Índice de Capítulo

    Ela ficou imóvel, os olhos arregalados.

    — Isso… é para mim?

    Carlos apenas acenou, os olhos fixos nela. Com dedos que tremiam ligeiramente, Tassi começou a desfazer o laço, com um cuidado quase reverencial. A fita cedeu, mas o nó do papel era teimoso.

    — Aqui, deixa — disse Carlos, sua impaciência prática vencendo o momento. Ele pegou a caixa e, com um movimento rápido, rasgou o papel.

    — Carlos! — ela exclamou, escandalizada. — Papel é caríssimo!

    — Por enquanto — ele retrucou, sem remorso. — Em breve, nossa fábrica de papel estará funcionando. Agora abre!

    Com um misto de exasperação e excitação, Tassi levantou a tampa da caixa de madeira simples. Lá dentro, repousando sobre um pano macio, estava um revólver. Não era uma arma bruta, mas um objeto de cuidado artesanal. A coronha de madeira estava polida e pintada de branco, e nela, em letras negras e elegantes, lia-se uma frase:

    “Dà nú wéma, jí ɖò hànjiji.”

    No começo Tassi estranhou completamente essa escrita, mas ao ler o som das palavras trouxeram significado. Tassi levou a mão à boca. Era Fon. Sua língua materna, a língua dos cantos de sua mãe, que ela nunca nem viu a escrita.

    — Isso é… Fon — sussurrou, os dedos pairando sobre as letras, sem tocá-las. — Nunca… nunca vi escrito. “Mesmo enterrada, a semente germina.”

    A tradução saiu em um sopro carregado de emoção. O significado abateu-se sobre ela com o peso de uma verdade ancestral. Ela, a escrava enterrada na escuridão do engenho. Ela, a semente que, mesmo na mais profunda opressão, guardava a vida. E que germinara aqui, neste solo livre, deixando de ser apenas uma guerreira, uma escrava e virando Tassi, uma mulher alegre que gosta de comer, jogar bola, e tem um papel importante na República. A frase também podia se referir aos seus poderes de terra e grama, Tassi não conseguiria pensar em uma frase mais perfeita que ela. Os olhos encheram-se de lágrimas que ela lutou para conter.

    — Como… como conseguiu isso? — a voz saiu rouca.

    — Pedi ajuda à Nyran — Carlos admitiu, sua expressão ficando cautelosa ao ver a reação dela. — Ela me ajudou a pensar na frase e a traduzi-la corretamente.

    — Nyran? — o nome saiu como um estalo. — Aquela que tentou te matar?

    — A mesma Nyran que te conhece desde antes do quilombo — corrigiu ele suavemente. — Não fui sozinho, Tassi. Havia guardas. E ela… ela anda colaborando. Parece genuína.

    Tassi balançou a cabeça, as lágrimas ameaçando finalmente transbordar.

    — A pessoa que mais me conhece neste lugar… é você, Carlos. Não é o Pedro, não é a Tia Vera, nem mesmo Nyran. É você. Quem eu sou agora foi forjado ao seu lado.

    — Mas ela conhece a semente — insistiu Carlos, gentilmente. — Conhece a terra de onde você brotou.

    — A terra de onde brotei está morta. Foi arada pelo sofrimento. A semente que germinou aqui… essa é minha. E foi você quem regou. Obrigada.

    Carlos sorriu, comovido, mas havia um brilho de entusiasmo em seus olhos.

    — Ainda não te mostrei a melhor parte.

    — Melhor parte? — ela perguntou, limpando os olhos com as costas da mão.

    — Muito melhor! — Ele pegou dois pequenos sacos de couro que estavam dentro da caixa, um preto e outro branco. — Lembra quando você me defendeu no ataque, lançando atirando de dentro da terra? Aquilo me deu uma ideia. Passei semanas trocando cartas com a Papisa, esboçando com a Nia, enlouquecendo o artesão mágico da Cidade Sagrada… até que conseguimos.

    Colocou o saco preto na mesa.

    — Estas são balas especiais, feitas de gema da terra. Quando disparadas com o seu poder ativo, ao atingirem o solo ou uma superfície dura… — ele fez um gesto explosivo com as mãos — …fragmentam-se numa chuva de estilhaços de pedra e terra. Ideal para ataque em área.

    Pegou então o saco branco.

    — Estas aqui são o oposto. Durante o trajeto, se você canalizar sua magia nelas, quando a bala sai do cano, ela acumula terra e rocha do ambiente. Quanto mais longe, maior fica. Pode chegar ao tamanho de uma melancia a duzentos metros, sem perder velocidade inicial. E se for disparada debaixo da terra… — ele fez um gesto perfurante — …fica maior ainda. Perfura quase qualquer coisa.

