Capítulo 144 - Medalhas II
O escritório de Carlos, após a cerimônia, tinha um ar mais íntimo mas ainda solene. A luz da tarde agora entrava pelas janelas, iluminando colunas de poeira que dançavam sobre a mesa de madeira maciça. Os cheiros eram familiares: cera, papel velho, e um leve traço do suor seco que ainda impregnava a roupa de Carlos sob o uniforme cerimonial. Junto dele, sentados em cadeiras de couro simples, estava Sussurro.
Ela estava ali por um motivo especial. Como parte da equipe de inteligência da República, seu trabalho não podia ser de conhecimento público. Nenhum palco, nenhum discurso para a multidão poderia celebrar suas ações nas sombras. Mas Carlos, insistente, queria demonstrar seu reconhecimento de alguma forma, mesmo que em privado.
Ele também entregou a ela a Medalha da Liberdade. O disco de bronze, idêntico aos outros, parecia simples na palma de sua mão, mas seu peso era simbólico. Sussurro ficou sem jeito, seus dedos callosos fechando-se em volta da fita verde. Um rubor subiu por suas bochechas sujas de fuligem, que nem a rápida lavagem no quartel conseguira remover totalmente.
“Parece tão… oficial”, pensou, uma pontada de desconforto misturada a uma onda quente de satisfação. “Não estou acostumada a receber coisas. Só a completar missões.”
— Você também ganha uma promoção — disse Carlos, quebrando o silêncio. — Vai ser sargento. Mas, como não temos muitos adeptos da escuridão ou do assassino para formar um pelotão especializado, não irá liderar uma equipe no campo, pelo menos não por enquanto. — Ele fez uma pausa, um leve sorriso nos lábios. — Porém, eu tenho um prêmio especial para você. Algo mais… prático.
Sussurro ergueu os olhos, a timidez dando lugar à curiosidade aguçada. A medalha já era mais do que esperava.
— Só pela promoção eu já ficaria muito agradecida — ela respondeu, a voz um pouco mais suave que seu tom profissional usual. — Mas agora ganho um prêmio também? O que seria?
— Isso! — Carlos abriu uma gaveta da mesa e tirou uma pequena caixa de madeira lisa. Dentro, sobre um tecido aveludado escuro, repousavam dez cartuchos de aparência comum, mas com uma diferença sutil: o projétil de chumbo na ponta tinha um brilho fosco, quase negro, e minúsculas runas eram visíveis na base do cartucho de latão. Ele pegou um e entregou a Sussurro.
— Essas balas são especiais. Foram um pedido caríssimo à Papisa. O núcleo tem um pó da gema da escuridão encapsulado. Elas permitem que, caso você atire e acerte uma sombra — não uma pessoa, mas a própria mancha de escuridão —, você possa, num intervalo de segundos, optar por ‘aparecer’ nela. É como um teleporte de curta distância, mas que usa o projétil como âncora.
Sussurro pegou o cartucho com reverência, seus olhos percorrendo as runas. A mente dela, treinada para avaliar vantagens táticas, já começava a trabalhar.
“Isso é incrível! Uma fuga instantânea, um reposicionamento surpresa… ou até uma infiltração silenciosa se eu acertar uma sombra dentro de um quarto fechado.” A emoção genuína iluminou seu rosto por um instante. Porém, no fundo, um leve desapontamento a atingiu. Ela queria, secretamente, uma arma feita especialmente para ela, algo único como a sniper que já carregava. Mas reprimiu o pensamento imediatamente. “Não posso reclamar. Já ganhei essa sniper e a lente com a gema da Visão. Isso aqui é um presente de valor imensurável.”
— É fantástico, Presidente — ela disse, a voz contida mas cheia de significado. — Vai mudar completamente minhas opções em campo.
— Fico feliz que goste — respondeu Carlos, guardando a caixa com os outros nove cartuchos e entregando-a a ela. — Use com sabedoria. E já que está aqui, gostaria de te fazer uma pergunta técnica, se não se importa.
— Claro.
— Durante a investigação sobre as armas de Albuquerque e conversando com outros, notei algo. Por que os adeptos do assassino, no passado e até agora, usavam quase exclusivamente a gema do Assassino? A gema da Escuridão, pelo que entendi, tem efeitos semelhantes de ocultação, mas parece muito mais versátil e poderosa. Por que a preferência pela mais simples?
Sussurro, ainda examinando o cartucho especial, se acalmou e organizou os pensamentos. Era uma pergunta boa.
