Índice de Capítulo

    O último eco dos berrantes ainda se arrastava pelas colinas, mas agora era um lamento fraco sob o estrondo de uma nova realidade. O som que dominava tudo era um rumor crescendo, vindo das encostas: o tropel pesado e desordenado de centenas de botas, o estalido seco e brutal de galhos sendo pisados e quebrados, e, mais alto que tudo, os gritos guturais, quase animais, dos bandeirantes descendo em direção ao vale. O ar da madrugada, que minutos antes cheirava a orvalho fresco e terra úmida, agora trazia uma mistura sufocante: o pó levantado pela correria, o cheiro metálico e gelado do medo, e uma nota distante de fumaça.

    Pedro e Nzambi irromperam na clareira do ponto de encontro ofegantes, as roupas rasgadas por espinhos, o rosto sujo de fuligem e suor. A cena que encontraram era de um alívio frágil e desesperado. Cerca de trinta pessoas se amontoavam numa clareira. Eram vigias sobreviventes, alguns com braços atados em tiras de pano ensopadas de sangue, outros com o olhar vazio e perdido, todos com os rostos marcados pela fuligem das fogueiras apagadas à força e pelos olhos arregalados pela adrenalina.

    Um silêncio tenso pairou por um segundo quando Pedro apareceu. Então, um cabo de uniforme rasgado, um homem chamado Arlindo com uma queimadura recente no braço, separou-se do grupo. Sua voz saiu rouca, mas carregada de uma necessidade urgente de comando.

    — Pedro! Obrigado a Deus que você está vivo! — Ele engoliu em seco, os olhos piscando rapidamente. — O Alferes Matias… o tenente que comandava a fronteira… a flecha dele. A flecha do diabo o pegou quando ele tentava coordenar a retirada da guarnição central. Foi rápido. Ele não…

    Arlindo não precisou terminar. O peso da notícia caiu sobre a clareira como uma pedra. Pedro sentiu um vácuo gelado se abrir no estômago. Matias era experiente, cauteloso. Se ele tinha caído…

    O cabo continuou, sua voz ganhando um tom de súplica. — Você é o cabo mais antigo aqui, Pedro. O mais experiente. E todos… — ele fez um gesto amplo, abrangendo os rostos exaustos que agora se voltavam para eles, homens e mulheres, soldados regulares e alguns poucos especiais. — Todos aqui sabem do que você é capaz. Com a magia do gelo, com a cabeça fria. Precisamos de ordens. Por favor, assuma o comando.

    Pedro varreu o grupo com o olhar. Não viu desafio nos rostos, apenas um assentimento silencioso e profundo, uma rendição à necessidade brutal do momento. Viram nele não apenas um cabo, mas esperança, o adepto mais poderoso naquele pedaço de mata condenada. A responsabilidade assentou-se em seus ombros com um peso físico.

    Ele respirou fundo, enchendo os pulmões do ar carregado de pânico, tentando achar um centro de calma.

    — Tudo bem, Arlindo. — Sua voz saiu mais firme do que ele esperava. — Primeiro: qual é a situação concreta? O que sabemos?

    O cabo Arlindo fechou os olhos por um instante, organizando o horror em fatos.

    — Três das cinco guarnições foram invadidas antes que conseguissem dar um tiro de volta. Não foi um ataque, foi um… um abate. Os bandeirantes não estão perguntando, não estão capturando. Estão eliminando qualquer um que encontram. É uma operação de limpeza, Pedro.

    Um murmurinho de terror percorreu o grupo. Pedro ergueu a mão, impondo silêncio.

    — Entendido. — Ele estufou o peito, projetando a voz para que todos na beira do riacho pudessem ouvir. — Escutem todos! A Sussurro já partiu. Neste exato momento, ela está a caminho do Quartel-General, buscando reforços. A ajuda vai chegar! Até lá, nossa missão é uma só: sobreviver. Vamos realizar uma retirada estratégica, ordenada. Não é covardia, é inteligência. Nós não fomos preparados para conter uma invasão em larga escala como esta; nossa função era lidar com grupos pequenos, não com uma milícia organizada. Mas juro a vocês: cada palmo de terra que estamos recuando hoje, vamos retomar amanhã, com juros!

    Ele viu a mensagem atingir. Alguns rostos se aliviaram momentaneamente, os ombros que estavam curvados pela fuga se endireitaram um pouco. Havia um plano. Havia esperança. A sensação de pânico cego deu lugar a um medo agudo, mas administrável.

