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    Nzambi arrastava os pés pelo caminho de terra batida que levava ao quartel-general do exército. O cheiro da pólvora ainda impregnava suas roupas e o suor seco formava uma camada salgada na pele. Cada músculo do seu corpo protestava, latejando com a fadiga profunda de dias de marcha e vigília. Mas, paradoxalmente, sua mente voava leve, efervescente.

    “Não é possível que a gente fez mais três ataques sem perder ninguém… nem um.” O pensamento era um mantra de incredulidade. “Feridos, sim, uns cortes, uma bala perdida… mas os médicos de campanha resolveram tudo a tempo. Dizem que o ‘soro antisséptico’ do Presidente não deixa infeccionar. Quem diria…”

    Ele passou por dois sentinelas postados na entrada do acampamento, que lhe reconheceram com um breve aceno. O ritual era familiar: ao retornar de uma missão, a primeira parada era no posto de registro. Um sargento, atrás de uma mesa sob uma lona, anotava seu nome, unidade, e o relatório verbal rápido: “Missão de reconhecimento e desestabilização no Engenho São Mateus concluída. Retorno sem baixas. Armas e munição contabilizadas.”

    Depois, a inspeção de armas. Ele entregou seu mosquete de pederneira ao armeiro, que com movimentos hábeis limparia e olearia cada peça. O cheiro acre do óleo de armas se misturava ao de chá que sempre fervia num cantinho. Em seguida, o depósito de qualquer equipamento especial ou butim — no caso dele, apenas um cantil vazio.

    Por fim, a parada na barraca do corpo médico para um check-up rápido. Um enfermeiro, com mãos surpreendentemente suaves, verificou seus reflexos, olhou nos olhos com uma pequena lanterna (um invento estranhíssimo e maravilhoso) e perguntou sobre dores. “Só o cansaço de sempre”, Nzambi respondeu. O ritual era meticuloso, quase monótono, mas trazia uma sensação estranha e nova: a de ser parte de uma máquina maior, que se importava se uma peça quebrava.

    Só então, com os procedimentos burocráticos do “Exército da República” cumpridos, foi liberado para descansar. Seu galpão era um barracão longo, com beliches de madeira rústica e cobertores grossos. O cheiro era de suor limpo, borra de café e madeira resinosa. Com um gemido de alívio que vinha dos ossos, Nzambi se deixou cair em seu beliche, o colchão de palha rangendo sob seu peso. O som abafado de conversas baixas, de roncos e do tilintar ocasional de metal ao longe formava uma sinfonia familiar.

    “Finalmente… silêncio, ou algo perto disso. Só preciso fechar os olhos…”

    — Nzambi! O general está te chamando. Imediatamente.

    A voz, firme e sem deixar margem para questionamento, veio da entrada do galpão. Era um cabo, postado ali como um espectro indesejado.

    Nzambi gemeu, enterrando o rosto no travesseiro áspero. “Mas que merda! Agora, justo agora que encostei a cabeça?”

    No entanto, o hábito da disciplina, mais forte que a exaustão, falou mais alto. Em menos de um minuto, ele estava de pé, vestindo os sapatos de campanha amarrados com força, ajustando o uniforme verde-oliva e passando uma mão rápida no rosto. Aprendera rápido: nesse exército, organização e prontidão não eram sugestões. Eram a lei. Um contraste gritante com a desordem caótica dos bandeirantes ou a avareza desleixada dos mercenários para quem já viu lutando.

    Ele atravessou o acampamento noturno à luz de lanternas a óleo, passando por barracas ordenadas, homens em vigília silenciosa e o som distante de uma seresta vinda de algum cantinho. O “escritório” do general era uma construção maior, de madeira e barro, com uma lâmpada a querosene (outra maravilha) brilhando na janela.

    Ao entrar, ele parou na frente da mesa, mantendo a postura ereta, as mãos para trás. O general, um homem de cabelos grisalhos cortados rente e um rosto marcado por cicatrizes antigas e decisões difíceis, estava imerso em uma pilha de papéis. Ele franziu a testa, esfregando os olhos.

