Capítulo 105 - Causas da Explosão
O escritório de Carlos, que há menos de uma hora fervilhava com o debate sobre estatísticas e recursos humanos, agora estava mergulhado em um silêncio sepulcral. O cheiro ainda penetrava, um fantasma ácido e metálico que se infiltrava pelas frestas das janelas, lembrando a todos que o perigo não havia sido completamente dissipado.
Carlos estava de pé diante da janela, de costas para a sala, observando a coluna de fumaça branco-amarelada que ainda subia, mais fina agora, da zona industrial. Seus ombros, geralmente quadrados sob o peso da responsabilidade, pareciam um pouco curvados. Aqua e Fernanda haviam sido dispensadas com instruções breves — uma para liberar fundos de emergência para o hospital, outra para registrar o acidente como “incidente ocupacional grave”. A burocracia da tragédia já começava.
A porta abriu-se com um rangido suave. Davi, o Ministro da Indústria Química, entrou. O homem outrora entusiasta, cujos olhos brilhavam ao falar de “ciclos autocatalíticos”, parecia ter envelhecido dez anos em uma hora. Seu rosto estava pálido, as roupas manchadas de fuligem e um resíduo escuro não identificado. Ele cheirava a fumaça e a um suor ácido de medo. Em suas mãos, ele trazia dois objetos: um pequeno fragmento de vidro grosso, opaco e corroído, e um pedaço de madeira de barril com uma mancha irregular de queimado.
— Presidente — a voz de Davi saiu rouca, quase um sussurro. Ele não se atreveu a se sentar.
Carlos não se virou imediatamente. Ele continuou a olhar para a fumaça, como se pudesse ler nela as respostas.
— O Sombra me deu um relato preliminar — disse Carlos, sua voz era plana, controlada, mas com uma frieza subterrânea que fez Davi estremecer. — “Não foram inimigos. Foi erro humano.” Ele disse que quase duas pessoas morreram. Quero o relato completo.
Davi engoliu em seco. Colocou os objetos na mesa, como se fossem provas de um crime.
— Foi… foi um erro de manuseio, Presidente. Um erro estúpido. Uma falha de… de comunicação. Minha falha.
Ele começou a explicar, suas palavras saindo em um fluxo contrito e acelerado.
— O processo para hoje era simples: preparar uma solução de nitração usando álcool etílico como solvente. A Dona Marta, na bancada, estava seguindo a receita. Ela pediu o “álcool do barril vermelho” ao ajudante, o Raimundo. — Davi apontou para o pedaço de madeira com a mancha. — Havia dois tambores no pátio com marcas vermelhas. Um, o correto, com álcool, tem uma faixa de tinta vermelha pintada na tampa. O outro… — sua voz falhou por um segundo, — …o outro continha ácido sulfúrico concentrado. Um antigo, que sofreu um vazamento há semanas. O ácido queimou a madeira e a tinta da etiqueta original, deixando essa mancha de queimado avermelhada.
Carlos finalmente se virou. Seus olhos, normalmente cálidos ou determinados, estavam frios como o aço de seu conversor.
— Deixe-me ver se entendi. Você armazena um dos produtos químicos mais corrosivos que temos, ao lado de um solvente inflamável, e a única coisa que os distingue para um homem que não lê é… o tom de vermelho de uma mancha?
A pergunta não era uma pergunta. Era um golpe. Davi encolheu-se.
— Eu… eu havia dito ao Raimundo, quando o coloquei no transporte, para trazer sempre o “licor forte da marca vermelha”. Usei um jargão, pensei que fosse fácil… Ele confundiu. Achou que a mancha de queimado era a “marca”. O ácido sulfúrico concentrado, quando despejado sobre o nitrato em pó… — Davi pegou o fragmento de vidro. — A reação é instantânea e violenta. Gera calor extremo e vapores de óxidos de nitrogênio, que são tóxicos. O vidro do recipiente não aguentou o estresse térmico e químico. Estilhaçou. A nuvem…
— A nuvem que o Raimundo respirou e que está dissolvendo os pulmões dele agora — completou Carlos, cortando-o. — E que queimou o braço da Dona Marta. Sorte que o que consegui ferramentas de cura com a papisa, senão seriam duas vidas arruinadas. Potencialmente perdidas. No momento só temos a produção paralisada. Tudo porque você não conseguiu criar um sistema à prova de analfabetos.
Davi sentiu as pernas fraquejarem. A culpa era um peso físico.
— Eu sei. Eu sei, Presidente. Fui arrogante. Pensei que controlar a reação no reator era o difícil. Não prestei atenção no básico. No armazenamento, na identificação, na comunicação clara com a equipe. Eles são esforçados, mas o Raimundo cavou valas semana passada! A Dona Marta era cozinheira! Eles não têm o instinto para isso. Eu devia ter…
— Você devia ter treinado eles! — a voz de Carlos finalmente se elevou, não em um grito, mas em uma explosão contida de frustração e raiva. Ele bateu a palma da mão na mesa, fazendo os objetos pular. — Você devia ter criado códigos de cores que até um daltônico entendesse! Formas diferentes de tambor! Símbolos universais — uma caveira para tóxico, uma chama para inflamável — pintados em tamanho grande! Você devia ter feito simulações, protocolos de verificação em dupla! Em vez disso, você confiou na sorte e num jargão idiota! “Licor forte”!
