Capítulo 098 - Cipós e óleos!
Capítulo 098 – Cipós e óleos!
A viagem seria relativamente árdua, não necessariamente pela distância, mas a Mãe Verde não iria conseguir explicar isso direito.
O trajeto até o riacho turvo era bastante complicado, uma trilha avançada que exigia muito esforço. Para a própria druida seria um desafio, ela não queria sequer encarar os seus colegas algozes tendo que passar pelo mesmo.
Chiara seguia na frente, sob o manto verde que se misturava com as folhas na trilha abandonada, seus pés encontravam cada pedaço de pedra ou qualquer raiz no meio sem hesitar.
— A mata é traiçoeira, meus colegas. — alertava a druida.
Ela desviava suavemente de um cipó pendurado, contornou um tronco caído e saltara um pedaço estreito de riacho em um único movimento.
Os algozes estavam logo atrás. Lavish tropeçou em um emaranhado de raízes, Dalila precisou segurar em um galho para que não pudesse escorregar na lama e Megitsune, apesar da sua agilidade, pisara em falso numa pedra coberta de musgo e precisou se apoiar em uma árvore.
— Muito mais do que apenas traiçoeira… — Lavish soltou.
A guardiã do bosque não olhou para trás, ela conhecia cada metro daquele caminho.
— Se você puder ir um pouco mais devagar… — Ele continuava o seu lamento em direção à mulher esverdeada.
A mata fechava-se em torno daqueles quatro. Com galhos baixos que obrigavam a se curvar, havia trepadeiras que cruzavam o ar como cordas.
— Vocês precisam olhar onde pisam — A mãe verde soltara sem parar de andar. — O chão engana muito… O que parece sólido às vezes, apenas cede.
Ela passava por baixo de um arco natural de cipós, depois por cima de uma raiz grossa que servia de ponte sobre um filete de água. Lavish precisou se ajoelhar para poder atravessar o mesmo arco, Dalila escorregou na raiz e molhou toda a bota.
— Estamos tentando… — reclamou a algoz de pele caramelo, limpando a lama da mão em uma folha larga que surgiu no caminho. — Não nascemos nessa mata…
A trilha subiu um pouco, havia pedras soltas que rolavam sob os pés do algoz líder, ele prontamente se segurou em um galho fino que estalou, arregalando os olhos. A Mãe Verde já estava mais adiante, contornando um afloramento de rochas coberto de líquen.
Megitsune acabara ajudando Dalila a passar por um trecho onde a água escorria sobre um dos caminhos.
O barulho do bosque era constante: folhas ao vento e gotas caindo das copas, às vezes um grasnar distante de um corvo.
A jovem druida permitiu-se uma pausa breve. Esperara que os três se aproximassem, ela respirava fundo, encarando o verde ao seu redor, era quase como se ela conseguisse se alimentar da natureza.
O seu rosto era sereno, não existia impaciência no seu semblante.
— Watashi wa totemo tsukarete iru1
A druida olhou rapidamente para Megitsune, que havia sussurrado algo que ela não havia compreendido enquanto se aproximava.
— Perdão? — indagou a druida.
— Me desculpe, eu acabei soltando um lamento na minha língua nativa. — A jovem algoz era bastante polida.
Não era muito usual, todos os reinos acabaram unificando seus idiomas há muitos anos, uma escolha inteligente que permitiu que todos pudessem interagir muito mais entre si. Por esses motivos, essa língua ficou conhecida como idioma comum.
Entretanto, mais por cultura do que por separatismo, algumas regiões ainda tentavam manter forte as suas origens linguísticas.
Dentro das Terras Verdejantes, isso era pouco visto, talvez reconhecido pelo continente, apenas Eikõ e talvez Pharid ainda guardassem algumas raízes linguísticas.
O idioma eikiano era muito fonético, a própria palavra Eikõ vem desse idioma, que significava “Glória” no idioma comum.
Chiara esperou que os três se aproximassem, ela observou cuidadosamente a Megitsune.
— Sua família veio de Eikõ? Sempre passei perto dos bosques ao sul de lá, mas nunca entrei.
— Sim, minha família ainda está por lá. — Disse a algoz, com a voz saindo um pouco baixa. — Mudei-me sozinha.
Lavish e Dalila trocaram um olhar rápido, até aquele momento Megitsune falara pouco sobre a sua origem.
