Índice de Capítulo

    O ar no escritório de Carlos era pesado, carregado de uma solenidade opressiva que o cheiro de cera de abelha, papel timbrado e café forte não conseguia disfarçar. A luz da manhã, filtrada pela janela entreaberta, iluminava colunas de fumaça de pó que dançavam no ar, como fantasmas das discussões tensas. Carlos estava sentado atrás de sua grande mesa de madeira maciça, os dedos entrelaçados sob o queixo, ouvindo. Seu rosto, normalmente um mapa de pensamentos rápidos e expressões vivas, estava imóvel, uma máscara de granito sob a qual fervilhava uma tempestade.

    Diante dele, em uma fileira desalinhada que refletia seus estados de espírito, estavam os protagonistas do relatório que ele insistira em ouvir da própria boca, e não apenas em números secos sobre papel.

    À esquerda, Pedro. Em pé, ereto, mas com os ombros carregados de um peso invisível. Suas mãos, ligeiramente tremorosas, estavam cruzadas atrás das costas. Ele olhava para um ponto na parede atrás de Carlos, evitando o contato direto.

    Ao lado dele, Tainá. A guerreira da terra, que enfrentara pedras, flechas e o desprezo do Zé Vento sem vacilar, agora parecia querer se fundir com o chão de madeira. Ela olhava para os próprios pés, envergonhada, não pela batalha, mas pelo simples fato de estar na presença formal do Presidente. Seus dedos torciam a ponta surrada de sua túnica verde.

    Do outro lado, Nzambi tremia. Era um tremor sutil, nas mãos, no queixo. Não era medo de Carlos, o homem. Era medo do cargo, da autoridade final, do juiz que poderia apontar seu dedo e declarar que seu sacrifício, sua adaga, sua coragem tardia, haviam sido inúteis. Ele engolia em seco a cada poucos minutos, o som audível no silêncio entrecortado das falas.

    Flanqueando o grupo, em uma demonstração de apoio tácito e autoridade compartilhada, estavam o Comandante Geral Espectro e Sussurro. O comandante, imponente em seu uniforme verde-escuro, observava tudo com olhos que pareciam pesar e medir cada palavra. Sussurro, ao seu lado, seus olhos alertes varriam o ambiente, um hábito profissional inato.

    Eles tinham acabado de narrar, cada um à sua maneira, os eventos no riacho. A fuga, o cerco, a chegada do Tufão, o sacrifício de Joana e de tantos outros, a intervenção de Sussurro, a chegada dos fuzis. A história saíra em pedaços, entrecortada, às vezes contraditória, sempre carregada da emoção crua da memória recente.

    Agora, era a vez dos números. Espectro segurava uma folha de papel.

    — Setenta e sete mortos confirmados — sua voz, grave e imparcial, ecoou na sala como um martelo. — Duzentos e cinquenta e nove feridos, sendo quarenta e três em estado grave. Perdemos cinco adeptas da terra, onze regulares.

    Cada número era uma facada. Carlos não olhava para a folha. Olhava para os rostos à sua frente. Via a contração em Tainá ao ouvir sobre suas colegas. Via Pedro fechar os olhos por um instante, seus lábios se moverem em um silencioso “setenta e sete”.

    “Setenta e sete mortos”, o pensamento de Carlos era um redemoinho sombrio. “E mais de duzentos feridos… Foi um desastre. Eu subestimei Albuquerque. Pensei que ele se reorganizaria, não que lançaria um ataque total tão rápido. E esses adeptos… aquele do vento, a flecha maldita… São armas de um nível diferente. Estamos lutando com tecnologia e vontade contra magia consolidada e crueldade pura.”

    O silêncio que se seguiu ao relatório de baixas era denso, quase palpável. Foi quebrado por Espectro, que dobrou o papel e o colocou sobre a mesa. Seu tom mudou, da frieza do relatório para a solenidade do estrategista.

    — Agora, quanto à situação estratégica — ele começou, os olhos fixos em Carlos. — Nossa força principal de resposta está posicionada a menos de cinco quilômetros do engenho principal de Albuquerque, nas terras que recapturamos. Eles recuaram em desordem para trás de seus muros. Assim que consolidarmos os próximos duzentos soldados equipados com os fuzis de repetição, e os dois canhões de campanha que estão a caminho chegarem e forem posicionados… iniciamos a marcha para o objetivo principal: a captura de Ouro Branco. E no caminho — seu dedo bateu suavemente no mapa aberto sobre a mesa de Carlos —, tomaremos o engenho de Albuquerque. Ele pagará, em sangue e terra, pelo ataque covarde. Portanto, analisando o quadro geral… posso afirmar que o resultado final foi uma grande vitória estratégica.

    A declaração caiu como uma bomba no ambiente já carregado.

    A declaração de Espectro sobre uma “grande vitória” ecoou na sala como um trovão após um silêncio carregado. Carlos sentou-se para trás em sua cadeira, que gemeu levemente. Seu rosto, antes uma máscara de concentração sombria, se contorceu em uma expressão de pura incredulidade. Ele não conseguia conter.

