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    Os músculos das costas de Ismael queimavam em um protesto surdo e familiar, um incêndio contido que se espalhava do quadril até os ombros. As mãos, enluvadas e marcadas por calos recentes, repetiam os mesmos movimentos meticulosos que haviam sido martelados em sua mente e corpo nos últimos meses de treinamento exaustivo: pegar a bola de canhão de doze libras do carrinho de munição, sentir seu peso gelado e opressivo, girar com um passo equilibrado, carregá-la na boca do cano ainda fumegante. O metal rangia contra o metal, um som rouco e final.

    Sua mente, tentando se desvencilhar da repetição corporal, vagava. As ações haviam se tornado tão automáticas, tão entranhadas no músculo-memória, que seu pensamento podia voar para longe da fumaça e do suor.

    “Não é possível que só agora, no meio dessa barulheira toda, a notícia tenha chegado direito até mim… libertaram o Engenho Paraíso”, o pensamento surgiu, carregado de uma emoção atordoada. Ele limpou o suvo que escorria para os olhos com o cotovelo, manchando ainda mais o uniforme verde. “Na época do treinamento intensivo, minha cabeça só tinha espaço para os comandos, para os números da artilharia… afinal, eu mal tinha conseguido escapar do meu próprio inferno, rastejando pela floresta por noites a fio.”

    Uma imagem invasiva surgiu: do engenho Paraíso. O cheiro de cana queimada e suor doce. O rosto cansado de sua mulher, Luíza, iluminado pela luz fraca da cabana. O riso molhado do pequeno Jonas, ainda bebê. O aperto no peito foi tão físico quanto a queima nos músculos.

    “Só me pergunto… onde estão agora? Se adaptaram a vida na República.”

    — Ismael! Foco, homem! — O grito do cabo Antônio cortou o devaneio como um tiro. A voz era áspera, mas não sem uma nota de urgência camarada. O cabo apareceu ao seu lado, seu rosto marcado pela fuligem, os olhos escaneando a equipe do canhão. — Tamos meses suando no campo de treino, comendo poeira e ouvindo teoria! Esse aqui é o momento que mostra pra que todo aquele esforço serviu! Vamos mostrar a essa gente de Ouro Branco para que a República veio!

    O tom de Antônio era elétrico, contagiante. Ismael assentiu rapidamente, um movimento seco de cabeça, e sentiu a onda de vergonha e determinação lavar a nostalgia amarga. “Ele tá certo. Aqui é o agora. Aqui é onde a gente muda as coisas.”

    Ele voltou seu olhar para a equipe. Eles funcionavam como um único organismo, uma máquina viva de suor e precisão. Jorge, o artilheiro-chefe, sussurrava cálculos para o ajuste do ângulo, seus dedos tocando levemente as rodas de elevação. Miguel, o carregador auxiliar, já preparava a próxima carga de pólvora em seu saquê de linho, os movimentos rápidos e econômicos. Clara, a mais nova, mantinha os olhos fixos na linha de visão, pronta para sinalizar qualquer movimento no forte.

    Ismael respirou fundo, o ar carregado de enxofre queimando suas narinas, e realizou o próximo ciclo. Pegou a pesada bola de ferro, sentiu seu centro de gravidade mortal, girou com o balanço ensaiado e a enfiou no cano escuro e quente. Um baque surdo.

    — Pronto! — ele anunciou, recuando no mesmo passo sincronizado.

    Miguel avançou com a haste de carga, compactando a carga com golpes firmes. Jorge deu um último ajuste, mirando não para as muralhas grossas, mas para uma seção específica do parapeito onde a atividade era intensa. Clara ergueu a mão, indicando alvo confirmado.

    — Fogo! — ordenou Antônio, sua voz perdendo-se no rugido ensurdecedor que se seguiu.

    O canhão recuou violentamente em seus trilhos de madeira, vomitando uma língua de fogo laranja e uma nuvem de fumaça branca e densa que envolveu a equipe num instante, com seu cheiro acre e sufocante. A bola, invisível em seu voo, cruzou os centenas de metros em um arco silencioso e mortal.

    — Impacto! — gritou Clara, apontando.

    À distância, um pedaço do parapeito de pedra do forte simplesmente desintegrou-se em uma explosão de estilhaços e poeira. Gritos agudos, distantes como guinchos de pássaros, chegaram até eles. Naquela distância, as armas de defesa do forte pouco podiam fazer contra a artilharia posicionada com tanto cuidado.

    — Parem o bombardeio! — o cabo Antônio gritou, erguendo o braço com um lenço vermelho.

    A ordem ecoou pela linha de canhões. O silêncio súbito que se seguiu ao último estrondo foi quase mais chocante, preenchido apenas pelo zumbido nos ouvidos e pelos gemidos contidos do campo.

    Ismael, automaticamente, aproveitou a pausa para procurar com os olhos. Sua visão varreu o terreno até encontrar uma figura quase imperceptível em um ponto elevado mais à frente: Sussurro. Ela estava deitada, fundida ao terreno, o cano longo de seu rifle de precisão pairando imóvel como um galho seco. Por um longo segundo, nada aconteceu. Então, um clarão minúsculo e um crack seco, muito mais nítido que o rugido dos canhões, atravessou a distância. Quase simultaneamente, a figura de Sussurro pareceu dissolver-se, desvanecendo na própria sombra profunda da rocha onde estava deitada.

