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    Albuquerque satisfeito, por ter encontrado o esconderijo de Pedro, deu um comando mental. A flecha no céu fez uma curva fechada e perfeita, como um pássaro mudando de direção, e começou a voar de volta, agora em busca do trio isolado. Ele os encontraria facilmente; eram três auras brilhantes se movendo lentamente.

    “Melhor ativar a gema do Assassino”, ponderou, enquanto a flecha se aproximava da área geral. “Não dá para saber se algum deles tem um adepto da Visão no grupo principal. Melhor não arriscar ser detectado.”

    Com a ponta do dedo, ele tocou a gema negra e fria do Assassino em seu arco. Uma sensação de vazio, de silêncio absoluto, emanou da pedra. Na flecha, a gema gêmea se ativou. Qualquer assinatura mágica da flecha, qualquer pista de sua presença que pudesse ser sentida por outras gemas de detecção, foi ofuscada, engolida por essa escuridão mágica. A flecha tornou-se um fantasma.

    “É melhor eu matá-los logo”, decidiu Albuquerque, seu rosto uma máscara de desdém. “Não dá para confiar nesses idiotas para fazerem o serviço direito. Começarei pela adepta da gema da escuridão. Ela é a mais problemática.”

    A flecha, agora uma sombra silenciosa e indetectável contra o céu de chuva, localizou as três assinaturas. Albuquerque escolheu a aura que parecia se mover com uma fluidez diferente, uma escuridão ativa entre os tons de terra e cansaço. Sussurro.

    A flecha inclinou-se. O vento a favor, impulsionado pela gema verde, a acelerou até uma velocidade terminal. Era um meteorito da morte, descendo em um ângulo perfeito, direto para as costas da mulher que não suspeitava de nada.

    Albuquerque, em sua cadeira, já antevia o impacto. O fim de um incômodo.

    Mas então, algo aconteceu. Um instante antes que a flecha chegasse ao alcance de impacto fatal, Nzambi deu um soco nela e na mesma mora os três desapareceram sob uma sombra abaixo, fazendo a flecha acertar o nada.

    A visão da flecha mostrou apenas o chão da floresta, folhas molhadas, e nenhum sinal de vida.

    — MERDA! — o grito de Albuquerque explodiu na clareira silenciosa, fazendo os servos estremecerem. Seus olhos se abriram, voltando para seu próprio corpo, cheios de uma fúria cega.

    ***

    Segundos antes a flecha, uma mancha escura e silenciosa contra o céu chuvoso, descia em um ângulo mortal, direto para o centro das costas de Sussurro. Albuquerque, em sua cadeira distante, já saboreava o impacto.

    Nzambi foi o único que a viu por pura sorte, um ponto negro apareceu na frente do sol. Um ponto que crescia rápido demais, vindo de onde o sol deveria estar. Não havia som, não havia brilho. Apenas a promessa silenciosa da morte.

    “Não dá tempo de avisar!”

    Ele não pensou. Agiu. Girou no lugar e, em vez de um grito, deu um soco forte e seco no ombro de Sussurro, bem no ponto entre o pescoço e o músculo.

    No mesmo instante do impacto, a sombra do arbusto grande ao seu lado pareceu se esticar, ganhar volume e substância. A negritude envolveu os três – Nzambi, Sussurro ainda com o ombro latejando, e Tainá – e os engoliu.

    O mundo exterior desapareceu, substituído pela pressão silenciosa e pelo frio do reino entre sombras. Eles estavam se movendo, puxados pela corrente do instinto de sobrevivência de Sussurro, mas o primeiro salto foi caótico, desgovernado.

    — Que porra foi essa, Nzambi?! — a voz de Sussurro veio em um sussurro furioso no vácuo escuro. Ela segurava seu ombro com a outra mão. — Você quase deslocou meu braço! O combinado era se você visse a flecha para me dar um toque de leve.

    — Desculpa— Nzambi tentou explicar, ofegante, ainda sentindo o eco do soco em seus próprios nós dos dedos. — Ela tava vindo. De cima. Direto em você. Não deu tempo de pensar, só pensei em te tocar o mais rápido possível e nisso usei força demais.

    Houve uma pausa. Eles emergiram brevemente na sombra de uma pedra coberta de musgo antes de serem puxados para a próxima, um movimento mais suave agora que Sussurro retomava o controle.

    Outro salto, mais longo desta vez. A tensão no ombro de Sussurro, transmitida pelo pulso que ela ainda segurava, diminuiu um pouco.

    — Tudo bem… obrigada — as palavras saíram relutantes, mas sinceras. — Salvou minha vida.

    Do outro lado de Nzambi, Tainá soltou um som entre um riso abafado e um gemido de cansaço.

    — Quando isso acabar… — Sussurro continuou, sua voz ganhando um tom de leveza forçada no meio da fuga absurda — …te pago uma caipirinha. A boa, com cachaça da Serra, não aquela aguardente de pé de bananeira que servem na pracinha. Mas você vai ter que me pagar as duas ainda e das boas!

    Nzambi sentiu um sorriso tentar se formar em seus lábios no escuro. Era surreal. Fugindo de uma flecha mágica assassina através de sombras, combinando de tomar drinks.

    — Combinado — ele disse.

