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    O peso dos relatórios e a imagem dos números — setenta e sete, duzentos e cinquenta e nove — ainda pairaram sobre Carlos como uma nuvem baixa e escura mesmo após o término da reunião. O ar do escritório, outrora seu refúgio de cálculos e possibilidades, agora parecia abafado pelos fantasmas do riacho. Ele precisava sair. Precisava ver algo que crescesse, que avançasse, que não fosse sobre perdas, mas sobre construção.

    Após uma noite inquieta, ele tomou seu chá da manhã — uma infusão forte de ervas locais que ainda não substituía satisfatoriamente o café que ainda não foi encontrado, mas era o que tinha. O líquido ambarino e quente ajudou a desanuviar um pouco a mente. Então, ele saiu.

    O impacto do ar matinal foi imediato e terapêutico. O cheiro era diferente: terra molhada da chuva noturna, o perfume doce de algumas flores que começavam a se abrir nos canteiros e, subjacente, o odor distante e promissor de fumaça de lenha das primeiras fornalhas do dia. A luz do sol, ainda suave, filtrada por um céu parcialmente nublado, pintava o mundo com tons dourados e verdes vibrantes.

    Ele caminhou sem pressa, admirando as ruas. Não eram mais apenas trilhas alargadas. Eram vias planejadas, ladeadas por árvores jovens mas já robustas — ipês, paineiras, algumas frutíferas — que proporcionavam sombra e uma beleza serena. Flores silvestres cresciam ordenadamente em canteiros de pedra ao longo das calçadas de terra batida e seixos.

    “As ruas estão mais lindas e bem cuidadas que muitas da cidade onde eu vivia”, pensou, com uma pontada de orgulho surpresa. “Por falar nisso… talvez seja hora de parar de pensar nisso como um ‘mocambo’. Soa provisório, escondido. Isso aqui… é uma cidade. A cidade da República. Boa parte da população do antigo quilombo já vive aqui, e cada vez chega mais gente. Gente que escapou sozinha, gente que a gente libertou…”

    Seus pensamentos foram interrompidos quando ele passou pela Ministra do Trabalho, Fernanda. Ela não estava sozinha. Caminhava ao seu lado uma mulher também branca, mas cuja aparência era um choque no cenário ainda rústico da República. A mulher —, talvez na casa dos trinta e cinco anos — usava um vestido de linho de um azul claro, com detalhes em renda fina e um corte que lembrava os estilos europeus que chegavam às capitais. Era visivelmente mais elaborado e caro que muitos vestidos simples, práticos e bonitos produzidos nas fábricas têxteis locais. Ela usava brincos de prata com pequenas pedras azuis que cintilavam a cada movimento.

    Ao vê-los, Fernanda parou e sorriu.

    — Bom dia, Presidente!

    A mulher ao seu lado parou também, seus olhos — de um cinza curioso — estudando Carlos com um interesse intenso e polido.

    — Está é Matilda — Fernanda apresentou, com um gesto elegante. — Ela é minha ilustre amiga, que chegou na caravana da semana passada e planeja viver aqui. Matilda, este será seu novo chefe, o Presidente Carlos.

    A mulher chamada Matilda não acenou, não fez uma reverência exagerada. Em vez disso, com um movimento gracioso que parecia ensaiado, ela pegou suavemente as abas de seu vestido e fez uma pequena, mas perfeita, mesura. Uma saudação digna de uma dama em uma corte, não de uma refugiada em uma cidade na mata.

    — Será um prazer e uma honra trabalhar para o senhor e para a República — sua voz era clara, educada, cada palavra medida.

    Carlos ficou momentaneamente sem jeito. Receber aquele nível de formalidade, aquele ar de deferência quase feudal, era estranho. Ele estava acostumado a acenos de cabeça, a “bom dia, Carlos”, a apertos de mão firmes.

    — Bom dia — ele respondeu, tentando corresponder à polidez sem parecer artificial. — Bem-vinda, Matilda. Espero… espero que goste daqui e que encontre seu lugar na República.

    O encontro foi breve. Ambos tinham afazeres. Trocaram mais alguns cumprimentos formais e seguiram caminhos opostos. Mas a imagem de Matilda ficou na mente de Carlos.

    “Além dos libertos que vem para cá em busca de liberdade… tem os que imigram por outras razões”, ele refletiu, enquanto caminhava. “Condições de vida, oportunidade, talvez até idealismo. Mas essa Matilda… com aquele vestido, aqueles brincos, aquele jeito de falar… ela não veio por necessidade material. O que traria uma mulher assim para uma ‘cidade de negros’, como os de fora devem ver? E o que ela acha que vai encontrar aqui que seja ‘melhor’?” Ele lembrou-se então das cartas. Fernanda, com sua caligrafia elegante e argumentos persuasivos, tinha escrito para antigos contatos, para pessoas de posses com simpatias abolicionistas ou em situações delicadas. “O que diabos ela escreveu nessas cartas para convencer uma mulher dessas a vir? Deve ter sido um argumento e tanto…”

    Ele estava na rua principal, apelidada de “Rua dos Fundadores”, onde os primeiros apartamentos de concreto haviam sido construídos. Era natural que muitas das figuras mais importantes da jovem República morassem ali. Foi quando ele viu a Ministra da Educação, Quixotina. Ela vinha na direção oposta, carregando uma pilha precária de livros tão alta que quase tapava sua visão. Aparentemente ela nem o viu, apenas passou direto sem cumprimenta-lo

    Carlos, ainda pensando no contraste entre Matilda e o ambiente, notou o contraste da nobre Matilda, com a nobre Quixotina.

