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    Capítulo 092 – Significado de desespero!

    O salão do trono estendia-se diante da necromante como um templo de poder.

    Kassandra permaneceu imóvel no centro do vasto espaço.

    Seus farrapos não conseguiam conversar com a magnificência ao redor.

    O trono erguia-se ao fundo, como sempre era, uma construção imponente adornada em ferro e madeira, que reluzia.

    Dois degraus largos desciam do trono em direção ao salão principal, criando uma hierarquia visual inquestionável.

    Havia fileiras de pilastras que se alinhavam perfeitamente, como guias de pedra que guiavam o caminho até o monarca.

    Cada coluna era esculpida com símbolos do império. O caminho entre as pilastras parecia um corredor intimidador.

    A jovem dos cabelos acobreados observou enquanto guardas começavam a posicionar divisórias de madeira com balaústres atrás das pilastras. Os homens trabalhavam em silêncio, movendo-se com eficiência militar.

    As divisórias criavam uma separação clara entre o espaço onde ela estava e a área reservada para os observadores.

    Kassandra compreendeu imediatamente a intenção por trás daquela arquitetura momentânea.

    “Eu serei um espetáculo hoje? Francamente…”

    Pensou.

    Cadeiras começaram a ser dispostas atrás das divisórias, criando assim uma arena improvisada.

    A necromante manteve sua postura ereta, seus olhos brancos do Exício varriam o ambiente com aparente desinteresse.

    Ela conhecia bem aquele tipo de cerimônia, aquela necessidade de transformar o poder em teatro. Seus dedos se contraíram levemente nas mangas esfarrapadas.

    Os primeiros a chegarem foram nobres menores, homens e mulheres cujos nomes ela não reconhecia imediatamente.

    Ricos o suficiente para estarem aí, mas não tão poderosos a ponto de conquistarem notoriedade no império inteiro.

    Eles adentraram em grupos pequenos, sussurrando entre si enquanto encontravam seus lugares. Alguns a encaravam com curiosidade mórbida, outros com desprezo mal disfarçado.

    Kassandra ignorou todos eles, focando sua atenção na entrada principal do salão.

    A atmosfera mudou quando o conselho dos nobres começou a adentrar, e a cada entrada, parecia um espetáculo próprio.

    Akihiro Ikeda foi o primeiro, seu quimono fluía graciosamente enquanto caminhava. O nobre eikiano segurava um leque fechado em uma das mãos, movendo-o com gestos precisos.

    Ele não olhou para Kassandra, mantendo uma expressão neutra enquanto encontrava seu lugar.

    Branwen Lâmina-fria entrou em seguida, e a presença daquele velho guerreiro era inconfundível, que mesmo sem a sua armadura completa, ele carregava a postura de alguém que sempre a usou.

    Kord se levantou imediatamente ao ver o pai, abandonando sua posição próxima aos degraus do trono. Ayel encarou, mas não pestanejou nada.

    O guerreiro mais jovem caminhou até o velho guerreiro com respeito evidente, oferecendo o braço para guiá-lo. Branwen aceitou o gesto com um leve aceno de cabeça, e pai e filho caminharam juntos até onde o nobre deveria se sentar.

    Kord ajudou o pai a se acomodar com cuidado, e só então retornou ao seu posto original, ficando em pé ao lado esquerdo do tribal.

    Com a pompa característica de um mercador rico, Bartolomeu Loregard adentrou.

    O mediador de Althavair estava acompanhado por três criados que carregavam pequenos objetos e alguns documentos, o nobre usava trajes bastante luxuosos.

    Assim que adentrou o salão real, ele fez um gesto discreto e os criados se retiraram imediatamente. Deixou-o sozinho para encontrar seu lugar entre os outros conselheiros.

    Quando Ivan Láparo e Milo Verde-folha adentraram, inclusive, os únicos membros do conselho que escolheram adentrar um ao lado do outro, passaram pela grande entrada do salão.

