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    O meio-dia na Cidade Sagrada de Santa Maria batia com um sol forte e vertical. O ar dentro da catedral era fresco e pesado, carregado com o cheiro de incenso velho, cera derretida e pedra úmida. A maioria dos clérigos e funcionários estava no refeitório, onde o som distante de talheres e vozes abafadas ecoava pelos corredores vazios. Mas em seu laboratório a Papisa trabalhava.

    — Merda! — a palavra ecoou baixo contra as paredes de pedra do pequeno laboratório, iluminado apenas pela luz fraca que entrava por uma fresta alta. — Nada de achar o fungo certo que produz penicilina… Sei que é um bolor verde-azulado, mas centenas de fungos são assim!

    Ela observou uma fileira de frascos de vidro sobre a mesa de madeira gasta. Dentro deles, meios de cultura agarrados mostravam manchas de mofo em diferentes tons: verdes, cinzas, brancos e cotonosos. O ar ali tinha um cheiro adocicado e mofado, misturado com o aroma ácido do vinagre que ela usava para limpar.

    — Cultivar isso é um pesadelo — resmungou, pegando um frasco com pinças. — Por mais que eu esterilize os potes com água fervente e álcool, sempre são contaminados por outros fungos ou bactérias… É como tentar pegar um único grão de areia em uma tempestade.

    Com um gesto de frustração, ela largou o vidro de volta na mesa, produzindo um tilintar seco. Suspirou, esfregando os olhos. A fadiga pesava em seus ombros.

    — Com magia de fogo, poderia esterilizar tudo perfeitamente. Ou comprar autoclaves de vidro reforçado, meios de cultura purificados… — sua voz baixou para um sussurro amargo. — Mas Orsini e os capangas do Papa Henrique estão na minha cola. Dom Orsini até revisa meus gastos com lupa… Tenho que fazer minhas pesquisas escondida na minha própria catedral, durante o meio-dia, enquanto todos almoçam. E isso considerando todo o bem que já trouxe a este mundo…

    Paula afastou os fungos com cuidado e se voltou para outra bancada, onde uma série de cubas raso contendo um líquido turvo e rosado repousavam. Dentro, pequenas estruturas flutuavam – cultivos primitivos de tecido neural, extraídos com muito cuidado de cobaias e mantidos vivos com uma solução nutritiva e traços de mana da gema da alteração.

    — Isso aqui também não está dando frutos… — murmurou, observando as frágeis formações. — Mas tenho que ter paciência. Demorei anos para dominar os usos da gema da alteração. Vou demorar anos para descobrir como clonar um corpo junto com a mente, ou como isolar a penicilina… A ciência não é magia; não acontece com um estalar de dedos.

    Desanimada, mas não derrotada, ela cobriu as cubas com um pano limpo e saiu do laboratório, trancando a porta com uma chave pequena que escondeu nas dobras de suas vestes. Ao virar no corredor escuro, deparou-se com um de seus assistentes mais confiáveis, o Irmão Mateus. O jovem estava pálido, e seus olhos buscavam as sombras do corredor.

    — Vossa Santidade — sussurrou ele, curvando-se ligeiramente. — O Presidente Carlos mandou entregar isto. Disse que era apenas para as suas mãos, e somente para elas. O mensageiro insistiu muito nisso.

    Um rolo de pergaminho, selado com cera da cor do vinho e estampado com o símbolo da República – uma jabuticaba entrelaçada com uma engrenagem –, foi passado de mão em mão com cuidado solene.

    — Obrigada, Mateus. — A voz de Paula era suave, mas seu coração acelerou um pouco. — Você foi discreto?

    — Como a noite, Vossa Santidade. Ninguém me viu.

    Assim que o assistente se retirou, sumindo na penumbra do corredor, Paula segurou o pergaminho com força. Suas mãos, ainda com o leve cheiro de mofo e álcool, tremiam um pouco.

