Índice de Capítulo

    O ar do bar era uma mistura densa e convidativa: o cheiro gorduroso de fritura, o aroma amadeirado da cerveja derramada, o doce ácido das frutas amassadas para as caipirinhas e o suor seco de trabalhadores que terminavam seu turno. Luzes fracas de lampiões de óleo de peixe criavam poças amareladas sobre as mesas de madeira áspera, onde se via o desgaste de incontáveis copos e cotovelos. O burburinho de vozes, risadas e o tinir constante de vidros formavam uma trilha sonora constante.

    Nzambi afundou-se um pouco mais na cadeira de madeira rústica, sentindo o encosto áspero contra as costas através da camisa simples. Na boca, o amargo fresco da cerveja artesanal ainda dançava na língua. À sua frente, no prato de barro simples, uma porção de batatas fritas douradas e crocantes dividia espaço com rodelas de calabresa frita, liberando um aroma defumado e apimentado que fazia a boca encher de água.

    Tainá, à sua direita, mergulhou uma batata especialmente longa num pires de barro cheio de ketchup caseiro – mais agridoce e com pedacinhos de tomate. Ela a levou à boca com um suspiro de satisfação antes de falar, os dedos ligeiramente pegajosos.

    — Esse lugar que a Sussurro recomendou é mesmo bom — disse ela, mastigando com prazer. O barulho crocante ecoou baixinho. — A batata está perfeita… e a caipirinha nem se fala. — Ela tomou um gole generoso da sua bebida rosa-pálido, onde pedaços de morango macerados boiavam. — Por falar nisso, cadê ela? Acho que combinamos de nos encontrar, não foi?

    Nzambi tomou outro gole da sua caneca de cerâmica, sentindo a espuma fria no lábio superior. Ele a limpou com as costas da mão antes de responder, sua voz um tom mais grave que o barulho ao redor.

    — Ela disse que tinha um compromisso antes… mas não deu detalhes. Só que viria mais tarde. — Ele encolheu os ombros, pegando um pedaço de calabresa com o garfo de metal simples. A carne estava suculenta e com uma crosta crocante de temperos. — Sabe… na batalha parecia que você conhecia ela.

    Tainá sorriu, um brilho nostálgico nos olhos que pareciam um pouco mais brilhantes sob o efeito do álcool. Ela pegou outra batata, rodando-a no ketchup.

    — Você é novo no Quilombo… na República, né? — Ela corrigiu-se com um leve aceno. — Quase todo mundo do exército antigo conhecia o trio. Espectro, Sombra e Sussurro. Eram… lendas. — Seu tom baixou, tornando-se quase conspiratório, obrigando Nzambi a se inclinar para frente para ouvir. — Todo soldado admirava eles. Com as gemas do Assassino, eles podiam fazer o que nenhum pelotão conseguia: entrar num engenho, sumir com um senhor cruel e sair sem deixar um único fio de cabelo como prova. — Ela fez uma pausa dramática, tomando outro gole. — Ah, e naquela época, era só a gema do Assassino mesmo. Nada de usar a gema da Escuridão…

    Nzambi mastigou a calabresa lentamente, absorvendo a informação. O sabor picante e defumado contrastava com a curiosidade crescente.

    — Entendo… — ele disse, depois de engolir. — Mas isso me leva a outra dúvida. Onde fica a gema do Assassino? Ou da Escuridão? Eles não usam nenhum colar visível, nenhum pingente… a arma da Sussurro eu vi, mas não tem nenhuma pedra brilhante nela.

    Tainá riu, um som alegre e aberto.

    — Todo recruta faz essa pergunta! — Ela apontou o garfo para ele, uma gota de ketchup caindo na toalha xadrez manchada da mesa. — O boato mais forte é que a gema do Assassino é invisível. Não só ela, mas o artefato mágico inteiro que ela estiver acoplada — seja uma adaga, uma besta ou o que for. — Ela baixou a voz novamente, os olhos escaneando o bar rapidamente, num reflexo antigo. — E a gema da Escuridão… dizem que fica na sombra da pessoa. Literalmente. Você nunca veria, porque ela só existe onde não há luz.

    Nzambi franziu a testa, intrigado.

    — Parece misticismo demais. Não pode ser só isso.