    O velho patrulheiro caminhava devagar, com seus óculos de armação de madeira refletindo a luz enquanto ele observava o ambiente.

    Já o velho druida, apoiado em seu cetro de ouro, dava cada passo cuidadosamente. O mais velho dos nobres ostentava cabelos e barbas tão brancos, como se nunca houvessem sido cortados.

    Kassandra observou cada entrada com a devida atenção, catalogando gestos e expressões.

    Ela conhecia a importância daqueles homens, mas também conhecia seu preconceito. A necromante preparou-se mentalmente para o que viria em seguida.

    Alyssius e Bruxo Negro adentraram por último.

    O velho mago caminhava com passos bem cuidadosos também, sua barba estava cada dia mais extensa e seus cabelos brancos estavam menos arrumados do que a primeira vez que Ayel o viu em sua caverna.

    O mago da caverna estava visivelmente apreensivo, seus olhos sábios varriam o ambiente com preocupação.

    Ao seu lado, o imponente Bruxo Negro, sua presença era marcante.

    A sombra líquida que cobria toda a sua pele parecia mover-se independentemente. Ela criava padrões sinuosos que talvez só os arcanos pudessem perceber completamente.

    Os olhos amarelados do senhor de Nox Arcana brilhavam através da escuridão que era o seu rosto. O chapéu pontudo era característico desse misterioso homem.

    O feiticeiro mais poderoso do império.

    Atrás deles, outros arcanos entraram em fila, todos membros do mais alto escalão de Nox, mas não tão importantes como o Círculo Mágico.

    Eles se posicionaram na parte mais próxima de Kassandra, do lado oposto às divisórias onde os nobres se acomodavam. A separação física entre os dois grupos era clara.

    Mas Kassandra não deixava de perceber que a separação ideológica era ainda maior do que essas divisórias de madeira.

    A necromante olhou para o lado onde os arcanos se agruparam e fez um aceno discreto com a cabeça. Alyssius retornou o gesto com um leve movimento, seus olhos estavam gentis para a garota jovem dos cabelos acobreados.

    O Bruxo Negro também inclinou a cabeça, seus olhos amarelados se fixaram nela por um momento antes de ele se posicionar entre os outros feiticeiros.

    A senhora do Mausoléu do Sofrimento virou-se para o lado oposto, era onde estava o conselho dos nobres.

    Seus olhos do exício percorriam cada rosto, e ela não precisou de muito tempo para perceber o que estava acontecendo.

    Todos os nobres a encaravam com um preconceito aberto, alguns até mesmo com uma repulsa.

    Mal disfarçada.

    — Como ousam deixar essa criatura suja encarar-nos assim? — sussurrou um dos nobres menores.

    — O imperador deveria saber melhor… Essas coisas que mexem com mana negro não deveriam estar aqui. — respondeu outro em tom igualmente baixo.

    — Tememos o mana negro por uma razão — acrescentou um terceiro.

    — Ela é uma abominação e deveria ter sido afastada do império há muito tempo.

    Kassandra manteve sua expressão neutra, mas sentiu uma pontada de irritação. Ela estava acostumada com aqueles comentários, mas nunca deixava de sentir o peso deles.

    — Monstra…

    — Aberração…

    Os nobres continuaram sussurrando entre si, suas vozes se misturando em um burburinho crescente de desaprovação e medo.

    — Eu me envergonharia se eu tivesse uma filha e ela tentasse se bandear para os lados dos demoníacos necromantes.

    O burburinho se espalhou pelo salão, começando principalmente entre os nobres, mas logo contaminando outras áreas.

    — Prefiro um filho morto a um filho que mexe com a magia das trevas.

    Os guardas trocaram olhares nervosos, alguns dos arcanos começaram a conversar em voz baixa, e até mesmo alguns dos criados se juntaram à conversa.

    O salão estava se transformando em um mercado de fofocas.