    — Não acredito que, além de saber lutar, um general tem que virar escrivão… — murmurou para si mesmo, antes de tossir, limpando a garganta. Então, seus olhos, cansados mas penetrantes, se fixaram em Nzambi.

    — Senhor! O soldado Nzambi, presente, conforme solicitado! — anunciou Nzambi, mantendo o tom formal que era esperado.

    O general estudou-o por um segundo, como se conferindo uma lista mental. Então, sem dizer uma palavra, abaixou-se e pegou uma caixa de madeira simples debaixo de sua mesa. Colocou-a sobre os papéis, abriu a tampa e, de dentro, retirou um objeto que fez o coração de Nzambi dar um salto violento contra as costelas.

    Era a adaga. A lâmina curta e sinistra de um roxo profundo, quase negro, com a empunhadura escura, que parecia sugar a luz ao seu redor.

    — Me passaram ordens para devolver isso a você — disse o general, sua voz neutra, colocando a adaga com cuidado sobre a mesa, entre eles.

    Nzambi sentiu a boca secar. “Eles vão me devolver? Depois de tudo, depois de estudarem ela…” Uma onda de emoções conflitantes o atingiu. Alívio? Temor? Náusea? Ele engoliu seco.

    — Com permissão, senhor? — perguntou, a voz um pouco mais rouca que o normal.

    O general fez um gesto breve com a cabeça. Com movimentos lentos, quase reverenciais, Nzambi estendeu a mão e pegou a adaga. O metal estava frio, mas a madeira da empunhadura tinha um calor residual estranho, como o de um corpo vivo. Ele a segurou, sentindo o peso familiar, um peso que carregava memórias de dor.

    “Nenhuma felicidade vem com isso,” ele pensou, os olhos vidrados na gema opaca. “Só cicatrizes. Cicatrizes no corpo, cicatrizes na alma. Sofri horrores por causa dela. Mas… também escapei por causa dela. Foi a chave e a prisão.”

    Ele levantou os olhos e encontrou o olhar inquisitivo do general.

    — Mais alguma ordem, senhor?

    — Sim — respondeu o general, cruzando os braços. — Apesar de você estar alocado nas forças regulares de infantaria, e as regras serem claras sobre o porte de armas não regulamentares… você está autorizado, por ordem superior, a portar esta adaga. Já comuniquei seus superiores diretos. Ela é de sua responsabilidade.

    A mente de Nzambi disparou. “Ordem superior? O Presidente? Por quê? Eles descobriram como ela funciona? Será que… será que vão me usar? Me transformar num escravo de sangue de novo, uma ferramenta viva?” O pânico gelou seu estômago. “Calma. Respira. Ele só disse que eu posso ficar com ela. Nada sobre ‘usar’. Talvez… talvez ainda não tenham descoberto o segredo. Ou talvez, mesmo descobrindo, não queiram fazer o que os antigos donos faziam. Esse exército é diferente… não é?” Ele lutou contra o instinto de confessar tudo. “Melhor ficar quieto. Agradecer por não terem descoberto. E afinal, nas missões podemos levar facas. Ferro é caro. Talvez seja só isso… uma economia.”

    O general observou a expressão que se alterava no rosto de Nzambi — o susto inicial, a longa pausa, a luta interna visível nos olhos.

    — Está tudo bem, soldado? — perguntou, seu tom um pouco menos formal.

    Nzambi piscou, voltando a si. Endireitou os ombros.

    — Sim, senhor! Perdão. É que… este item tem um grande valor sentimental. Inesperado. Me deixou um pouco… paralisado.

    Ele não estava totalmente mentindo. O valor era o de um pesadelo íntimo.

    O general pareceu aceitar a explicação com um ligeiro aceno.

    — Muito bem. É só isso. Pode retornar ao seu descanso.