Talvez por não perguntarem tão diretamente, tal qual a druida tenha acabado de fazer.
De qualquer forma, a algoz eikiana prosseguiu.
— Vim para cá principalmente para dar uma vida melhor aos meus pais. Em Eikõ não havia muito futuro para alguém como eu. Aqui eu sou uma algoz, o que eu ganho envio parcialmente para os dois em algumas caravanas que partem para lá.
Chiara acenou com a cabeça, seu manto verde movia lentamente enquanto ela realizava tal gesto.
— E não existe uma guilda que pareça com os algozes lá… Em Eikõ?
Enquanto a druida perguntava, os algozes aproveitaram o momento para buscar um tronco ou pedra em que pudessem se sentar e descansar. Compreenderam que Chiara desejava que fizessem uma pausa, embora não tivesse informado isso diretamente.
Lavish olhou para a direção da Megitsune, esperando a resposta da algoz eikiana enquanto puxava um cantil e se hidratava.
— Na verdade, existe. — Ela respondia a Chiara. — São chamados de ninjas, mas são bem diferentes dos algozes em alguns aspectos… São mais furtivos. Mais silenciosos e, ao invés de katares, usam kunais.
— Kunai? — Chiara perguntou genuinamente.
Megitsune erguera parte das vestes que cobriam a sua cintura, Chiara conseguiu visualizar do lado esquerdo uma única katar, do lado direito, havia cinco armas com aspecto diferentes presas uma ao lado da outra, enquanto a druida encarava, a jovem prosseguia com a sua explicação.
— É isso daqui, são lâminas pequenas e, em geral, com a ponta em forma de uma folha, ela tem esse anel no cabo também. Serve para arremessar ou para combate corpo a corpo. É bem mais leve que uma katar, os ninjas carregam muito mais do que isso aqui.
Ela retirara uma das kunais e levou para próximo da druida. Assim que Chiara pôs as mãos na arma, analisou-a calmamente, como era feito com esmero e atenção aos detalhes, tal como a katar, mas ainda assim, parecia um uso muito mais fino da forja.
A lâmina escurecida brilhava assim que a luz rebatia contra ela, a jovem do bosque passara levemente o dedo e sentiu o fio, perigoso.
— Usamos para escalar, cortar cordas… Atacar à distância. — Disse Megitsune. — É o símbolo do ofício ninja, assim como a katar é o símbolo dos algozes.
Chiara ficara pensativa, o som acima da sua cabeça era do vento que movia as folhas.
— Então você treinou tanto com katares quanto com kunais? Parece muito trabalhoso.
— A forma que eu busco lutar muda um pouco… Eu uso apenas uma única katar ao invés de um par, com a mão livre eu decido se arremessaria uma kunai ou utilizaria ela para um combate ainda mais perto.
— Ela luta muito bem, é rápida e seus movimentos dificilmente conseguem ser previstos. — Lavish elogiou, ainda sentado, segurando o cantil.
— Concordo. — disse Dalila. — Megitsune carrega Eikõ na forma que se move, mas ainda assim conseguiu se sair muito bem utilizando a nossa arma.
A algoz eikiana ficou com um certo embaraço, ela não tinha muita confiança nas suas aptidões físicas tal qual elogiaram.
— Esse peso adicional da katar, apenas de um lado… Não tira um pouco do seu balanço?
Chiara fora cirúrgica, não era de se esperar que uma mulher do bosque pudesse dar esse tipo de comentário, embora, pela expressão de surpresa da Megitsune, tenha sido algo pouco cogitado, até mesmo por ela.
— Bom… Creio que…
Lavish observou, e tinha fundamento.
A katar era bem mais pesada, poderia atrapalhar a sua companheira.
— Você seria imbatível se estivesse apenas com kunais, o peso da katar seria desconsiderado… Eu gostaria de observar algo assim um dia. — Ele concluiu.
Anusha nunca havia reclamado em momento algum, desde o momento em que Megistune fora aprovada nas últimas etapas e se tornara uma verdadeira algoz.
Mudamir não foi diferente, os algozes não endeusavam a katar, apenas acreditavam na sua eficácia.
Enquanto Megitsune também acreditasse na eficácia de alguns pares de kunais…
Ninguém veria nada de errado nisso.
— Se sobrevivermos a essa missão, talvez eu passe a usar apenas kunais. — Ela brincou.
