seus ordens serão cumpridas, Ganga! — respondeu Espectro, sua voz agora carregada de uma lealdade inquestionável.
— Primeiro: todo membro do nosso exército, do mais novo recruta ao veterano mais experiente, receberá um salário regular. Aqua, encarrego você de estruturar isso. — A Ministra da Economia anotou rapidamente em um pergaminho, seu rosto uma máscara de concentração. — Segundo, nosso exército será dividido em dois corpos, Espectro você ainda será o líder do exército, apenas vamos reestruturá-lo. O Corpo de Forças Regulares, ou CFR, será a espinha dorsal, responsável pelas armas de fogo. Espectro, você estará à frente de todo o exército. Para o CFR, seguiremos à risca o manual de treinamento e táticas que preparei. Conheço o potencial dessas armas melhor do que ninguém. E em breve… — ele olhou para Nia, — nossa Ministra da Indústria nos fornecerá equipamentos muito mais poderosos do que qualquer mosquete de pederneira.
— Ministra da o quê? — a voz de Nia cortou o ar como um estampido. Ela se ergueu, seus olhos cintilando de indignação. — Desde quando eu sou Ministra de coisa alguma?
— Desde agora, Nia — respondeu Carlos, mantendo a calma. — Estamos com uma carência crítica de mão de obra especializada. Você é a pessoa mais competente que temos para liderar nossa indústria. O cargo é seu.
— Eu gosto de sujar as mãos de graxa, de sentir o metal quente, de ouvir o rangido das engrenagens! — ela contestou, gesticulando com frustração. — Não de ficar trancada em um escritório, lidando com pilhas de papel e burocracias intermináveis! Pode esquecer!
Carlos manteve o olhar sereno.
— Tudo bem. Encontre alguém com metade da sua competência, que eu mesmo indicarei essa pessoa para o cargo. Até lá, a responsabilidade é sua.
Nia abriu a boca para outra réplica, mas o ar de absoluta seriedade de Carlos a fez hesitar. Ela olhou em volta, para os rostos sérios que a observavam, e lembrou-se da gravidade do momento. Com um resmungo abafado e um olhar que prometia uma conversa posterior, ela afundou de volta na sua cadeira, cruzando os braços com força.
— Como eu dizia — Carlos continuou, como se a interrupção não tivesse ocorrido, — o outro corpo será o Corpo de Forças Especializadas, o CFE. Espectro, você ficará encarregado do treinamento dele. Ninguém entende melhor as armas e as táticas deste mundo do que você.
— Será uma honra comandar os CFE, Ganga! — disse Espectro, batendo o punho no peito num gesto característico.
— E não, Espectro, eu não serei seu Ganga — Carlos corrigiu, suavemente. — Em uma república, o poder emana do povo. No meu mundo, o povo escolhia seus líderes através do voto. No momento, estamos em guerra, e não temos o luxo do tempo para eleições. Portanto, serei o Presidente, com plenos poderes, até que a situação se estabilize e possamos discutir um governo verdadeiramente representativo.
Quixotina, que até então observava tudo com interesse académico, não conseguiu conter um sussurro de incredulidade.
— Um mundo onde o povo vota no seu próprio rei… Que conceito extraordinário… e perigoso.
Carlos observou as expressões ao seu redor. Havia confusão em alguns rostos, admiração em outros, e uma ponta de esperança em quase todos.
“Não sei ao certo o que vocês estão imaginando”, pensou ele, “mas garanto que a realidade será diferente. Se isso é bom ou ruim, só o tempo dirá.”
— Davi — chamou Carlos, dirigindo-se ao aprendiz químico. — Assim que equiparmos uma parcela significativa do CFR com os novos fuzis, a demanda por produtos químicos vai disparar. Por isso, você será nosso Ministro da Indústria Química. Sua missão é garantir que nunca falte ácido para a produção de munição. Foque em treinar pessoal e expandir as fábricas conforme a necessidade.
Davi, surpreso com a nomeação, endireitou as costas de repente. Um sorriso de orgulho e responsabilidade iluminou seu rosto.
— Pode deixar, Chefe! Quero dizer, Presidente! Cuidarei de tudo! — sua empolgação diminuiu um pouco. — Mas… Presidente, é complicado ensinar conceitos tão complexos para pessoas que mal sabem ler e escrever. Já estamos com dificuldades para treinar os novatos.
— Eu sei, Davi. Sei perfeitamente — Carlos assentiu, sua voz carregada de compreensão. — No meu mundo, apenas pessoas com anos de estudo chegavam a postos como esse. Mas nossa realidade é outra. E assim que a notícia de que optamos pela luta se espalhar, sofreremos ataques. O inimigo não vai nos dar tempo para treinar “pessoal especializado”.
— Mas, Presidente… — tentou Davi, novamente.
— Não se preocupe, não vamos cruzar os braços — Carlos interrompeu, gentilmente, virando-se para Quixotina. — Quixotina, acelere a preparação e aplicação das provas. Envie os mais destacados diretamente para a indústria química. Lá, receberão bons salários. Separe também uma boa parcela dos aprovados para se tornarem professores. E para os professores mais notáveis… — ele olhou diretamente para ela, — prepararei materiais mais avançados. Precisamos formar professor do ensino médio e futuramente nossos próprios especialistas, e precisamos fazê-lo rápido.
Carlos tomou um longo gole de água de um copo de cerâmica, umedecendo a garganta seca antes de continuar.
— Também precisamos diversificar nossa economia. Se o fornecimento de ferro for cortado, não podemos depender apenas da venda do aço. Outros produtos, como açúcar, papel e tecidos, podem não dar o mesmo lucro, mas darão renda suficiente para mantermos nossas operações. E para isso, precisaremos de mais braços, mais mentes.
Finalmente, seu olhar percorreu os rostos dos chefes de mocambo – Malik, Mohammed, Espectro e Jabari.
— Chefes — disse ele, com um tom de urgência final, — preciso que espalhem a palavra entre seu povo. Todos que quiserem vir para cá, para o coração da república, terão trabalho e um lugar. Há muito a ser feito, e cada par de mãos é precioso. A hora de reconstruir, de forjar nossa nação, é agora.

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