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    A luz da manhã não entrava suavemente; ela irrompia por uma fresta entre as tábuas de madeira que fechavam a pequena janela, formando uma coluna brilhante e cheia de partículas de poeira que dançavam lentamente no ar parado. Tainá gemeu, fechando os olhos contra a invasão luminosa. Sua cabeça latejava com uma dor surda e familiar – a conta da noite anterior. Ela tentou se virar, mas seu corpo estava pesado, ancorado por um cobertor grosso de lã áspera.

    Quando finalmente forçou os olhos a se abrirem, o teto que viu não era o de concreto de seu apartamento que ela tanto se orgulhava por ter sido uma das primeiras a comprar. Era baixo, feito de taipa escura e irregular, com algumas raízes finas penduradas como fios de cabelo de terra. O cheiro também era diferente: em vez de suas flores que ela deixava perto de sua cama, havia um aroma de terra e mais forte que tudo, um cheiro doce e encorpado de melado fresco.

    — Onde estou…?

    A voz dela saiu rouca, um sussurro que raspou na garganta seca. Ela tentou se sentar, e foi aí que percebeu outra coisa: o peso e a textura do cobertor não eram os únicos contra sua pele. O ar frio da manhã tocava seus ombros e a parte superior do peito de uma forma muito… direta.

    Antes que o pânico pudesse se instalar completamente, uma silhueta apareceu na porta do quarto. Nzambi estava parado ali, enquadrado pela luz do cômodo principal. Ele segurava um prato raso com alguns pães redondos e escuros. Um leve sorriso brincava em seus lábios, mas seus olhos tinham um cansaço simpático.

    — Pelo visto, alguém acordou na hora certa — disse ele, a voz calma e um tanto divertida. Ele entrou no quarto pequeno e pousou a pequira em um banquinho de madeira próximo. — Eu comprei pão na padaria nova que abriu perto do riacho. Tem melado quentinho, chá de ervas para a cabeça e um pouco de leite de cabra, se aguentar.

    Tainá olhou para ele, a mente ainda embaralhada pela neblina do álcool e do sono profundo. A memória da noite era um mosaico de cores, risadas, o tilintar de copos e… calor. Muito calor.

    Então, o ar frio contra sua pele chamou sua atenção novamente. Ela olhou para baixo.

    Seus seios estavam completamente descobertos, expostos à luz difusa do quarto e ao olhar de Nzambi. A pele morena, herdada de sua mãe indígena, estava ali, sem a barreira de nenhum tecido.

    Um choque elétrico de consternação percorreu sua espinha. Ela agarrou o cobertor áspero e puxou-o com força até o queixo, com um movimento brusco que fez a cama de madeira rangir.

    — Pera aí! — sua voz agora era um guincho de puro horror. — O que aconteceu? O que nós fizemos!?

    Nzambi ergueu as mãos em um gesto pacífico, quase perdendo o equilíbrio com o prato de pães. Seu sorriso se abriu em um quase riso, mas ele o conteve, limitando-se a balançar a cabeça.

    — Nós!? — ele disse, uma nota de incredulidade genuína na voz. — Nada, Tainá. Absolutamente nada. Eu juro pelos Deuses Antigos e pelos novos. 

    O alívio foi instantâneo, mas curto. Porque, ao puxar o cobertor, Tainá sentiu um novo peso e calor atrás de suas costas. E então, uma voz sonolenta, áspera de sono e ainda carregada da rouquidão da cachaça, murmurou contra seus ombros.

    — Dá pros dois pararem de gritar? — a voz resmungou, e um sopro quente tocou a nuca de Tainá. — Quero dormir mais um pouco… o quarto tá girando.

    Com um movimento lento e temeroso, como se estivesse se virando para enfrentar um espectro, Tainá olhou por cima do ombro.

    Lá estava Sussurro. Deitada de lado, seu longo cabelo negro espalhado como uma mancha de tinta sobre o travesseiro de palha. Seus olhos estavam fechados, os longos cílios formando sombras sobre as maçãs do rosto. E, assim como Tainá, ela não usava uma única peça de roupa. A luz suave iluminava a curva de seu ombro, a linha de sua coluna, a suavidade de sua cintura sob o cobertor que ela compartilhava.

    “Meu Deus.”

    Nzambi, vendo a expressão de desespero mudo de Tainá, não conseguiu mais segurar um sorriso largo. Ele se apoiou na batente da porta.

    — Como eu disse — ele repetiu, o tom agora francamente divertido. — Nós não fizemos nada. Já vocês duas… Quando nós viemos á minha casa, aos tropeços, e você, Tainá, declarou ‘Vamos nos divertir aqui, Nzambi!’, meu coração até acelerou. Achei que tinha tirado a sorte grande. — Ele suspirou, teatralmente. — Mas não, não sobrou nada para mim. Fui relegado a espectador. Mas, bem, sendo justo, acho que ainda tive muita sorte. O show foi… absolutamente deslumbrante.

