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    O relato de Nzambi sobre sua fuga – o corpo dado como morto, a fraqueza extrema, o ódio súbito que o fizera atacar, o instinto puro de fuga que falara mais alto que a vingança – pairou no ar do escritório como uma fumaça pesada. Carlos não via apenas o homem trêmulo à sua frente; via o rastro de dor, de violência despersonalizada, de um corpo usado como ferramenta e depois descartado. Uma compaixão profunda, nua e irracional, apertou seu peito. Não era a compaixão calculada de um líder, mas a resposta visceral de um homem que, em outro mundo, também acreditava no valor intrínseco de uma vida.

    Ele deixou o silêncio se estabelecer por um momento, permitindo que o peso das palavras de Nzambi encontrasse seu lugar. Quando falou novamente, sua voz não carregava julgamento, mas uma firmeza sólida, como uma fundação oferecida a quem estava à deriva.

    — Você sobreviveu — disse Carlos, com firmeza. — E nos trouxe informações inestimáveis. Isso é mais importante. — Ele fez uma pausa, pensativo. — Sem esta adaga específica, eles não conseguem realizar mais sacrifícios, não é? O ritual está interrompido.

    Nzambi balançou a cabeça, e a sombra da resignação voltou.

    — Não com esta adaga, não. Mas o sacerdote… ele tem o conhecimento. Ele sabe forjar novas. E ele tem acesso à fonte da Gema do Sacrifício, que fica nas terras de Guilherme. É só uma questão de tempo até fazerem outra. 

    Carlos passou a mão pelos cabelos, frustrado. O labirinto parecia não ter fim. Ele fez mais algumas perguntas – sobre as defesas da mina, sobre a personalidade de Guilherme, sobre os hábitos do sacerdote – mas Nzambi sabia pouco além do que já contara. Era um prisioneiro-valioso, não um conselheiro.

    Após quase uma hora, Carlos sentiu que havia extraído tudo o que podia sem torturar ainda mais o homem.

    — Muito obrigado, Nzambi. Você foi extremamente corajoso e ajudou a República mais do que imagina. Pode ir descansar.

    “Em nenhum momento”, o pensamento de Nzambi era um turbilhão de alívio e confusão, “ele perguntou os detalhes do ritual. Nem tentou ficar com a adaga. Ele não quer esse poder para si… pelo menos, não ao custo que ele exige.”

    Nzambi levantou-se, cambaleando ligeiramente, seja pela tensão, seja pela liberação. Foi então que Sombra se moveu. Silenciosamente, ele se aproximou, ainda segurando a adaga envolta no couro. Mas, em vez de a guardar, ele estendeu-a para Nzambi.

    — Tome — disse Sombra, simplesmente.

    Nzambi ficou paralisado, olhando para a adaga, depois para Carlos, depois para Sombra. A surpresa foi tão completa que por um momento ele pareceu não entender.

    — Eu… eu posso levá-la de volta?

    — É sua — confirmou Sombra, sua voz ecoando baixa e grave da penumbra ao lado da estante. Ele não se materializou completamente, mas sua presença no cômodo se intensificou, tornando-se palpável como uma queda de temperatura. — Você a conquistou, a carregou e aprendeu a dominá-la. E a República não compactua com sacrifícios humanos. Mantenha-a em segurança. — Houve uma pausa carregada, na qual o silêncio pareceu se espessar. Então, a voz voltou, um tom mais suave, quase áspero de uma emoção raramente vocalizada. — E… obrigado. Por salvar minha irmã daquela flecha assassina. Usar essa coisa para mandar a flecha para longe… foi o que a manteve viva, não só ela como Tainá.

    As palavras, vindas de Sombra e carregadas de uma gratidão áspera e genuína, atingiram Nzambi como um golpe. Um arrepio percorreu sua espinha, mas não era de medo puro — era uma mistura aguda de culpa, pânico e uma memória vívida e recente que se recusava a ser contida. O herói anônimo e sombrio, aquele que era um mito de temor e respeito, estava lhe agradecendo por salvar a pessoa que mais importava para ele. E essa mesma pessoa…

    “Quer dizer que Sussurro é a irmã do Sombra? Eu não sabia… Ele está me agradecendo por salvar a Sussurro… e eu esta manhã… só espero que ele não seja do tipo de irmão ciumento, porque se for… pelo que Tainá disse ele é um dos melhores assassinos da República.”

