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    A tarde já começava a inclinar-se para o fim no escritório de Carlos. A luz que entrava pela janela de vidro irregular era dourada e poeirenta, iluminando as estantes abarrotadas e os papéis sobre a pesada mesa de madeira.

    Uma batida suave na porta interrompeu o silêncio. Antes que Carlos pudesse responder, a porta entreabriu-se e a cabeça cuidadosamente penteada de Márcia, sua secretária, apareceu na fresta.

    — Presidente? O senhor Nzambi está aqui. Diz que gostaria de falar com o senhor.

    Carlos ergueu os olhos de um relatório sobre a produção de papel. Um frio súbito de expectativa, mesclado com uma pontada de apreensão, percorreu sua espinha.

    “Finalmente. Talvez hoje eu consiga encaixar mais uma peça desse quebra-cabeça maluco.”

    — Perfeito, Márcia. Por favor, pode mandá-lo entrar.

    — Sim, senhor.

    A porta se fechou, e por alguns segundos, o único som foi o raspado da pena de Carlos sobre o papel. Ele a pousou ao lado do tinteiro, sentindo a umidade residual da tinta em seus dedos. Pouco depois, a porta se abriu novamente, mais devagar desta vez.

    Nzambi entrou. Ele estava limpo, vestindo roupas simples de algodão cru – calça e camisa que a República fabricava – mas parecia minúsculo e frágil naquele espaço. Seus olhos, normalmente observadores, estavam baixos, fixos no chão. Ele carregava um objeto comprido e estreito, envolto em um pano grosso de linho. Suas mãos, envoltas no tecido, tremiam visivelmente, fazendo o pano sussurrar contra si mesmo.

    — Boa tarde, presidente — a voz de Nzambi saiu rouca, quase um sussurro. Ele ergueu ligeiramente o objeto embrulhado. — Vim… vim falar sobre a adaga. Como a senhorita Sussurro pediu.

    Carlos estudou-o por um momento, vendo a tensão nos ombros, o queixo cerrado. Não era medo de uma punição, era o temor de alguém prestes a revolver um passado doloroso.

    — Nzambi, obrigado por vir. E, por favor, não precisa ter medo — disse Carlos, sua voz deliberadamente calma e plana. Ele fez um gesto com a mão em direção à cadeira de madeira simples em frente à sua mesa. — Pode se sentar. Vamos conversar.

    Nzambi deu um passo hesitante em direção à cadeira. Foi então que a sombra projetada pela janela na parede oposta – uma mancha alongada e escura – pareceu respirar. Ela se descolou da parede, ganhou volume e forma em um movimento fluido e silencioso que desafiava os olhos. E, onde antes havia apenas escuridão, agora estava Sombra, em pé, bloqueando suavemente o caminho entre Nzambi e a cadeira.

    Nzambi deu um salto para trás, um pequeno grito sufocado escapando de seus lábios. A adaga embrulhada foi puxada contra seu peito, como um escudo.

    Sombra nem sequer pareceu notar a reação. Seu rosto era uma máscara de profissionalismo sereno.

    — Peço desculpas pelo susto, Nzambi — disse Sombra, sua voz era neutra, quase monocórdica, mas não ameaçadora. — É um protocolo de segurança. Pelos relatórios da Sussurro, aquela adaga é um artefato de poder considerável a curta distância. — Ele voltou-se ligeiramente para Carlos, dando um breve aceno de cabeça. — É para a sua segurança também, presidente.

    Carlos assentiu uma vez, confirmando. Ele via a lógica, por mais que aumentasse a tensão do momento.

    — Entregue a adaga ao Sombra, por favor, Nzambi — Carlos instruiu. — É apenas uma precaução. Ela será devolvida a você depois da nossa conversa. Você tem minha palavra.

    A promessa, dita com firmeza, pareceu acalmar um fio da nervosidade de Nzambi. Ele olhou para o pano, depois para Sombra, que permanecia imóvel, uma estátua de paciência e vigilância. Lentamente, com dedos ainda trêmulos, Nzambi desenrolou o pano.