    — E pensar que essa daí também era da nobreza. Mas não parece nada delicada ou cerimoniosa como a Matilda. É pura energia condensada em forma de ministra irritada.

    Ele riu baixinho, o som quase inaudível.

    Foi quando sentiu um impacto seco e dolorido na parte de trás da sua coxa, quase na nádega.

    — AI! — ele exclamou, dando um salto para frente e se virando instintivamente.

    Lá estava Quixotina. Ela tinha deixado os livros cuidadosamente em um banco baixo de madeira e agora estava em pé, com as mãos nos quadris, os olhos estreitos e a boca uma linha fina de irritação suprema.

    — Eu passei por você sem dar bom dia porque estava carregando metade da biblioteca e voltei apenas para te dar um cumprimento decente — ela disse, cada palavra saindo como um estalinho. — E o que encontro? Você rindo e falando mal de mim pelas minhas costas!

    — Me desculpa! — Carlos levantou as mãos em defesa, ainda esfregando a coxa. — Eu juro, achei que você não iria ouvir!

    Ela avançou e desferiu outro chute, desta vez mais no quadril, mas ainda assim firme.

    — Aaah! Para com isso! — Protestou Carlos.

    — Então você tá se desculpando não por ter falado mal, mas por eu ter ouvido? Que tipo de lógica torta é essa? — ela perguntou, os olhos faiscando.

    Carlos recuou mais um passo, preparando-se para outra investida.

    — Usei as palavras erradas! Me perdoa, Quixotina! Desculpa de verdade!

    Ela parou, os braços ainda cruzados, e o encarou. Finalmente, um suspiro exasperado saiu de seus lábios, e uma expressão de cansaço misturado à velha irritação tomou conta de seu rosto.

    — Hunf. — Ela virou o rosto. — Vou considerar te perdoar… — ela fez uma pausa dramática e olhou para ele pelo canto do olho. — …se eu também ganhar um presente. Um presente bom. Como aquele que você deu para a Tassi. E tem que ter jantar também! Algo do seu mundo que nunca comi!!

    Sem esperar por uma resposta, negociação ou qualquer reação além do olhar atônito de Carlos, ela se virou, recolheu sua pilha de livros com um grunhido e seguiu marchando em direção à prefeitura, deixando-o parado no meio da rua.

    Carlos esfregou o rosto com as mãos, uma mistura de dor, vergonha e resignação.

    “Eu e minha boca grande”, pensou, um calor subindo por seu pescoço. “Agora vou ter que pensar em alguma coisa que agrade uma mulher que já foi nobre, já teve acesso a tudo, e que agora só parece se interessar por livros, projetos e… presentes caros. Ótimo.”

    Ele retomou a caminhada, desta vez em direção ao distrito comercial e industrial, nas bordas da cidade. O caminho era mais movimentado. Oficinas começavam a funcionar, o som de martelos e serras enchia o ar, misturado ao cheiro de madeira fresca serrada e de pão saindo dos fornos das padarias.

    E foi andando que ele começou a ouvir. Sussurros em grupos nas esquinas, conversas animadas em frente às oficinas, discussões mais acaloradas perto do mercado. Um único assunto dominava todas as conversas: a Batalha contra Albuquerque.

    Os fragmentos que captava eram confusos, contraditórios, inflados pelo boato e pela distância.

    — …ouvi dizer que foi um banho de sangue! Centenas dos nossos morreram no riacho!

    — Mentira! Meu primo tá no exército, ele disse que foi uma vitória esmagadora! Os novos fuzis fizeram picadinho dos bandeirantes!

    — O Albuquerque fugiu com o rabo entre as pernas, disseram que ele chorou!

    — Chorou nada! Ele vai voltar com o dobro de homens! A gente devia é fugir mais para dentro da mata…

    — Fugir o quê! Agora a gente tem canhões! Ouvi o ferreiro falando…

    Carlos diminuiu o passo, ouvindo. A preocupação que já sentia se aprofundou. As pessoas estavam assustadas, confusas, mal-informadas. O comunicado oficial, lido apenas para os que iam buscar seus salários nas janelas de pagamento, claramente não era suficiente. O boato, mais rápido e mais emocional, estava criando sua própria narrativa, alimentando medos infundados ou expectativas perigosas.

    Uma ideia começou a tomar forma em sua mente, clara e urgente.

    “Apenas fazer avisos quando vêm coletar os salários não está dando certo”, ele pensou, seu ritmo de caminhada acelerando junto com seus pensamentos. “É lento, fragmentado, chega a poucos. Precisamos de algo mais… sistêmico. Algo que unifique a informação.”

    “Talvez… talvez eu possa criar um jornal”, o pensamento surgiu com a força de uma revelação. “Agora papel não é mais um problema crítico. E temos as máquinas a vapor… inclusive é para lá que estou indo ver as novas instalações. Se adaptarmos uma das prensas…”

    Ele passou pela grande cisterna de alvenaria que estava em fase final de construção, seu tanque elevado prometendo água corrente para setores inteiros da cidade. O símbolo do progresso tangível.

    “Com o jornal”, ele planejava mentalmente, “poderíamos anunciar nossas vitórias com os fatos reais. Controlar a narrativa. Também divulgar novas fábricas, contratações, leis, conquistas… até anúncios pessoais. Claro, o número de pessoas que sabem ler ainda é baixo, mas isso mesmo seria um incentivo! As pessoas iam querer aprender a ler para ficar sabendo das melhores oportunidades, das novidades, do que acontece dentro e fora da República! Seria uma ferramenta de união, de educação e de controle de informação. Perfeito!”

    Decidido ele continuar a andar em direção ao seu destino.

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