    — Grande vitória? — a pergunta saiu em um tom mais alto do que pretendia, carregada não de raiva, mas de uma confusão profunda e dolorosa. — Espectro, pelo amor de… como? Como você pode olhar para esses números, ouvir o que aconteceu no riacho, e chamar aquilo de vitória?

    Ele não estava sozinho naquela sensação. Ao seu lado, Pedro sentiu um nó se formar em sua garganta. “Vitória” era a última palavra que vinha à mente quando ele fechava os os olhos e via a cena do riacho. O alívio que sentira quando os fuzis chegaram agora parecia manchado, insuficiente perante a escala da perda. Ele ficou em silêncio, mas sua postura rígida, o aperto de seus punhos atrás das costas, ecoavam a dúvida de Carlos.

    Espectro não se alterou. Ele permaneceu imponente, mas seu olhar, que repousava em Carlos, ganhou uma profundidade histórica, como se estivesse vendo muito além das paredes daquele escritório. Quando falou, sua voz era firme, mas não áspera. Era a voz de um homem relembrando uma verdade amarga que os outros, por sorte ou por circunstância, nunca haviam precisado viver em sua plenitude.

    — Carlos — ele começou, usando o nome, não o título, em um raro momento de informalidade grave. — Vamos fazer um exercício de memória. Você acha que, em toda a história deste quilombo, desde os primeiros mocambos nas colinas até hoje, nós já tivemos alguma vez uma vitória, uma verdadeira vitória militar, contra um inimigo do calibre de Albuquerque?

    Ele não esperou resposta. Sabia que Carlos não tinha essa memória.

    — No auge militar do Quilombo, quando era liderado pelo grande Aqua… cada “vitória” era isso. — Ele apontou para o relatório de baixas na mesa. — Um ataque a um engenho pequeno, isolado, com um capataz bêbado e meia dúzia de guardas maltrapilhos… custava quinze, vinte vidas nossas. Vidas preciosas. E quando o alvo era um engenho médio, um “grande” para nossos padrões de então… — Espectro fez uma pausa, e pela primeira vez, um brilho de antiga dor passou por seus olhos. — …era um massacre. Perdíamos metade de um contingente. Recuávamos com os sobreviventes arrastando os mortos, se tivéssemos tempo de recolhê-los. A “vitória” significava ter conseguido roubar algumas armas velhas, libertar alguns escravos (muitos dos quais morriam nas semanas seguintes por ferimentos ou doenças) e sobreviver para contar a história. Sobreviver, não vencer.

    Ele caminhou alguns passos, seu olhar perdendo-se por um momento na estante de livros de Carlos, como se visse os velhos cronistas silenciosos daqueles tempos.

    — Nunca apoiei a estratégia de Ganga Zala, de nos tornarmos apenas sombras na mata, de abandonar a luta aberta — Espectro continuou, seu tom agora refletivo, quase confessional. — Mas eu entendia seu desespero. O homem tinha mérito. Ele viu o custo. Cada vitória, por menor que fosse, nos esfolava vivos. Como poderíamos sonhar em salvar os escravos de uma região inteira, em desafiar o poder colonial de verdade, se mal conseguíamos nos salvar a nós mesmos de uma investida organizada? Como?

    Ele se virou de volta, enfrentando Carlos e os outros diretamente.

    — Foi por isso, Carlos. Foi por isso que, por um tempo, mesmo os mais bravos aceitaram se recolher. Aceitaram ficar acuados, escondidos, vivendo da terra e do medo, atacando apenas alvos mínimos e fugindo sempre. A alternativa parecia ser a extinção pura e simples. A “vitória” era não sermos encontrados naquela semana.

    Seu dedo apontou não para o relatório, mas para a janela, na direção geral das oficinas e fábricas da República.

    — Foi somente com você. Com as suas ideias. Com essas armas que saem das suas fábricas. Com a organização, o treinamento, a logística que você implantou… que essa possibilidade deixou de ser um sonho de louco e se tornou uma realidade tangível. — A voz de Espectro ficou mais forte, carregada de uma convicção férrea. — Pela primeira vez, enfrentamos um grande senhor de engenho, com sua milícia pessoal, com mercenários, com armas mágicas de verdade… e não apenas sobrevivemos. Nós recuamos ele. Nós o fizemos bater em retirada. Nós mantivemos o terreno. E agora, temos um exército às portas de sua casa. Isso, Carlos… isso, para nós que vivemos o tempo das sombras, é uma vitória colossal. É uma vitória que muda tudo.

    O silêncio que se seguiu foi diferente. Já não era mais apenas o silêncio do choque e da dor. Era um silêncio ponderado, onde o peso terrível do passado, trazido por Espectro, começava a colocar o pesadelo do riacho em uma perspectiva nova e ainda mais complexa. A “vitória” de Espectro não apagava a dor das perdas, mas dava a ela um significado histórico que Carlos, em seu mundo de planos e projetos, nunca havia considerado em sua totalidade.