    A adaga que surgiu não era ornamentada, mas sua simplicidade era sinistra. A lâmina era curta e de um roxo tão profundo que beirava o negro, e parecia pulsar com uma luz interna opaca, como um coração de breu parecia absorver a luz. O cabo era de madeira escura. Uma aura quase imperceptível, uma distorção no ar como o calor sobre uma fogueira, envolvia a lâmina.

    Sombra estendeu a mão, usando um pedaço de couro escuro para pegá-la, evitando tocar a lâmina ou a gema diretamente. Seus movimentos eram precisos, reverentes e cautelosos, como quem manuseia um ovo de serpente venenosa. Assim que a adaga foi transferida, uma leve mudança ocorreu na postura de Nzambi. Parte da rigidez saiu de seus ombros, como se um peso físico tivesse sido removido.

    — Agora pode se sentar — disse Sombra, recuando um passo e segurando a adaga com ambas as mãos, a ponta voltada para baixo e para longe de todos.

    Nzambi finalmente se aproximou da cadeira e se sentou, suas mãos agora vazias se apertando no colo. Ele parecia menor ainda sentado, diante da grande mesa.

    Foi Carlos quem quebrou o silêncio pesado, escolhendo suas palavras com cuidado para construir um terreno comum.

    — Nzambi, você já deve ter ouvido os… boatos. As conversas de que eu não sou deste mundo. — Ele fez uma pausa, observando o rosto do homem. — Eles são verdade. Nem eu, nem muitos desses livros que estão na estante atrás de mim pertencem a este lugar.

    Carlos virou-se e apontou para uma prateleira específica, onde alguns volumes encadernados em couro, com títulos em idiomas estranhos, repousavam. Nzambi seguiu seu olhar, seus olhos se arregalando levemente.

    — Todos esses itens têm uma coisa em comum — Carlos continuou, virando-se novamente. — Eles exalam uma certa… presença. Uma aura de cor roxa, quase negra. A mesma aura que sua adaga exala. Por isso, eu acredito, sei, que há uma ligação entre eles. — Ele inclinou-se para frente, os cotovelos apoiados na mesa. — Só que há uma diferença crucial. Os artefatos do meu mundo foram trazidos para cá. O efeito da sua adaga, pelo que descreveram, parece ser o oposto: ela não traz coisas, ela as envia. Manda para longe, talvez… para o meu mundo.

    Nzambi ficou imóvel por um longo momento, processando. O medo em seus olhos deu lugar a uma surpresa profunda, e então a um reconhecimento sombrio. Ele abriu a boca, fechou, e finalmente falou, sua voz um pouco mais forte.

    — O senhor… o senhor tem razão. A gema desta adaga está relacionada com esses “artefatos do diabo”. Eu vim de Gemas Gerais. E lá, nas profundezas das minas e nos sussurros dos que serviam ao dono delas, essa gema tem um nome. — Ele engoliu seco. — É a Gema do Sacrifício.

    Carlos sentou-se mais ereto. “Gema do Sacrifício”. O nome em si era uma confirmação e uma sentença. Então ele pegou um caderno e uma pena, e mergulhou na tinta e começou a anotar o que Nzambi falava.

    — Continue — ele pediu, pegando a pena novamente e molhando-a no tinteiro.

    — Claro, esse nome não é de conhecimento público — Nzambi prosseguiu, seus olhos perdendo-se em uma memória distante. — Na verdade, o segredo era guardado a sete chaves pelo Sacerdote do Fogo, e por ele passado ao dono das minas, Guilherme. Só um círculo muito fechado sabia.

    A pena de Carlos parou no ar, uma gota de tinta caindo no papel e criando uma mancha azul-escura. Ele ergueu os olhos, sua atenção totalmente capturada.

    — Sacerdote? — a pergunta saiu mais cortante do que ele pretendia. — A Igreja está envolvida nisso? A Papisa sabe?

    Nzambi balançou a cabeça com vigor.