    Tassi ficou absolutamente paralisada. Não pela função tática da arma, mas pelo que ela representava. Alguém não apenas a via como guerreira, mas pensava, planejava, inovava para ela. Alguém dedicara tempo, recursos e gênio para criar algo que fundia o poder de seu mundo ao dela. Nunca, em toda a sua vida — nem na infância roubada, nem na escravidão brutais, nem na dura camaradagem do exército — alguém tinha sido tão intencionalmente, profundamente bom com ela.

    A máscara da guerreira desintegrou-se. O queixo tremeu. A respiração ficou entrecortada. E então, as lágrimas que ela tanto contivera rolaram em silêncio, depois acompanhadas por soluços abafados que a sacudiam toda.

    Carlos ficou petrificado sem saber o que fazer” Mas antes que o pânico se instalasse por completo, o instinto falou mais alto. Ele se levantou, contornou a mesa e, sem cerimônia, puxou a cadeira dela para trás e a envolveu em um abraço.

    Tassi não recuou. Enterrou o rosto no ombro dele, os dedos ainda agarrados à caixa de madeira sobre a mesa, e chorou. Chorou pela menina perdida, pela mulher ferida, pela guerreira cansada. Chorou de gratidão, de alívio, de uma emoção colossal que não tinha nome. O abraço não a fez parar; pelo contrário, deu permissão para que a inundação viesse. E, estranhamente, ela sentiu-se mais forte do que nunca.

    — Preciso testar — ela declarou, sua voz firme, ao mesmo tempo que se separava do abraço e enxugava as lágrimas.

    — Concordo — disse Carlos, surpreendendo-a. — Mas não aqui. O som de um tiro, mesmo silenciado, viaja. E os efeitos secundários… melhor não arriscar um telhado perfurado ou um canteiro vaporizado. Conheço um lugar.

    Vinte minutos depois, eles deixavam os últimos lampiões do povoado para trás, mergulhando em uma trilha estreita na mata fechada. Carlos levava uma lanterna de gema de luz forte, cujo feixe cortava a escuridão como um punhal, revelando raízes retorcidas e olhos brilhantes de animais noturnos que fugiam. Tassi seguia com passos silenciosos, o revólver já carregado e seguro em sua coldre novo, a caixa com as munições especiais sob seu braço.

    O ar era diferente aqui — mais pesado, úmido, carregado do cheiro de folhas apodrecidas, terra molhada e a vitalidade selvagem da floresta que cercava e protegia o quilombo. Sons estranhos ecoavam: o grasnar de um gambá, o farfalhar de algo pesado na copa das árvores, o grito distante de um gavião noturno.

    — É seguro andarmos sozinhos à noite? — perguntou Tassi, mais por ritual do que por medo.

    — Mais seguro do que testar uma arma que pode arrancar uma árvore pela raiz no meio da praça principal — Carlos respondeu, afastando um galho para ela passar. — Além disso, tenho certeza que Sombra está em algum lugar me espionando.

    Tassi se acostumou tanto com a presença de Sombra que agora mal lembrava que ele estava sempre lá perto de Carlos, mas ao lembrar dele consegui senti-lo. “Coitado, está fazendo hora extra por conta de mim… ou não, afinal tem que garantir a segurança de Carlos mesmo quando ele dorme.”

    Após quase meia hora de caminhada, a trilha desembocou em uma clareira natural. Era um antigo leito de rio, seco na maior parte do ano, cercado por paredões de pedra cobertos de samambaias. O chão era de cascalho fino e areia, e a lua cheia, agora visível entre as copas abertas, banhava tudo em uma luz prateada e fantasmagórica.

    — Aqui — anunciou Carlos, apagando a lanterna, ou melhor dizendo, tampando a luz da lanterna, era uma engenhoca que ele fez para o exército, quando queria apagar a luz apenas se fechava a tampa de madeira que ficava na ponta da lanterna. Ele apagou a luz pois a luz lunar era suficiente. — Os paredões de pedra abafam o som e contêm qualquer… excesso de entusiasmo.

    Tassi pisou na areia fofa, sentindo sua conexão com a terra se amplificar imediatamente neste lugar aberto e virgem. Ela respirou fundo, enchendo os pulmões com o ar noturno.

    — É perfeito — disse, e pela primeira vez naquela noite, seu sorriso foi de pura antecipação guerreira.

    Ela assumiu sua postura, os pés firmes na areia, sentindo as correntes de energia do solo subirem por suas pernas. O revólver, quando desembainhado, pareceu captar a luz da lua.

    O primeiro disparo, uma bala comum, foi um puff surdo que mal perturbou o silêncio da clareira. O recuo foi suave, o impacto na rocha-alvo a trinta passos, satisfatório.

    — Preciso. Confiável — ela avaliou, voz profissional.