    A cena invadiu sua mente sem pedir licença: a luz do dia filtrando pelas frestas da sua própria casa, o calor residual sob o cobertor áspero. Ele se lembrava do caos inicial, de Tainá, ruborizada e furiosa, expulsando uma Sussurro surpreendentemente desinibida (e completamente nua) do quarto. A agente saíra rindo, sem suas roupas, que haviam ficado esparramadas pelo chão. O café da manhã que se seguiu foi uma prova de fogo. Sussurro, envolta apenas em um lençol que parecia desafiar as leis da física e da decência, sentara-se à mesa com uma naturalidade desconcertante, cada movimento casual revelando um flash de pele, cada olhar lançado em sua direção carregado de um humor travesso que o deixara em um estado de agonia e excitação contidas.

    Tainá, tentando recuperar um resto de dignidade, anunciara que iria se lavar no riacho e saíra, deixando um silêncio espesso para trás. Foi então que Sussurro, com aquele seu sorriso de gata que engoliu o canário, pegou sua mão. Sem uma palavra, ela o levou de volta para o quarto ainda quente, onde o cheiro delas ainda impregnavam o ar. O toque dela foi  assertivo, experiente, guiando seus movimentos desajeitados com uma paciência que era ao mesmo tempo excitante e um pouco intimidante. Sua primeira vez verdadeira, a que ele escolhera, tinha sido com ela. E tinha sido… reveladora.

    “Será que é muito protetor? Será que some com os amantes da irmã e some nas sombras e faz pessoas desaparecerem, já encontrei homens assim…” A imagem de Sombra não era a de um aliado, mas a de uma força da natureza, impessoal e letal. “E eu… eu acabei de… com ela… Ele é do tipo que esfaqueia um cara por olhar pra irmã dele de forma errada? Ele vai sumir comigo? Vai encontrar meu corpo num buraco, sem nem saber por quê?”

    O suor frio escorria pelas suas costas, sob a camisa simples.

    — Eu… eu só fiz o que qualquer um faria — Nzambi gaguejou para a sombra, sua voz um fio tenso de pânico contido. Ele apertou o embrulho da adaga contra o peito, não como um tesouro, mas como um escudo frágil. — A Sussurro… ela é incrível. Uma soldado incrível!

    Ele mal conseguia respirar. Cada palavra soava como uma confissão. Ele esperava, a cada segundo, qas mãos dele fossem em seu pescoço. Que a gratidão se transformasse em fúria assassina no momento em que Sombra suspeitasse da verdade.

    O silêncio que se seguiu foi absoluto e opressivo. Parecia durar uma eternidade. Nzambi podia ouvir o sangue pulsando em seus ouvidos.

    Finalmente, a voz voltou, neutra como a lâmina de uma faca, mas sem a frieza assassina que ele temia.

    — Sim. Ela é. — Uma pausa calculada. — E agora, você também é. Cuide dessa adaga. E de você. 

    — O presidente dispensou você. Pode ir — a voz finalizou, dissolvendo-se no ar junto com a sensação de presença observadora.

    Nzambi não esperou para ser convidado duas vezes. Ele se virou e quase tropeçou na própria perna ao sair, seu coração batendo como um tambor de guerra. A adaga nas suas mãos era um peso morto comparado ao terror renovado que carregava no peito. Ele havia sobrevivido à ravina, aos rituais de sangue e a uma noite de caos alcoólico. Mas a sombra de um irmão ciumento e mortal era um perigo completamente novo, e ele não tinha a menor ideia de como navegar por ele.

    — Obrigado, presidente — a voz de Nzambi saiu embargada, quase um sussurro rouco. Ele fez um aceno de cabeça rápido e desajeitado, seus olhos mal erguidos do chão. — Muito obrigado.

    Com passos apressados, quase deslizando no piso polido, ele se virou e saiu do escritório, fechando a porta com um click suave, porém definitivo, atrás de si.

    Carlos ficou sozinho no silêncio repentino. Ou melhor, quase sozinho. Ele podia sentir, como uma ligeira pressão na nuca e um friozinho persistente na sala apesar do sol da tarde, que Sombra ainda estava ali. Não mais uma silhueta definida, mas uma consciência diluída nas sombras alongadas que as estantes projetavam, uma atenção absoluta fundida à penumbra.

    Por um longo momento, Carlos apenas observou o ponto onde a porta se fechara, ouvindo os passos abafados de Nzambi desaparecerem no corredor. Um sorriso leve, meio incrédulo, tocou seus lábios.

    — Você realmente mete um medo danado nas pessoas, sabia? — ele comentou para o ar, sua voz soando alta no espaço vazio. — O Nzambi saiu daqui parecendo que tinha visto o próprio fantasma da morte. E ele é um homem que enfrentou bestas e fugiu de uma mina de sacrifícios.

