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    – Ainda não – disse a Papisa Paula para todos os membros na reunião, sua voz firme e clara. – Vocês todos estão planejando tomar minha cidade, decidindo o futuro do meu povo. Onde eu fico nisso tudo?

    Carlos riu, um som descontraído.

    – Não se preocupe. Você tem minha palavra. Continuará governando a cidade. Será sua administradora civil, e a cidade estará sob a proteção militar da República. Será um enclave seguro.

    Paula ajeitou seus óculos, um gesto pensativo.

    – Sabe de uma coisa, Carlos? Gostei desta reunião. Da forma como seus ministros debatem, pensam, planejam. É… diferente. É construir algo, não apenas administrar a podridão existente. – Ela respirou fundo, como se tomasse uma decisão final. – Eu quero participar disso mais vezes. Quero ajudar a construir este futuro que vocês estão forjando. Porque este futuro, eu vejo agora, não está na Cidade Sagrada. Está aqui.

    Ela olhou diretamente para Carlos, seus olhos por trás das lentes não pediam, afirmavam.

    – Portanto, gostaria de me tornar Ministra. A Ministra da Ciência. E quero o orçamento, a equipe e a autoridade que vêm com o cargo.

    Carlos ficou surpreso, mas uma onda de satisfação e respeito percorreu-o. Não era uma surpresa ruim. Era o sinal de que ela estava se comprometendo totalmente.

    – Claro – ele respondeu sem hesitar. – Concordo plenamente, Vossa Santidade. Aliás, tem alguma outra demanda inicial?

    Aqua e Fernanda trocaram um olhar resignado. Elas já podiam ouvir o som dos cálculos se complicando, mais funcionários, mais gastos, das planilhas crescendo.

    Paula não as decepcionou.

    – Sim. Gostaria que meus assistentes mais confiáveis, dois ou três, viessem para cá. Para aprenderem como a cidade é administrada, sua burocracia, seu sistema. Para que possam replicar o que funciona em Santa Maria. – Ela fez uma pausa. – Além disso, eu, é claro, continuarei como a autoridade civil principal da cidade. A “prefeita”, como vocês chamam. E, no âmbito religioso… bem, não serei mais a Papisa da Igreja Católica Apostólica Romana. Serei a líder de uma nova igreja. A Igreja da Santidade. Já estou revendo as escrituras, fazendo releituras. Dando mais espaço e voz às mulheres, por exemplo. E tornando a condenação à escravidão uma pedra angular, não um segredo sujo.

    Carlos não pôde evitar o pensamento que surgiu. “Pouco ambiciosa, não é? A gente oferece a mão, ela agarra o braço inteiro.” Ele viu além do pedido imediato. “Ela está certa, claro. Mas tomar Santa Maria não é um presente só para nós. Cria um inimigo colossal: a Igreja oficial, furiosa e desonrada. Vamos precisar de uma marinha forte só para lidar com a retaliação que virá.” Um alívio pragmático o atingiu. “Por sorte, nesta época, as notícias viajam na velocidade de um cavalo ou de um barco à vela. Teremos algum tempo.”

    – Claro – ele disse em voz alta, sua voz estável. – Podemos aceitar todos esses termos. Então, bem-vinda oficialmente, Ministra da Ciência. – Ele fez uma pausa cerimonial. – Agora, passando ao próximo tópico desta reunião… o novo nome de nossa capital.

    Os olhares ao redor da mesa se fixaram nele.

    – “Mocambo do Tatu” – Carlos disse o nome, deixando-o ecoar no ar abafado. – Há muito tempo deixamos de ser um simples mocambo, um refúgio. É hora de termos um nome que inspire, que represente o que somos e o que queremos ser. Afinal, a capital da República precisa carregar um peso simbólico.

    – Tem algo em mente, presidente? – perguntou Quixotina.

    – Liberdade – a palavra saiu da boca de Carlos não como um suspiro, mas como uma declaração sólida, cheia de uma esperança teimosa que resistia a todas as dificuldades.