    Até o momento em que a mão do Alvorada foi erguida.

    — Silêncio! — O grito de Ayel ecoou pelo salão

    O gesto foi simples o suficiente para silenciar completamente todas as almas presentes no lugar.

    Não foi apenas o fim das conversas e dos burburinhos, foi uma cessação completa e absoluta de qualquer som existente.

    Kassandra sentiu algo estranho no ar, algo que talvez apenas alguém com sensibilidade mágica pudesse perceber.

    Ela viu, vindo de Ayel:

    Um vapor vermelho, quase imperceptível, saía do corpo do Alvorada, e aquele vapor expandia-se pelo ambiente, entrelaçando todos ao mesmo tempo.

    Eles se calavam por forças maiores, e essa força vinha do trono.

    Inconscientemente obedeciam à sua vontade.

    Assim como a Kassandra, os arcanos reagiram imediatamente. Alguns olhos arregalaram, eles percebiam o que acontecia, o poder que a coroa exercia.

    Era como se todos tivessem perdido a vontade de falar pelo resto de suas vidas.

    O vapor vermelho se dissipou lentamente, mas o efeito permaneceu.

    O salão estava completamente silencioso agora, apenas o som da respiração coletiva preenchia o espaço, e muitos tentavam controlar até isso.

    Com a ordem restaurada, Ayel fez um sinal discreto para Kassandra. A necromante assentiu com a cabeça, compreendendo perfeitamente o que era esperado dela.

    Ela fez um gesto para um dos guardas posicionados próximo à entrada traseira do salão.

    A porta se abrira e um necromante subalterno adentrou.

    Era provavelmente um criado da Morta-viva. O jovem carregava a orbe sobre uma almofada vermelha e coberta.

    Mesmo de longe, Kassandra conseguia sentir a pulsação da energia maldita dentro daquele artefato que a venceu uma vez.

    O criado caminhara com extremo cuidado, seus passos eram lentos e cautelosos.


    Alyssius e o Bruxo Negro começaram a conversar entre si em voz baixa, um diálogo que apenas os arcanos próximos conseguiam ouvir completamente:

    — Relíquias são criações fascinantes. Os relicários conseguem embebê-las com mana suficiente para transformá-las em itens mágicos verdadeiros.

    Comentou o velho mago, seus olhos fixos na orbe que se aproximava.

    — Sim — respondeu o Bruxo Negro. — O que é um perigo, já que artefatos mágicos podem ser qualquer item físico que permita conjurar magias sem a presença do conjurador original. Até mesmo um filho de fazendeiro poderia fazer uma chuva de meteoros com o artefato certo.

    — Mas vejo essa orbe como um daqueles equipamentos que amplificam capacidades inerentes — continuou Alyssius. — Como um arco que aumenta o alcance, mas ainda requer habilidade do usuário.

    O Bruxo Negro inclinou a cabeça, seus olhos amarelados fixos na orbe que o criado estava trazendo.

    — No entanto, aquela orbe…

    Bruxo fez uma pausa, como se estivesse analisando algo muito mais profundamente do que apenas encarar o necromante trazendo o artefato em si. Essa pausa fizera Alyssius encarar o seu amigo, o senhor de Nox Arcana prosseguiu:

    — Não consigo deduzir sua função específica. É apenas um grande círculo de vidro pulsante com energia maldita.

    — A concentração de mana negro é bizarra — completou Alyssius.

    — Ah… Sim, Alyssius, percebeu mesmo a essa distância, não é? Um receptáculo maldito muito poderoso.

    — Certamente… tão poderosa que é quase impossível imaginar como cabe em um vidrículo tão pequeno e aparentemente fino.


    Outros burburinhos começaram a surgir, desta vez sobre a possível periculosidade da orbe. Nobres menores cochichavam sobre o perigo da existência daquele artefato, suas vozes trêmulas transmitindo medo genuíno. Mas todos se calaram imediatamente quando Kassandra se moveu.