— A resposta é simples, na verdade. Adeptos puros da gema da Escuridão são raríssimos. Quase não existem. Quem usa a Escuridão com maestria são sempre adeptos duplos — e o primeiro domínio, o pré-requisito, é quase sempre a gema do Assassino.
“Mas que interessante!”, o pensamento de Carlos disparou, conectando pontos. “É um padrão! O mesmo acontece com a gema da Alteração que a papisa usa. É como se fossem árvores de habilidade, com ramos básicos e avançados. Será que a gema da Escuridão também só é encontrada geologicamente perto de veios da gema do Assassino? Uma correlação fascinante…”
Sussurro continuou, guardando o cartucho com cuidado em um bolso interno de seu colete.
— O que significa que armas mágicas estáveis feitas com a gema da Escuridão são muito, muito raras de se capturar. E, ao contrário de agora, antigamente nunca tínhamos dinheiro ou influência para simplesmente… comprá-las. — Ela fez uma pausa, um canto da boca se erguendo em meio à seriedade. — No passado, também nunca imaginávamos que poderíamos encomendar armas personalizadas. Era roubar o que havia ou nada.
Carlos tossiu levemente, um som seco no ar quieto do escritório.
— Bem, para ser justo, ‘pedir’ ainda não é bem o termo. Compramos o que os mercadores oferecem, geralmente o mais barato ou o que sobra. Porém, balas são pequenas, têm uma função simples… com muita insistência e ouro, foi possível convencer a Papisa e seu Artesão Mágico a fazer esse lote experimental para nós. Mas o preço por unidade é proibitivo. — Ele suspirou, o cansaço da gestão aparecendo por um instante. — Se nós tivéssemos um Artesão Mágico próprio, sob nosso comando…
O rosto de Sussurro ficou pensativo. Ela olhou para Espectro, que permanecia em silêncio, observando, e depois de volta para Carlos.
— Hum… talvez logo esse problema tenha uma solução, Presidente.
Carlos ergueu a cabeça, interessado.
— Como assim?
— Eu e meu irmão… nós éramos de um engenho que ficava bem na rota para Ouro Branco. O senhor de lá, um homem vaidoso, comprava armas e joias encantadas diretamente do principal Artesão Mágico da cidade. Eu o vi algumas vezes, um homem velho e rabugento que chegava em carruagem fechada. Não sei se ele ainda está vivo ou se continua lá… — ela encolheu os ombros, mas seus olhos eram certeiros. — …mas é muito provável. Artesãos daquele nível são tesouros que os poderosos escondem e protegem.
Os olhos de Carlos brilharam como as gemas sobre sua mesa. A fadiga desapareceu, substituída pelo foco agudo de uma nova oportunidade.
— Mas isso é excelente! Se conseguirmos trazer um Artesão Mágico desses para cá… — ele começou a gesticular, as ideias fluindo. — …ele não só poderia fazer balas mágicas para unidades de elite, mas poderia começar a treinar aprendizes nossos! Podemos padronizar encantamentos mais simples, entender os princípios… quem sabe até adaptar as máquinas a vapor para ajudar em processos repetitivos! A produção em escala, mesmo que de itens de baixo grau, multiplicaria nossa força!
— Fico feliz em ter dado uma informação útil, Presidente — disse Sussurro, um raro sorriso genuíno tocando seus lábios. Ela se levantou, a medalha tilintando suavemente contra um botão de seu colete. — Agora, se me dá licença, tenho um compromisso. Reencontro com uns companheiros sobreviventes da última batalha. Prometi um drinque para alguns.
— Claro, Sargento Sussurro. E parabéns novamente — disse Carlos, erguendo-se para um aceno de cabeça respeitoso. Ele fez uma pausa, como se estivesse ponderando algo, antes de continuar, seu tom ficando um pouco mais sério. — Mas, antes de você ir, há outro assunto que preciso tratar. Li seus relatórios sobre o Nzambi, sobre aquela adaga dele… e preciso confessar que estou mais do que interessado. A forma como ele conseguiu algo daquele nível, os efeitos descritos… é algo que nunca vi. Como você já estabeleceu um certo… contato com ele, poderia fazer um convite? Peça para ele vir aqui conversar comigo.
Ele ergueu as mãos em um gesto pacificador, vendo o leve alerta nos olhos de Sussurro.
— Não quero ser um ditador que arranca segredos à força, Sussurro. Quero que seja uma conversa. Mas explique para ele — e aqui a voz de Carlos ficou mais firme, carregada de uma urgência genuína — que o que ele sabe, o que aquela adaga representa… pode ser a chave para decisões que vão moldar o futuro da República. A segurança de todos pode depender de entender o que temos em mãos.