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Davi parecia querer desaparecer no chão de concreto.
Carlos respirou fundo, fechando os olhos por um momento. Quando os abriu, a fúria havia dado lugar a uma exaustão profunda e a uma determinação ainda mais sombria.
— O estado deles? — perguntou, mais calmo.
— Graças as gemas da cura, os dois irão se recupearar…
Carlos assentiu lentamente, absorvendo o golpe.
— A partir deste momento — disse ele, cada palavra era um prego sendo cravado, — a fábrica química está interditada. Ninguém entra até que um comitão de segurança — composto por eu, você, pela Nia (para inspecionar os recipientes e estruturas), e pelo Espectro (para avaliar os procedimentos como se fossem um ataque) — elabore um novo regulamento. Um regulamento que assume que todo operário pode, em um dia de cansaço ou pressa, cometer o pior erro possível. O sistema deve prevenir isso.
— Sim, Presidente — murmurou Davi.
— Você, Davi — continuou Carlos, olhando-o nos olhos com uma intensidade que não permitia desvio, — permanece como Ministro.
Davi arfou, como se esperasse uma demissão imediata. Carlos ergueu a mão, silenciando qualquer protesto antes que começasse.
— Por três motivos. Primeiro, porque não existe neste mundo, ninguém que conheça esses processos químicos como você. Seu conhecimento é um tesouro que não podemos desperdiçar.
Ele fez uma pausa, deixando a afirmação assentar. Davi engoliu em seco.
— Segundo — a voz de Carlos baixou, tornando-se mais grave, — porque a culpa que você carrega agora, este peso aqui — ele bateu levemente no próprio peito, — será o único tutor, a única voz na sua cabeça que garantirá que isso nunca, nunca mais se repita. Você vai revisar cada procedimento pensando nela. Vai checar cada rótulo vendo a mancha daquele barril.
Davi baixou a cabeça, os ombros tremendo levemente.
— E terceiro… — Carlos respirou fundo, e pela primeira vez, sua expressão rígida cedeu um pouco, mostrando uma lasca de cansaço e autocrítica genuína. — Porque eu também tenho minha parte nisso. Eu fui apressado demais. Cego pelo progresso, pela necessidade. Deveria ter parado, sentado com você e desenvolvido manuais de procedimentos de segurança, guias de treinamento passo a passo, antes de sequer pensar em produção em escala. Faltou base. E por isso… eu lhe peço desculpas.
As palavras caíram no silêncio do escritório como pedras em um lago. Davi ergueu o rosto, seus olhos vermelhos e inchados arregalados de incredulidade. O Presidente estava se desculpando para ele?
— Mas saiba — continuou Carlos, sua voz recuperando um fio de firmeza, sem perder a gravidade, — que a sua culpa não desaparece. Eu falei, diversas vezes, para tomar cuidado, para ensinar bem os novatos. Avisos verbais eu dei. O que faltou foi a estrutura escrita, o sistema à prova de falhas que eu, com a experiência do meu mundo, deveria ter fornecido. A responsabilidade final pela operação diária era sua.
Ele se inclinou para frente sobre a mesa, suas mãos apoiadas na madeira.
— Sua primeira tarefa, portanto, não é na fábrica. É no hospital. Vá lá. Olhe nos olhos do Raimundo e da Dona Marta. Veja o preço do nosso erro. — A voz de Carlos ficou quase um sussurro áspero. — Depois, você vai para uma sala vazia, com papel e tinta. E vai escrever os novos protocolos. Cada regra, cada aviso, cada passo deverá ser escrito com o rosto deles na sua mente.
Carlos endireitou-se, assumindo novamente o tom de comando.
— Além disso, você os informará, pessoalmente, do seguinte: eles continuarão recebendo seus salários integrais pelos dias que ficarem afastados. Haverá um adicional, uma compensação pelo sofrimento e pelas sequelas. E, quando se recuperarem, serão livres para escolher. Se quiserem voltar para a fábrica, sob as novas e rígidas regras, terão a vaga garantida e treinamento redobrado. Se decidirem que nunca mais querem chegar perto de uma fábrica, terão emprego garantido em outro setor, de sua escolha, conforme suas aptidões. A República não abandona os seus, especialmente quando falhamos com eles.
Davi permaneceu parado por um longo momento, processando a sentença e a oportunidade que ela carregava. Não era um perdão. Era uma penitência. Uma segunda chance carregada do peso mais pesado do mundo: o peso de duas vidas quebradas.
— Entendido, Presidente — ele conseguiu dizer, a voz um fio de som. — Eu… eu vou fazer direito desta vez. Pelos eles. E por todos os outros.
— É isso que espero — Carlos assentiu, seu olhar ainda sério, mas sem a fúria inicial. — Agora vá. Comece pelo hospital. O resto virá depois.
Davi apenas acenou, incapaz de falar, seus olhos marejados.
Davi saiu, arrastando os pés, deixando para trás o cheiro do fracasso e os fragmentos do desastre sobre a mesa. Carlos permaneceu imóvel, observando a última fumaça se dissolver no céu da tarde. A República do Brasil não sangrava apenas nas fronteiras. Ela sangrava agora no coração de sua indústria, por um corte causado por suas próprias ferramentas mal-empunhadas. O progresso, ele percebeu com amargura, tinha um custo.

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