    Mas Pedro bão foi totalmente convencido, e disse com uma voz saindo rouca e contida, mas carregada de uma angústia que transbordava.

    — Senhor Espectro, permissão para falar.

    Espectro virou a cabeça lentamente, seu olhar impenetrável pousando no cabo.

    — Permissão concedida, Cabo Pedro.

    Pedro engoliu em seco, buscando as palavras que o atormentavam há dias.

    — Senhor… eu comandei a retirada das guarnições. Chegando ao riacho, tomei a decisão de parar, de tentar fazer uma defesa no terreno mais favorável que encontrei, em vez de continuar fugindo. Essa decisão… — sua voz falhou por um segundo, e ele forçou-a a continuar. — …essa decisão custou muitas das vidas que o senhor acabou de listar. Como… como isso pode ser considerado parte de uma vitória? Soa mais como um erro tático. Como uma derrota que pagamos com o sangue dos nossos.

    A pergunta ficou pairando, um desafio doloroso e honesto. Nzambi e Tainá olharam para Pedro, vendo nele a dúvida que também habitava seus próprios corações.

    Espectro não respondeu imediatamente. Ele estudou Pedro por um longo momento, e quando falou, sua voz não tinha mais a frieza do relatório, nem a solenidade do comandante. Tinha uma suavidade surpreendente, quase paternal, mas firme como a rocha.

    — Cabo Pedro — ele começou. — Você e seu grupo haviam passado a noite inteira em alerta, fugindo, lutando. Havia feridos graves entre vocês. A mana dos adeptos estava esgotada. Vocês estavam cercados, exaustos, e sabiam, pela mensagem de Sussurro, que a ajuda estava a caminho, mas não sabiam quando.”

    Ele fez uma pausa, permitindo que a realidade daquela noite voltasse a todos na sala.

    — Imagino que a decisão não tenha sido fácil. Parar e lutar ou continuar fugindo. Agora, em um mundo ideal, se você soubesse que Albuquerque, no meio da confusão, havia perdido temporariamente o rastro de seu grupo principal, que suas forças estavam mais focadas na perseguição à Tainá, Nzambi e Sussurro… então, sim. A decisão mais sensata talvez tivesse sido continuar a fuga, arriscando-se a descansar em movimento. Talvez. — Ele enfatizou a palavra.

    — Mas você não tinha esse conhecimento. Você tomou uma decisão sob pressão extrema, com informações incompletas, com a vida de dezenas de pessoas nas suas mãos. E você escolheu dar a eles uma chance de descanso, de se reorganizar, de lutar em um terreno que oferecia alguma vantagem, por mínima que fosse, enquanto esperava por reforços que você acreditava estarem chegando.

    Espectro inclinou-se levemente para frente, seu olhar prendendo o de Pedro.

    — Essa decisão custou vidas. Isso é um fato doloroso e inegável. A guerra cobra esse preço, sempre. Mas custar vidas não torna uma decisão, por si só, errada. Só a torna dura. Você avaliou a situação com os recursos que tinha: homens exaustos, feridos, um terreno defensivo à vista e a promessa de reforços. Você optou por fazer uma resistência. E, no final, seus homens seguraram a posição tempo suficiente para que os reforços chegassem e transformassem um possível massacre em uma retirada tática do inimigo, com ganho territorial para nós.

    Ele endireitou-se, sua voz recuperando um tom mais formal, mas ainda carregado de significado.

    — Na realidade, Cabo Pedro, diante do que ouvi e do que sei, sua liderança sob fogo, sua capacidade de improvisar um plano defensivo e de manter a coesão do grupo sob pressão esmagadora… demonstram que você está mais do que apto para uma promoção. Sua decisão foi difícil, seu plano foi bom. A tragédia não foi um erro seu. A tragédia foi que o inimigo era simplesmente mais forte, mais numeroso e estava melhor equipado com magia especializada do que qualquer força de fronteira que já enfrentamos. E mesmo assim, você não quebrou. Eles não quebraram.

    As palavras de Espectro não apagaram a dor em Pedro. Mas colocaram-na em um contexto diferente, mais vasto e menos pessoal. Não era mais apenas “sua” culpa. Era o custo brutal de uma guerra contra um inimigo poderoso. O peso nos ombros de Pedro não desapareceu, mas mudou de natureza – de uma âncora de culpa para um fardo pesado, porém compartilhado, de comando.

    Carlos, observando a cena, respirou fundo. Os números ainda doíam. Mas talvez Espectro estivesse certo. Talvez, na terrível matemática da guerra de libertação, segurar o riacho e esperar pelos fuzis, mesmo a um custo horrível, tivesse sido o movimento que impediu uma derrota total e abriu o caminho para, pela primeira vez, eles olharem para além da defensiva. Para Ouro Branco.

    A “grande vitória” ainda tinha o gosto amargo de cinzas e sangue. Mas talvez fosse uma vitória mesmo assim. Do tipo que ninguém comemoraria, mas que mudaria o mapa para sempre.

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