“E nem é exagero dizer isso”, o pensamento de Carlos foi uma facada de ansiedade. “Aquela gema roxa… tem a mesma aura que os artefatos do diabo, e talvez ela tenha a ver com como cheguei nesse mund. Só que o efeito parece o oposto: em vez de trazer, ela faz sumir. Itens, partes de corpos… será que ela simplesmente os apaga, ou será que os envia para algum lugar? Para o meu mundo, talvez? E se for esse o caso… a lógica inversa funcionaria? Seria possível usar ela para invocar coisas de lá?”
Uma onda de possibilidades vertiginosas inundou sua mente, tão rápidas que quase o deixaram tonto. “Um livro de química orgânica, um manual de táticas militares modernas, um tratado de neurociência para a Papisa estudar… o que eu consigo ensinar para ela sobre o corpo humano e a mente já está no limite do que lembro. Mas se eu puder invocar mais livros…”
Ele reprimiu o devaneio, focando na pessoa à sua frente. Sussurro absorvia as informações, seu rosto uma máscara profissional, mas ele podia ver os engrenagens girando por trás daqueles olhos atentos.
— Entendo, Presidente — ela respondeu, sua voz neutra e eficiente. — Farei o convite. Tentarei me aproximar dele de forma mais… natural, e explicar a situação.
Ela ainda está pensando como uma espiã, avaliando o alvo, a abordagem. Carlos percebeu, um misto de admiração e preocupação. Antes que ela pudesse sair e começar a planejar uma operação de infiltração emocional, ele interveio, sua voz mais direta.
— Obrigado, Sussurro. Mas não precisa mais ficar… vigiando-o, por assim dizer. Você já cumpriu essa parte. Depois de alguns dias de descanso — ele enfatizou a palavra, olhando para os círculos escuros sob os olhos dela —, você será destacada para a fase de preparação do ataque ao engenho de Albuquerque. A inteligência sobre as defesas dele será crucial. Nzambi é um assunto importante, mas agora é um assunto meu. Sua próxima missão está no campo de batalha.
Ele viu o leve relaxamento em seus ombros, quase imperceptível. Ela era uma soldada, uma agente. Missões claras eram seu território. A ambiguidade de vigiar um aliado, mesmo por uma boa causa, era um fardo a menos.
— Perfeitamente claro, Presidente. Farei o convite e passarei a responsabilidade para o senhor. Até logo.
Com um último aceno, ela se virou e, como era seu costume, pareceu dissolver-se na sombra mais próxima, saindo do cômodo não pela porta, mas pela escuridão entre duas estantes.
— Pelo visto, todos os adeptos do Assassino e da Escuridão têm uma alergia crônica a sair de cômodos pela porta.
Carlos então chamou sua secretária.
— Marina, por favor, peça à Matilda para vir ao meu escritório, se ela estiver disponível.
Marina apareceu na porta, deu uma breve resposta e saiu.
— Imediatamente, Presidente.
Não demorou muito. Cerca de quinze minutos depois, a porta se abriu e a principal redatora do “Jornal Jabuticaba” apareceu. Matilda havia trocado a túnica de linho cru por um vestido simples mas bem cortado, de um verde musgo que combinava com seus olhos, que aliás no momento estavam verdes, mas Carlos podia jurar que no seu último encontro com ela, eles tinham uma cor diferente. Seu cabelo estava preso em um coque prático, mas alguns fios rebeldes caíam sobre sua testa. Ela carregava sua pasta de couro e um caderno de anotações.
— O senhor me chamou, Presidente? Deseja me ver?
— Sim, Matilda. Por favor, sente-se aqui — Carlos indicou a cadeira que Sussurro ocupara. — Apenas quero fazer umas perguntas rápidas, acompanhar o andamento.
Matilda assentiu, sentando-se com uma postura naturalmente elegante, mesmo na cadeira simples. Ela colocou a pasta no colo e abriu o caderno, seus dedos ágeis encontrando a página certa rapidamente. Parecia ter esperado a pergunta.
— Como está o andamento do jornal? A primeira edição está tomando forma?
— Está indo muito bem, Presidente — ela respondeu, sua voz clara e profissional. — Graças aos eventos da última batalha, temos nossa manchete principal garantida: “A Resistência no Riacho: Heróis Anônimos e a Virada Estratégica”. Estou trabalhando nos relatos baseados nos depoimentos do Sargento Pedro, da Sargento Tainá e de outros. É uma história poderosa.
— Excelente.