Isso seria uma honra, embora também causasse estranheza: uma algoz de Sihêon portando armas eikianas.
— Claro que vamos. — Lavish fora direto, ele confiava em todos ali.
Chiara sorriu e voltou a caminhar.
Ela gostava de como os algozes se tratavam como irmãos, no sentido mais amoroso possível, percebia que Lavish guiava sem tirar a individualidade ou a voz das meninas, e elas, mesmo não sendo abaixo hierarquicamente do homem da pele de ébano, escutavam e respeitavam as suas decisões.
— O treinamento que os algozes recebem é, de fato, impressionante… — Ela sussurrou.
Mas nenhum dos três conseguiu escutar isso, estavam ocupados tentando sobreviver no caminho.
A trilha mergulhava em uma depressão onde a água parada cobria o chão.
Ela escolhera pedras que mal apareciam na superfície e atravessou sem molhar seus pés. Lavish tentou seguir o mesmo caminho e caiu até o tornozelo na lama. Dalila e Megitsune contornaram o pior do trecho, agarrando-se a galhos baixos.
— Por quanto tempo mais? — Dalila reclamava, mais como um escárnio sobre a sua própria maldição, de estar no meio de tanto verde.
— Não muito, eu prometo. — Dizia a jovem sem estar ofegante.
A facilidade com que a druida passava pelo bosque era irritante.
Quando os três alcançaram a sua guia do outro lado, suas botas estavam pesadas de barro.
O grupo apenas retomou a marcha, enquanto a trilha estreitava ainda mais.
De um lado havia um barranco que parecia descer para um vale bastante sombrio, já do outro, havia espinhos de arbustos que raspavam os braços.
— Por gentileza, cuidado aqui.
Chiara alertava enquanto deslizava entre os dois troncos encostados como se fosse água. O algoz de pele de ébano precisou retirar a sua mochila para poder passar, Dalila passara mas no mesmo trecho se arranhou. Megitsune conseguiu passar de lado, mas uma farpa prendeu-se no tecido da manga.
Definitivamente, o bosque não perdoava quem não o conhecia.
Depois de tudo isso, a vegetação havia se tornado mais densa.
Samambaias gigantes fechavam a vista, o chão era uma mistura de raízes e folhas molhadas.
— Venham vocês… Vamos com bastante cuidado nessa parte.
A druida indicava delicadamente com a mão onde pisar, o algoz líder seguia atento, mesmo assim, volta e meia, uma raiz escondida quase o derrubou.
Dalila segurou-o pelo braço, ele agradeceu calmamente com um aceno de cabeça.
Era engraçado de se ver, o trio furtivo tinha uma capacidade considerável, uma destreza ímpar, conseguiam se camuflar e andar no mais profundo silêncio, um feito completamente difícil de se conseguir.
Mas apanhavam para um bosque.
Os três respiravam fundo e seguiam, como se o maior desafio dessa jornada fosse conseguir apenas se locomover em meio ao emaranhado.
O sol estava mais baixo, as sombras começavam a alongar entre as árvores. Insetos zuniam em nuvens perto de algumas poças escondidas, não parecia ter mais nenhum caminho visível, ainda assim, eles viam Chiara apontar para uma pedra à esquerda.
— Por ali… O riacho fica depois daquele trecho de samambaias.
O grupo inteiro avançou, perceberam como o chão tornou-se mais úmido, as plantas pareciam crescer mais altas e fechadas naquele ponto.
A druida desviava de galhos que balançavam no caminho e de raízes que formavam algumas armadilhas. Dessa vez, os membros de Maut Ka Mandir conseguiram evitar alguns tropeços, embora ainda estivessem se apoiando uns aos outros.
Uma última ladeira, escorregadia de lama, obrigou-os a subir fincando suas armas sob o solo. Lavish resmungou que odiaria cegar sua katar.
Quando o grupo finalmente avistou o riacho turvo, o céu entre as copas já estava com uma cor bem característica, lembrava ferrugem, indicava a noite tão próxima quanto nunca.
Aquela água escura do riacho fazia curvas entre as pedras cobertas de limo, serpenteando seus braços e extendendo para além da visão de todos ali.
Chiara parou imediatamente, seu rosto aos poucos perdia a sua serenidade.
— Eu não me sinto à vontade para continuar aqui… Esse lugar não é bom, não me traz uma sensação boa… Prefiro não ir além.