    — Não, não dessa forma. Este sacerdote… ele é diferente. Também é do Novo Mundo, mas do Norte. Seu nome é Tlenamaca. — Nzambi pronunciou o nome com cuidado, as sílabas estranhas soando exóticas no ar do escritório. — Não me pergunte como ele veio parar aqui, ou como esses dois se encontraram. Só sei que o interesse de Guilherme pelos “artefatos do diabo” veio dele. E o sacerdote… ele sabe como invocá-los.

    Carlos sentiu um frio percorrer sua espinha, seguido por uma centelha de esperança pervertida.

    — Como? — a palavra escapou-lhe como um suspiro. — Como se invocam? Basta usar a Gema do Sacrifício e canalizar mana?

    Nzambi encolheu-se na cadeira. Suas mãos, agora entrelaçadas no colo, apertaram-se com tanta força que os nósculos ficaram brancos. Ele olhou para o chão por um longo momento antes de erguer os olhos, e neles Carlos viu um oceano de dor e culpa.

    — Não — a resposta foi um sussurro carregado de horror. — Não é tão simples. O adepto da gema… ele tem que alimentá-la. — Nzambi fez uma pausa, lutando para encontrar as palavras. — Precisa usar… vidas. Vidas humanas. Quanto mais vidas, mais poder. Quanto mais mana elas tiverem – os sacrifícios –, mais estável e poderosa a invocação.

    A pena escapou dos dedos de Carlos e rolou sobre a mesa, deixando um risco irregular de tinta. Ele a olhou, atordoado, antes de fitar Nzambi novamente.

    — Mas você… você ativa seu poder sem matar ninguém. A Sussurro descreveu você usando a adaga para fazer coisas desaparecerem.

    Um lampejo de algo amargo passou pelo rosto de Nzambi.

    — Isso porque eu sou o sacrifício perfeito, presidente. Eu sou um adepto da Gema do Sacrifício. Minha própria vida, meu próprio sangue… eles têm um valor intrínseco para a gema, além disso tenho muita mana em meu corpo. — Ele ergueu o pulso, onde finas cicatrizes lineares eram visíveis. — Em Gemas Gerais, eu era o “catalisador vivo”. Meu sangue era usado para completar rituais menores, para ativar o poder de envio da adaga. É por isso que quando cheguei aqui, na carroça… eu estava envolto em faixas. — Sua voz quebrou um pouco. — Eles me drenavam como uma fruta. Mas invocar? Trazer algo para cá? Isso… isso eu não consigo fazer. Não sem… sem outras vidas.

    Carlos engoliu seco. A sala parecia ter ficado mais fria. O cheiro da cera e da tinta agora parecia enjoativo.

    — E é possível — ele forçou a pergunta a sair — invocar algo específico? Algo que se deseja?

    Nzambi assentiu lentamente, um movimento pesaroso.

    — Pode-se invocar o que o portador da gema desejar. Mas o custo… o custo é proporcional. Você precisa pagar com vidas equivalentes ao que pede.

    — Quantas? — a pergunta de Carlos foi direta, impessoal, a pergunta de um estrategista calculando recursos, mas seu estômago se revirava. — Quantas vidas para… um livro, por exemplo? Um livro do meu mundo?

    A expressão de Nzambi tornou-se profundamente triste. Ele olhou para Carlos não com medo agora, mas com uma resignação devastadora.

    “Eu sabia”, o pensamento de Nzambi ecoou em seu próprio silêncio. “Ele vai querer usar o poder. Todo mundo quer, no fim. Vidas vão ser perdidas por causa dessa maldição…” Ele olhou para os olhos de Carlos, tentando ler neles mais do que a ânsia por conhecimento. Lembrou-se da confiança de Tainá, da lealdade de Pedro, da proteção silenciosa de Espectro e até do respeito profissional de Sussurro. “Mas eles confiam nele. Talvez… talvez eu também deva tentar.”

