Índice de Capítulo

    O ar na sala de cirurgia da casa-grande era denso e adocicado, com o cheiro metálico do sangue se misturando ao de ervas medicinais fortes e à cera perfumada das velas. A luz do fim da tarde, filtrada por pesadas cortinas de veludo, pintava tudo com um tom âmbar e sujo.

    Baronesa Inês, um vulto de rendas e babados cor de vinho, inclinou-se sobre a cadeira de madeira maciça ao se inclinar, seu colar com uma gema escarlate balançou. Seus dedos finos, adornados por anéis, seguravam uma pinça de aço polido com delicadeza quase cirúrgica. Diante dela, uma mulher escravizada, os membros amarrados com correias de couro à estrutura da cadeira, tinha a boca forçadamente aberta por um brutal abridor de boca de ferro. Seus olhos, inchados de terror, seguiam cada movimento da senhora.

    Inês prendeu firmemente o que restava de um molar escurecido. A respiração ofegante da escravada, um sibilo úmido pela boca travada, enchia o silêncio da sala. Com um puxão seco e decidido, seguido de um estalido horrível e úmido, o último dente se soltou da gengiva.

    Um gemido profundo, rouco e cheio de agonia escapou da garganta da mulher. Seu corpo se contorceu contra as amarras, fazendo a cadeira ranger no assoalho de madeira nobre. Sangue vivo e fios de saliva espalhavam-se pelo seu queixo e pingavam no avental de couro amarrado ao seu pescoço.

    Inês ergueu a pinça, examinando o troféu à luz das velas. O sorriso que surgiu em seus lábios era estreito e satisfeito.

    — Com isso, você aprende a não mais sorrir para o retrato do meu marido, sua imundície — sussurrou ela, a voz doce como mel envenenado. Ela deixou a pinça cair em uma bandeja de metal com um tilintar alto e desagradável.

    Nesse momento, batidas firmes e rápidas ecoaram na porta de carvalho. Antes que ela pudesse responder, a porta se abriu. Seu intendente, um homem idoso de rosto impassível e trajes impecáveis, entrou. Seus olhos, pálidos e experientes, pousaram por menos de um segundo na cena – a escrava contorcida, o sangue, a baronesa em pé – sem registrar qualquer emoção. Aquele não era seu primeiro espetáculo.

    — Senhora Baronesa, é hora de partirmos para a reunião no Castelo Garcia — anunciou ele, com uma ligeira inclinação de cabeça.

    Inês ergueu as mãos, examinando os respingos carmesim nos dedos e nas rendas dos punhos. Ela as limpou meticulosamente em um pano de linho branco que o intendente lhe estendeu.

    — Já? — disse, com um tom de genuína surpresa. — O tempo realmente voa quando nos divertimos, não é? A carruagem está pronta?

    — Aguarda no pátio, sim, senhora — respondeu o homem, enquanto recolhia o pano sujo. — Enquanto a senhora se apronta, deseja que eu… cuide da bagunça? — Seu olhar pousou de relance na escrava, que agora soluçava baixo, a cabeça caída.

    A baronesa passou por ele, direto para a porta, e lançou um sorriso amplo e desarmante por cima do ombro.

    — Você é sempre tão confiável, Firmino.

    Ao sair, seu vestido rodopiou, esfregando-se nas ombreiras da porta. Ela percorreu um longo corredor escuro, onde retratos de ancestiais a observavam com severidade. Parou por um instante diante de um quadro de um homem jovem e de semblante austero, em uniforme militar.

    — Estou indo, meu amor — murmurou, o dedo tocando a moldura com uma suavidade que contrastava brutalmente com a cena que deixara para trás.

    O corredor desembocava em uma sala de estar ampla. Lá, seus dois filhos, meninos de talvez oito e dez anos, vestidos com roupas de veludo, se divertiam. Seu “brinquedo” era uma menina escravizada, encurralada perto da lareira apagada. Eles a cutucavam e batiam nela com pedaços de madeira fina, extraindo gritos contidos e choros a cada impacto.

    Assim que a viram, os meninos abandonaram a presa e correram em sua direção, seus rostos iluminados por sorrisos que pareciam cópias inocentes do dela.

    — Mãeeee! Vem brincar com a gente!

    Inês se ajoelhou, abrindo os braços, envolvendo-os em um abraço que cheirava a perfume caro e, sutilmente, a sangue e cinzas.

    — Ah, meus tesouros, hoje não posso — disse, afastando um caracol de cabelo do rosto do mais novo. — Tenho uma reunião muito importante com outras pessoas importantes. Mas podem voltar a brincar. Eu já vou.

    Os rostos deles se desfizeram em caretas de desapontamento.

    — Ahhh… — resmungaram em uníssono, arrastando os pés de volta em direção à menina, que se encolhera em um canto, esperando.