    — Pois é! — Tainá concordou, animada. — Tinha outro boato, de que eles deixam a gema do assassino bem no meio d-

    Antes que ela pudesse terminar a frase, algo mudou. O canto dos olhos de Nzambi captou um movimento na periferia. A sombra sob a última cadeira vaga da mesa — uma mancha negra e irregular no chão de terra batida — pareceu esticar-se e espessar. Não houve som, nem rajada de vento. Apenas um frio súbito, como se uma porta para uma adega tivesse sido aberta por um instante.

    E então, Sussurro estava simplesmente sentada na cadeira, como se sempre tivesse estado ali. Seu cabelo negro, agora solto e levemente úmido nas pontas, caía sobre os ombros. Ela ainda usava um vestido preto. Um sorriso pequeno e ligeiramente travesso brincava em seus lábios.

    — Então? — sua voz era suave, mas cortou o burburinho ao redor para os dois. — O que vocês estão falando de mim, hein? Como se não bastasse começarem a festa sem mim, ainda ficam bisbilhotando meus segredos profissionais?

    Tainá, pega de surpresa, engasgou com um pedaço de morango e tossiu antes de responder, com um tom de falso escândalo embriagado:

    — E quem disse que estávamos falando de você, moça? Estávamos discutindo… teorias de doutorado sobre mineralogia mágica! Muito avançado para você.

    Sussurro soltou uma risada baixa, genuína. Seus olhos, porém, pousaram em Nzambi, que a observava com uma mistura de admiração e cautela.

    — É mesmo? — ela perguntou, arqueando uma sobrancelha fina. — E você, Nzambi? Também virou um especialista em gemas?

    Nzambi sentiu um calor subir pelo pescoço. Ele tomou um gole longo de cerveja para ganhar tempo, sentindo o líquido frio descer.

    — Eu… só estava curioso. — Ele encarou-a. — Não me diga que você estava aí, ouvindo tudo, esse tempo todo?

    Os olhos de Sussurro brilharam com divertida inocência.

    — Eu? Jamais. Ficaria bisbilhotando uma conversa alheia? — Ela fez uma pausa teatral, estendendo a mão para pegar uma batata frita do prato de Tainá, mastigando-a com deleite. — É que, da escuridão, dava para sentir a vibe de diversão de vocês dois. Fiquei com inveja. Queria saber o assunto tão animado.

    Tainá ficou dividida entre rir e sentir-se culpada. Ela olhou para Sussurro, depois para Nzambi, e então sua vista captou a salvação: o garçom, um homem de meia-idade com um avental manchado, passava perto com uma bandeja vazia.

    — Ei, amigo! — ela chamou, erguendo a mão. — Venha cá, por favor! Traga uma caipirinha caprichada, com bastante cachaça e limão, para esta belíssima dama de cabelos negros e sedosos que acaba de honrar nossa mesa! E… traz mais uma de morango pra mim também, por favor!

    O garçom assentiu com um sorriso profissional e se afastou. Sussurro olhou para Tainá, o sorriso travesso ainda nos lábios.

    — Acha mesmo que elogios baratos e álcool me conquistam? — Mas seu tom era leve, brincalhão. — Você só tem sorte de que eu estou de excelente humor hoje.

    — Ah é? — Nzambi perguntou, interessado. — O que aconteceu?

    — Ganhei uma promoção. E um… presente, de certa forma. — Ela encolheu os ombros, mas o orgulho era visível na sua postura. — Embora, entre nós, presente de verdade seria um anel bonito, um vestido novo… não balas especiais para minha arma. Isso é equipamento.

    — Uma caipirinha é um presente melhor! — declarou Nzambi, com uma ousadia que a terceira caneca de cerveja lhe emprestava. — E hoje, tudo o que você beber fica por minha conta! Brindemos à minha heroína!

    Sussurro riu novamente, um som mais solto do que o usual.

    — Não precisa me pagar nada, Nzambi. Até porque, se me lembro bem, foi você quem destruiu a flecha assasina. Estamos quites. — Seu olhar fixou-se nele, e o tom de brincadeira diminuiu um grau. — Mas… se você realmente quer me deixar feliz, tem algo que pode fazer por mim.

    Nzambi, envolto no calor amigável do álcool e da companhia, nem pestanejou.

    — Claro! Fala. Tudo por uma mulher tão impressionante como você. — Ele fez um gesto amplo, quase derrubando o saleiro. — Nunca, na minha vida inteira, imaginei que estaria numa mesa, bebendo e rindo com duas guerreiras tão… incríveis e lindas.