    “O que será tão confidencial assim?” pensou, pressionando o rolo contra o peito. “Tem a ver com os artefatos divinos? Carlos mencionou, há um tempo, que encontrou uma pessoa com uma arma cuja lâmina era feita de uma gema que emanava o mesmo roxo escuro que eles…”

    A curiosidade e uma ponta de apreensão a empurraram. Em vez de ir para seus aposentos, ela retornou rapidamente ao seu escritório, uma sala ampla com estantes abarrotadas de livros e manuscritos. A luz do sol entrava forte pelas janelas de vitral, projetando manchas coloridas no tapete persa gasto.

    Com movimentos rápidos, ela fechou as pesadas cortinas de veludo, uma a uma, mergulhando a sala em uma penumbra acolhedora. Trancou a porta maciça com uma chave de ferro. Por fim, acendeu uma única vela de cera de abelha sobre a escrivaninha. A chama dançou, lançando sombras oscilantes nos rostos severos dos santos pintados nas paredes.

    Só então, sentando-se na cadeira de espaldar alto, ela quebrou o selo com a unha. O som da cera rachando pareceu alto naquele silêncio. Desenrolou o pergaminho e inclinou-se sobre a luz tremula.

    “Vossa Santidade,

    Espero que esta carta a encontre em segurança. Falei com um homem que escapou da escravidão em Gemas Gerais, e ele me contou coisas fascinantes e profundamente perturbadoras sobre a origem dos chamados ‘artefatos divinos’…”

    Paula prendeu a respiração. Os olhos percorreram as linhas seguintes, onde Carlos detalhava, com clareza meticulosa, tudo o que Nzambi lhe revelara: a gema do sacrifício, o custo em vidas humanas, a mecânica sinistra por trás das invocações.

    O ar pareceu sair de seus pulmões. A mão que segurava o pergaminho ficou gelada.

    “Isso… quem poderia imaginar?” O pensamento veio como um choque. “Uma gema doentia, alimentada por mortes… era isso que estava por trás de todos os artefatos divinos?”

    Uma onda de náusea a percorreu, seguida por um frio horror. Sua mente correu para os porões da catedral, para os baús trancados onde a Igreja guardava os artefatos confiscados ao longo dos séculos. Lembrou-se de sua própria coleção secreta de “Livros Divinos”, volumes proibidos que ela estudava em busca de conhecimento, escondidos atrás de uma parede falsa.

    “Quantas vidas foram perdidas para invocar cada um daqueles objetos? Cada livro, cada ferramenta… Talvez a crença popular esteja certa. Talvez sejam realmente ‘livros do diabo’… uma tentação com um preço abominável escrito em sangue.”

    Ela passou a mão pelo rosto, sentindo o peso da revelação. A vela crepitou, lançando uma faísca. Depois de um longo momento, forçou-se a continuar lendo.

    “…Francisco consegue muitos livros e até artefatos divinos. Vossa Santidade sabe como ele os obtém? Será que ele sacrifica pessoas? E se não sacrifica, como os obtém? Gostaria que me informasse, pois tenho em mãos uma ferramenta feita da mesma gema, capaz de invocar mais artefatos – livros que poderiam ajudar suas pesquisas e a mim mesmo. Porém, juro solenemente que jamais utilizarei vidas humanas para isso. Daí minha pergunta sobre Francisco.”

    “Francisco…” O nome ecoou em sua mente. O mercador astuto, seu contato de anos, o homem que sempre conseguia o impossível.

    “Será que ele sacrifica pessoas? Não… não, é impossível. Conheço-o há muito tempo. Ele pode ser ganancioso, ambicioso, um negociante sem escrúpulos, mas um assassino em massa? Jamais.” Ela mordeu o lábio, duvidando de sua própria certeza. “Mas e se ele está sendo enganado? E se alguém em sua rede fornece esses itens, pagando o preço em sangue sem que ele saiba? E mesmo que não saiba… está na hora de ele entregar todos os seus segredos. Especialmente se esse conhecimento pode nos dar meios de salvar vidas, em vez de tirá-las, eu o deixava em paz porque não imaginava que alguém pudesse escolher de certa forma quais artefatos seriam invocados, mas se eu puder invocar um livro sobre fungos, ou neurociência…”

    A decisão se formou, clara e urgente. Ela tinha que encontrar Francisco. Ele acabara de voltar de uma viagem à República; provavelmente ainda estava na cidade, em sua casa ou em seu armazém discreto.