    Nesse momento, Sussurro se espreguiçou. Foi um movimento longo, preguiçoso e completamente desinibido. Ela arqueou as costas, os braços se estendendo acima da cabeça, e o cobertor escorregou ainda mais, revelando mais de seu torso antes que ela o puxasse de volta sem pressa. Ela abriu um olho, apenas um, e mirou Nzambi com um olhar sonolento e malicioso.

    — Sinto muito, amigo — ela murmurou, sua voz um ronronar baixo. — É que a Tainá, depois da terceira caipirinha, ficou com uma ousadia… impressionante. Um furacão. Não deu tempo nem fôlego para te incluir na dança. — O canto de sua boca se curvou em um sorriso lânguido. — Mas quem sabe na próxima eu possa te incluir, né? A gente marca com mais antecedência.

    Tainá sentiu o calor subir do pescoço até as orelhas, inundando seu rosto. Sua pele morena, herdada de gerações na floresta, não costumava mostrar rubor facilmente, mas naquele momento ela sentiu que devia estar da cor de um jenipapo maduro. As memórias agora voltavam em flashes desconexos, mas intensos: risadas sufocadas no escuro, o toque de mãos exploratórias que não eram de um homem, a sensação de pele lisa contra a sua, a curiosa mistura de timidez e curiosidade embriagada…

    “Não acredito nisso… nunca, nunca fiz nada assim com uma mulher! Nunca tinha nem pensado nisso!”

    A vergonha, a confusão e o embaraço se fundiram em um impulso puro e infantil. Sem pensar, ela agarrou o travesseiro de palha ao seu lado – que cheirava a Nzambi e a noite passada – e, girando com a força de um arremesso de pedra, lançou-o diretamente contra o rosto sorridente do homem na porta.

    — PARA de ficar olhando! — ela gritou, sua voz misturando constrangimento e raiva falsa. O travesseiro acertou Nzambi no peito com um puff baixo, fazendo-o dar um passo para trás, rindo agora abertamente.

    Tainá então se enrolou no cobertor como uma crisálida, arrastando-o consigo enquanto saltava da cama, expondo brevemente as pernas de Sussurro antes de envolver-se completamente no tecido áspero. Ela ficou de pé, uma figura imponente e enrolada, apontando um dedo acusador primeiro para Nzambi, ainda rindo na porta, e depois para Sussurro, que agora observava a cena com ambos os olhos abertos, um sorriso descarado estampado no rosto.

    — E vocês dois! — Tainá ordenou, tentando soar como sua versão sargento, mas falhando miseravelmente devido ao tom agudo e ao fato de estar enrolada como um casulo. — Nada de falar disso com ninguém! Isso nunca aconteceu! Foi um… um lapso etílico coletivo! Um evento anômalo! Entenderam?!

    Sussurro apoiou a cabeça na mão, o cabelo caindo sobre seu rosto.

    — Um ‘evento anômalo’ que envolveu meus dedos na sua—

    — SILÊNCIO! — Tainá a interrompeu, gritando, seu rosto agora em um rubor nuclear. — Eu vou me trocar! Na outra sala! E se algum de vocês espiar, eu juro que vou… vou…

    Ela hesitou, procurando uma ameaça adequada.

    — Vou contar para todo mundo que o Nzambi nunca pegou ninguém! — ela blasfemou, lembrando-se de algo que ele havia confessado na terceira rodada de cerveja.

    O sorriso de Nzambi desapareceu instantaneamente.

    — Ei, isso é baixo!

    — E que Sussurro tem uma capivara de pelúcia chamado Mimo! — Tainá disparou, vingativa.

    Sussurro sentou-se abruptamente na cama, o cobertor preso contra o peito, seus olhos agora bem abertos e surpresos.

    — Como você…? Eu não lembro de ter falado isso! Mas saiba que foi presente de minha mãe quando eu era criança, ela costurou para mim, e não tem problema nenhum uma adulta guardar com carinho e dormir com um presente que ganhou de sua mãe!

    — Se não quiserem que todo o quartel saiba disso, saiam!  — ordenou Tainá, apontando para a porta.

    Rindo e trocando olhares divertidos, Nzambi e Sussurro – esta última envolvendo-se rapidamente no lençol como uma toga improvisada – saíram do quarto, fechando a porta de madeira simples atrás de si.

    Tainá ficou sozinha no centro do quarto frio, ainda envolta no cobertor pesado. Ela respirou fundo, o ar frio limpando um pouco o restante da névoa em sua mente. Ouviu os risos abafados do lado de fora da porta e os passos de Nzambi indo em direção ao fogão.

    Ela olhou para a cama desarrumada, para a luz do dia filtrando-se pela fresta, e um suspiro profundo e complexo escapou de seus lábios. A vergonha ainda estava lá, ardente. Mas, por baixo dela, uma centelha de algo mais… uma confusão intrigada, o eco de uma sensação nova e proibida que a noite havia despertado.

    “Evento anômalo”, ela pensou, tentando se convencer. Mas uma parte menor e mais honesta de sua mente sussurrou: “Foi… interessante.”

    Sacudindo a cabeça para dispersar o pensamento, ela começou a procurar suas roupas, que estavam espalhadas pelo chão de terra batida como pétalas após uma tempestade.

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