    A baronesa já se virava para sair quando parou. Sem se virar completamente, lançou a advertência no ar, com a voz ainda melosa:

    — Lembrem-se, meus amores… não podem estragar o brinquedo. Lembram o que aconteceu com os outros dois? Aqueles eram especiais, presentes do tio Garcia. E vocês os quebraram.

    Os meninos olharam um para o outro. O mais velho deu um cutucão mais fraco na menina com a ponta do pau.

    — Tá bom, mãe — disseram os dois, a voz carregada de uma resignação infantil e perversa.

    ***

    A viagem de carruagem foi longa e poeirenta. O crepúsculo já havia cedido lugar à noite quando as lanternas do veículo iluminaram os altos muros e a silhueta sólida do Castelo Garcia, também conhecido como Castelo da Torre. Não era uma fortaleza do Velho Mundo, mas uma construção robusta e imponente de pedra local, feita para impressionar e intimidar na colônia.

    Ao descer, Inês sentiu o ar mais frio da serra. Foi recebida sob o portal por um servo negro, vestido com libré. Seu nariz se contraiu quase imperceptivelmente, e seu olhar deslizou pelo homem como se ele fosse parte da mobília, um objeto desagradável, mas necessário.

    Foi conduzida através de salas frias de pedra até o salão principal. Lá, o cenário mudava drasticamente. Uma lareira enorme combatia o frio, lançando luzes dançantes sobre tapeçarias pesadas e sobre uma mesa de carvalho repleta de comida. Os aromas eram opulentos: carne assada com ervas, molhos ricos, pão fresco e o perfume adocicado de vinhos finos. Na mesa, apenas dois homens aguardavam.

    — Finalmente! A nossa dama principal chegou — anunciou o homem à cabeceira da mesa. Era Garcia, dono do castelo, de meia-idade, cabelos grisalhos cortados com precisão militar, olhos vivos e calculistas. Vestia um casaco rico, mas sem os exageros da baronesa.

    O outro homem, mais rechonchudo, com um monóculo preso ao olho e um ar de intelectual aborrecido, ergueu sua taça. — Agora a noite promete valer a pena. Saúde, Baronesa Inês.

    — Barão Peixoto — ela acenou com a cabeça, sentando-se. A fome da longa viagem a atacava. Serviu-se sem cerimônia de um pedaço suculento de lombo, ignorando por um momento os protocolos.

    — Baronesa, devo dizer — começou Garcia, enquanto um servo lhe enchia a taça —, que sua fama a precede. Os boatos na cidade falam que você eliminou dois dos seus… “serviçais de cor” apenas este mês. Estão começando a chamá-la de ‘Baronesa de Sangue’.

    Inês pegou um leque de madre-pérola que estava ao lado do prato e começou a abanar-se lentamente. Um sorriso jogou nos lábios.

    — Oh, Garcia, você sabe como são esses negros — disse, entre uma mordida delicada. — Têm um paladar simples, adoram comer terra. São tão burros que confundem terra com farinha e acabam intoxicados. Uma pena. — Ela fez uma pausa teatral, levando a taça de vinho aos lábios. — E sinto muito, Garcia, pela perda daqueles presentes seus. Meus meninos são… entusiasmados.

    Garcia soltou uma gargalhada boa, que ecoou no salão.

    — Ha ha ha! Acontece nas melhores famílias! Falando nisso, outro dia, enquanto buscava inspiração para uma nova pintura… coloquei um espécime sobre um formigueiro. Mel por todo o corpo, um enxame de abelhas próximo… a agonia dele foi… sublime. Capturou uma expressão facial única. Pena que o modelo não tenha resistido ao final da sessão. Frágil, muito frágil.

    O Barão Peixoto, o do monóculo, balançou a cabeça com desaprovação, limpando os lábios com o guardanapo.

    — Vocês dois são… indulgentes. Um senhor deve saber punir com precisão. A quantidade certa de chicotadas para corrigir, sem depreciar o valor do produto no mercado. Escrevi um capítulo inteiro sobre a economia dos castigos no meu último tratado.

    Inês cortou outro pedaço de carne, o sangue mal-passado tingindo o prato de porcelana.

    — Você e seus livros e experimentos sociais, Peixoto… — disse ela, com um tom entre o tédio e a diversão.

    A conversa fluiu por mais algum tempo entre fofocas da elite local, relatos de colheitas e trocas de olhares significativos. Garçons silenciosos repunham as taças e os pratos. Finalmente, Garcia colocou sua taça de vinho vazia sobre a mesa com um clique decidido. O som pareceu silenciar o ambiente.

    — Espero que tenham apreciado o jantar — disse ele, juntando as mãos sobre a mesa, seu rosto perdendo a expressão descontraída. — Porque agora precisamos falar do assunto que nos reuniu. As cartas de marca.

    Peixoto soltou um resmungo.

    — Humph! O governador não consegue lidar com uns quilombolas e agora quer que sejamos nós a resolver o problema dele. Como se já não bastasse ter perdido seis dos meus escravos no último ataque mal planejado que ele ordenou contra o tal Quilombo da Jabuticaba.