Lavish encarara o riacho, sua visão logo passou para a guardiã, ele se dirigiu a ele com uma voz que saiu bem calma.
— Podemos fazer o seguinte, nos estabelecemos aqui e acendemos uma fogueira… Apenas até o amanhecer, depois você volta para a sua clareira e nós três seguimos viagem. Dessa forma você volta em segurança, sem o escuro da noite, assim como nós avançaremos junto do sol.
A Mãe Verde respirou fundo, Seu olhar pairou novamente para os nascidos algozes e acenou lentamente com a sua cabeça.
— Parece justo para mim.
Não tardou demais para encontrarem um espaço que pudessem acampar com segurança, minutos distantes do riacho.
O chão era mais seco, existia um espaço válido para que pudessem se sentar e para que pudessem começar o fogo.
Lavish e Dalila juntaram diversas folhas e galhos secos, a Megitsune limpara o local de pedras e outros gravetos enquanto Chiara trazia consigo um punhado de ervas que ajudaram a acender definitivamente a chama que aquecia lentamente aqueles corpos no frio do bosque.
Quando o crepitar do fogo já estalava alto no meio da escuridão que, pouco a pouco, engolia o grupo demonstrando a força da noite em um bosque fechado, eles se uniram, ficaram próximos enquanto olhavam para a escuridão.
— Por que você foi escolhida a guardiã do bosque? — indagou Dalila. — Você é bastante jovem, esse bosque é imenso.
Chiara ficou quieta por um instante, o reflexo do fogo fazia uma cor linda dançar no seu manto esverdeado, ela respirou fundo e voltou sua atenção para a dama de pele caramelo.
— Fui escolhida porque eu era um meio-termo. —. Respondeu. — Os nobres Ivan Láparo e Milo Verde-folha não se entendiam… O velho patrulheiro queria que o bosque fosse vigiado de uma forma, o velho druida, de outra completamente diferente.
Por um momento, os algozes prestaram atenção, mais que o usual, os nobres.
A politicagem da nobreza não alcançava Maut Ka Mandir como um todo, mas todo algoz sabia que existiam inimigos poderosos, que poderiam causar uma onda de destruição sem sequer erguer uma espada, ou um dedo, a dança das cobras da nobreza.
— O conselho dos nobres estava à beira de uma guerra interna sobre quem comandaria essas terras… — completava Chiara. — Colocar uma jovem druida que não pertencia diretamente à influência de nenhum dos clãs mais altos foi a solução… Se não fosse isso, eles estariam em conflito até hoje.
— E você prontamente aceitou. — comentou Lavish.
— Aceitei… Alguém precisava cuidar do bosque. Preferi que fosse eu a tentar do que deixar tudo nas mãos da politicagem.
— O que você deseja fazer com o bosque? Para além de ser somente a guardiã dele? — Indagou Megitsune, inclinando a cabeça.
— Quero que seja um asilo… Um lugar onde quem precisa de ajuda possa vir. Um ambiente onde eu possa ajudar. Seja com comida, abrigo, proteção ou até mesmo conselhos…
A jovem druida ajeitou uma mecha do seu cabelo antes de prosseguir.
— Já recebo viajantes… já troco trabalho por teto, só quero que tudo isso cresça ainda mais. Que o Bosque das Folhas Densas seja reconhecido como um bom refúgio… Não um esconderijo para criminosos, mas sim, um refúgio para os que estão perdidos, para os que estão com fome e para aqueles que estão com medo.
— É um bom desejo. — Dissera Dalila.
— É o que me faz acordar.
Ninguém falara por um tempo após a última frase dita pela Chiara, o fogo crepitava, preenchendo o silêncio.
Na mata ao redor, sons noturnos começaram a surgir: grilos, sapos e o farfalhar misterioso de sabe-se lá o que estava entre as folhas.
Lavish colocara mais lenha, Megitsune encostou-se à mochila que estava apoiada em uma das árvores e fechou os olhos.
Dalila esticou as penas, enquanto isso, Chiara puxava o seu manto para mais perto do seu corpo.
Um a um, então.
Os quatro foram pegos pelo sono e a noite passou sem qualquer incidente.
O riacho turvo permanecia lá, à distância.
Tão escuro e silencioso como sempre foi.