    Com determinação renovada, Paula levantou-se. Dobrou a carta com cuidado e a escondeu no interior de suas vestes, contra o coração. Apagou a vela com os dedos, mergulhando a mesa em escuridão, e dirigiu-se à porta.

    Mas ao abri-la, seu sangue pareceu gelar.

    Na soleira, bloqueando completamente a passagem, estava Dom Orsini. Ele parecia ter engordado ainda mais desde sua chegada à Santa Maria; seu rosto redondo e suado refletia a luz fraca do corredor, e seu hábito clerical parecia apertado em seus ombros largos. Seus olhos pequenos e penetrantes percorreram Paula de cima a baixo, pousando na dobra de seu vestido onde a carta estava escondida.

    — Vossa Santidade, para que tanta pressa? — Sua voz era um falso mel, grosso e condescendente.

    Paula tentou compor um rosto sereno. — Dom Orsini. Estava apenas… indo verificar os estoques da enfermaria.

    — Hmm, claro — ele murmurou, os olhos fixos nela. — Mais uma vez lendo cartas da República escondida de mim, não é?

    — Não, eu… — Paula tentou protestar, mas ele levantou uma mão, cortando-a.

    — Não adianta mentir. Acha que não sei dos seus muitos segredinhos? — Ele deu um passo para dentro do escritório, forçando-a a recuar. O cheiro dele, um misto de suor, vinho barato e incenso pesado, invadiu o espaço. — Outro dia, por exemplo, visitei o artesão mágico da cidade. Os artesãos da Igreja, supostamente, só devem produzir artefatos para uso eclesiástico… mas não era o que ele fazia. Estava forjando balas especiais, usando gemas da terra e escuridão. E só tem um lugar que usa balas para mosquetes e outras armas de fogo: a República.

    Paula sentiu um nó se formar em seu estômago. Ela não disse nada, mas seu silêncio era uma confirmação.

    — Por que essa cara de espanto? — Orsini sorriu, mostrando dentes amarelados. — Até alguém de fora como eu ficou sabendo das armas da República. E do seu apoio a eles. Sabe, ajudar a produzir armas mágicas para um lado de uma guerra… não é algo que a Igreja deva fazer. Devemos ser neutros. Pelo menos, na teoria. Não é mesmo?

    Ele fez uma pausa dramática, saboreando o desconforto dela.

    — Outra coisinha interessante… Pelo que fiquei sabendo, na sucursal da Igreja na famosa República, emprestam ferramentas mágicas de cura para um tal de ‘hospital’. Se os padres e monges enviados pelo Papa Henrique ficassem sabendo disso, você seria queimada por heresia antes do pôr do sol. A Inquisição adoraria ouvir sobre uma Papisa que entrega as bênçomas de Deus a hospitais seculares.

    Paula sentiu as pernas fraquejarem. O chão de pedra parecia balançar. Sem dizer uma palavra, ela voltou para trás da escrivaninha, pegou a vela que havia apagado e, com as mãos trêmulas, a reacendeu com um fósforo. Então, sob o olhar fixo e triunfante de Orsini, ela pegou a carta de Carlos, rasgou-a em pedaços e colocou as pontas sobre a chama.

    O papel pegou fogo rapidamente, enrolando-se em cinzas negras que caíram no cinzeiro de bronze. O rosto de Carlos, suas palavras de alerta e esperança, viraram fumaça que subiu até o teto escuro.

    — Já entendi — disse Paula, sua voz finalmente encontrada, fria e plana. — Você descobriu meus segredos. Só me diga: o que você quer de mim?

    Dom Orsini sorriu, uma expressão larga e satisfeita. Ele se acomodou pesadamente na cadeira de couro à frente da escrivaninha, que gemeu sob seu peso.