    Em seguida, a bala marrom do saco preto. Ela canalizou seu poder, e uma aura sutil de energia terrosa envolveu sua mão. O disparo foi um pouco mais alto, um CRACK abafado. O projétil atingiu a base do paredão. Em vez de um simples impacto, houve uma explosão contida — uma cratera do tamanho de uma cabaça se abriu na rocha, lançando uma chuva de pedriscos e poeira com força suficiente para zunir no ar a metros de distância.

    Agora, a bala marrom do saco branco. O alvo era uma rocha solitária no centro da clareira, a quase cinquenta metros. Tassi fechou os olhos por um segundo, sintonizando-se não apenas com a terra sob seus pés, mas com a própria matéria do local. Ao disparar, ela manteve o fluxo mágico, um fio contínuo de intensão.

    O projétil começou a voar. Em seu rastro, partículas de areia do leito do rio se levantaram como ferro em um campo magnético, grudando-se ao projétil. Pedriscos seguiram, depois pedras maiores. Em menos de um segundo, o que saíra do cano como um pequeno chumbo transformara-se em uma bola de pedra irregular e rugosa, do tamanho de uma laranja.

    O impacto foi monumental. Um BAF! profundo e gutural, como um trovão subterrâneo, ecoou contra os paredões. A rocha-alvo não rachou — desintegrou-se em uma nuvem de poeira e estilhaços que choveu por toda a clareira. O chão tremeu sob seus pés.

    O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até os insetos pararam de cantar.

    Tassi baixou a arma lentamente, ofegante. A concentração extrema e a descarga de poder a deixaram levemente tonta. Seus olhos, arregalados, encontraram os de Carlos na penumbra. Nele, ela viu o mesmo temor reverente e a mesma maravilha perante a força que haviam desencadeado.

    — Funciona — ela disse, a voz um pouco rouca da emoção contida.

    E então, a reação veio. A adrenalina começou a baixar, e no seu lugar subiu algo mais profundo. Não era mais a emoção pelo símbolo, mas pelo poder. Um poder que era dela, mas que ele havia moldado, canalizado e entregue em suas mãos. A vertigem foi tanta que suas pernas fraquejaram. Ela encostou-se contra uma pedra grande, a respiração entrecortada.

    Carlos aproximou-se, sem falar. Viu lágrimas, porém sabia que não eram lágrimas de tristeza, mas de uma sobrecarga colossal — de identidade, de força, de futuro. Ele a puxou para um abraço, firme e seguro, ancorando-a enquanto a onda a atravessava.

    Desta vez, ela não chorou pelo passado. Chorou pelo futuro que agora podia moldar, e pelo homem que, ao invés de temer seu poder, o havia forjado em metal e madeira para ela.

    ***

    Depois de ficarem mais um pouco na mata, ambos se despediram e partiram para suas casas.

    Quando Tassi se separou de Carlos, ainda com os olhos vermelhos, mas com um sorriso tímido e a caixa preciosa abraçada ao peito, Carlos parou um pouco e fcou observando sua silhueta ser engolida pela noite.

    Foi então que a realização o atingiu como um tijolo.

    “Peraí. Jantar a sós, à noite, à luz de gemas. Comida especial de ‘outro mundo’. Vinho. Presente pessoal e profundamente significativo… Caramba. Isso não foi um jantar entre amigos. No meu século, isso seria um encontro. Um encontro super romântico!”

    Esfregou o rosto com as mãos, um calor subindo-lhe pelo pescoço.

    “Mas ela não deve ter interpretado assim. Certamente não. Ela veio de um contexto completamente diferente. Provavelmente viu apenas como uma… grande demonstração de amizade e gratidão. Sim. É isso. Estou projetando. Pensando demais, como sempre.”

    Ele voltou a casa, tentando ignorar o turbilhão confuso no peito, e começou a lavar a louça, o som da água corrente abafando o rumor de seus pensamentos.

    No caminho de volta para seu apartamento, Tassi sentia as pernas bambas, mas não de fraqueza. Uma calor estranho e agradável irradiava de seu peito, como se uma pequena gema do sol tivesse sido plantada dentro dele. Ao passar por um canteiro, o cheiro noturno das flores a envolveu de uma maneira que nunca havia percebido antes. Sua mente revivia cada instante: o sabor da lasanha, o brilho nas taças, o peso do revólver em suas mãos, a força do abraço.

    Havia uma agitação doce em seu estômago, uma espécie de voo de borboletas que ela nunca experimentara. Era confusa, era assustadora, era… maravilhosa. A frase na coronha parecia pulsar contra seu braço, através da caixa de madeira.

    “Mesmo enterrada, a semente germina.”

    E, naquele momento, Tassi sentiu que algo novo, tenro e cheio de vida, havia de fato brotado dentro dela. E ela não tinha a menor ideia do que era, apenas sabia que estava ligado ao homem que, com um jantar e um presente, lhe mostrou que sua própria história podia ser escrita — e não apenas lembrada.

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