Capítulo 136 - Batalha Sob Pressão II
Um vulto escuro e alongado se materializou acima de todos, contra o céu cinza de chuva. Não houve planejamento suave, nem descida controlada. Ele desceu com tudo, como uma pedra atirada por um gigante, mas direcionada. A queda foi tão rápida que o ar sibilou em protesto.
Ele não aterrissou. Ele caiu de pé no exato centro do espaço entre a linha de mosquetes e as adeptas da terra, a uns dez metros de Isabel
O impacto foi um BAQUE seco e profundo que fez o chão tremer, lançando terra e água para todos os lados. O solo, antes protegido por Isabela, foi atingido pela violência pura da chegada, e a água desviada espirrou em todas as direções.
Antes que o susto pudesse se transformar em reação, antes que alguém pudesse sequer gritar, o homem – alto, esguio, com botas e luvas que emitiam um brilho azul abafado – agiu.
Ele girou no próprio eixo, os braços estendidos. Não foi um gesto elegante. Foi brutal, como um pião enraivecido.
De suas luvas e botas, não saiu uma brisa controlada, mas uma RAJADA concussiva de vento puro. Um cilindro de força invisível explodiu para fora dele em todas as direções.
O efeito foi catastrófico.
O domo de água de Isabela, já tensionado ao limite, desintegrou-se como uma bolha de sabão sob um sopro forte. A chuva caiu de repente e com força redobrada sobre todos. Os soldados da linha de frente, que estavam ajoelhados recarregando, foram arremessados para trás como se tivessem levado um golpe de muro. Mosquetes voaram, frascos de pólvora se perderam na lama. Gemidos e gritos de dor e surpresa eclodiram.
Pior: a rajada de vento foi como um sopro gigante sobre o campo. A névoa densa e úmida que protegia suas posições, que Isabela tão cuidadosamente complementava, foi expulsa. Não dissipada lentamente, mas varrida para longe, rasgada e desfeita em uma grande nuvem que se deslocou para a floresta circundante, revelando de repente, de forma crua e nítida, a cena completa.
Os republicanos, agora completamente expostos, viram-se uns aos outros, desorientados e caídos. E, olhando para frente, viram também a linha de atacantes que se aproximava, agora sem a cortina de neblina para atrapalhar sua visão ou sua mira.
No centro do caos que ele criara, o homem endireitou-se. Seus olhos, claros e calculistas, percorreram o círculo de destruição ao seu redor com satisfação. O sorriso que surgiu em seus lábios não era de alegria, mas de puro desdém triunfante.
— Ora, ora, ora… — sua voz era melodiosa, quase cantante, mas carregada de um desdém cortante. — Quantas ratazanas temos aqui escondidas na neblina. Que covardia, não? Mas devo ser grato a vocês. Com a… inesperada aposentadoria do Zé Vento, pude herdar seus sapatinhos especiais. Isso, somado às minhas luvas de estimação… Como demonstração de gratidão, vou me apresentar, todos me chamam de Tufão
Ele não deu tempo para reação. Com os pés leves que pareciam tocar o chão apenas por escolha, ele se moveu. Não era velocidade pura; era agilidade sobrenatural, cada passo auxiliado por uma minúscula rajada de vento que o impulsionava, o fazia deslizar, mudar de direção instantaneamente.
Seu primeiro alvo foi Lívia, a jovem adepta da terra que havia dado o sinal. Ele apareceu na frente dela como se tivesse teletransportado.
— Você fala demais, menina — ele disse, e desferiu um chute.
Não foi um chute comum. No momento do impacto, uma explosão concentrada de ar saiu da sola de sua bota. O som foi abafado. Lívia foi arremessada para trás não apenas pela força do chute, mas por um jato de vento sólido. Ela voou por cima da barreira de terra baixa, desaparecendo no campo inimigo com um grito cortado. Um som de vitória rude e gargalhadas surgiu do outro lado da névoa.
— NÃO! — Tainá gritou, um misto de raiva e horror na voz.
Um jovem soldado que conseguira recarregar seu mosquete um pouco mais rápido que os outros, tremendo de medo e fúria, mirou no adepto do vento e puxou o gatilho.
O homem nem olhou. Ele fez um movimento com a luva esquerda, como se estivesse afastando uma mosca. Uma lufada de vento lateral, precisa como um punho, atingiu o cano do mosquete no exato momento do disparo. A arma voou das mãos do jovem, a bala perdendo-se inofensivamente na folhagem. O mosquete bateu em uma árvore e caiu, inutilizado.
— Essas suas arminhas de brinquedo são mesmo um pé no saco — o adepto do vento comentou, virando-se para o jovem soldado agora desarmado. — Mas ainda assim não se comparam ao poder verdadeiro. Sem elas… vocês, que não são abençoados com gemas, não passam de… lixo comum.
Com dois passos impossivelmente rápidos, ele estava diante do jovem. Desta vez, um chute no peito, sem vento extra, apenas força crua. O garoto foi lançado para trás, por cima da barreira, seguindo o destino de Lívia. Gritos de horror e mais gargalhadas dos bandeirantes responderam.
As outras adeptas da terra, Iara e Joana, rugiram de fúria. Iara arrancou uma pedra do chão com um gesto e a arremessou contra ele com força. Joana fez o mesmo, vindo do outro lado.
O adepto do vento sorriu. Ele não se moveu do lugar. Inclinou a cabeça para um lado, depois para o outro. As pedras passaram a centímetros de seu rosto, sibilando no ar. Ele desviou não com o corpo, mas com microajustes impossivelmente precisos, como se o ar ao seu redor o empurrasse para fora do caminho.