    A sensação durou menos de dez segundos.

    Um som começou baixo, como um trovão distante, mas rapidamente se transformou em um rugido profundo e gutural que parecia vir das próprias entranhas da colina mais próxima. Todos os olhos se viraram para o leste. No topo da elevação, contra o céu que começava a clarear, uma massa enorme e irregular se soltou. Era uma pedra, mas do tamanho de uma casa pequena, desalojada por alguma força brutal. Ela rolou, ganhando velocidade, saltando e esmagando árvores menores como gravetos, e seu curso mortal era inequívoco: direto para o centro da aglomerada clareira.

    O grito de alerta morreu na garganta de muitos. Não havia tempo.

    — BAIXEM! — uma voz feminina gritou, não de pânico, mas de comando.

    Foi então que Pedro notou um grupo à parte, perto da margem do riacho. Cinco mulheres, vestidas com uniformes verdes-escuros do Corpo de Forças Especializadas, já estavam em posição. No centro delas, segurando um cajado de madeira escura com ambas as mãos, estava a Cabo Tainá. Seus olhos estavam fechados, seus pés firmes na terra molhada.

    — AGORA! — Tainá ordenou.

    As cinco mulheres, em perfeita sincronia, ergueram seus cajados e os cravaram no solo com um golpe seco e poderoso.

    TOOM.

    O impacto não foi apenas físico. Uma onda de energia terrosa, quase visível como uma distorção no ar, irradiou delas. A terra sob os pés de todos tremeu e, com um rugido profundo, ergueu-se. Não foi um movimento brusco, mas fluido, como se o solo fosse uma massa sendo puxada para cima por mãos gigantes. Uma parede curva e espessa de terra, pedra e raízes irrompeu do chão, formando um domo protetor sobre toda a clareira no exato momento em que a pedra colossal atingia.

    O impacto foi ensurdecedor.

    CRAAAAAAAAAC!

    A pedra desintegrou-se contra a barreira em uma explosão de fragmentos pontiagudos e poeira. O domo de terra tremeu, rachaduras finas surgindo em sua superfície, mas manteve-se firme. Uma chuva de cascalho e terra fina caiu sobre os abrigados, misturando-se à poeira da rocha destruída. O ar dentro do domo ficou instantaneamente espesso, difícil de respirar, cheio do cheiro acre de terra revirada e pó de pedra.

    Pedro, tossindo, correu em direção a Tainá. As cinco mulheres mantinham suas posições, os músculos tensionados, suor escorrendo de suas têmporas. A gema da terra incrustada na ponta do cajado de Tainá pulsava com uma luz marrom opaca.

    — Tainá! Por todos os espíritos, que bom que você e sua equipe estão inteiras! — disse Pedro, a voz abafada pelo eco abafado dentro do domo.

    Tainá não abriu os olhos. A concentração em seu rosto era absoluta.

    — Minha equipe toda é composta por adeptas da terra — ela falou, as palavras saindo entre dentes cerrados. — Graças aos treinamentos e até mesmo o estudo na escola e a teoria de Carlos e Tassi, evoluímos. Aprendemos que a terra não é só um pedaço de chão. É um corpo vivo, conectado. Aprendemos a… a escutá-la. A sentir as vibrações, o peso sobre ela. Por isso sentimos o ataque vindo. Sentimos os passos na colina antes da pedra rolar. E essa barreira… — ela fez uma pausa, respirando fundo, e o domo pareceu solidificar-se um pouco mais. — …é densa. Compactamos cada partícula. Nem a flecha do diabo, se ela estiver por aí, penetra isso tão fácil. Mas…

    Ela finalmente abriu os olhos e olhou diretamente para Pedro. O cansaço e a preocupação estavam lá, mas também uma clareza terrível.

    — …mas não fique aliviado ainda, Pedro. Enquanto mantemos o domo, nossa conexão se estende. E o que estamos sentindo lá fora não é bom. São centenas de passos. Eles estão se movendo, se espalhando. Estamos cercados. Quais são as suas ordens, comandante?

    O título, dito sem ironia, queimou em Pedro. Ele olhou para sua própria mão, onde sua pequena adaga de gelo repousava. A gema azulada parecia fria e inexpressiva. Ele a segurou, como se o contato com o gelo pudesse congelar sua própria dúvida.