Na manhã seguinte, o sol voltava a filtrar-se pelas copas, a druida fora a primeira a se erguer.
Serviu água e o que restava dos seus frutos, enquanto os três algozes estavam descendo o acampamento e guardando as coisas de volta em suas mochilas.
— É aqui que nos separamos, presumo. — Lavish cortou o silêncio.
— Ah, sim. — A Mãe Verde encarava o trio.
— Você está contente, Chiara? — Dalila soltou sem contexto algum, os outros a encararam, ela compreendeu que a pergunta fazia mais sentido em sua cabeça do que quando a expeliu, então coçou a garganta e disse mais uma vez.
— Está contente com essa nova vida? Agora que é a senhora do bosque, aquela que vai cuidar de um ambiente que foi tão disputado pelos mais poderosos do império?
— Eu temo um pouco, e acho isso saudável. — explicou a druida. — Tenho medo de falhar ou não conseguir dar o propósito para o bosque que eu desejo entregar, tenho medo de diversos perigos que rondam as matas e os guerreiros armadurados não fazem ideia do que possa ser.
— Medo é algo bom, há um velho provérbio eikiano que diz: “Quem caminha sem medo enxerga pouco; quem carrega o medo, enxerga o caminho inteiro.” — Megitsune ajeitava seus equipamentos enquanto dizia.
A druida encarou a eikiana, com um sorriso sincero.
— Isso é muito sábio, agradeço, Megitsune.
Os outros dois algozes acharam no mínimo curioso, a algoz de Eikõ não era a mais comunicativa da guilda, talvez a simplicidade e o carisma da druida jovem tenham conquistado a pequena Megitsune, eles se entreolharam e deram um sorriso genuíno.
“Existe um mundo inteiro fora de Maut Ka Mandir”
Lavish pensou, um dos pontos negativos dos guerreiros assassinos tende a ser sua necessidade de se isolar.
Com a quarentena do imperador, isso ficou ainda mais forte em seus âmagos.
— Bom… a partir daqui é com vocês.
Chiara dissera, enquanto erguia levemente o seu manto até o meio da canela para subir em um dos troncos que foram usados como assento na noite anterior. Ela encarava para o norte, como se estivesse verificando se o riacho turvo ainda constava no mesmo lugar.
— Compreendo o que conversamos ontem, mas não quer continuar conosco? Talvez seja perigoso voltar sozinha nessa mata fechada. — pediu Lavish.
Chiara sorriu.
— Eu estou muito acostumada a andar nesse trecho que vim com vocês… Como eu conseguiria ir além, mas há uma energia que eu não consigo explicar além do riacho turvo… eu sinto, um peso, como se o ar que as plantas respirassem fosse mais… Escuro.
E o seu sorriso sumira.
— Eu entendo, foi minha última tentativa, eu prometo. — Sorriu Lavish, tentando puxar novamente o clima da conversa para um clima mais ameno. — Na verdade, me entristece. Se foi difícil vir com uma guia, quão difícil vai ser ter que voltarmos sem você?
Ele coçara a parte de trás da cabeça, o barulho ríspido e característico da sua mão passando no cabelo raspado soou no silêncio da manhã.
Megitsune andou até estar de frente para a jovem druida e fez uma reverência, uma mensura baixa, uma ação respeitosa vinda de Eikõ.
— Obrigada por ter nos guiado.
— Obrigada por ter nos guiado. — Dalila dissera logo depois, não fazendo uma reverência tão exagerada quanto a sua colega de guilda, mas acenou com a cabeça.
A Mãe Verde concordou com a cabeça, terminando de pegar tudo que ainda estava consigo, depois observou os seus três mais novos colegas.
— Obrigada, vocês, pela noite segura. — Agradeceu Chiara, se aproximando do trio. — Cuidem-se nesse ritual, com a torre aparecendo ou não… Voltem vivos.
— Obrigado por ter nos guiado. — disse Lavish. — E pelo abrigo no tronco, Maut Ka Mandir é grata.
Dalila e Megitsune acenaram, e Chiara sorriu.
Ela puxou o capuz do manto e voltou-se para a trilha que levava de volta à sua clareira.
Em poucos passos, o emaranhado verde já havia a engolido, o som dos seus passos entre as árvores sumia gradativamente.
Os algozes estavam sozinhos.
- Nesse trecho, Megitsune diz algo como “Estou muito cansada.”[↩]

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