— Patético — ele cuspiu.
Tainá, vendo a abertura, bateu seu cajado no chão com raiva concentrada. O solo sob os pés do homem se abriu, formando um buraco repentino. Ele caiu, surpreso por um instante.
— Agora! — Tainá gritou para as outras, tentando fechar a terra ao seu redor, para soterá-lo.
Mas antes que a terra pudesse se mover, o homem nos sapatos de Zé Vento simplesmente pulou. Não do fundo do buraco, ele saltou para fora dele, impulsionado por uma explosão de vento tão forte que levantou poeira e fragmentos de terra. Ele aterrissou suavemente a alguns metros de distância, olhando diretamente para Tainá.
— Ora, se não é a presinha teimosa de antes — ele disse, seus olhos percorrendo-a com um interesse desagradável. — Não estou a fim de brincar de pega-pega com você hoje, viu? Aliás, acho que deveria ser crime… humanos se misturarem com animais como vocês. Contamina o sangue.
Nzambi, que se arrastara durante a confusão, tentando se aproximar por trás do homem, congelou quando a voz do adepto do vento falou novamente, sem nem olhar para trás.
— E você, o negro com a faca de brinquedo… o bom de observar e esperar é que dá para aprender com os erros dos outros.
O homem deu uma pisada no chão. Desta vez, não foi uma explosão, mas uma onda concussiva de ar que saiu em um disco horizontal do ponto de impacto. Nzambi foi atingido no peito como por uma bigorna invisível. O ar saiu de seus pulmões, e ele foi arremessado para trás, rolando no chão encharcado. A adaga escapou de seus dedos fracos e caiu na lama, a uns dois metros dele, inalcançável.
O adepto do vento virou-se lentamente, um sorriso de triunfo em seu rosto.
— Tchau, tchau, faca maldita — ele cantarolou, erguendo uma luva. Ele iria soprar a adaga para longe, para o riacho próximo.
Mas antes que o sopro saísse, um frio intenso envolveu seus pés. Ele olhou para baixo. Seus pés, seus tornozelos, suas canelas até os joelhos estavam envoltos em um bloco sólido e translúcido de gelo azul-profundo, firmemente preso ao solo.
— Muito arrogante — a voz de Pedro veio de trás dele, fria como o gelo que conjurava. — Achar que pode invadir o campo inimigo sozinho e sair vivo, só porque é rápido.
Pedro estava de pé, sua adaga de gelo cravada no chão. Veias azuladas de geada se espalhavam da lâmina, alimentando a prisão de gelo. O rosto de Pedro era uma máscara de concentração absoluta e fúria contida. Cada segundo que mantinha o gelo naquele grau de dureza e crescimento era um dreno imenso.
O adepto do vento tentou se soltar, mas o gelo era denso, puro, criado para prender, não para machucar. Seus pés estavam presos como em concreto.
No mesmo instante, um CRAC! familiar soou. Um tiro vindo do nevoeiro, da direção onde Sussurro operava, foi direto para a cabeça do homem preso.
Mas no último milésimo de segundo, o adepto do vento não tentou se mover. Ele desapareceu sob a sombra do gelo que Pedro criara.
Alguns segundos depois ele reapareceu, perto de um soldado com mosquete, que levou outro chute e saiu voando por cima da barreira, então ele riu.
A risada dele ecoou, alta e cheia de um prazer perverso.
— Como eu disse… — ele gritou, olhando para Pedro com desdém. — O bom de observar é aprender! Sabia bem da amiga de vocês os ajudando ao longe.
Antes que Pedro, pálido pelo esforço desperdiçado, ou qualquer outro pudesse processar a audácia e a adaptação do inimigo, o som que veio em seguida foi de partir o coração.
CRUNCH. CRUNCH. CRAAAAAC!
Foram várias pedras grandes, arremessadas do lado inimigo mas desta vez com mira perfeita. Elas não caíram sobre as pessoas. Elas atingiram a barreira de terra que protegia a frente.
A barreira, que havia sido sólida e confiável, desmoronou em várias seções sob o bombardeio. Tainá e as outras adeptas da terra tinham se distraído, focadas no intruso, no esforço de tentar pegá-lo, no horror de ver Lívia ser levada. Elas haviam negligenciado a manutenção constante do escudo.
E com a barreira despedaçada e a névoa dissipada pelas rajadas de vento do intruso e pelo movimento da batalha, o campo de batalha ficou exposto.
Os republicanos, exaustos, feridos e agora visíveis, viram-se diante da visão que temiam. Da floresta, de trás das árvores, da clareira agora aberta, dezenas de capitães do mato, bandeirantes e mercenários emergiram. Seus rostos eram uma mistura de brutalidade, ganância e alívio por finalmente verem o inimigo.
E eles não vieram em silêncio.
Homens com luvas de couro que fumegavam lançaram bolas de fogo baixas que rolavam pelo chão, incendiando a vegetação rasteira e criando cortinas de fumaça acre. Outros, com braços cobertos de geada, dispararam estilhaços de gelo afiados como navalhas que sibilavam pelo ar. Do chão aos pés dos defensores, vinhas grossas e escuras brotaram com velocidade sobrenatural, tentando enlaçar tornozelos, puxar pessoas para baixo.
Era o caos. Era o avanço final. E a linha de defesa da República estava prestes a se romper.

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