    Ninguém na mesa contestou. O silêncio que se seguiu não era de submissão ou respeito cego, mas de reconhecimento. Era um nome simples, direto, que encapsulava a luta central de suas vidas, a razão de existência da República. Nenhum outro nome parecia caber tão perfeitamente.

    Vendo a aceitação tácita, Carlos olhou para Fernanda.

    – Porém, não devemos anunciar isso do nada. Deve ser um evento. Algo que marque uma nova era. Pode ser após a conquista de Areia Branca, ou… – ele desviou o olhar para Paula, – após a “liberação” de Santa Maria. – Ele enfatizou a palavra. – E acredito que ter você, Ministra Paula, ao nosso lado nesse anúncio seria fundamental. Precisamos enquadrar a narrativa. Não estamos “conquistando” ou “tomando” a Cidade Sagrada. Estamos “liberando-a” das garras de uma Igreja corrupta e gananciosa.

    – Pode deixar comigo! – disse Fernanda, já anotando furiosamente. – Vou trabalhar com a Matilda no Jornal. Preparamos uma série de artigos, criamos a expectativa…

    – Não se preocupe com a receptividade do povo comum em Santa Maria – acrescentou Paula, com uma franqueza que soava quase cínica. – O apoio que me resta é maior do que o que esses “príncipes da Igreja” importados da Europa alguma vez tiveram. Especialmente depois dos novos impostos e taxas que Orsini e seus aliados impuseram para financiar suas manobras. O descontentamento é um terreno fértil.

    – Então está decidido – Carlos declarou. – O próximo tópico: a bandeira nacional. Tenho ponderado sobre isso. Tenho um… modelo de meu mundo. Mas não tenho certeza se devemos replicá-lo.

    – Como é a bandeira do Brasil do seu mundo, presidente? – perguntou Tassi, curiosa.

    Carlos levantou-se e foi até o quadro negro fixado na parede da sala. Pegou um giz e começou a desenhar com mão segura. O losango amarelo no centro de um campo verde. O círculo azul celeste com as estrelas brancas do Cruzeiro do Sul, a faixa branca com as palavras.

    – O verde das florestas vastas – ele explicou, apontando. – O amarelo do ouro. O azul do céu e dos rios. As estrelas, representando os estados. E o lema: “Ordem e Progresso”. – Ele fez uma pausa, um sorriso irônico nos lábios. – Claro, muita coisa foi inventada depois para dar significado. Originalmente, as cores eram apenas as da Casa de Bragança, a família imperial. E uma república que nasce de uma luta contra o opressor… talvez não devesse vestir as cores do antigo dono. Por mais bonita que eu ache a bandeira, estou aberto a ideias.

    Fernanda ergueu a mão timidamente.

    – E que tal… usarmos cores que representem o povo? Branco, preto e vermelho. Simbolizando a união das três raças principais que formam a República. Para mostrar que todos são iguais perante a nossa lei.

    Carlos não pôde conter uma risada baixa, que fez Fernanda corar. Ele ergueu as mãos em um gesto apaziguador.

    – Não estou rindo de você, Fernanda! É que… essa proposta foi feita no Brasil do meu mundo também. A ironia é que, mesmo após o fim oficial da escravidão, a união verdadeira nunca veio. Os pobres continuaram sendo, em sua maioria, negros e mestiços. – Seu tom ficou sério. – Mas aqui… aqui é diferente. Estamos construindo algo novo desde o primeiro dia. Então sim. Talvez essa seja uma ideia poderosa. Representar não o território, mas o povo.

    Paula inclinou a cabeça, analisando o desenho no quadro.

    – Também vejo valor em adaptar a bandeira do seu mundo. Lá, as cores serviam a uma monarquia. Aqui, podem ganhar novos significados. As matas, os rios, o céu… são reais para nós. Só o ouro é questionável, pois não temos minas significativas.