    A respiração de Inês se acelerou visivelmente. O colar de ouro com a enorme gema escarlate, repousando sobre seu decote, subia e descia.

    — Você só vê perdas, Peixoto! Aqueles escravos eram descartáveis. As cartas de marca… isso sim é a oportunidade! Podemos formar nosso próprio exército, atacar quando e onde quisermos. E os boatos… — ela inclinou-se para frente, os olhos brilhando com avareza à luz das velas —, dizem que esses fugitivos estão acumulando ouro. Muito ouro. Para comprar ferro, armas, coisas da Igreja… Imagine esse tesouro em nossas mãos. As joias que eu poderia encomendar de Lisboa…

    Garcia sorriu, um sorriso de conluio.

    — Esse é o espírito, Inês! Chamei vocês aqui exatamente por isso. Somos os três maiores senhores desta região. Sozinhos, somos fortes. Juntos? Seremos imparáveis. Mais poderosos até que o velho Albuquerque. E falando nele… ouvi dizer que já está reunindo homens para atacar o quilombo e pegar a recompensa para si.

    Peixoto ainda resistia, ajustando seu monóculo.

    — Acho que vocês estão sendo… casualmente otimistas. Meus contatos falam que o quilombo não tem só ouro. Têm máquinas. Produzem coisas. E tem mais… — ele baixou a voz, embora só estivessem eles três. — Vocês ouviram falar dos ataques? Nos pequenos engenhos ao redor da serra, próximos ao quilombo?

    Garcia deu uma risada abafada, desdenhosa.

    — Ha! Peixoto, você se preocupa com mosquitos enquanto há lobos à porta! Aqueles “senhores de engenho” eram novos-ricos, sem tradição, sem saber como se governa ou se defende uma terra. A minha família limpou esta região de índios e quilombolas por gerações. Lutei contra os holandeses! Sei como esmagar uma ameaça.

    Peixoto observou os dois, a convicção arrogante de Garcia e a ganância faiscante de Inês. Sentiu o peso da solidão em sua discordância. Estava em minoria, cercado pela lógica implacável da ambição. Um longo e profundo suspiro escapou de seus lábios, carregado de resignação e um pressentimento que ele não conseguia mais sustentar sozinho.

    — Tudo bem — disse ele, a voz mais contida, quase cansada. — Vou me juntar a vocês. Disponho dos meus homens e dos meus recursos.

    Ele fez uma pausa, ergueu o monóculo como se buscasse clareza em algo distante, mas apenas ajustou-o no olho, um gesto nervoso.

    — Mas, por uma questão de prudência que espero não ser só minha… devo alertá-los sobre algo. — Ele inclinou-se levemente para frente, abaixando o tom, forçando-os a prestar atenção. — Passei os últimos dias estudando mapas, traçando rotas, não só de comércio, mas dos ataques. Todos os engenhos tomados, cada um deles, não foram escolhidos ao acaso. Eles formam um caminho. Um caminho que se dirige para cá, para a nossa região. Convergem… — ele deixou a palavra pairar no ar úmido da sala — “…para as proximidades de Ouro Branco.”

    Inês abanava-se, observando a troca. Seus cachos castanhos dançavam com o movimento.

    — O que você está insinuando, Peixoto? Que um bando de negros fugidos quer tomar… a cidade de Ouro Branco? — Ela soltou uma risada cristalina e afetada, que ecoou pela sala. — Ha ha ha! Essa foi deliciosa!

    Garcia riu junto, batendo levemente na mesa.

    — Excelente! Obrigado por aliviar a tensão, Peixoto. Mas falando sério — seu rosto ficou sóbrio novamente —, agora que estamos de acordo, temos de nos preparar. Se não formos nós, serão outros. E ficaremos para trás.

    Peixoto olhou para os dois, para as faces ruborizadas pelo vinho e pela ganância, para a confiança absoluta que emanavam. Ele sentiu o peso de sua solidão naquela aliança. “Talvez sejam apenas boatos, exageros de gente simples assustada…” pensou, resignado. A lógica do poder e da ganância ao seu redor era uma maré muito forte para nadar contra.

    — Muito bem — disse ele, por fim, a voz contida. — Contem comigo e com os meus homens. Mas insisto… devemos enviar batedores primeiro. Saber com o que estamos lidando.

    Garcia ergueu a taça, que um servo imediatamente encheu.

    — Um voto de prudência, então! Mas também de ação! À nossa empreitada, e ao ouro do Quilombo da Jabuticaba!

    Inês ergueu sua taça, os olhos faiscando como a gema em seu peito. Peixoto ergueu a dele com relutância. O tilintar dos cristais naquela sala quente e cheia de sombras soou como um sino marcando o início de algo muito mais perigoso do que qualquer um deles, talvez exceto Peixoto, pudesse imaginar.

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