    Da sombra mais profunda, ao lado da grande janela, veio um ruído baixo — não uma risada, mas algo próximo, um exalar de ar que poderia ser de humor ou de desdém.

    — Já imagino o que aconteceu  — a voz de Sombra surgiu, fluida e sem origem definida, como se as próprias sombras falassem. — Conhecendo minha irmã… ela deve ter feito alguma coisa. E o coitado agora deve estar achando que eu vou emergir de um canto escuro qualquer e ‘dar um sumiço’ nele pelo resto da eternidade apenas por ter pego minha irmã.

    Carlos soltou uma risada genuína, o som ecoando no escritório rico em madeira.

    — Sério? Acham que você é aquele tipo clássico de irmão mais velho super protetor e ciumento? O que espanca qualquer pretendente que chegue perto?

    — Sim — a resposta veio imediata, e dessa vez havia uma nota clara de humor ressonante na voz escondida. — Tudo por causa de um único… incidente. Há uns anos. Um ex dela que não entendia o conceito de ‘não’. O sujeito era persistente ao ponto da obsessão. Teve que dar um jeito nele se é que me entende.

    Carlos ainda sorria, imaginando a cena, mas o sorriso congelou em seus lábios quando o significado completo das palavras — e do tom casual com que foram ditas — afundou.

    “Dar um jeito’.” O pensamento de Carlos foi um mergulho súbito em águas geladas. “Dito por Sombra.” As eufemismos eram claras como vidro. Ele não precisava de detalhes. A imagem que se formou em sua mente foi suficiente: escuridão, silêncio, e a pura, aterrorizante conclusão que um homem como Sombra traria a uma situação dessas.

    “Pobre Nzambi…”, pensou Carlos, um frio percorrendo sua espinha que nada tinha a ver com a presença do adepto da Escuridão. “Ele deve estar em pânico absoluto, e talvez não seja um pânico infundado.”

    O breve alívio da situação cômica evaporou instantaneamente, dissipado pela realidade muito mais sombria e prática que pairava sobre eles. O sorriso desapareceu completamente do rosto de Carlos, substituído pela linha tensa de sua boca. A preocupação, que nunca tinha ido embora de verdade, voltou a ocupar seu posto no centro de seus pensamentos, mais pesada do que antes. O riso parecia agora uma intrusão grosseira no ambiente do escritório. O peso do futuro, das ameaças externas e dos perigos internos, assentou-se novamente sobre seus ombros, silencioso e implacável.

    A preocupação agora era uma pedra no estômago de Carlos. Um novo oponente, armado com uma tecnologia de outro mundo, financiado por ouro e construído sobre pilhas de cadáveres.

    Sem perder tempo, ele puxou uma folha de papel em branco, mergulhou a pena no tinteiro e começou a escrever com uma caligrafia rápida e decidida. Era uma carta para a Papisa. Ele relatava o que descobrira sobre a Gema do Sacrifício, sobre Tlenamaca, os métodos de Guilherme. E, no final, fazia a pergunta crucial, a que talvez ela, com sua rede de informações dentro da Igreja, pudesse responder:

    “Sua Santidade, diante dessa revelação, uma dúvida atroz me consome: como Francisco consegue seus ‘artefatos do diabo’? Seu método é o mesmo?”

    “A Papisa”, Carlos pensou, selando a carta com cera e pressionando o sinete da República sobre ela, “pode não ser minha aliada total. Mas sei que posso confiar em seu pragmatismo e em seu horror a uma prática tão bárbara. Além do mais, o desejo dela por esses artefatos é tão grande quanto o meu. Essa informação pode ser a alavanca que precisamos.”

    Ele ergueu a carta.

    — Sombra.

    Como se fosse materializado a partir do próprio ar, Sombra reapareceu ao lado da cadeira, um vulto silencioso.

    — Sim, presidente?

    — Esta carta deve chegar às mãos da Papisa, e apenas às dela. Use um canal seguro, alguém de absoluta confiança. — Carlos entregou a carta. — Lembre-se que Orsini também está na Cidade Sagrada. Se ele interceptar isso…

    — Entendido, presidente — Sombra pegou a carta, deslizando-a para dentro de suas vestes. — A carta será entregue apenas ao destinatário.

    E, com um último aceno, ele deu dois passos em direção a um canto particularmente escuro do escritório, onde a luz da tarde não alcançava. Sua forma pareceu desfocar, achatar e, então, ele simplesmente não estava mais lá. Apenas a carta selada havia desaparecido com ele.

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