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    Quixotina que está perto de Carlos ouviu ele falar do nome dos doces, sendo um deles beijinho.

    — Beijinho? — ela repetou, virando-se com a jarra na mão, uma expressão de perplexidade genuína em seu rosto. — Que nome é esse para um doce? Soa tão… íntimo. Pecaminoso, quase.

    Carlos não perdeu a chance. Um sorriso malicioso surgiu em seus lábios.

    — Pecaminoso, Quixotina? — ele aproximou-se, pegando um dos docinhos brancos enrolados em coco ralado. — É só um nome. Um doce simples, feito de leite condensado, coco… um beijo de coco, sacou? — Ele levou o doce à boca e fez um exagero de apreciar, fechando os olhos. — Humm! Delícia. Quer experimentar? Pode ser seu primeiro… beijinho.

    O duplo sentido foi tão desajeitado e óbvio que até Pedro, do outro lado da sala, engasgou com seu gole de suco. Quixotina ficou paralisada por um segundo, o rosto inundado por uma onda de rubor que ia do pescoço até a raiz do cabelo. Ela olhou para o doce na mão de Carlos, depois para seu rosto sarcástico, e então para as pessoas ao redor, algumas já começando a sorrir.

    — Carlos! — ela exclamou, a voz um misto de constrangimento e fúria cavalheiresca. — Isso não é próprio! E na frente da minha filha!

    — O que tem, mãe? — Dulcinéia perguntou, inocente, com a boca cheia de brigadeiro. — É só um docinho.

    — É… é o nome que é inadequado! — Quixotina insistiu, buscando apoio com o olhar. Aqua riu abafadamente em seu canto.

    — Deixa ele, Quixotina — disse Pedro, se aproximando com um sorriso. — O presidente só tá tentando ser engraçado. E pelo visto conseguiu. Aqui, experimenta um desses pastéis, Tia Vera caprichou.

    A tensão cômica se dissipou em risos, e Quixotina, ainda corada, aceitou o pastel de Pedro com um olhar de advertência final para Carlos, que apenas riu, de bom humor.

    A festa fluiu. As crianças, lideradas por Dulcinéia e Carlinha, brincavam em um canto. Os adultos conversavam, comiam os salgadinhos crocantes e quentes e os doces que eram uma novidade absoluta para quase todos. Carlos circulou, sentindo uma felicidade simples e rara. Num momento, ele se aproximou da varanda, onde Silvana e Silvestre ainda pareciam um pouco à margem.

    — Tudo bem por aqui? — perguntou ele, em voz baixa. — A comida é boa, né?

    Silvestre acenou com a cabeça, sério. — É sim, presidente. Muito boa. Obrigado por… por nos incluírem.

    — Claro. A Quixotina queria que vocês estivessem aqui — Carlos disse, honestamente. Seu olhar então pousou em Silvana, que fitava o chão. As orelhas peludas de lobo, de um preço profundo e aveludado, tremiam levemente a cada risada mais alta da sala. Era um detalhe que, em qualquer outro contexto, poderia parecer assustador, mas naquele rosto jovem e tímido, e com aquele rabo que se encolhia nervosamente atrás dela, tinha algo… indefinivelmente fofo. Sem pensar muito, movido por uma curiosidade genuína e um impulso amigável, Carlos estendeu a mão e tocou suavemente a ponta de uma das orelhas de Silvana.

    A reação foi instantânea. A orelha contraiu-se como um músculo sensível, e Silvana deu um salto para trás, um pequeno ganido surpreso escapando de sua garganta. Seus olhos, de um amarelo-âmbar, se arregalaram, não com medo, mas com um susto profundo.

    — Ei! — Silvestre interpôs imediatamente, colocando-se entre Carlos e a irmã, seu rosto antes neutro agora fechado em uma expressão protetora e levemente hostil. — Não toque nela.

    Carlos recuou a mão, surpreso pela intensidade da reação. — Perdão! Perdão, eu… não foi maldade. Só acho tão… fofo. Desculpa mesmo, Silvana.

    Silvana, escondida atrás do irmão, balançou a cabeça rapidamente, seus olhos agora baixos novamente. — Tá… tá bom — sussurrou ela, quase inaudível.

    Carlos sentiu um peso de culpa. “Idiota”, pensou. “Ela não é um bichinho de estimação. Deve ser sensível pra caramba, e depois de tudo que passou…” — Realmente, me desculpem — disse ele, direto para Silvestre. — Foi falta de noção minha.

    Silvestre observou-o por um segundo, parecendo medir sua sinceridade. Então, acenou uma vez, a hostilidade diminuindo, mas a postura protetora permanecendo. — Ela tem medo… já tentaram arrancar as orelhas e sua cauda a força…

    — Entendido. Não vai se repetir — Carlos garantiu, fazendo um gesto de paz com as mãos antes de se afastar, deixando os dois irmãos em sua bolha de tranquilidade à beira da festa.

    O ápice da noite, claro, foram os presentes. Quixotina chamou Dulcinéia para o centro da sala. Com mãos um pouco trêmulas de emoção, ela apresentou seu presente: uma pequena caixa de madeira entalhada. Dentro, sobre um pedaço de veludo azul, estava um colar. A corrente era fina, de ouro batido – ouro de verdade – e no pingente, engastada com maestria, estava uma pequena gema de um vermelho-vivo e profundo, que parecia sugar a luz ambiente e devolvê-la em um brilho interior suave.