    Eles continuaram, pulando de sombra em sombra, o ritmo ditado pela respiração ofegante de Sussurro e pela tensão silenciosa de não saber se a morte ainda os perseguia, invisível e silenciosa, do lado de fora.

    Dentro do reino das sombras, o mundo era um lugar de pressão sufocante e som abafado. Nzambi sentiu como se estivesse submerso em um mar de óleo negro e frio.. A mão de Sussurro agarrava seu pulso com uma força de ferro.

    Eles não estavam parados. Eles se moviam, mas não da forma normal. Era como se o mundo exterior deslizasse por eles em flashes confusos de tons de cinza e formas distorcidas: a raiz de uma árvore, uma mancha de musgo, a parte inferior de uma folha gigante. Sussurro os puxava, pulando de uma poça de escuridão para a próxima, cada salto um esforço monumental.

    “Merda”, pensou Sussuro, a náusea subindo em sua garganta. O movimento era desorientador. “Levar duas pessoas é muito cansativo, sozinha é bem mais fácil.”

    Sussurro não disse nada, mas a tensão em sua mão, o ritmo cada vez mais lento dos saltos, e um gemido quase imperceptível que escapou de seus lábios contavam a história. A flecha ainda estava lá fora, e ela não podia senti-la. Sua vantagem havia virado desvantagem.

    — Sussurro… — a voz de Tainá saiu abafada, como se viesse de muito longe. — …você não vai aguentar. Leva a gente de volta para a superfície.

    — Não… posso… — a resposta de Sussurro foi entrecortada, um sussurro rouco no vácuo. — A flecha… está…

    — Eu faço uma barreira! — insistiu Tainá, com uma urgência desesperada. — Assim que surgirmos, eu ergo a terra. Você vai poder descansar um pouco. Por favor!

    Nzambi sentiu o pânico da situação. Mas eles não tinham escolha. Sussurro estava à beira do colapso.

    Foi então que uma ideia, desesperada e louca, surgiu em sua mente.

    — Tainá! — ele falou, tentando projetar clareza através do estranho meio. — Quando fizer a barreira… não faça grossa. Faça fina. O mais fina que conseguir, mas forte o suficiente para só a ponta da flecha, a parte de gema da visão, entrar. A haste tem que ficar do lado de fora!

    — O QUÊ?! — a reação de Tainá foi de horror puro. — Se eu fizer isso, ela entra e mata a gente todos!

    — Confie em mim! — Nzambi implorou, sua voz carregada de uma certeza que ele mesmo não sentia totalmente. Era um palpite. Um risco calculado baseado em como o poder de sua adaga funcionava. Ele precisava ver o que queria cortar. A ponta de uma flecha voando… ele não conseguiria focar. Mas algo preso, parcialmente exposto…

    — Eu… eu confio nos dois — a voz de Sussurro interveio, fraca mas decidida. — Preparem-se… na próxima sombra… nós saímos.

    Eles emergiram da sombra úmida da base de um grande jatobá. A luz do fim da tarde, ainda forte, cegou Nzambi por um segundo. A chuva fina caiu sobre seu rosto. O ar fresco, após a sufocação das sombras, foi um alívio doce e fugaz.

    — AGORA, TAINÁ! — Sussurro gritou, soltando seus pulsos e caindo de joelhos na terra molhada, exausta.

    Tainá, com um último suspiro de força roubada de algum lugar profundo, bateu seu cajado no chão.

    A terra respondeu. Não com a grandiosão do domo, mas com precisão. Uma placa vertical de terra compactada e raízes, com pouco mais de cinco centímetros de espessura, ergueu-se diante deles como um escudo.

    Não foi um segundo cedo demais.

    Nzambi nem viu a flecha chegar. Ele apenas ouviu um FWOOSH cortando a chuva, e então um impacto violento e metálico.

    THUNK!

    A ponta da gema da visão da flehca flecha, seguida por cerca de quinze centímetros da haste de metal que a sustentava, perfurou a barreira fina como uma agulha atravessando tecido. A força do impacto foi tanta que a placa de terra rachou da borda para o centro, mas segurou. O resto da flecha, a maior parte da haste de madeira, ficou presa do lado de fora, vibrando com uma energia furiosa.

    A quilômetros de distância, Albuquerque viu, através da gema da Visão, a ponta de sua flecha perfurar a barreira. Um riso triunfante começou a subir em sua garganta.

    — Ha ha ha! Agora é o fim! — ele exclamou para si mesmo, seus dedos se preparando para canalizar mana na gema do Vento, para impulsionar a flecha pelos últimos centímetros e atravessá-los a todos.

    Mas ele não fez isso. Porque no instante seguinte, sua visão foi preenchida por uma imagem de tirar o fôlego: Nzambi, com os olhos fixos na ponta de metal que tremeluzia a menos de um metro de seu rosto, erguendo sua adaga e cortando seu próprio peito em um golpe profundo e decidido.

    E então, tudo ficou escuro.

    Não foi um apagão. Foi um nada. A conexão com a gema da Visão na flecha foi cortada de forma limpa, absoluta, como se a própria gema tivesse deixado de existir.

    Albuquerque ficou sentado na cadeira, os dedos ainda sobre as gemas de seu arco, seu rosto congelado em uma expressão de pura incredulidade.

    — O… o quê? — ele balbuciou, sozinho na clareira que agora parecia muito silenciosa. — Perdi… a conexão com a flecha?

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