    – E por que não unir as duas ideias? – sugeriu Guaíra, sua voz calma contrastando com o debate. – Eu gosto dessas cores do presidente. São vivas, bonitas. Mas também acredito que devemos representar a união. Minha família é do povo originário. E eu me sinto parte desta República como nunca me senti em lugar nenhum. Mas… – ele hesitou, – não enxergo nossa cor como vermelho. Esse é um estereótipo dos colonizadores.

    – Essa pode ser uma excelente ideia! – exclamou Carlos, animado. Ele apagou parte do desenho e redesenhou. Desta vez, o losango amarelo se estendia até as bordas, dividindo a bandeira em quatro triângulos. Em três deles, ele esboçou hachuras: preto, branco e vermelho. – O vermelho – ele disse, olhando para Guaíra – pode não representar os povos originários, se você acha inadequado. Pode representar o sangue derramado na nossa luta pela liberdade. O sacrifício que nos trouxe até aqui.

    Então, seu olhar pousou no círculo azul com as estrelas que havia desenhado no centro do losango. Uma dúvida súbita e embaraçosa o atingiu. “Esqueci totalmente de verificar… o Cruzeiro do Sul existe neste céu? Se este não é exatamente a Terra, o céu noturno deve ser diferente. As constelações, os planetas…”

    – Paula – ele perguntou, apontando para as estrelas no desenho. – Você, que estuda tantas áreas… reconhece esta constelação? O Cruzeiro do Sul?

    Paula observou atentamente e balançou a cabeça negativamente.

    – Não. Não temos essa formação de estrelas aqui. Temos outras.

    “Imaginei”, pensou Carlos, uma mistura de fascínio e estranheza tomando conta dele. “É outro mundo mesmo. Paralelo, mas distinto.”

    – E Vênus? Marte? – ele insistiu, nomeando pontos de luz que lembrava. – Planetas que aparecem como ‘estrelas’ muito brilhantes em certas épocas?

    Paula olhou para ele com renovado interesse.

    – Você também tem conhecimentos de astronomia? Sim, reconheço esses sim. Vênus, a ‘Estrela d’Alva’. Marte, o vermelho. Júpiter… eles existem.

    “Como sempre”, Carlos refletiu consigo mesmo, “este mundo é igual e diferente nos aspectos mais fundamentais e estranhos.”

    A discussão continuou, mais técnica agora. Eles debateram o layout, o significado das cores. Paula sugeriu usar estrelas das constelações locais, as que eram importantes para as navegações e mitologias da região. O lema “Ordem e Progresso” foi unanimemente rejeitado – soava muito autoritário, muito alheio à realidade caótica e igualitária que viviam.

    – “Liberdade e Igualdade” – propôs Quixotina, e a frase pareceu ressoar na sala.

    Carlos a escreveu na faixa branca do desenho. Parecia o lema da Revolução Francesa, mas aqui, naquele mundo onde tal revolução nunca acontecera, as palavras soavam novas, próprias, urgentes.

    O desenho final foi aprovado. O losango dourado chegando às bordas, com os cantos em preto, branco e vermelho. No centro, um disco azul com um punhado de estrelas brancas dispostas em um padrão que Paula garantiu ser reconhecível no céu local. E atravessando o azul, a faixa branca com as palavras: LIBERDADE E IGUALDADE.

    – Muito bem – Carlos disse, limpando as mãos do pó de giz. – Nia, peço que coordene com a indústria têxtil. Produção em massa. Quero essa bandeira hasteada em todos os edifícios públicos, nos quartéis, nas escolas, o mais rápido possível. Quixotina trabalhe com os editores dos livros didáticos. Precisamos de um texto explicando o significado de cada elemento, uma história que toda criança da República vai aprender.

    Ele olhou para a bandeira esboçada no quadro, um emaranhado de ideias que se tornava símbolo.

    – E o nome da nossa capital… será revelado ao público no dia em que Santa Maria for libertada. Que seja o primeiro lugar a hastear nossa nova bandeira com seu novo nome.

    A reunião terminou. O plano estava em movimento. Para tomar uma cidade santa, forjar uma nova nação.

    Tentei fazer a bandeira com ajuda de i.a

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