    — É a Gema da Força, minha filha — explicou Quixotina, a voz embargada. — A partir de hoje vou te ensinar a canalizar magia. Tenho um colar igualzinho, lembre-se quando um dia acabar encontrando um monstro, deve usar tudo que eu ensinar para você, para escapar dele.

    Dulcinéia ficou sem palavras, tocando a gema com a ponta do dedo, sentindo sua superfície ligeiramente quente. — Mãe… é lindo. Obrigada.

    Depois, foi a vez de Carlos. Ele não trouxe uma caixa, mas uma pasta simples de couro. — Meu presente é um pouco diferente — disse ele, sentando-se ao lado de Dulcinéia no sofá. — Eu… gosto muito de desenhar. Sempre gostei. No meu mundo antigo, eu até pensei em tentar viver disso, mas é muito difícil, sabe? As pessoas não valorizam muito, não dá para sustentar uma vida. Acabei escolhendo engenharia. Mas aqui… — ele abriu a pasta, — aqui eu posso desenhar para as pessoas que importam.

    Dentro, não havia papéis soltos, mas várias folhas cuidadosamente encadernadas com uma espiral de arame, formando pequenos livros artesanais. Ele entregou o primeiro para Dulcinéia.

    — São histórias. Histórias do meu mundo, e uma… especial.

    Dulcinéia abriu o primeiro. Nas páginas, em traços precisos de nanquim e com toques de cor feitos com tintas vegetais, ela viu uma menina de cabelo enorme, um menino dentuço, um garoto gordinho e um cachorro. “A Turma da Mônica” estava escrito na capa. Ela folheou, os olhos brilhando com as cenas engraçadas e coloridas.

    O segundo livro mostrava uma princesa de cabelos loiros e um vestido azul gelo, “Frozen”. O terceiro, uma jovem com um vestido esfarrapado e uma abóbora que virou carruagem, “Cinderella”.

    — São princesas? — perguntou Dulcinéia, fascinada.

    — São garotas que enfrentam desafios, cada uma à sua maneira — explicou Carlos. — A do gelo luta contra o medo com a ajuda da irmã. A da abóbora… bem, ela acredita em sonhos mesmo quando tudo parece perdido.

    Ele então pegou o último livro, um pouco mais grosso. A capa era mais simples, sem título colorido. — E este… este é diferente. É a história de uma verdadeira cavaleira. A história da sua mãe.

    Quixotina, que observava tudo ao lado, ficou imóvel. Seus olhos se fixaram no livro nas mãos da filha.

    Dulcinéia abriu-o com uma reverência diferente. As primeiras páginas mostravam uma menina pequena e triste em um castelo enorme. Outras mostravam um homem bondoso lhe dando uma espada de madeira. Havia uma cena de uma carruagem, um homem grosseiro, e então… uma mulher de um vestido branco, manchada de vermelho, mas de pé, segurando uma espada luminosa. A arte era mais sóbria, os traços mais carregados de emoção do que de cor. No final, havia um desenho da própria Dulcinéia, de mãos dadas com sua mãe, ambas sorrindo, com o Quilombo ao fundo.

    — É a sua história, mãe? — Dulcinéia perguntou, a voz um sussurro.

    Quixotina assentiu, incapaz de falar por um momento. Uma lágrima teimosa escapou de seu olho e correu por sua face. — É… é um pouco dela. A versão do seu tio Carlos.

    — É linda — disse Dulcinéia, fechando o livro e abraçando-o contra o peito. Ela então se virou e abraçou Carlos com força. — Obrigada, tio Carlos. É o melhor presente do mundo.

    Carlos retribuiu o abraço, emocionado. — De nada, flor. De nada.

    O resto da noite passou num clima de caloroso aconchego. As crianças, cheias de doces, começaram a ficar sonolentas. Os adultos conversavam em vozes baixas. Em um momento de calma, Quixotina, encostada na porta da varanda olhando para a festa dentro de casa, sentiu uma onda de gratidão tão forte que quase a sufocou. Ela tinha uma casa. Tinha amigos verdadeiros – Aqua, que a acolheu; Fernanda, com quem compartilhava as lutas do dia a dia e cujas filhas se tornaram muito amigas; Pedro, que ainda não era tão próxima, mas o respeitava por como lutava, além de Zézinho ser muito amigo de Dulcinéia; até a Tia Vera, com sua sabedoria tranquila. Tinha sua filha, segura e amada. Tinha um lugar.

    Mas, no fundo do peito, onde as memórias mais antigas e doces eram guardadas, uma pontada de saudade fina como uma agulha a atingiu. Ela olhou para o céu estrelado através do vidro da varanda, buscando inconscientemente uma constelação que seu tio Frederico lhe ensinara a encontrar, anos-luz e um oceano de distância.

    “Obrigada, tio”, pensou, direcionando o pensamento para o vazio noturno. “Obrigada por me dar o livro. Por me dar a coragem. Eu encontrei meu lugar. E eu continuo sonhando.”

    Dentro de casa, Carlos pegou mais um pastelzinho dourado e crocante, observando a cena. O cansaço do dia ainda estava lá, as preocupações com a Igreja e a guerra ainda pairando no horizonte. Mas aquele momento, aquele cheiro de comida caseira, o som das risadas baixas, a visão de Dulcinéia adormecendo no colo da mãe com o livro de histórias no peito… tudo isso era um lembrete poderoso. Era por isso que ele lutava. Por tardes como essa. Por sorrisos como aqueles. Por um lugar onde pudessem ser livres.

    Ele mordeu o pastel, sentindo o sabor quente e reconfortante da carne moída temperada. Era bom. Tava tudo bem. Pelo menos por aquela noite.

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