    — Senhor! — Nzambi fez uma saudação militar precisa, fechou a mão com mais força ao redor da adaga e saiu, sentindo o olhar do general em suas costas até a porta se fechar.

    Dentro do escritório, assim que os passos de Nzambi se afastaram, o general suspirou, olhando para a pilha de papéis com frustração.

    — Não entendo — murmurou, para a sala vazia. — O Presidente se apega a regras, procedimentos, papelada como uma trepadeira num muro… e então, do nada, manda quebrar uma regra de segurança básica por causa de uma faca amaldiçoada.

    — Talvez a regra maior seja entender as exceções — uma voz suave, quase um sussurro, emergiu da sombra no canto da sala, onde uma cortina grossa balançava levemente.

    Dali, materializou-se Sussurro. Ela se movia sem fazer ruído, sua presença mais sentida do que vista.

    — Pelo que a Sombra me contou — continuou ela, aproximando-se da mesa —, Carlos anda mais preocupado que uma galinha no meio da raposada. Ele acha que este mundo pode ser… diferente. Mais diferente do que ele imaginava, ele quer entender como ele e outras coisas vieram para esse mundo. E aquela adaga talvez, seja peças desse quebra-cabeça. Ele quer estudá-las, mas sem assustar a peça.

    O general bufou.

    — Se a preocupação é tanta, deveria fazer um interrogatório formal. Extrair a verdade. Mas não… o Presidente é mole. Crianças não podem trabalhar, fábricas têm mil regras, não se pode executar um traidor sem um julgamento de três instâncias… até Nyran, a tal traidora, ainda respira, e o Zala nem está mais aqui para defendê-la.

    Sussurro encostou-se na borda da mesa, seus olhos escuros refletindo a chama da lâmpada.

    — Dizem que ele vem de um mundo onde não há escravidão. Onde as pessoas, pelo menos no papel, são bem tratadas. E ele quer que nosso mundo seja como esse mundo ideal deveria ser. — Ela fez uma pausa, um sorriso quase imperceptível tocando seus lábios. — Quando meu irmão me explicou essa parte do ‘no papel’, não entendi. Mas vendo a montanha de papel que esse mocambo produz… acho que estou começando a captar a ideia.

    Ela olhou para o general, e sua expressão ficou séria.

    — Sabe, mesmo achando que ele é muito brando, às vezes… acho que gostaria de viver num mundo mais gentil. Antes, a gente lutava só para sobreviver mais um dia. Agora… parece que estamos lutando para construir algo. Algo melhor. É estranho.

    O general olhou para ela, e pela primeira vez na noite, seu rosto austero suavizou-se com um lampejo de algo que parecia admiração.

    — Gentileza não enche barriga nem ganha guerras — disse, mas a voz não tinha a aspereza de antes. — Mas… concordo sobre construir. E sobre as informações. Vamos obtê-las. Só precisamos de paciência. E de quebrar algumas regras não escritas. Eu fico com a papelada. Você…

    — Eu vou ficar de vigia — completou Sussurro, seu olhar voltando-se para a porta por onde Nzambi saíra. — Vou observar o garoto. Ele vai ficar de guarda naquele engenho que capturamos perto do rio, o São Mateus. É um posto tranquilo, bom para ele pensar… e para eu observar, uma hora ele deve usar aquela adaga, assim descobriremos como funciona, e caso ele não use fora do combate… Os senhores de engenho vão revidar, é questão de tempo. Só precisamos ficar atentos a tudo. E a todos.

    O general ergueu uma sobrancelha, um raro gesto de quase humor.

    — Então você será a vigia do vigia?

    Sussurro sorriu, de verdade desta vez, um brilho rápido e afiado em seus olhos.

    — Alguém tem que cuidar dos nossos segredos, general. Até mesmo dos segredos que eles mesmos não conhecem direito.

    E, como havia surgido, ela deslizou de volta para as sombras, deixando o general sozinho com seus papéis e a nova, complexa camada de intriga que se instalava sobre o acampamento adormecido.

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