    — Um livro — Nzambi começou, sua voz oca — é pequeno em tamanho, mas complexo em essência. Cheio de ideias, de símbolos, de um conhecimento estruturado. Para trazer um só… dezenas. — Ele viu o rosto de Carlos se contrair e prosseguiu, implacável. — Para objetos pequenos e simples, como certas ferramentas, talvez algumas vidas. Para algo grande e complexo, como algumas das máquinas que Guilherme trouxe… centenas. — Ele fechou os olhos por um instante. — O sacerdote Tlenamaca… ele contava histórias. Em sua terra, eles usavam milhares. Milhares de vidas para a invocação dos “artefatos do diabo”. Ou, como ele os chamava, os ‘presentes do deus Sol, Tonatiuh’.

    “Que merda.” O pensamento de Carlos foi um soco de desilusão. “Pensei que fosse uma brecha. Uma forma de trazer conhecimento, de acelerar tudo… até mesmo para convencer a Papisa.” Sua mente então disparou em uma nova direção. “Mas isso confirma a origem. Asteca. Os sacrifícios em massa… faz um sentido macabro. Mas e Francisco? Ele também tem artefatos. Será que o método é o mesmo?” Um novo horror se instalou. “Guilherme… ele tem minas, tem escravos. Meu Deus.”

    — Guilherme — a voz de Carlos saiu rouca. — Ele usa vidas de escravos para essas… invocações?

    Nzambi assentiu, seu rosto uma máscara de repulsa.

    — Sim.

    Carlos afundou-se na cadeira, esfregando o rosto com as mãos. A pele estava fria e úmida.

    — Monstruoso — ele murmurou, mais para si mesmo. — Nenhum livro, nenhuma máquina, vale uma vida humana. — Ele olhou para Nzambi novamente, sua expressão agora carregada de uma preocupação prática e urgente. — Mas isso me traz um problema ainda maior. Você sabe se ele está trazendo tecnologias específicas do meu mundo? Armas? Conhecimento militar?

    “Se nosso inimigo tem apoio internacional, riquezas, gemas e acesso controlado à nossa única vantagem – o conhecimento de outro mundo –, então estamos não apenas em desvantagem. Estamos fadados ao fracasso antes mesmo de começar.”

    — Dessas tecnologias… eu não sei os detalhes — Nzambi admitiu, franzindo a testa em concentração. — Eu via as coisas de longe, quando me levavam para os rituais. Primeiro, ele focou em máquinas para a mineração. Máquinas estranhas, mas de certa forma parecidas com as que você tem aqui movidas a vapor mais eficientes, sistemas de bombeamento… coisas para extrair mais riqueza da terra. Depois… depois o foco mudou. Ele estava obcecado em conseguir mais ouro. Muito mais. Dizia que precisava de “capital” para algo maior. — Ele fez uma pausa. — Ah, ele também é dono de uma mina de ouro, nas terras a oeste de Gemas Gerais.

    Carlos franziu a testa, intrigado.

    “Ouro? Já descobriram as minas principais no Brasil? Estamos séculos adiantados… mas claro, a geografia aqui é outra. As riquezas podem estar em lugares diferentes.”

    — Imagino — disse Carlos, retomando o fio da conversa — que você tenha fugido dele, e que tenha roubado a adaga no processo, correto?

    Um brilho de feroz satisfação passou pelos olhos de Nzambi, brevemente.

    — Sim. Num dia, eles foram… ambiciosos demais. Achavam que tinham me matado, que haviam extraído tudo. Deixaram meu corpo como um trapo em um canto escuro. — Seus dedos tocaram as cicatrizes no pulso. — Mas eu estava vivo. Mais fraco que um filhote, mas vivo. E cheio de um ódio que não sabia que tinha. Quando o guarda veio me arrastar para o poço… eu o surpreendi. Peguei a adaga que ele carregava para o próximo ritual. — Ele olhou para o pacote nas mãos de Sombra. — Pena que, na hora, o medo e a vontade de viver foram mais fortes. Pensei apenas em fugir. Não pensei em voltar e cortar a garganta de Guilherme ou do sacerdote. Só… fugir.

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