Índice de Capítulo

    Halikah desceu as escadas ainda ajustando o laço da túnica azul-claro que usava fora do horário militar.

    Na cozinha, Chralazar já estava sentado à mesa, mastigando uma fatia de pão com geleia. O cabelo castanho-escuro seguia bagunçado, e a camisa de tecido simples destoava do uniforme que Halikah insistia em vestir até quando ninguém pedia.

    — Bom dia, dorminhoca.

    — Bom dia. — Ela puxou uma caneca e encheu de leite. — Primeiro dia de férias. E eu vou pro mar.

    Chralazar ergueu uma sobrancelha.

    — O mar no inverno.

    — Antes que a água congele de vez. — Halikah bateu a caneca na mesa, empolgada. — Eu e as meninas.

    Ele pegou outra fatia de pão e puxou a caneca de leite pra perto. O aro de metal que abraçava o fundo tinha uma runa simples de aquecimento, o tipo que qualquer um imbuía com um fio de essência.

    Chralazar encostou o polegar no traço gravado e tentou imbuir.

    O traço da runa não acendeu.

    Uma película opaca tomou o sulco gravado, endurecendo em cima do símbolo. O leite ficou do mesmo jeito, frio. Chralazar puxou a mão de volta na hora e girou a caneca, fingindo que só tinha ajeitado a posição.

    Halikah viu, mas fingiu que não.

    — E depois do inverno eu vou pra Fortaleza Ga-el. — As palavras saíram rápidas. — Academia. Centro do Império.

    Chralazar voltou a sentar, o olhar nela sem pesar.

    — E depois vai ser a nova general de Taeris, certo?

    Halikah inflou o peito.

    — Mais jovem que a Lou-reen. Vão me nomear com dezessete invernos. Eu já me vejo com o manto nos ombros.

    Chralazar soltou um ar pelo nariz.

    — Boa sorte.

    Ele apontou o queixo pra caneca dela.

    — Só não deixa o orgulho te cegar. Não é só força que faz um general. É cabeça fria.

    Halikah deu um gole, como se o leite fosse combustível.

    — Cabeça fria, lâmina quente.

    Chralazar balançou a cabeça, o canto da boca quase subindo, quase.

    O silêncio voltou por um instante. A cozinha ainda estava aquecida. Do lado de fora, o vento já vinha com frio, avisando que o inverno ia apertar.

    Batidas rápidas na porta quebraram o ar.

    Halikah levantou antes de pensar.

    Elssien estava ali, boina na mão, cabelo preso de qualquer jeito. Os olhos dela correram pela entrada, passaram pela cozinha, pararam em Halikah.

    — A Reinna tá aí?

    Halikah travou, surpresa.

    — Não. Por quê?

    Elssien engoliu seco e deu um passo de lado, abrindo espaço pra pessoa atrás.

    A mulher entrou e parou no vão da porta. Bota limpa, coluna reta, uniforme no lugar. O emblema do Exército no peito tinha arranhões fino.

    — Sargento Marlen Veyl. — A voz veio firme. — Reinna é minha filha.

    Halikah alinhou os ombros por reflexo.

    — Senhora.

    Marlen olhou a cozinha de cima a baixo num golpe de vista e voltou ao ponto.

    — Reinna não voltou pra casa ontem após as aulas.

    Elssien se apressou, a culpa querendo sair antes do ar.

    — Ela… ela achou que ela tinha ficado com a gente. Ontem. Eu passei lá agora pra gente vir juntas pra cá… e aí…

    Marlen não desviou o olhar.

    — E ela não estava.

    Halikah piscou uma vez, reorganizando tudo.

    — Ontem a gente a deixou na rua da casa dela. Eu e a Elssien. Ela foi embora sozinha.

    Elssien assentiu, rápido demais.

    — Foi isso. A gente a deixou ali e veio embora, não foi? Eu lembro da gente virando a esquina.

    — Vocês viram ela entrar?

    Halikah travou um instante.

    — Não.

    Elssien mexeu a cabeça, pequena.

    — A gente… a gente não esperou.

    Marlen sustentou as duas por um instante.

    — Já teve três desaparecimentos antes disso.

    Elssien ficou branca. Halikah sentiu o estômago apertar.

    — Três?

    Marlen assentiu.

    — Eu vou mandar avisar a General.

    A caneca escapou da mão do Chralazar e virou na mesa. O leite correu pela madeira e pingou no chão. Ele se abaixou no reflexo, puxou a caneca de volta, e a frase saiu antes dele segurar.

    — Não é cedo demais pra convocar a General? Talvez ela só tenha ido…

    Marlen virou o rosto. Os olhos dela passaram pela camisa simples dele, desceram até o peito liso, sem emblema, e voltaram pro rosto.

    — Com todo respeito, civil. — Ela não elevou a voz. — Isso é procedimento do Exército. Você não dá palpite no acionamento de uma General.

    Chralazar engoliu seco e ele baixou o olhar.

    — Sim, sargento.

    Marlen voltou pra Halikah e Elssien.

    — Vocês duas vêm comigo. Agora. Vocês vão me mostrar o ponto exato.

    Halikah assentiu. Elssien apertou a boina e endireitou os ombros.

    — Sim, senhora — as duas responderam ao mesmo tempo.

    ***

    FORTALEZA GA-EL

    A porta se abriu antes que ela encostasse.