    “Sobreviver. Como? Um domo é uma prisão. Uma armadilha. Precisamos de movimento, de fuga. Mas como sair disso sem sermos abatidos como coelhos?”

    Sua mente correu para as táticas que vira, para as habilidades que conhecia.

    — Tainá, — ele perguntou, uma centelha de esperança na voz. — Vocês conseguem fazer o que a Tassi faz? Nos mover dentro da terra, como uma toupeira? Nos levar para um lugar seguro por um túnel?

    Tainá balançou a cabeça, uma expressão de frustração cruzando seu rosto.

    — Ainda não chegamos nesse nível. O que a Tassi faz… é como uma dança com o próprio mundo. Nós ainda só sabemos erguer muros e sentir o chão. Conseguimos segurar esse domo por… mais meia hora, no máximo. Depois, o cansaço vai quebrar nossa concentração e a estrutura vai desmoronar.

    Meia hora. O prazo ecoou na cabeça de Pedro como um sino. Meia hora para encontrar uma saída do cerco. Seus olhos percorreram os rostos assustados dentro do abrigo de terra — soldados regulares com mosquetes, algumas poucas pessoas com pequenas gemas de fogo ou água, e as cinco especialistas da terra, já no limite.

    Então, a resposta veio. Não como um lampejo de genialidade, mas como a única peça que se encaixava no quebra-cabeça desesperado. Não era sobre esperar. Era sobre criar uma abertura.

    Ele se virou para o grupo, e quando falou, sua voz não era mais a de um soldado assumindo uma responsabilidade, mas a de um comandante dando sua primeira ordem de batalha.

    — Atenção, todos! — sua voz cortou o ar poeirento. — Corpo de Forças Regulares! Verifiquem suas armas. Carreguem seus mosquetes até a boca. Preparem-se para atirar em rajada, em ordem de comando. Mirem em qualquer homem que virem.

    Ele fez uma pausa, deixando a ordem ser absorvida. Os soldados começaram a se mover, os sons familiares do carregamento de mosquetes — o tilintar do frasco de pólvora, o ranger da haste — preenchendo o espaço abafado.

    — E Corpo de Forças Especializadas! — ele continuou, olhando para Tainá e suas mulheres, e depois para os outros poucos adeptos de elementos diferentes. — Preparem suas gemas. Fogo, água, gelo… o que tiverem. Vocês serão nossa ponta de lança.

    Ele caminhou até a parede curva do domo, colocando a mão sobre a terra fria e áspera.

    — Tainá, — ele disse, sua voz baixa mas firme. — Daqui a um minuto, no meu comando, você e sua equipe vão derrubar o domo. Não tudo de uma vez. Abram uma fenda no lado oeste, aquele voltado para a República. Apenas o suficiente para uma saída rápida.

    Os olhos de Tainá se arregalaram. — Mas eles vão nos ver! Vão nos alvejar!

    — Exatamente — Pedro respondeu, um plano frio se formando em suas palavras. — Eles vão ver a abertura e vão se concentrar nela. É o que queremos. No momento em que o domo começar a abrir, todos os mosquetes disparam uma salva para o leste, para as colinas de onde vieram. Criem confusão, faíscas, gritem! Façam parecer que nossa fuga principal é uma finta, e que o ataque real sai por lá.

    Ele fechou a mão em um punho, uma geada fina formando-se em seus nós dos dedos.

    — Enquanto isso, nós — os especiais e eu — saímos pelo oeste. Nós não vamos correr e nos esconder. Vamos atacar. Um golpe rápido, brutal, para abrir um buraco na linha deles. Gelaremos o chão para derrubá-los, cegaremos com névoa, o que for preciso. Assim que o caminho estiver aberto, Tainá, você e os regulares saem atrás de nós. E então… corremos. Todos. Não para o oeste em linha reta, mas para o sul, pelo leito do riacho, onde a vegetação é mais densa. Entenderam?

    Houve um silêncio carregado. Era um plano suicida. Era brilhante. Era a única chance.

    Tainá sorriu, um sorriso feroz e cansado. — Entendido, comandante.

    Pedro ergueu a adaga de gelo. A gema começou a brilhar com uma luz azul pálida, e uma névoa fria emanou da lâmina.

    — Um minuto! — ele anunciou, e o ar dentro do domo ficou gelado, carregado da eletricidade silenciosa que precede a tempestade. — Preparem-se!

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