    Tainá assobiou baixinho, divertida. Sussurro ignorou o floreio, mas um leve rubor subiu às suas maçãs do rosto. Ela pegou a caneca de cerveja que Nzambi tinha acabado de encher para ela e tomou um gole curto antes de falar, sua voz baixando para um tom mais sério, quase confidencial.

    — Obrigada pelo elogio. Mas o que quero é mais simples. Lembra da nossa conversa? Quando estávamos sendo perseguidos, e eu disse que você precisava falar com o Carlos sobre a sua adaga?

    O clima na mesa mudou instantaneamente. O sorriso de Nzambi congelou e depois desapareceu. Ele pousou a caneca na mesa com um toque mais seco do que pretendia. Seus dedos, ao redor do cabo de cerâmica, ficaram brancos de pressão.

    — Lembro — ele disse, a voz contida.

    — Pois é. Ele me pediu isso de novo hoje. E… — Sussurro hesitou, escolhendo as palavras com cuidado. — …ele estava sério, Nzambi. Muito sério. Não era uma curiosidade de chefe. Ele falou que envolve o futuro da República. A segurança de todo mundo.

    O ar parecia ter saído de Nzambi. Ele encolheu-se ligeiramente na cadeira, seus olhos fugindo para a superfície escura da cerveja. Um tremor quase imperceptível passou por seus ombros. Tainá, mesmo com a cabeça leve do álcool, notou. Ela esticou a mão pela mesa e deu um leve tapa nas costas da mão dele.

    — Ei. Olha pra cá.

    Nzambi ergueu os olhos, relutante.

    — Escuta, Nzambi — disse Tainá, sua voz perdeu a cantoria embriagada, ganhando uma firmeza áspera e materna. — Todo mundo sentado nesta mesa, todo mundo nesta cidade, carrega um fardo. Trauma, medo, cicatrizes que não são só no corpo. Eu tenho. Ela tem. — Ela apontou para Sussurro, que assentiu silenciosamente, seu rosto sério. — Mas isso ficou para trás. Aqui, ninguém vai te açoitar por fazer uma pergunta. Ninguém vai te tratar como uma ferramenta descartável. E isso já era verdade antes do Carlos. Ele só… deu um nome para isso. República. — Ela inclinou-se para frente. — Se ele está pedindo para conversar, é para conversar. Seja sincero. Nada de ruim vai te acontecer. Palavra de sargento.

    O olhar de Tainá era intenso, convincente. Nzambi respirou fundo, o cheiro do bar – a gordura, a cerveja, a madeira – enchendo seus pulmões como uma âncora ao presente. Ele olhou para Sussurro, que manteve seu olhar tranquilo e expectante.

    Por um longo momento, só o barulho do bar persistiu. Então, Nzambi soltou o ar num longo suspiro, seus ombros afundando, mas não de derrota – de resignação aliviada.

    — Tudo bem… — ele murmurou. — Eu… eu falo com ele.

    — Ótimo — disse Sussurro, e o sorriso voltou ao seu rosto, dissipando a tensão. — Não é um interrogatório. É só uma conversa.

    Naquele exato momento, como se cronometrado por um diretor de palco, o garçom reapareceu com uma bandeja. Sobre ela, dois copos altos: a caipirinha amarelo-esverdeada de Sussurro, outra rosa para Tainá.

    — Garçom me vê mais uma cerveja. — Disse Nzambi.

    Não demorou muito para ele trazer, e assim que trouxe, Tainá ergueu seu copo.

    — Então, um brinde! Á estarmos vivos! A nossa Vitória! Nossa medalhas! Nossas promoções!

    — À República! — Nzambi ergueu o seu copo.

    — E à esperança de que o próximo presente do Carlos seja um vestido! — completou Sussurro, erguendo o dela.

    Os três copos se encontraram no centro da mesa com um clink satisfatório. O momento sério havia passado, dissolvido no álcool e na camaradagem. Enquanto davam o primeiro gole das novas bebidas – Sussurro sentindo o ardente suave da cachaça, Nzambi o amargo da cerveja, Tainá a familiar doçura do morango –, a conversa voltou a fluir para assuntos mais leves: histórias exageradas de treinamento, a comida horrível do quartel, os rumores sobre quem estava flertando com quem na nova milícia.

    A sombra sob a mesa de Nzambi parecia comum novamente. Mas, por um instante, ela havia sido uma porta. E, naquele bar ruidoso e cheio de vida, três pessoas que haviam conhecido apenas a escuridão do passado bebiam juntas, deixando a luz morna dos lampiões iluminar seus rostos sorridentes.

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