    Um tenente segurou a folha de madeira com as duas mãos, corpo meio de lado pra não ocupar espaço. Ele baixou a cabeça, respeitoso, e manteve a passagem livre.

    Lou-reen entrou sem pressa. Passou por ele, o ombro roçando a distância mínima.

    — Obrigada.

    O tenente respondeu com uma continência rápida, firme, e ficou do lado de fora. A porta fechou atrás dela com um som único, pesado.

    A sala do Imperador era grande, fria e prática.

    Uma mesa de madeira hexagonal ocupava o centro da sala, larga, pesada. A superfície trazia Taeris entalhada em alto relevo; rios e serras saltavam sob a luz, e as rotas apareciam marcadas por cortes antigos e pontos de metal.

    Ivoney Olaraeth estava de pé atrás da mesa, sem camisa. O manto escuro pendia de um ombro, pesado, com filetes laranja e dourados que pegavam a luz quando ele se movia. O corpo ainda parecia feito pra guerra, mesmo com o cabelo e a barba brancos.

    Ele não perdeu tempo.

    — Chegou uma mensagem de Yhe-for. Quatro pessoas sumiram de uma vila próxima ao mar. Velunthar.

    Lou-reen foi até a mesa. A mão dela encostou no relevo do litoral, acompanhou a linha da costa, parou no ponto marcado.

    — É no meu setor.

    Ivoney manteve o olhar nela.

    — Por isso você tá aqui.

    Lou-reen não tirou a mão do mapa.

    — O que já sabemos?

    Ivoney foi até uma mesa menor encostada na parede. Pegou uma folha dobrada, voltou e abriu em cima do mapa.

    — Lior. Soldado experiente. Lutou nas muralhas de Pyrco. Desapareceu na noite das Olimpíadas, durante o turno de vigilância. A espada ficou cravada no chão.

    Lou-reen manteve o olhar no papel.

    Ivoney desceu uma linha.

    — Rhaed Vorn. Recém-saído da Academia.

    Outra linha.

    — Sargento Jorven Hale. Da cidade ao lado. Saiu procurando o Rhaed. Não voltou.

    Ele respirou uma vez, controlado, e leu a última parte sem mudar o tom.

    — Ontem: uma aluna do colégio não voltou pra casa depois do último dia.

    Ivoney dobrou a folha pela metade, devagar.

    — Tenente Kavren Iskell chegou hoje na vila. E não há nada que explique para onde essas pessoas foram.

    Lou-reen assentiu, como se encaixasse tudo em uma única palavra.

    — Eu vou resolver.

    Ivoney ergueu os olhos e segurou o olhar dela por um instante a mais do que o necessário.

    — Você tá bem?

    — Sim.

    O “sim” saiu rápido demais. Ivoney deixou o silêncio bater uma vez e falou sem tirar os olhos dela.

    — Olimpíadas.

    Lou-reen não desviou.

    — Eu lembro.

    Ivoney inclinou o queixo.

    — Primeira vez que você caiu na frente de todo mundo.

    A mão dela apertou o relevo do mapa. A madeira rangeu só no ponto dos dedos.

    — Eu me levantei.

    — Levantou.

    Ele manteve o tom no trilho, sem elogio e sem bronca.

    — E não parou desde então.

    Lou-reen soltou a mão do mapa e ficou reta, como se isso bastasse.

    Ivoney deu um passo lateral, ainda atrás da mesa.

    — Eu vi você treinando com o estrangeiro. Eu vi você treinando sozinha.

    Lou-reen não respondeu.

    — Você tá ansiosa pra mostrar que merece o posto.

    Ela travou o maxilar.

    — Eu não preciso mostrar nada.

    Ivoney manteve a voz baixa.

    — Pra mim, não. Pra você.

    Lou-reen engoliu seco. Os ombros não cederam.

    — Eu mereço.

    — Você quer uma vitória “limpa”. Uma que apague a queda.

    A frase acertou onde ela não tinha armadura.

    — Eu não perdi porque fui fraca.

    Ivoney assentiu, uma vez.

    — Eu sei.

    Lou-reen prendeu o maxilar.

    — Então qual é a lição?

    — Você não controla tudo.

    Lou-reen ficou rígida.

    — Eu controlo o que depende de mim.

    Ivoney encostou a ponta do dedo no mapa, em Yhe-for, e deixou ali.

    — Você controla pra onde a espada vai. Controla a força com que ela acerta.

    Ele ergueu os olhos.

    — Você não controla quem escolhe entrar na frente da lâmina.

    Lou-reen sustentou o olhar. A tensão não saiu do rosto dela.

    Ivoney continuou, no mesmo tom.

    — Derrota é comum na vida de quem luta. Se você vive tempo suficiente no Exército, você perde. Às vezes perde feio. Às vezes perde sem entender por quê.

    Lou-reen abriu a boca, a resposta já na ponta. Ivoney cortou antes que saísse.

    — Eu já perdi.

    Ivoney ajustou o manto no ombro, um puxão seco no tecido.

    — Voltei pra casa achando que não era forte o bastante pra estar aqui.

    Lou-reen não piscou.

    — Minha cabeça tá na missão.

    Ivoney apontou o mapa.

    — Ótimo. Então resolve pelo que tá acontecendo lá. Não pelo que aconteceu com você.

    Lou-reen respirou pelo nariz, controlado.

    — Eu vou resolver.

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