— Também reservei espaços para notícias administrativas: as novas contratações na fábrica de papel e na gráfica, obviamente; o concurso para cargos no próprio jornal para repórteres auxiliares; e os editais de obras públicas.
Carlos fez um gesto afirmativo. Era exatamente o escopo que ele imaginava.
— Perfeito. Adicione mais duas coisas: hoje à tarde a cisterna principal entrará em funcionamento, levando água encanada para os primeiros quarteirões da Rua dos Fundadores, várias lojas e duas fábricas. Já começamos a escavação para mais duas cisternas menores. Coloque isso na seção de “Progresso da República”. E… — ele hesitou por um segundo, escolhendo as palavras. — …tenho mais uma pergunta, de natureza mais pessoal e técnica, se me permite.
— Estou à disposição.
— Sua gema mágica, a da Pintura. Pode me mostrar como funciona? A ferramenta que você usa, talvez?
Matilda não respondeu imediatamente. Seus olhos verdes estudaram Carlos por uma fração de segundo, avaliando sua genuína curiosidade. Então, sem cerimônia, ela pegou um objeto longo e fino de um bolso interno de seu vestido. Não era um pincel de artista, mas algo que lembrava uma caneta-tinteiro grossa, feita de madeira escura polida. Na empunhadura, incrustada, havia uma gema do tamanho de uma unha, que brilhava com uma luz opaca e iridescente, como uma bolha de óleo sob o sol.
Analisou bem o pincel e também os olhos de Matilda.”Nossa, os olhos dela eram mesmo cor de esmeralda? Não lembrava disso…”
— Este é o ‘pincel’ — ela disse simplesmente.
Com um movimento suave, ela tocou a ponta de madeira da ferramenta na superfície de um de seus brincos de prata. Não houve flash de luz, nem som. Mas, diante dos olhos de Carlos, o brinco mudou. O metal prateado adquiriu instantaneamente um profundo tom de ouro rosé, e a pequena pedra azul incrustada nele transformou-se em um verde-esmeralda vibrante e cintilante. A mudança foi completa e impecável.
— Preciso refazer este processo todo dia, em cada objeto que desejo que mantenha esta aparência — explicou Matilda, com um tom quase de desculpa. — Senão, em vinte e quatro horas, a ‘tinta’ mágica se dissipa e o objeto volta à sua cor e textura originais. O consumo de mana é baixo. É um hábito diário, como escovar os dentes.
“Mas que interessante!”, Carlos pensou, fascinado. “A mudança é instantânea e drástica. Mais precisa que qualquer tinta. Isso poderia revolucionar a sinalização, a rotulagem, a identificação de documentos oficiais à prova de falsificação… ou até camuflagem para equipamentos!”
— É uma habilidade fascinante, Matilda. E todas as ferramentas mágicas têm essa… limitação de duração? — perguntou ele, tentando não soar demasiado esperançoso.
Ela balançou a cabeça, um fio de cabelo solto balançando.
— Sim. A minha gema, em particular, é considerada… bem, frívola. Uma curiosidade de nobres ricos e ociosos. — Seus lábios se curvaram em uma expressão amarga. — Por isso nunca houve muita pesquisa ou desenvolvimento sobre seus usos práticos. O foco sempre foi em gemas que matam, congelam, queimam ou protegem no campo de batalha. Tudo além disto é visto como supérfluo, por isso talvez haja algum método de mudar a cor de forma permanente, mas ainda não foi descoberto.
Carlos suspirou, um som longo e carregado de frustração. Ele olhou para a caneta-pincel em suas mãos, vendo não uma futilidade, mas um potencial negligenciado.
— Se eu tivesse um Artesão Mágico sob meu comando… as perguntas que eu faria, os testes que conduziríamos… não seria assim. — Ele abanou a cabeça, dissipando o devaneio. — De qualquer forma, obrigado pela demonstração e pela honestidade, Matilda. Pode ser que um dia sua ‘frivolidade’ se torne uma das maiores riquezas da República. Pode se retirar, e continue o excelente trabalho no jornal.
— Obrigada, Presidente. Terá as provas da primeira página amanhã pela manhã.
Com outro aceno de cabeça preciso, Matilda se levantou, guardou sua ferramenta mágica e saiu do escritório, seus passos silenciosos no tapete sendo os únicos sons até que a porta se fechou suavemente.
Carlos ficou sozinho, o silêncio caindo novamente sobre a sala, agora carregado de novas possibilidades, novos problemas e o peso constante de um futuro que precisava ser construído, palavra por palavra, bala por bala, e talvez, um dia, magia por magia.

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