    “Lá vai ela”, pensou Ismael, com uma mistura de admiração e temor.

    ***

    Dentro do forte, no caos gerado pelo bombardeio, Sussurro materializou-se na sombra alongada de um entulho de pedras que antes fora parte de uma guarita. O ar aqui era opressivo, cheirava a pólvora queimada, poeira de pedra e o cheiro metálico do sangue que já escorria pelas frestas. Gritos de ordens confusas e gemidos vinham de todos os lados.

    Sem perder um milésimo de segundo, sua mão esquerda foi à mochila compacta em seu dorso. Os dedos encontraram, por puro tato, o objeto familiar: uma granada de ferro fundido, pesada e áspera, com uma gema alaranjada de Fogo incrustada no topo como um olho sinistro. A granada já tinha sidoi ativada pelos adeptos do fogo, ela contava apenas os segundos. Ela arremessou a granada num arco baixo por sobre o que restava de uma parede, direto para um pátio interno onde vozes concentradas gritavam por reforços.

    Ela não esperou pela explosão. Já estava em movimento, deslizando como um fantasma para a próxima sombra – a de um armazém parcialmente destruído. Repetiu o processo: granada da mochila, arremesso preciso para uma janela alta de onde vinham disparos de mosquete.

    Foi na terceira sombra, a de um grande tanque de água de madeira, que um frio agulhado percorreu sua nuca. O instinto falou mais alto. Ela se virou bruscamente, não para olhar, mas para agir. A poucos metros, no topo de uma escadaria, um homem de óculos com lentes espessas a encarava, a boca aberta em um “O” de surpresa. Um Adepto da Visão. Seu dedo apontava para ela, e sua boca começava a gritar o alerta.

    O revólver de Sussurro já estava em sua mão, parecendo ter surgido do nada. Não houve tempo para mirar com cuidado, apenas para apontar e confiar na prática. O disparo foi um estouro seco e alto no espaço confinado. O adepto levou as mãos ao rosto e caiu para trás, silencioso.

    Como foi descoberta, jogou para todos os lados as granadas restantes e sem transição, ela ajoelhou-se, apoiando o cotovelo no tanque de água. O rifle de precisão, que nunca deixara seu controle total, foi trazido ao ombro. Sua visão encontrou a luneta. Ela não mirou em um homem, mas em uma sombra específica, longa e distorcida projetada por uma árvore solitária do lado de fora dos muros do forte, a centenas de metros de distância. Expirou. Puxou o gatilho.

    O recuo foi suave, familiar. Ela já estava se recolhendo, se fundindo à escuridão entre o tanque e a parede, quando o mundo atrás dela explodiu.

    Todas as granadas explodiram ao mesmo tempo fazendo estrondo e estilhaços se espalharem por todo local, seguido pelo rugido furioso das chamas encontrando algo inflamável. Uma onda de calor e pressão varreu o local onde ela estivera segundos antes.

    ***

    Espectro observava tudo de sua posição de comando, em um platô mais alto, através de uma luneta de campanha de alta qualidade. A cena se desenrolava como uma peça de teatro mudo e brutal: os impactos da artilharia, o desaparecimento e reaparecimento fantasmagórico de Sussurro, as pequenas explosões internas que agora lançavam colunas de fumaça negra e labaredas alaranjadas para o céu.

    “E assim”, seu pensamento fluía, lógico e frio como água de nascente, “de uma posição de absoluta vantagem, a centenas de metros, eliminamos um ponto forte de resistência, desmoralizamos a guarnição e abrimos uma brecha. Tudo com risco mínimo para nossas tropas regulares.” Ele baixou a luneta, virando-se para o jovem Adepto do Som ao seu lado, cujas mãos repousavam sobre um megafone com a gema do som. “A questão é: o que eles poderiam fazer? Podemos atingi-los de uma distância além do alcance de suas armas. Mesmo que tenham adeptos capazes de ataques à distância, como lanceiros de fogo ou atiradores do vento, o alcance efetivo e a precisão são limitados pela fadiga e pela linha de visão. Nossa artilharia não tem essa limitação.”

    Sua voz, quando falou em seguida, não foi um grito, mas um comando claro que o megafone captou graças ao poder do adepto do som.

    — Para todas as unidades: infantaria, avancem e assegurem o perímetro do forte! Adeptos da Terra, forneçam suporte móvel — ergam coberturas baixas para o avanço!

    ***

    Não muito tempo depois, sob uma cobertura de terra que surgia do chão como ondas solidificadas à frente deles, as tropas da República avançaram. Encontraram resistência esparsa, desorganizada. O forte, cujo moral já estava quebrado pelo bombardeio e pelas explosões internas, caiu.

    Espectro observou a bandeira verde e amerela da República sendo hasteada no que restava do mastro principal, substituindo o estandarte do governador. Um vento fresco começou a dispersar a fumaça.

    Agora, o caminho para Ouro Branco estava aberto. A cidade, que sempre confiara no forte distante como seu escudo principal, não tinha muralhas significativas. Sua maior defesa, sua guarnição treinada, jazia derrotada ou fugia em desordem pelos campos. A captura, ele calculou friamente, não era certa, mas seria infinitamente menos difícil do que a batalha que acabara de terminar. O verdadeiro desafio, ele sabia, começaria depois que os portões da cidade se abrissem.

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