    — Que bom que você é uma mulher esperta. Isso facilita as coisas. — Ele cruzou as mãos sobre a barriga. — Pois bem, quero algo bastante simples. Desejo me tornar o Pontífice Supremo. O próximo Papa, não o Papa de uma cidade sagrada e sim o Papa Supremo. E seu apoio nessa empreitada seria… fundamental.

    Paula quase suspirou de alívio.

    “Ah, se é só ambição política… Isso eu posso manejar. Posso apoiá-lo, fingir lealdade. É um jogo que conheço.”

    — Entendo — disse ela, inclinando a cabeça.

    — O apoio para o papado é a chave para o futuro, é claro — começou ele, em um tom quase conversacional. — Mas um futuro sólido precisa de alicerces materiais. O poder espiritual, sozinho, é como uma espada de madeira: tem a forma, mas falta o fio e o peso. Por isso, também desejo riquezas.

    Ele fez uma pausa, deixando a palavra pairar no ar úmido do escritório. Seus olhos pequenos brilhavam com uma cobiça nua e calculista.

    — E para conseguir essas riquezas, para forjar o verdadeiro poder, roubar o segredo da produção de aço da República não seria apenas útil… seria fundamental. — A última palavra foi cuspirada com ênfase, como um prego sendo cravado.

     — Posso considerar apoiá-lo. Mas deixe uma coisa clara: não irei trair o Presidente Carlos. Não roubarei os segredos de produção dele para você. — Disse a papisa em tom firme.

    A expressão de Orsini endureceu um pouco, mas não de surpresa. Ele fez um gesto teatral, tirando de dentro de seu camião um documento oficial, selado com o emblema da Cúria Romana.

    — Imaginei que você diria algo assim. Porém, as coisas mudaram um pouco. A resposta de Alba chegou.

    — Mas já? — O choque fez Paula se inclinar para frente. — Achei que teríamos pelo menos mais um mês!

    — Eu… tenho meus meios — disse Orsini, com um ar misterioso. — Um conhecido, um capitão com uma gema potente do vento. Permite viagens rápidas. Mas isso não vem ao caso. — Ele deslizou a carta pelo polido da escrivaninha até ela.

    Com dedos que pareciam de chumbo, Paula pegou o documento e quebrou o selo. A mensagem era curta, direta e brutal. Seus olhos percorreram as linhas, e cada palavra era como um golpe.

    “…ordena-se o cessar imediato de todo comércio e intercâmbio com a entidade autodenominada ‘República do Brasil… até que a mesma entregue, incondicionalmente, os métodos completos de produção de aço de alta qualidade… Caso eles não o façam por vontade própria a Papisa local deverá retirar imediatamente toda a presença eclesiástica, incluindo todos os artefatos de cura… e declarar apoio total à Capitania de Pernambuco em seu conflito contra a dita República… A Cidade Sagrada de Alba já estabeleceu acordo com a Coroa Portuguesa: em troca de nosso apoio, receberemos a tecnologia do aço…”

    A voz de Orsini a tirou do torpor.

    — A Igreja vai ficar rica. Mas eu, veja bem, não sou um monstro. Não desejo derramamento de sangue desnecessário. Por isso quero que você convença Carlos a ceder os segredos dele. Vocês dois são pessoas espertas — ele fez uma pausa, e o elogio soou como um insulto —, considerando que você é uma mulher e ele um negro. Tenho certeza de que tomarão a decisão certa. Além disso ele já nos prometeu que faria isso, apesar de não eu confiar na palavra de um filho de Cam.

    Paula sentou-se, derrotada. O peso da autoridade de Alba, a ameaça de guerra, a traição iminente a tudo o que ela e Carlos estavam construindo… era uma armadilha perfeita.

    Sua mente, entorpecida, entrou em modo automático. Sem pensar, ela puxou uma folha de pergaminho em branco, pegou uma pena e começou a mergulhá-la no tinteiro. As primeiras palavras começaram a se formar: “Prezado Carlos…”

    E enquanto a pena arranhava o papel, ele se falam da escolha que Carlos lhe falou. Agora chegou a hora para ela tomar uma escolha, mas ela não estava preparada para escolher.

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