    — Aberração…

    A Morta-viva andara até o criado, e com um movimento rápido, ela removeu o véu que cobria a orbe.

    Ela erguera o artefato com ambas as mãos, mostrando-o primeiro para o lado onde estavam os arcanos e depois para o lado onde estavam os nobres.

    Por fim, ela virou-se e encarou diretamente os olhos do imperador.

    A orbe pulsava, com uma luz sinistra, aquela energia maldita estava visível até para os leigos.

    O vidro parecia muito fino e frágil.

    — É isso, sou um espetáculo, imperador? — A voz de Kassandra ecoou pelo salão silencioso, carregada de uma ironia.

    Ayel manteve sua expressão séria, seus olhos fixos nela.

    — Você sabe exatamente o porquê de tudo isso.

    — Será que eu sei? — Kassandra o encarou com desdém.

    — Faça ou encare as consequências de desobedecer uma ordem minha.

    Silêncio.

    E esse durou por muitos minutos, até Kassandra se dar por vencida.

    — Não se preocupe… Alteza, eu farei.

    A necromante soltou uma suspirada completamente entediada, mas aquilo era apenas uma máscara.

    Claro.

    Por dentro, ela sentia um medo gigantesco.

    Um medo tão profundo e visceral que fazia suas mãos tremerem.

    A última vez que ela tentara se sobrepor contra a orbe, por pouco ela quase não acordava mais.

    E todas as memórias daquela experiência ainda a assombravam, isso a fazia ter arrepios.

    Kassandra encarou a orbe diretamente e sentiu imediatamente a reação do artefato.

    A energia maldita no vidro parecia se agitar, como se estivesse tentando se sobrepor a ela, intimidá-la.

    Não teria mais para onde fugir, ela precisaria batalhar contra aquele artefato.

    Para os leigos presentes, parecia apenas que ela estava segurando a orbe com força e fazendo um certo esforço físico.

    Mas os arcanos percebiam imediatamente o que estava acontecendo, Alyssius arregalara os olhos e o Bruxo Negro inclinou-se para frente com tanto interesse que ele teve pelo embate.

    Os membros de Nox Arcana viam a necromante embuir uma quantidade de mana negro na orbe, de modo a fazer com que o mana da orbe se dissipasse enquanto ela mesma assumiria o controle.

    Substituindo a energia maldita por mana que pertencesse unicamente a ela.

    Era uma técnica inusitada e ousada, algo que poucos teriam a coragem de tentar.

    O Bruxo Negro ficou fascinado, seus olhos amarelados brilhando com curiosidade.

    Alyssius também começou a sentir fascinação, então uma dor de cabeça súbita o atingiu. O velho mago levou a mão à testa, mas rapidamente voltou sua atenção para a necromante, ignorando o desconforto.

    — Alyssius? — Bruxo Negro percebera.

    O velho estava com a mão na têmpora, ele sentia vontade de gritar, mas não tinha forças.

    — Alyssius. — O feiticeiro elevou um pouco a voz para chamar a atenção do mago da caverna, sem tirar a atenção que era dada ao necromante.

    Mas nada.

    Kassandra continuava a sua batalha silenciosa, suando desproporcionalmente enquanto canalizava cada vez mais e mais mana negro.

    A orbe pulsava com uma intensidade que não parava de crescer, e o ar ao redor da jovem de cabelos acobreados começou a ficar distorcido.

    Fora quando algo aconteceu.

    Um pedaço da orbe, exatamente no meio entre as duas mãos que Kassandra usava para segurá-la, deu uma leve rachada.

    O estalo do vidro trincando ecoou pelo salão silencioso como um trovão, e a necromante ficou extremamente preocupada.

    Ela precisava domar aquela orbe, mas se algo desse errado, ela morreria. E levaria todos que estavam assistindo com ela.


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